PENA DE OURO 2024 | CONHEĆA OS SEMIFINALISTAS: SIMONE NEJAR ā CATEGORIA CONTO
- Casa Brasileira de Livros
- 23 de jul. de 2025
- 25 min de leitura

SOBRE A AUTORA
Simone Janson Nejar Loba, ou Simone Nejar, como Ć© mais conhecida, nasceu em Porto Alegre em 02 de janeiro de 1970, em uma famĆlia que se notabiliza pela arte, literatura e incentivo da cultura em geral. Advogada de profissĆ£o, mas tambĆ©m chefe de cozinha, publicou em 2012 o livro Entre Palavras e Panelas, que perambula entre a biblioteca e a cozinha, contando as histórias dos pratos que apresenta. Entre Palavras e Panelas foi lanƧado na Feira do Livro de Porto Alegre em 2012, e a Autora teve o prazer de autografĆ”-lo ao lado do tio, Carlos Nejar, que tambĆ©m autografava naquele dia. Atualmente morando na cidade gaĆŗcha de Gramado, Simone gosta especialmente de escrever contos e crĆ“nicas, que disputam seu tempo com a atividade cada vez mais volumosa da advocacia, entretanto, a paixĆ£o pelos livros e pela criação literĆ”ria sempre encontram guarida em seu cotidiano. Para o futuro, a ideia Ć© escrever mais contos e menos contestaƧƵes, aumentando a literatura e diminuindo a advocacia.Ā
O CONTO SEMIFINALISTA
Ā L A B I R I N T O
Faltavam exatos trinta dias para o Natal. Regina estavaĀ atordoada com o trĆ”gico falecimento de AntĆ“nio, assim, de repente, infartado em seus braƧos, no momento em que descia do tĆ”xi, chegando ao hospital. Eram quatro da madrugada quando o tĆ”xi parou na emergĆŖncia, AntĆ“nio falava de um jeito estranho, parecia que algo borbulhava em seu peito. Regina viu que se tratava de algo bem sĆ©rio desta vez, só que, antes mesmo de ser atendido, AntĆ“nio arregalou os olhos e caiu para trĆ”s. Regina atirou-se embaixo do marido para que ele nĆ£o se machucasse com a queda. Só que a queda foi fatal, ele ficou ali mesmo.Ā
Horas depois, agindo de modo automĆ”tico, Regina, agora sentada no banco da funerĆ”ria, ainda nĆ£o acreditava no que acontecera. Desejava ardentemente que se tratasse de mais um de seus pesadelos, quando acordava toda suada no meio da madrugada e AntĆ“nio a acalmava, fazia-lhe carinho, colocava-a no ombro atĆ© que dormisse novamente, agora em paz, protegida de qualquer mal.Ā Mas as horas iam passando e ela nĆ£o acordava, e uma sensação de estrangulamento foi tomando conta de seu ser.Ā
Ć certo que nos Ćŗltimos meses as coisas andavam tensas entre ambos, e que ela sentira atĆ© raiva dele, a ponto de mandĆ”-lo embora de casa, mas isso jĆ” era demais. Sabia que mais dia menos dia os dois voltariam a se acertar, mas agora, sentada na capela mortuĆ”ria ao lado do corpo do marido, isso jĆ” nĆ£o era mais possĆvel. AntĆ“nio parecia dormir, e estava lindo, mais bonito do que normalmente estaria, pois na funerĆ”ria tinham-lheĀ feito a barba e metido um terno cinza. Terno ele só havia usado no dia do casamento, por sinal. Uma tia telefonou e pediu uma foto do morto, jĆ” que nĆ£o poderia atravessar oĀ Estado para o velório. Regina fotografou o marido e mandou a foto. Nunca a apagou depois disso, faltou-lhe coragem. Meses depois, tinha o estranho hĆ”bito de olhar a foto para dar mais um adeus a AntĆ“nio. Quando ficava triste, olhava a foto; embriagava-se, chorava, olhava a foto, chamava o marido. Completamente bĆŖbada, pedia-lhe que viesse buscĆ”-la. NĆ£o suportava a dor de viver longe dele.Ā
