2º PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: PEDRO AMARAL — CATEGORIA CRÔNICA
- Casa Brasileira de Livros
- 12 de jul.
- 4 min de leitura

SOBRE O AUTOR
Nascido em Volta Redonda-RJ, sou doutor em Letras (PUC-Rio) e autor de três livros: "Vívido" (7Letras, 1995), "Breve encontro" (Rocco, 2001) e "Meninas más, mulheres nuas: as máquinas literárias de Adelaide Carraro e Cassandra Rios" (Papéis Selvagens, 2017).
A CRÔNICA SEMIFINALISTA
Polarização vespertina (cena carioca)
O ano não lembro. Sei que eu caminhava pelo Centro do Rio rumo a um lugar para almoçar – possivelmente, ali pela Travessa do Ouvidor. O Centro da metrópole fluminense, como sói acontecer nas capitais brasileiras, é um microcosmo da grande cidade e, para além das camadas de história que se sobrepõem umas às outras na arquitetura e no traçado das ruas, é impossível não se deixar afetar pelo espetáculo humano, ruidoso e variegado, que se desenrola em sessões contínuas naqueles quarteirões.
Falo, claro, por experiência. No tempo em que zanzei por ali, estudando ou trabalhando, minhas caminhadas na hora do almoço, ou a qualquer momento do chamado horário comercial, invariavelmente envolviam a observação de um grupo de pessoas, pequeno ou nem tanto, que abandonava a pressa para contemplar alguma apresentação – de um encantador de serpentes, de uma engolidora de fogo, de um vendedor de tira-manchas capaz de embranquecer o Santo Sudário ou de um eloquente comerciante de antenas de TV capazes de captar emissões de Alfa Centauro.
Todas essas atrações envolviam, por óbvio, a expectativa de trâmite pecuniário, e para isso estavam sempre dispostos o tradicional chapéu ou a maquininha de cartão. Mas havia também atrações espontâneas, que atraíam bom público sem pedir coisa em troca, como era o caso de acirrados bate-bocas que irrompiam entre transeuntes, gerando a expectativa de um embate físico eletrizante.
Pois bem. Eu devia estar atravessando a Sete de Setembro, “vagaroso, de mãos pensas”, quando vi uma pequena multidão concentrada no meio da rua, olhando vidrada para a fachada de um velho e sisudo edifício. Antes mesmo de olhar, eu também, para a fachada, pensei que o evento poderia se tratar de uma mulher trocando de roupa, descuidada ou desavergonhadamente – mas logo abandonei a suposição, considerando que isso seria improvável, naquele horário, num prédio comercial. A segunda hipótese – mais plausível, quem sabe – foi a de um suicida ameaçando cumprir seu destino. Mas as expressões do venerável público, embora exibissem um alto grau de concentração, tinham também qualquer coisa de leveza que seria impensável na iminência do gesto fatal. Acho mesmo que alguns sorriam.
Eu não tinha mais pressa que as demais pessoas, e logo me juntei à plateia, como quem adentra a arquibancada de um estádio de futebol. Só que olhei para a fachada e não vi o que me chamasse a atenção: as pedras não traziam novidade. E o público ali, silencioso e atento, em ânsia expectante. O vizinho, então, me explicou: o espetáculo se desenrolava no parapeito da construção, onde um gato, malhado e matreiro, ameaçava atacar uma pomba que por ali sesteava (reproduzo a distribuição dos gêneros tal como me foi informado, pois não pude verificar o assunto em detalhe).
Chamem de vadias, se quiserem, as pessoas que ali se deixavam plantadas, em pleno expediente, observando uma ocorrência assim corriqueira do mundo animal. Em defesa delas (e, claro, de mim mesmo), dou meu testemunho. Não estávamos, logo vi, diante de um felino e uma ave quaisquer; não sei se exagero ao dizer que aquele gato e aquela pomba eram verdadeiros artistas, mestres do seu mister. Ele, cabeça abaixada, olhar exemplarmente atento, dorso erguido e cauda rígida, agitando-se como um chicote, era a quintessência do predador implacável; ela, fina como uma prima dona, vestida em cinza, esmeralda e lilás, mantinha-se digna e ereta, ágil nos pezinhos de bailarina. Atenta, de soslaio, a toda movimentação do inimigo, mas sem ofertar-lhe o deleite de uma preocupação.
De repente, brotou um murmúrio na plateia, um ruído rouco: o gato decidiu ousar e deu passos céleres em direção à presa. Parecia a hora final, mas esta deu dois passos para o lado, elegante e contida, feito um toureiro driblando a fera bovina: “Oooh!” – ouviu-se. Um minuto depois, outra arremetida, e novamente a ave se desvencilhou do algoz (desta vez, me pareceu, deixando transparecer alguma inquietude). No público, interjeições de júbilo e de frustração: estava claro que havia duas torcidas, formadas ali de chofre, espontaneamente. Uns sorriam, admirados; outros balançavam a cabeça, exprimindo evidente decepção. Mais alguns minutos de suspense e o felino se arremessou novamente, impaciente, tangido pelo cansaço ou a fome. Por pouco não tocou a pomba, arrancando-lhe uma pena que fosse – mas, esta, agilíssima, bateu asas e alçou voo, abandonando aquele improvisado Coliseu.
A plateia – homens engravatados, office-boys, balconistas, garçonetes... – rapidamente se dispersou, uns rindo, outros resmungando, alguns trocando impressões sobre o espetáculo. E eu lembrei que tinha fome. Além disso, me dei conta de que, à diferença dos demais, não chegara a tomar partido de nenhum dos contendores. Até hoje não tomei: penso em ambos como valorosos combatentes, dissimulados, cada um à sua maneira, e bem preparados para a difícil arte da sobrevivência.
De resto, embora contagiante, a cena continuava prosaica, ao menos aos meus olhos humanos. Não estava em jogo, naquela disputa acirrada, algo como o destino da nação.
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