2º PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: MÜLLER BARONE — CATEGORIA CONTO
- Casa Brasileira de Livros
- 11 de jul.
- 25 min de leitura

SOBRE O AUTOR
Curitibano, nasceu em 005/06/1960. Advogado formado pela Faculdade de Direito de Curitiba; pós-graduação lato-sensu em Didática do Ensino Superior – PUC/PR; fez curso de Cinema Digital no Centro Europeu; sócio gerente da empresa Vento Negro Produções; escritor, roteirista, autor de teatro; já ganhou prêmios literários, cinematográficos (curta-metragem) com trabalhos indicados em festivais de cinema em todos os continentes. Publicou dois livros: Desajustado Emocional – Crônicas do Palanque e Histórias do Velho – Contos. Continua trabalhando em todas as atividades. Como se vê, geminiano.
O CONTO SEMIFINALISTA
A Cidade Na Névoa
Era simplesmente uma viagem entre Lyon e Genebra. Duas horas de trem entre uma e outra. Tentava preencher uma brecha na minha agenda de trabalho.
Levava comigo um livro sobre números, nem sei por quê, pois a paisagem é fascinante, especialmente no frio. O livro ficou praticamente fechado, li dois ou três parágrafos sobre o número 21, ainda assim porque deixei cair e ele abriu naquela página, mal fixei algum conteúdo, porque tinha sono e minha vista começava a embaralhar.
O caminho é permeado de cidades pequenas, algumas lembram vilarejos, todas quase nos jogam dentro da Idade Média. Muitas ainda têm cemitérios ao lado ou nos fundos da igreja. São museus ao ar livre, peças históricas sujeitas ao tempo e resistindo a ele. Onde se consegue ver pessoas, todas parecem fazer parte da história e igualmente resistir ao tempo, como se congeladas em alguma fronteira entre a Era das Trevas e o Renascimento. As roupas é que lhes dão uma conotação contemporânea. Sentia-me fazendo um passeio pelo tempo.
Do outro lado do corredor, no banco que ficava de frente para mim, uma mulher com ar sofrido tentava dormir. De alguma forma sabia que ela tinha bem menos idade do que aparentava. Seu rosto tinha uma marca que lembrava uma queimadura, mas percebi que era algo de nascença. Os cabelos eram precocemente brancos deixando uma estranha sensação de que ela jamais dormira durante a vida. Ao seu lado, dormindo com a cabeça em seu colo, um menino de onze anos com Síndrome de Down. Quando embarcamos em Lyon, o garoto olhou para mim e sorriu, demonstrando uma felicidade que não consegui ver em nenhum rosto francês até então, principalmente àquela hora da manhã. Sorri de volta e ele manteve seu sorriso. Dentro do trem, pouco antes de dormir, olhou para mim e sorriu outra vez, daquele jeitão feliz de criança que encontra com o Papai Noel ou com o Coelho da Páscoa. A mulher, vendo que eu dava atenção ao menino, esboçou um leve sorriso, quase sofrido, quase burocrático, dando a impressão que sorrisos foram raridades em sua face e que talvez fossem um peso para ela. Desviei o olhar para que ficassem à vontade e a viagem prosseguiu.
Passei a contemplar a paisagem, mas a marca no rosto da mulher, logo que deixamos a gare da cidade de Culoz, fixou-se em minha mente lembrando-me de um pesadelo que tenho de forma recorrente desde os meus 28 anos, ou seja, há duas décadas. Pelo menos duas vezes por semana vejo, em sonhos, uma mulher com vestes antigas, envolta em chamas. Não consigo ver o rosto, as chamas não permitem. Ela queima e grita para mim: “Salve meu filho.” E acordo transpirando, ofegante e em pânico, e me assusto porque todas as vezes, assim que acordo, olho para o relógio e ele está marcando sempre o mesmo horário, até os minutos são os mesmos: 3 horas e 21 minutos.
Vinte anos consultando psiquiatras, psicólogos, parapsicólogos, terapeutas e até Mães de Santo. Nada, o pesadelo se repete impiedosamente.
Certa vez, numa exposição de artesanato, resolvi, por pura brincadeira, fazer meu mapa astral. A mulher me contou que tenho Plutão em Virgem em oposição a Quíron em Peixes, no eixo seis/doze. Eu disse a ela que minha avó, com noventa e sete anos, toca sanfona em baile funk. Mas ela ainda iria explicar aquele “grego”. Disse que aquele é um aspecto de toda uma geração de curadores que entendem não ter cumprido adequadamente suas missões no passado, que talvez daí viessem meus pesadelos. Perguntei-lhe quanto tempo durou esta passagem de Plutão em Virgem e ela respondeu que foram 14 anos, isto é, de 1958 a 1972. Sorri e saí imaginando a alegria dos psiquiatras se toda a minha geração tivesse pesadelos sob a influência de um planeta lá dos confins do sistema solar.