Depois que AntĆ“nio se foi, Regina perdeu o rumo, afinal, foram tantos anos juntos... Ā Chegando o Natal,Ā ela fugiu de todo e qualquer contato com outras criaturas. Queria ficar sozinha, sozinha, sozinha, e as pessoas insistiam em convidĆ”-la para todas as festas da cidade, e nĆ£o houve vizinho ou parente que nĆ£o a convidasse para passar o Natal em sua casa. Ela agradecia, a pessoa insistia, ela tentava nĆ£o ser mal-educada, mas queria mesmo era ficar sozinha, encerrada em seu mundo de lembranƧas, onde apenas os dois estariam presentes. Trancou-se em casa, atirou-se num sofĆ” com seus cachorros e lĆ” ficou. E veio o Ano Novo, e mais convites, e mais sofĆ”. Se nĆ£o tinha a menor condição de sorrir, para que estragar a alegria dos outros? TambĆ©m a incomodava que sentissem pena dela. Queria, tĆ£o-somente, que a deixassem quieta com suas lembranƧas, onde o mundo era mais seguro.Ā
EĀ os meses se passavam, e ela continuava letĆ”rgica, mas ia levando as coisas do jeito que dava. Os filhos a rodeavam, os amigos a cuidavam, ela atĆ© perdeu uns quilos, se ajeitou, deixou o cabelo crescer. Mas nĆ£o se sentia bem. O luto nĆ£o a vencera, mas a derrubara, e ainda nĆ£o se tinha recomposto de tudo aquilo.Ā
O ano virou. Empurrada por duas amigas, que na realidade só queriam carona em seu carro, foram para a festa de RĆ©veillon numa boate da cidade, a Esfinge. āQue chatoā - pensou, mas foi, com sua roupa toda branca ā como se isso importasse! ā no meio daquela multidĆ£o de branco. Parecia um centro espĆrita ou um terreiro de batuque, alguĆ©m comentou.
Sentou-se Ć mesa e comeƧou com sua sequĆŖncia de martinis, espumantes e o que mais tivesse aparecido por ali. JĆ” nem queria sair, mas agora que saĆra, o negócio era tomar um trago, e dos bons. NinguĆ©m ia reparar mesmo. Ano novo, trago novo. E enquanto as companhias danƧavam, ela ia enchendo o estĆ“mago quase vazio.Ā
A Esfinge contratara um grupo para cantar. NĆ£o cantavam lĆ” muito bem, mas a plateia estava animada, virada de ano, Ć© que nem o Carnaval, ninguĆ©m sabe por que estĆ” pulando, mas, simplesmente, pula-se e comemora-se sabe se lĆ” o quĆŖ... tinha uma cantora, uma gordinha simpĆ”tica, e um magrelo, os dois alternavam o microfone, cantando um repertório variado. Regina pediu secretamente que nĆ£o cantassem nada sertanejo, que detestava, e tudo ficaria em paz com mais alguns drinques.Ā
Ela jĆ” estava mais para lĆ” do que para cĆ”, jĆ” virara uns oito martinis, fora os espumantes que bicava aqui e ali dos copos das amigas. Olhou para o palco e achou um tĆ©dio estar ali. Foi entĆ£o que Baco lhe mandou a ideia brilhante... levantou-se, foi atĆ© o banheiro, deu uma olhada no espelho. Achou-se bonita, nĆ£o estava com a melhor cara do mundo. Para falar a verdade, estava com a maior cara de bunda, mesmo. Aquela cara do ācomeu e nĆ£o gostouā. Deve ser a abstinĆŖncia sexual, pensou, suspirando.Ā