Por conta de madrugadas insones pós-pesadelos, resolvi estudar Cabala e Tarô, apenas para exercitar a mente com os infindáveis quebra-cabeças numéricos que surgem de ambos. Astrologia deixei de lado, graças àquela história de Plutão em Virgem. Sabia sobre Golens, sobre as letras que compõem o nome de Deus, os 32 caminhos da Árvore da Vida. Conheci quase todos os tarôs mais sérios que circulam por aí e sempre gostei muito da obra de G.O. Mebes. Estudei o Sepher, o Zohar, li as obras de Papus, Éliphas Lévi. O que sempre achei interessante é como tudo aquilo sempre me pareceu extremamente familiar, apesar de jamais ter lido algo antes.
Naquele dia, no trem, depois que a mãe e o menino adormeceram, olhei para ambos mais uma vez. Desviei, depois, meus olhos para o livro, aberto no número 21, e, de repente, lembrei do menino e de sua doença, Síndrome de Down, cujo nome é Trissomia do 21. Em palavras mais claras, um excesso de material genético proveniente do cromossomo 21. Seus portadores apresentam três cromossomos 21, ao invés de dois. O número sobre o qual tinha acabado de ler algo. Pensei: “21, o caminho entre a Fundação (yesod) e o Reino (malkut). O Louco na interpretação dos Arcanos adotada por Mebes. Tudo a ver com a doença; o Louco olha para cima, como se buscasse entender a Lua (regente de Yesod) olhando-a da Terra (Malkut).
Após ter rido da minha brincadeira e sentindo algum remorso por ter usado o mal do menino na minha trama, larguei o livro e fechei os olhos para descansar um pouco. Enquanto o barulho das rodas do trem e seu balanço pareciam orquestrar uma sonoterapia, lembrei que nada daquilo que estudei, místico ou não, serviu para me curar do pesadelo ou para tirar do meu peito uma dor que nunca passava, um vazio estranho que eu julgava como um existencialismo esquizofrênico, um remorso por existir.
Não demorou para que entrasse num sono pesado e, voilá, ele, meu pesadelo de estimação atacou-me dentro do trem, cruzou o Atlântico para encontrar comigo na França. No momento em que abri os olhos, o trem começava a entrar numa região de neblina e os freios pareciam estar sendo acionados. Olhei para o relógio que marcava 7:21. Gelei, porque estava quatro horas à frente do horário do Brasil. Passei a mão sobre o rosto e tentei deixar de lado a paranoia do horário e do pesadelo. O trem parou completamente e a porta do vagão se abriu. Lá fora, uma névoa densa tomava conta de quase tudo. Percebi, então, pelo tempo de viagem, que estávamos em alguma cidade entre Culoz e Bellegarde. Algo devia estar errado porque não estava programada nenhuma parada entre as duas Villes. Percebi que não foi feito qualquer anúncio sobre a parada ou o motivo da mesma. Olhei curioso e assustado na direção do alto-falante, mas nem um simples chiado ele emitia. Voltando meus olhos para o vagão, meu coração disparou. Todos ali, inclusive a mulher e o menino, estavam parados, sem sequer movimentos respiratórios. Era como se tivessem sido paralisados, petrificados. O luminoso do vagão que indica as paradas e as horas, marcava apenas estas, ou seja, 7:21. Meu relógio também estava parado no horário em que acordei e meu celular completamente desligado. Achei que continuava sonhando, repeti inúmeras vezes que era um sonho e precisava acordar, mas tudo continuava igual e tudo demonstrava ser bem real.
Suando frio e confessamente com medo, levantei e fui em direção à porta, pretendendo, claro, encontrar alguém que pudesse explicar o que estava acontecendo. Quando fui chegando perto da saída, a névoa começou a entrar no vagão até tomar o corredor no espaço entre portas. Hesitei, já completamente em pânico, porque se aquilo estava acontecendo era totalmente fora de qualquer padrão de racionalidade. Continuei até que saí do trem. Andei e senti que meus pés tocaram um chão de terra. Olhei para baixo e constatei a lama. Apavorado, olhei para trás e nada mais havia lá, nem estação, nem trem, nem concreto, nada, apenas mata.
Subitamente, ouvi o barulho de um cavalo. A névoa começava a ficar menos densa e pude ver o animal chegando. O cavaleiro parecia estar desmaiado sobre a montaria. Chegando perto, vi que estava morto. Tinha um corte na garganta. Muito mais que a morte, assustei-me com suas roupas. Eram de séculos atrás. Pelo que conhecia de história, eram do século XIV. Constatei, afinal, a data, por uma correspondência que trazia em sua bagagem: 1320. Logo adiante, comecei a ouvir vozes de homens falando um francês absolutamente arcaico. Eu tinha voltado no tempo.
Os homens com seu francês antigo pareciam caminhar na minha direção. Achei que não seria uma boa ideia ficar por ali, ainda mais com um homem morto sobre o cavalo, do qual eu nada sabia, pois a única coisa que tinha me chamado a atenção era o ano. Caminhei na direção oposta às vozes, até que encontrei um lugar para sentar e pensar um pouco no que acontecia.
Embaixo de uma árvore enorme, ficava olhando para aquele cenário, aquela névoa toda, o homem morto cujo rosto nem tinha visto, o cavalo, a situação toda.
Não me saía da cabeça a ideia de estar tendo um pesadelo, queria estar no trem, a meio caminho de Genebra, mas não estava. Nada fazia sentido. Nem mesmo o que aconteceu em seguida. Fechei os olhos para tentar acordar e vi a mulher dos meus pesadelos sem as chamas a sua volta, e não me pedia para salvar seu filho, pedia que a ajudasse e parecia ter pressa. Não conseguia, ainda, ver seu rosto. Abri os olhos e fui fazendo o que me vinha à mente. Notei que minhas roupas não eram compatíveis com a época. Tirei-as e, instintivamente, enterrei-as junto à arvore, dentro do alforje do cavaleiro morto.
- Excusez-moi, mon ami! – brinquei – preciso de suas roupas, e você não precisará mais delas.
Puxei-o do cavalo e ele já caiu deitado na relva. Tirei suas botas e suas calças e fiquei impressionado pois tudo servia adequadamente. Quando fui tirar seu colete e sua camisa, notei algo em seu rosto sujo de sangue e terra que me chamou a atenção. Fiquei apreensivo, julguei que não deveria remover a sujeira, algo me dizia que iria me assustar. Foi o que aconteceu. Assim que pude ver melhor sua fisionomia, dei um salto para trás. Era eu quem estava ali. Umas poucas marcas a mais no rosto, mas sem dúvida era eu. Nem sei quanto tempo fiquei olhando aquilo. Nem pesadelos haviam me trazido algo tão insólito. Não bastasse isso, comecei a ouvir vozes em francês: Dépêchez-vous, dépêchez-vous! E como eu entendia aquilo se meu francês é algo próximo do sofrível? Como soube que o francês dos homens que ouvi era arcaico? Como entendi o que diziam? Sem resposta, fui até mim morto e tirei o restante das roupas. Vestia-as e achei conveniente enterrar-me. Cavei com as mãos e enterrei-me. Acreditem, mesmo sendo outro corpo, é estranho ter a sensação de enterrar a si mesmo. Pensei em orar por minha alma e imediatamente me senti um idiota. A voz que pedia que me apressasse voltou. Olhei para o cavalo, montei e segui em direção ao centro da pequena cidade.
Cavalgar eu sabia bem, o que eu estranhava é que sabia para onde ir. À medida em que chegava perto da cidade, minha cabeça trazia imagens e palavras, como se fossem lembranças e, de repente, eu conhecia toda a língua francesa, conhecia o lugar e o nome de uma mulher explodiu em minha cabeça: Dominique!
Gritei com o cavalo para que corresse mais. Sabia onde ela estava, como era sua casa eu a conhecia e não lembrava de seu rosto. Cruzei toda a cidade feito um insano. Lama, carroções, cavalos, cheiro de esterco, chaminés, pessoas sem banho.
De repente, paro, tinha chegado ao meu destino. A casa de Dominique ficava fora da cidade, dois ou três quilômetros, não mais. Era relativamente grande. Não imaginei como era seu interior, mas calculei que tivesse umas quatro peças. Minha cabeça fazia tais avaliações, oscilava entre um raciocínio de época e um contemporâneo. Eu tinha duas épocas se passando em meu cérebro, eram dois homens em um corpo só, um homem em dois tempos. Comecei a sentir tontura e enjoo. A névoa se dissipou, mas o sol também já se punha. Saí do trem às sete horas e vinte e um minutos da manhã. Para mim, não havia se passado mais que uma hora de lá até o momento em que pulei do cavalo, no entanto, a cidade parecia estar dez horas à frente. E era o sul da França. Voltei para um tempo e uma hora completamente diferentes.
Bati à porta. Quando ela abriu, um turbilhão de imagens e vozes começaram a passar pela minha cabeça. Lembrava a mulher do trem. Nunca imaginei que em frações de segundo pudesse ver tanta coisa. Fui ficando mais zonzo do que estava, minha mente apontava a dificuldade de assimilar tantas informações em tão curto espaço de tempo. Duas vidas em uma só, o cérebro, o espírito, a alma ou o que quer que fosse tentava preencher espaços vazios, fazer ligações, repassar informações perdidas entre sete séculos. O rosto de Dominique era a imagem que restava para disparar todas as lembranças daquela época. Claro que apaguei.