Caminhou até o palco procurando parecer sóbria, esboçou um sorriso e pediu o microfone à cantora, a fim de dizer algumas palavras. A gordinha simpÔtica, que não esperava por aquilo, rapidamente pensou e julgou que sim, a criatura poderia ter algo importante para dizer àquela altura da madrugada, alguma mensagem de paz, qualquer coisa assim. Ademais, ela estava cantando hÔ mais de duas horas e sua bexiga precisava ser esvaziada com urgência. Oportunidade de ouro! O colega tinha ido buscar uma cerveja e a deixara sozinha no palco, teria que cantar sozinha. Passou o microfone a Regina e saiu correndo pro banheiro. Ela pegou o gatilho e começou o seu discurso:
- Boa noite a todos e Feliz Ano Novo. Feliz Ano Novo para quem precisa de um pouco de felicidade. E quem nĆ£o precisa nos dias de hoje, nĆ£o Ć© mesmo? EntĆ£o eu pedi o microfone aqui para todos nós fazermos uma sessĆ£o de terapia coletiva. Isso mesmo, vamos iniciar o ano com um bom papo, pra ver o que estĆ” dando errado e mudar essa porra toda logo no inĆcio. Vamos fazer algo diferente hoje. E vai ser em favor da minha vida e da vida de todo mundo que estiver aqui.Ā
O pessoal nas mesas se agitou. Não sabiam que a Esfinge tinha preparado uma atração na festa de Réveillon. Assim, ouviram atentamente o que a animadora ia fazer a seguir e Regina, muito animada com a atenção, prosseguiu:
- Como eu estou dizendo, o meu nome Ć© Regina e eu estou aqui pra ajudar a todos. A minha vida estĆ” inserida no mesmo Cosmos que a de vocĆŖs. NĆ£o existe ālĆ” foraā do Universo. EntĆ£o, se eu conseguir ajeitar o meu lado, todo mundo vai ficar mais feliz no mundo. E quem sabe a gente nĆ£o faz uma grande terapia e mais gente consegue se ajeitar tambĆ©m?
O pessoal se olhava... que tipo de animadora viria com um papo chato desses em plena festa de RĆ©veillon? TĆpico papo de bĆŖbado... porque todo bĆŖbado filosofa, afinal...Ā
- Olha, gente, no ano retrasado virou o ano e eu estava viĆŗva... marido tinha acabado de morrer. Tive um Natal de merda, um RĆ©veillon de bosta e pra ferrar com tudo de vez eu faƧo aniversĆ”rio na virada... portanto, parabĆ©ns pra mim hoje..Ā
A cantora, que voltara do banheiro, jĆ” estava apavorada por ter entregue o microfone para aquela maluca, aproveitou a deixa pra pegar o microfone de volta e dizer:
- Então vamos cantar o teu parabéns agora!
E a banda tocou o parabéns e todos cantaram, ansiosos por se livrar da criatura ali no palco. Por fim, após o parabéns, ela ainda tentou pegar o microfone, mas a cantora não deixou, apenas pediu que ela fizesse um desejo para o ano que se iniciava, e ela perguntou:
- Na verdade eu só queria saber se tem algum homem que preste aqui.Ā
O povo desatou a rir da pergunta inusitada e a banda rapidamente voltou a tocar.
As amigas agarraram Regina pelo braƧo e a tiraram dali:
- Que merda foi essa, menina? PĆ”ra de queimar o filme, o teu e da gente, vamos embora que parece que tem uma festa boa ali no centro...Ā
No dia seguinte, com uma ressaca daquelas, chegou a filha com a ideia brilhante do dia:
- MĆ£e, as suas amigas disseram que vocĆŖ fez o maior papelĆ£o ontem, que passaram vergonha contigo, que estĆ” todo mundo comentando que vocĆŖ pegou o microfone da banda ontem...Ā
- Mais ou menos isso, acho eu. Estava de estÓmago vazio e bebi todas, queria dizer que não lembro mas infelizmente me lembro. Até onde me lembro, acho que estava procurando um cara decente no meio daquele povo. Vai que alguém se acusasse, né... entrei naquela porcaria procurando um cara que me lembrasse o seu falecido pai, alguém com uns dois metros de altura, quem sabe cabeludo...
- E tu achas que numa festa de ano novo ia aparecer um cara assim? Ah, fala sério.... ir buscar um Shrek, um ogro na Esfinge, mãe? Olha, vou te fazer um favor... vou criar um perfil num site de namoro pra ti. Aà tu te divertes e escolhes o teu neanderthal, ok?
E foi assim que Regina ganhou seu perfil no site de namoro. Gisele preparou um perfil com as preferências da mãe, suas melhores fotos, e deu uma selecionada bÔsica. Não queria que a mãe, novata na coisa, esperando encontrar um namorado da altura de seu falecido pai, acabasse conhecendo um pigmeu ...
Regina, na verdade, achava que precisava de um orĆ”culo, algo ou alguĆ©m que a aconselhasse com frases genĆ©ricas que ela lesse e que se adaptassem Ć sua realidade, para acharĀ que lĆ” em cima algo ou alguĆ©m se preocupasse com ela, jĆ” que AntĆ“nio se fora. Ela poderia ler uma frase tipo ā o nosso primeiro e Ćŗltimo amor é⦠o amor-próprio" Ā e achar que encontrara uma pĆ©rola de sabedoria, uma mensagem enviada de algum ser interplanetĆ”rio que a visseĀ como sua musa.Ā
Tem gente que paga cartomante,Ā pai-de-santo,Ā todo este pessoal, a turma da āleitura friaā, que vai falando conforme a expressĆ£o facial e as respostas das perguntas que fazem. Gasta muito dinheiro e vai embora satisfeito, achando que encontrou alguĆ©m com todas as respostas para as perguntas do Universoā¦
Regina precisava justificar o fato de que nĆ£o era perfeita, nĆ£o porque nĆ£o quisesse sĆŖ-lo, mas porque havia muita gente Ć sua volta que exigia que ela fosse. E foi assim que Regina curtiu no aplicativo o tal Marquinhos, que tambĆ©m a curtiu. Regina comeƧou a conversar com mais dois ou trĆŖs candidatos, só que depois de algumas horas de papo com Marquinhos,Ā ele se sobressaiu aos demais, e ela comeƧou a conversar direto com ele. E a conversa se estendeu na noite, e no dia seguinte, e no outro, no outro.... o sujeito parecia ter caĆdo do cĆ©u... educadĆssimo, fala mansa, tratando-a com o maior respeito, parecia encantador. Fizeram uma chamada de vĆdeo.Ā O cara era muito interessante, certo que em nada se parecia com o seu tipo fĆsico preferido, ou seja, um neanderthal, um ogro, um cara imenso, cabeludo e barbudo, mas talvez fosse mesmo a hora de mudar de gosto... enfim...
Os dias se passavam e parecia que os dois se conheciam hĆ” dĆ©cadas! JĆ” conversavam quase que o tempo todo, e Regina estava morrendo de vontade de pegar o carro e sair correndo atrĆ”s dele em Bertópolis, na tal Rua dos Pardais, em que ele disse que morava. Tentava se controlar, mas a carĆŖncia era tanta que isso era quase impossĆvel. A verdade Ć© que a abstinĆŖncia sexual a tornara carente e iludida.Ā
Marquinhos tinha um estranho magnetismo e uma forte intuição. Parecia adivinhar todos os desejos da namorada virtual. Gostava muito de falar de si mesmo, de suas qualidades altruĆstas, de como ajudava as pessoas que se aproximavam dele, de como cuidava com carinho dos pais idosos. Regina ouvia embevecida aquelas histórias e jurava ter encontrado o grande amor de sua vida. NĆ£o podia mais ignorar isso!
Foi assim que em um dia simplesmente pegou a estrada com uma desculpa qualquer e foi atrÔs dele. Queria apenas vê-lo pessoalmente. Um breve olhar, uma avaliação, só isso. Estava tentando ser coerente, pensou. Pegou o carro, desceu até Bertópolis e ligou pra ele. Por coincidência, disse, estava passando pela cidade, e só queria dar um alÓ. Se ele estivesse ocupado, ela iria apenas parar o carro, dar um oi e seguir viagem.