Tudo escuro. Senti algo estranho, tinha a sensação de estar flutuando no nada, no breu. Tudo era escuridão, mas eu parecia voar, planar. Subitamente, de onde imaginava ser meu entrecenho, começaram a surgir imagens como num filme. Vi Dominique, eu e um menino com Síndrome de Down. A explicação para tudo era ele. De alguma forma errei com ambos e sabia que tudo deveria ser corrigido. A Lâmina do Arcano 21, na posição adotada pela corrente de Mebes, a letra Shin, o caminho na Árvore da Vida e, finalmente, o desenho, seus elementos. Naquele instante, só pude concluir uma única coisa: a interpretação dela estava errada. O Louco olhando para o céu, sem se importar com seus trajes ou com aquilo que tinha à sua frente era tranquilamente um Capelino sentindo a dor do banimento e a saudade incontrolável do planeta do qual fora expulso por conta de seus atos contra a lei universal. O simbolismo da letra Shin: “a desilusão para com seu Shin é sempre uma experiência trágica, ela cria um vazio interior.” O uso errado da inteligência, a má formação cromossômica, a afetação cerebral, a demência, a loucura, o isolamento. O réptil esperando o Louco no abismo. É claro que a carta refletia o estado dos capelinos, a chamada queda dos anjos. Mas era um Louco do trigésimo primeiro caminho, um Louco gravado com a letra Shin, não era um Louco Aleph, de décimo primeiro caminho. Vinte caminhos entre um e outro, vinte estágios. A decomposição do número vinte um pelo aspecto passivo, negativo: a personalidade (I) tolhida pelo XX, o Arcano do renascimento, do refazer, do novo. As letras do nome de Deus em hebraico (Iod – He – Vau), seus valores, a soma igual a 21. Indicativo de criação e mudança. De repente, só a escuridão mais uma vez e, num estrondo, uma voz recitava em minha cabeça uma passagem do Livro da Sabedoria: “...para os punir dos loucos pensamentos de sua perversidade, que os faziam extraviar-se na adoração de répteis irracionais e de vis animais...,”.
Quando abri meus olhos, estava com metade do corpo dentro da casa e metade fora. Dominique me olhava de forma estranha e perguntava se estava bem:
- Henri, estás bem?
- Sim. Respondi. Quanto tempo fiquei desmaiado? – Aceitei o nome pelo qual ela me chamou, sem ao menos me dar conta de que não era o meu nome, não em minha época.
- Que desmaio? Caíste e não ficaste de olhos fechado mais que dois ou três segundos.
Dois ou três segundos. Como pude ver tudo aquilo em tão pouco tempo? Começava a ficar evidente que a névoa me encaminhara ao passado através de uma dimensão de tempo, mas minhas duas memórias de vidas estavam causando distorções no correr das horas e datas. Até ali, eu já tinha passado por duas diferentes: numa delas uma hora para mim representou quase dez horas naquele lugar; outra, três segundos desacordado pareceram quase duas horas na minha percepção. Era preciso ficar atento às distorções.
- Vais ficar no chão por muito tempo?
- Não. Respondi sem saber exatamente o que fazer. Já estou bem. Ajuda aqui.
Olhando-me de um jeito curioso, como se estivesse diante de algo muito estranho, ela me pergunta:
- Que linguajar mais estranho. Creio que ficaste demais entre aqueles broncos que mal entendem o francês e acreditam ser parte da França. Bárbaros, Henri, melhor que não fales como eles. Nesses meses que ficaste fora, as coisas ficaram diferentes por aqui. Tem havido uma histeria enorme por estas terras. O bispo, a todo momento, cita o Concílio de Vienne para acender fogueiras no meio da cidade. Jacques de Molay há muito não vive e a qualquer um que o bispo e os barões da região pretendam se livrar são acusados de serem Templários ou seguidores de Pedro Olivi. Pessoas que jamais ouviram falar de um ou de outro são acusadas das mesmas “heresias”. Quando as acusações não são essas, são simplesmente chamadas de Cátaros. Acreditas? Como se algum tivesse sobrevivido. Mas, deixemos isso. Vais ajudar-me?
A pergunta era a dica que faltava para reavivar todas as memórias. Dominique tinha um filho com Síndrome de Down. Imagens foram se projetando em minha cabeça, era como se eu visse um filme em velocidade 32. O que houve era simples, ela buscou todos os meios para salvar o filho, considerado louco e possuído, na época. Mas não pretendia mudá-lo, apenas livrar seu espírito da marca e mantê-lo vivo para amá-lo. “Se conseguirmos, na próxima vida ele nascerá sem marcas, sem débitos, e eu também, e talvez tu, Henri. Mas algo o prende e todos os ensinamentos que busquei parecem incompletos.” Thierry...O nome que ela escolhera era exatamente o que pensava do filho, “dádiva de Deus”. “Tu sabes que ele é um capelino e já se redimiu. Nem podemos falar isso alto. Precisamos desfazer a marca no espírito.” Era um capelino, o único de um grupo dos mais violentos que resolveu deixar a sombra. Na vida que estávamos, buscava o amor que sonegou e tentava ensinar a Dominique e a mim um jeito de amar que não conhecíamos e forçar-nos a buscar um entendimento de outras coisas que, na época, nos levariam à fogueira sem qualquer julgamento. Era sair de casa direto para a praça e as chamas. Thierry, com seus onze anos, apenas sorria, como sempre sorriu. Tudo foi pesquisado: cabala, magia, numerologia, o que era possível, runas, poções, rituais, tudo. Tudo foi tentado. Olhávamos para livros, figuras, desenhos, rezas, tentando ajustar o quebra-cabeças. Faltava uma peça. Na busca por ela tudo deu errado. Então, descobri a razão dos meus pesadelos. Um dia depois daquele em que voltei, no passado, Dominique foi presa e levada à fogueira. Sem julgamento, da porta para a praça. Suas últimas palavras foram aquelas que ouvi naqueles sonhos terríveis: Salve meu filho. Mas não o fiz. Sabia que não poderia sozinho, faltava uma peça. E minha educação cristã, sem o apoio de Dominique, me fez recuar. Dois dias depois, voltando para casa, vi o bispo e seus auxiliares incendiando a casa e levando com eles, morto por uma espada, Thierry, considerado filho da relação entre a bruxa e o mal. Minha covardia não me permitiu fugir rápido dali com meu amiguinho e buscar, um dia, a peça que nos faltava. Nunca tive paz, a prova eram meus pesadelos em 2009. Anos mais tarde acabei sendo pego e degolado, e isso era uma distorção de tempo. Como, se somente anos depois morri, apareci morto naquele dia? Para mim ficou óbvio que tive a chance de voltar para consertar meu erro, não por mim, exatamente, mas por Dominique e por Thierry, cujas almas deveriam estar aflitas.