Ele estava ocupado. Tinha que trabalhar logo mais, mas dispunha de uns minutinhos. Ela entrou no bairro, guiou para o endereƧo e parou o carro. A casa era extremamente simples, e ela intimamente censurou-se por estar discriminando alguĆ©m por sua casa.Ā Ele veio atĆ© ela. Ela o achou muito interessante, forte, quase bonito. Podia atĆ© ser um pouco mais alto, mas, enfim, dava ā e muito ā para o gasto.Ā
Trocaram um beijo. Ela sentiu gosto de vodka em sua boca. Eram 10h da manhĆ£ e ele tinha gosto de bebida na boca. Ela ficou meio chateada com isso, pensou, coitado, ele bebe. Seguiu viagem de volta para sua cidade, que ficava a 100 Km dali, e, continuando a conversar com ele, aĀ lembranƧa do gosto da bebida desvaneceu-se. Ele era simplesmente tudo o que ela podia querer.Ā
Mais uns dias se passaram e novamente ela desceu a Bertópolis para vê-lo. Desta vez, ele ia trabalhar dali a duas horas apenas. Ela sugeriu um motel, ele hesitou um pouco, afinal estava de bermuda, sem carteira, dali a pouco ia para o trabalho. Ela disse que não se preocupasse com nada. E dirigiu pro motel.
O test drive foi um sucesso. Marquinhos era doce, querido,Ā uma mĆ”quina sexual! Ela saiu do motel com a certeza de que nunca tivera uma tarde como aquela na vida, e isso que era apenas a primeira vez! O cara era fenomenal, simplesmente o melhor cara que ela tinha tido,Ā o primeiro depois que AntĆ“nio se fora. Saiu dali apaixonada.Ā
E as vindas a Bertópolis começaram a se suceder, até que ela resolveu alugar um apartamento ali para ficar mais perto dele. E o sexo era a coisa mais maravilhosa que podia haver no mundo, e ele a tratava bem demais. Regina andava nas nuvens, rejuvenesceu, estava magra e linda, maravilhada com Marquinhos. E sempre era ela que pagava as contas, afinal, ele sempre esquecia a carteira... e ela nem estava se importando com isso, pura bobagem. Aquele sexo maravilhoso não tinha preço...
Só que de repente Marquinhos comeƧou a ficar agressivo. Bebia e comeƧava a xingar Regina, por nada. Foi demitido do emprego novo que tinha arrumado hĆ” poucos meses e mudou-se para a casa dela. ComeƧou a beber dia sim, dia nĆ£o, e quando bebia, atirava-a no inferno, xingando-a e acusando-a de traĆ-lo.Ā
Regina passou a suportar aquilo em troca do sexo, que era maravilhoso. Só que agora sua vida passou a ser dois dias no paraĆso, um dia no inferno. Dia de cerveja e churrasco era dia de inferno. Dia de jogo era dia de inferno. Dia de compras no shopping (geralmente de coisas para ele) era dia de paraĆso.Ā
Marquinhos aos poucos foi isolando Regina de sua filha, de seus amigos, de seus colegas. Achava-se no direito de vasculhar o celular dela Ć procura de supostas infidelidades, mas o seu celular era indevassĆ”vel. Ele nunca largava o seu celular, e as notificaƧƵes tocavam 24h por dia. Todavia, uma notificação no celular de Regina era motivo para ela ser chamada de cadela, de vadia, de puta ā mesmo que fosse uma notificação de um vĆdeo de jardinagem de um canal do YouTube.
Acostumou-se a ser humilhada diariamente. JÔ nem respondia às acusações, afinal, ele era o dono da verdade absoluta, e ela, apenas uma pecadora, na melhor das hipóteses, ou uma vadia, cadela, prostituta e sabe lÔ mais o que, nos dias em que ele bebia. E ele bebia dia sim e dia não, e às vezes dia sim e dia sim também. Também a chamava de endemoniada.
Ela suspirava enquanto era ameaƧada; convencera-se de que era tudo aquilo que ele dizia e mais um pouco, afinal, se permanecia ao seu lado com tantas agressƵes e impropĆ©rios dele, certamente era muito pior que ele. E se era pior que ele, que suportasse tudo muito quieta.Ā
Marquinhos tinha algo muito estranho em seus olhos: costumava dizer que tinha olhos de lince, mas pareciam mesmo de chacal: olhos amendoados, muito pretos, havia algo terrĆvel neles. VĆ”rias pessoas jĆ” haviam falado isso a Regina, mas o que viam de ruim, ela sentia como desejo.Ā
A maneira dele olhar e de atacar lembrava um tubarĆ£o, o olho parado, preto, imóvel, e de repente, ela jĆ” tinha levado ā o tapa, o soco, o empurrĆ£o. E com o tempo passando, ela jĆ” estava com praticamente todo o corpo marcado pelos ataques dele.Ā
As pessoas jÔ a tinham apoiado, oferecido ajuda, tomado suas dores, ajudado a cicatrizar suas feridas, seu joelho quebrado, o cotovelo roxo, o braço com os dedos dele marcados. Algumas vezes ela se afastou, mandou-o embora, terminou a relação e até tentou conhecer outro homem. Mas o tempo passava, a saudade batia e lÔ ela ia atrÔs dele, desesperada, igual um drogado em abstinência, tamanho o desejo, a saudade, a dor e o amor que insistia em permanecer na aridez de sua vida monótona e insossa. Sim, ela o amava, caso contrÔrio, como poderia suportar aquilo tudo?
Da Ćŗltima briga conseguira ficar exatos quinze dias sem vĆŖ-lo. Durante este tempo, manteve-o bloqueado em redes sociais e tentou levar uma vida normal,Ā sair com amigos,Ā passear, foi ao psicólogo, e tudo parecia sob controle, atĆ© que uma madrugada chegou e ela, revirando-se na cama sem conseguir pregar olho, lembrando dele, garganta seca, corpo tremendo de desejo, agarrou o celular e o desbloqueou sumariamente. Precisava ver o que ele estava fazendo Ć quela hora. Sabia-o notĆvago, certamente estaria acordado. E exatos dois minutos após ele ser desbloqueado, ela recebeu a primeira mensagem dele. E respondeu. E muitas e muitas e muitas outras se seguiram. LĆ”grimas escorriam em seu rosto. A saudade falara mais alto novamente. CaĆra na armadilha de novoā¦
Na manhĆ£ seguinte, sem muitas explicaƧƵes, ela pegou o carro e tomou o rumo de Bertópolis. Combinara apanhĆ”-lo na casa de um amigo. JĆ” tinha vergonha dos pais dele, de tanto vai-e-volta, de tanto aparecer de madrugada na porta da casa dele implorando por atenção. A viagem foi rĆ”pida, ela simplesmente acelerou no mesmo compasso de seu coração ferido, cuja cura tinha nome: assim ela parou no tal endereƧo indicado por ele e quando o viu sentiu as pernas tremendo, o estĆ“mago revirando, a cabeƧa tonta... e correu, correu pra ele, nĆ£o conseguia disfarƧar o que sentia. Ele estava todo suado, de bermuda e camiseta sem mangas azul, e ela fezĀ o improvĆ”vel: comeƧou a lamber seus braƧos, seu pescoƧo, sua boca, ela o lambia com fome, com fĆŗria, e se ele a tivesse tomado nos braƧos ali, no meio da rua, ela teria feito sexo com ele ali mesmo, Ć vista das pessoas, como se fossem animais de rua, tamanho o desespero em que se encontrava...Ā Ā
E agora, relembrando esse dia enquanto ele a xingava, ela ficava quieta e baixava os olhos: sim, era muito pior que ele... que a xingasse, que a matasse, se quisesse, desde que ficasse com ela. Queria seu gosto, seu cheiro, queria tudo dele, nem que fosse a sua fĆŗria. JĆ” nem ouvia mais e jĆ” nem sabia do que era acusada. Ele usava fatos de seu passado, de quando sequer se conheciam, para chamĆ”-la de puta, vadia, prostituta, cadela. Vai ver que era, sim.Ā