Voltando do transe que me trouxe as memórias, respondi a Dominique:
- Sim, vou ajudá-la. Por onde começamos?
Ela foi me mostrando tudo o que tinha. Era muito para toda aquela escuridão do século XIV, a baixa idade média. Impressionante o que fora juntado e já tentado. Ela mostrava suas últimas conclusões, baseadas em descobertas que fizera enquanto estive fora. A dedicação ao filho ia além da maternidade, era quase angelical. De repente, olho para Thierry e noto que ele brincava com algo que lembrava uma carta de baralho um pouco grande. Assim que ele percebeu que eu o olhava, virou-se para mim, sorriu e mostrou o que tinha nas mãos. Eu levei um susto:
- Que desenho é esse que ele segura?
- Ora, ganhei de uma moura. Disse ela que era parte de um jogo que contém uma sabedoria ancestral, que seus antepassados conheceram ao passarem pelas terras dos faraós. Mas só me deu esta carta, embora dissesse que havia outras. Por quê?
Fiquei imaginando como explicar a ela. Thierry brincava com a carta do Louco do Tarô dos Boêmios, exatamente como chegara a GO Mebes. Aquela era a resposta. Disse-lhe:
- Dominique, quantas vezes tentaste inverter o nome de Deus?
- Centenas, não funciona. Não consegui acessar a Árvore da Vida do espírito dele.
- Eu também tentei outras fórmulas e junções de letras, mas não dá certo e sabes por quê? Porque estamos fazendo tudo errado. Preste atenção na carta que Thierry segura. Alguém olhando para cima, distraído, o peso do passado é a trouxa que ele carrega nas costas, a vara que tem na mão esquerda, a régua que deveria conduzi-lo, o cachorro o morde para que ele fique atento ao que deve fazer aqui e não apenas pensar na volta...
- É um capelino!!!!!!
- Exatamente. Veja lá no abismo, um réptil. Eles surgiram a partir dos répteis, nós dos mamíferos, lembras? Darwin, Teoria da Evolução...
- Ei, esse Darwin por acaso é um algum mago ou barão?
Na minha empolgação esqueci que faltavam quase quinhentos anos ainda para o nascimento de Darwin. Claro que ela não saberia.
- Esquece. O réptil no abismo, é o símbolo do aprisionamento dos capelinos na escuridão. A carta é o desenho da queda dos anjos, dos capelinos, eles vieram para cá em “navios” de formato igual ao das construções egípcias.
- Henri, andaste bebendo?
- Não. Lembre que a moura te disse que o jogo viera do Egito. Olha, a Árvore da Vida tem 32 caminhos. São dez esferas e vinte e dois caminhos entre elas.
- Isso eu sei, e cada caminho corresponde a uma letra do Aleph Beit.
- Certo. Mas há algo que você ainda não sabe. Esse jogo sobre a qual a moura falou tem 78 cartas. Vinte e duas delas são relacionadas aos caminhos entre as esferas e esta aqui é uma delas. Mas nesse jogo ela é a marcada com o número 21. Em todos os outros que existem – não pergunte onde – ela é o número 22 ou “0”. Portanto, não se vincula, nesses outros à letra Shin, mas à letra Aleph.
- Passaria para o primeiro caminho a partir da esfera 1, a Coroa.
- Exatamente. Olha, apenas preste atenção. Não tente entender algumas coisas. O que ele tem se chama trissomia do 21...
- Tri o quê?
- Não perguntes. Trissomia do 21. O mesmo número da carta. O alheamento do homem na carta é o mesmo de Thierry. Existem estruturas em nós que definem nossas características. Elas se parecem com a letra X, isso mesmo, a letra que você sempre vê quando sonha com o problema. O mal de Thierry vem de uma forma errada de uma dessas estruturas que leva o número 21.
- O número do Shin – a busca, do caminho na Árvore, da carta...
- E do nome de Deus.
- Do nome de Deus? Não pode, o nome de Deus soma 26...
- Não, o nome de Deus é composto de três letras: Iod-He-Vau. Isso dá 21.
- É claro! O segundo He é o começo de um outro ciclo!
- Exatamente. Mas existe outro fator. Nós sempre montamos os números na ordem errada, porque escrevemos os valores das letras como 10+5+6. Mas quando se escreve algo em hebraico...
- Escrevemos da direita para a esquerda!!!
- O certo então é colocar a ordem como 6+5+10. Por isso a Árvore espiritual não aparece, fizemos todo o ritual corretamente, mas estávamos usando uma letra a mais, o total numérico não ficava de acordo com o número daquela estrutura que nós temos e onde ocorre o problema dele, ou seja, 21. Restava outro erro, escrever da esquerda para a direita. Na forma hebraica escrevemos ao contrário, parece que escrevemos da frente para trás que significa...
- Que o problema está no passado, o que foi feito e não foi corrigido...
- Sair da escuridão, ele saiu, mas errou e voltou assim, também por ele. Vamos montar tudo e ver o que podemos descobrir.
- Mas, Henri, ele nem está preparado.
- Não faz diferença, podemos fazer o ritual para vermos se a Árvore aparece. Nem seria possível alterá-la hoje, teremos que esperar amanhã, o vigésimo primeiro dia do primeiro mês.
- Estamos em março, Henri.
- Eu sei, março do calendário juliano. Não esqueça que vamos usar as letras hebraicas, portanto, o mês será o primeiro, o mês da Páscoa, Nisan.
- Apesar de achar tudo isso muito bom, tenho achado algo estranho em ti. Pareces que não és aquele que partiu daqui há um mês. Pareces outro.
- É só impressão. Vamos fazer o que é preciso.
E fizemos, todo o ritual com as alterações que havia dito. E funcionou. Ao final de todas as falas e as peças postas sobre o chão – letras, números, figuras geométricas dentre outras coisas – citamos o nome de Thierry e no ar, suspensa sobre o círculo que continha todas as peças e nós dois, a Árvore da Vida do espírito do menino, como uma holografia. Ficamos fascinados. Dominique estava quase hipnotizada de espanto e alegria. Ficou fascinada quando a figura geométrica símbolo da manifestação do amor surgiu iluminada, do surgimento da Árvora:
- A Merkabah, Henri. Ela existe.
No dia seguinte, com Thierry no círculo, surgiriam os números que dariam a fórmula para a alteração que, no futuro, em sua próxima vinda, o traria livre, capaz e com os méritos que já havia conquistado. Bastava apenas conjugarmos tudo com as forças do vigésimo primeiro dia do Nisan. Para termos certeza, chamamos Thierry para o círculo. Seus olhos estavam pregados na Árvore, ele parecia outro menino. Quando ele entrou, a fórmula numérica do seu espírito surgiu. Incrível. Mas notamos que havia uma falha. Faltava exatamente um número e havia, como se fosse uma equação, um x no lugar. Passamos mais de trinta minutos conferindo tudo para ver o que faltava e nada estava errado. Desfizemos tudo e ficamos no chão, olhando um para o outro, desconsolados.
- O que falta, Henri?
Balancei a cabeça negativamente, dando a entender que não fazia a menor ideia, tudo parecia ter se encaixado, até a Árvore surgiu. Inconformado olhei para tudo aquilo e para Thierry. Ele estava sentado, de olhos fechados, parecia estar em transe e o dedo indicador da mão direita apertava fortemente a carta do Louco dada pela moura. Fui conferir. Seu dedo estava sobre o réptil que espera no abismo.
- Não pode ser.
- O que Henri?
- Veja o que ele está apontando.
- O réptil no abismo. O Alambaque que o aprisionava. O número que falta está com ele.
- É...
- Então, não temos meios. Como vamos buscar no mundo espiritual?
Ela ficou muda. De repente, lembrei-me de como eu havia chegado ali.
- Espera, não é espiritual, é dimensional. Temos que ir atrás.
- Agora, sei que enlouqueceste, Henri.
- Olha. Não sei se irá acontecer, mas precisamos tentar. Dê-me a sua mão e pense no abismo, exatamente como na carta. Eu farei a mesma coisa. Pense com firmeza, pense em ir para lá, só nisso, por Thierry.
Aconteceu. Conseguimos nos deslocar da casa para um mundo horripilante, cheio de gritos, cheirando mal, úmido, repleto de negatividade. Andamos por caminhos estranhos, ladeados de grutas, estreitos. A todo momento, seres das mais diferentes formas surgiam nas entradas para nos olhar e tentar algo, humanos, répteis, havia de tudo, nenhum que mereça descrição ou elogio de beleza. De uma delas surge um ser enorme, uma mistura de homem e réptil, fala:
- Sou eu quem vocês procuram.
Daria um romance escrever sobre tudo o que passamos naquele lugar, até conseguirmos o que fomos buscar, um símbolo que, desenhado no interior da Árvore, sobre a sequência numérica do espírito de Thierry, completaria o total necessário para a operação de mudança do arcano do Louco do caminho 31 para o 11, vinculando-o ao Aleph e cumprindo a sina do Shin, completando sua busca e deixando-o livre de tudo, inclusive de seu passado. A resistência do ser que retinha o símbolo tinha um motivo: ele e um grupo ainda encarnado queriam castigar o espírito de Thierry por ter abandonado o bando. Mas não era só a ele. Eu e Dominique também éramos seres caídos que, um pouco antes de Thierry, caminhamos no sentido da evolução. Todos os conhecimentos que tínhamos foram usados indevidamente e, agora, havíamos de usá-los de uma maneira adequada, salvando um de nossos amigos, que havia sido tão trevoso e sádico quanto nós dois. Começamos a deixar as sombras pouco tempo antes de Cristo e levamos mais de dois mil anos para completar um ciclo, o que me ajudou a voltar no tempo. Se tiver coragem, talvez um dia conte o que fizemos de perverso e o que passamos naquele inferno, como uma purgação para nós dois.
De volta à casa, Dominique estava assustada:
- Que foi isso, um pesadelo?
- Não, tanto que você está com o símbolo que nos dará o número que falta. Ficamos, aparentemente, três dias por lá, mas aqui passaram-se minutos.
- Isso sim é bruxaria.
- Não, é ciência, um dia você saberá. Amanhã cumpriremos nosso destino. Agora vou até a cidade comprar um vinho. Levarei Thierry comigo.
Demorei para sair e fui devagar. Quase na cidade, vi uma comitiva passando por mim, era o bispo, seus auxiliares e quatro soldados. Tive um flash e, por milésimos de segundos, pareceu-me que todos eram iguais ao réptil que havíamos encontrado no “abismo”. Continuei cavalgando. Na cidade uma multidão estava ao redor de três pilhas de lenha. Sobre duas delas, havia pessoas amarradas, um homem e uma mulher, prontos para serem queimados por heresia. Perguntei a um homem o que estavam esperando para queimá-los, ele respondeu que o bispo havia ido buscar mais uma mulher, uma bruxa que seria queimada sem julgamento, porque em sua casa foram vistos instrumentos de adoração ao demônio. Virei as costas para a praça e fui em direção à taberna. Thierry deteve-se ali, parecia nervoso, insistia em olhar para as fogueiras preparadas. Aos poucos, tentei acalmá-lo. No caminho até a taberna, fui mostrando a ele tudo o que podia, ele pouco vinha à cidade, por cuidado de Dominique. Quando via algo novo, ele se controlava, mas por pouco tempo, logo voltava os olhos em direção a praça e ficava perturbado. Pouco antes de chegarmos à taberna, disse a ele:
- Vamos até lá, Thierry.
Ele estancou, parecia não querer, ficou agitado e virou-se para a praça. Dee repente, dei-me conta, assustado:
- Meu Deus, Dominique, meu sonho, o séquito do bispo, os répteis.
Montei com Thierry e quase fiz o cavalo voar. Cheguei em casa tarde demais. O bispo já havia prendido Dominique. Tudo lá dentro estava revirado. Todas as nossas notas destruídas, todos os nossos objetos quebrados e alguns atirados ao fogo da lareira.
Deixei Thierry em seu quarto, dormindo e corri de volta para a cidade. Quando cheguei à praça, as três fogueiras estavam acesas. Dominique me viu e gritou, entre as chamas:
- Salve meu filho.
Meu pesadelo era o passado me assombrando, era minha história. Eu falhava uma segunda vez.
Apavorado, pensei em fugir dali, principalmente depois que um dos auxiliares do bispo me viu e falou algo para ele, ainda olhando para mim.
Então, lembrei das visões que tive na casa de Dominique, do pesadelo constante, de Thierry morto, depois de dois dias. Além de tudo meu medo o deixou só, por dois dias, um menino com Síndrome de Down. Covardia era um eufemismo para meus atos. Se tudo estava prestes a se repetir, por que eu passava por tudo aquilo outra vez? De repente, dando as costas para as fogueiras, com Dominique já morta, montei e corri para casa buscar Thierry. Eu ainda teria dois dias até a volta do bispo. Chegando lá, abracei o menino e comecei a chorar. Ele me olhava sem entender nada. Quando fui arrumar suas coisas para fugirmos, senti uma tontura violenta e ouvi gargalhadas dentro da casa, comecei a sentir dores no peito e falta de ar, as gargalhadas continuavam e vi, como numa tela, eu morto sobre o cavalo com a garganta cortada, exatamente como me “encontrei” logo que deixei o trem.
- Então, é isso, não posso fugir. Mas o que deve ser feito?
- Aquilo que ainda não se fez. Ecoou uma voz atrás de mim.
Voltei-me e às costas de Thierry havia um clarão e de lá vinha a voz.
- Lembre das distorções de tempo. Corrija o passado, poucos têm chance assim.
Era isso, as distorções de tempo. Tempo é dimensão, não um simples fluir. Funcionou comigo e com Dominique para irmos buscar o número que faltava, funcionou comigo, ainda que sem controle outras vezes. Tinha que funcionar agora, eu só precisava de um recuo de poucas horas.
Peguei uma blusa de Dominique e pus nas mãos de Thierry. Ele estava nervoso e confuso, não poderia pedir que pensasse nela, então pedi que encostasse a blusa no rosto e fechasse os olhos, isso certamente o faria lembrar da mãe. Quando ele fechou os olhos e fiz o mesmo, pensei nela e, de repente, ele grita “maman” e percebo que nós dois fomos tirados de onde estávamos e voltamos exatamente para o instante em que Dominique e eu retornamos do abismo. Nosso diálogo se reproduziu mais uma vez:
- Que foi isso, um pesadelo?
- Não, tanto que você está com o símbolo que nos dará o número que falta. Ficamos, aparentemente, três dias por lá, mas aqui passaram-se minutos.
- Isso sim é bruxaria.
- Não, é ciência, um dia você saberá.
Parei ali, não fui à cidade comprar o vinho. Disse a ela que precisávamos ir para o dia de amanhã, o dia em que poderíamos fazer a mudança nos códigos de Thierry. Que não poderíamos esperar. Ela concordou, sem entender, limitou-se a fazer o que fui pedindo. Mandei que arrumasse o que fosse preciso para partirmos imediatamente assim que voltássemos, que teríamos apenas uma hora para sairmos dali, se não tudo daria errado.
Fizemos exatamente quando da ida ao abismo: pensamos no dia de amanhã, em Thierry e nos rituais. Deu certo, em segundos estávamos no dia seguinte e nada havia lá, ainda, a não ser nós dois.
Começamos os ritos, no vigésimo primeiro dia do Nisan, com Thierry no círculo, a Árvore surgiu e a fórmula numérica de sua alma apareceu junto, completamos os dados e mudamos, finalmente, o número de lugar, mudamos o caminho de seu espírito, modificamos a estrutura da Árvore. O Shin se desvinculou do Arcano do Louco e o aventureiro soltou-se do número 21 e passou ao 22, que se fez Zero e se vinculou ao Aleph e passou para o caminho que principia todos os movimentos, passou para o 11º ramo da Árvore, o onze que liga os três planos, salta no abismo do conhecimento e da busca e caminha como um investigador puro entre Kether e Chockmah. Thierry estava salvo, pronto para, quando nascesse outra vez, ser, enfim, livre, de seu passado já purgado.
Voltamos para o dia em que partimos, mas algo aconteceu e chegamos mais tarde que o previsto. Assim que abrimos a porta para sairmos, pudemos ver o bispo e seus homens vindo pela estrada. Corremos para os fundos e mandei Dominique e Thierry correrem em outra direção, enquanto eu tentaria atrair a atenção dos homens. Quando os dois sumiram pela mata que ficava atrás da casa, peguei meu cavalo e fui para estrada, correndo na direção contrária à dos homens. Eles correram até a casa e foi a última coisa que vi.
Por um caminho totalmente estranho, acabei retornando ao local em que havia enterrado minhas roupas e a mim mesmo antes. Desmontei e comecei a pensar no que fazer. Queria saber como estavam Thierry e Dominique. Tinha certeza que pedi que me encontrassem ali, mas eles não estavam lá. De repente, sinto outra vez uma tontura e largo as rédeas do cavalo que corre de perto de mim e some na estrada. Corro em direção ao local em que minhas roupas de 2009 deveriam estar. Encontrei-as, mas não estavam enterradas e nem mesmo estavam na sacola em que as pus. O lugar onde me enterrei também não tinha qualquer marca. Uma voz soa ali perto.
- Dominique, por aqui.
Ela responde:
- Henri.
- Sou eu, venha. Deu tudo certo, vamos embora.
E vi os três partindo. Achei tudo estranho, mas descobri que mudei até minha morte naquele passado. Fiquei um tempo quase perdido tentando imaginar como aquele eu viveria com Dominique, sem ter, talvez, a lembrança e o conhecimento de tudo o que acontecera. Será que acabei instruindo meu eu de antes? Teria ele assimilado as lembranças do eu de hoje? Deixei para lá, bastava estar tudo corrigido.
A névoa voltou. Ouvi um som estranho atrás de mim, voltei-me e, no meio névoa percebi o trem. O caminho entre o hoje e o ontem se abria, desta vez para que eu voltasse. Troquei de roupa e fui em direção ao meu vagão. Ainda olhei para trás e fiquei pensando o que aconteceu, depois, com os três. Mas o cenário do passado foi se desfazendo e entrei no vagão.
Sentei em meu banco e olhei para o relógio, ele ainda marcava 7:21, era como se nada tivesse acontecido. Um sono tremendo tomou conta de mim e dormi, sentindo que o trem começava a se mexer outra vez.
Acordei com o trem parando em Genebra. Ainda zonzo, achei que tudo foi só um pesadelo. A mulher e o menino não estavam em seus bancos. “Então dormi e sonhei desde Lyon.” De repente, eles surgem vindo da toalete. Levei um susto, porque o garoto era são, não tinha mais a síndrome e ela não tinha no rosto a marca que havia antes. Ela sorriu para mim, quase cúmplice.
Quando estávamos desembarcando, o garoto passa por mim e sorri, logo depois dele, a mulher chega perto do meu ouvido e diz:
- Merci, Henri. – e deixou a estação em direção à parte francesa da cidade.
Dois anos já se passaram, nunca mais tive pesadelos, nunca mais, em lugar algum do mundo, encontrei com os dois.
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