GiseleĀ sentia-se culpada por ter criado aquele maldito perfil para sua mĆ£e e por ela ter escolhido ā com certeza ā o pior sujeito da face da terra. Só que Regina nem queria saber da opiniĆ£o da filha, simplesmente se isolara com MarquinhosĀ em algum apartamento na cidade dele. Pouco falava com a filha nos Ćŗltimos meses, limitava-se a mandar dinheiro (escondido dele) para ela, que ainda morava em casa e era solteira.Ā
Marquinhos dizia que a filha queria extorqui-la a todo custo, e ninguĆ©m, ninguĆ©m no mundo alĆ©m dele, iria gostar dela ou amĆ”-la por alguma qualidade sua: todosĀ viam nela um cifrĆ£o, e só chegariam perto para lhe tirar alguma coisa, dinheiro, vantagens, etc.Ā
Regina, cada vez mais isolada, mais machucada, mais reprovada por seus amigos, que dela se afastaram, acabou por acreditar nisso. Sim, Marquinhos que prestava, Marquinhos que a amava, ele sim lhe queria bem. Ele tinha aqueles modos estranhos, mas, coitado, era por conta do alcoolismo, e ninguĆ©m Ć© perfeito. Ele bebia mas a amava, sem dĆŗvida. O sexo entre ambos era a coisa mais maravilhosa que podia haver. Ele nĆ£o poderia fingir tĆ£o bem. Ele a adorava na cama, era fato!Ā Ela era viciada nele. Viciada em sexo com ele.Ā
Ele tinha razão quando lhe dizia que ela era a melhor mulher do mundo na cama. Esforçava-se para isso. Entre quatro paredes, era perfeito, mas, fora da cama, tudo era desastroso. Ele não trabalhava, bebia demais, chegava a beber quase vinte litros de cerveja em 24h, isso sem falar nos destilados e no que mais houvesse para misturar. Ele a chamava de vadia, inventava casos para ela, imputava culpas, jurava que ela teclava com outros homens, vasculhava seu celular, e ainda ameaçava as pessoas que pensassem em curtir alguma foto dela em redes sociais.
O casal brigava, e alto. Os vizinhos do apartamento, nĆ£o raras vezes, ligavam para a polĆcia, tamanha a gritaria. Em uma madrugada daquelas, enquanto ele a xingava, aos gritos, de tudo quanto era coisa, e ela o olhava, cheia de desejo, os vizinhos acionaram a viatura. Quando os policiais chegaram, ela disse que estava tudo bem, que o casal apenas discutira um tom acima do normal, e mandou a polĆcia embora. Queria que ele reconhecesse que ela sofreria qualquer coisa por uma boa noite de sexo com ele. Ele eraĀ a sua cocaĆna.Ā
AtribuĆra-lhe um toque peculiar de notificação no celular. A cada mensagem dele, e somente dele, ecoava aquele som. Com o tempo, e isso se deu muito rapidamente, aquele som passou a ser uma droga para ela. Cada vez que ele lhe mandava uma mensagem, nĆ£o importava o seu teor, aquele som lhe causava um prazer incrĆvel e louco. A mensagem, pouco importava: o que valia era ouvir a voz dele após aquela notificação, ainda que sua voz dissesse que ela ia morrer, o que ele dizia frequentemente. A quĆmica entre ambos era terrĆvel, era irresistĆvel, era fatal, e ela sabia disso, apenas nĆ£o podia evitar. Aquela notificação personalizada era um verdadeiro orgasmo auditivo. Estava viciada.Ā
No auge das bebedeiras, ele ficava onde estava, ou sentado, ou deitado, e dormia. Ficava de boca aberta, babando, e nada nem ninguĆ©m conseguiria acordĆ”-lo naqueles momentos. Dormia um estranho sono comatoso. Entretanto, mesmo diante do cenĆ”rio lamentĆ”vel, ela o contemplava com olhos de paixĆ£o e compaixĆ£o. Olhando para ele, aqueles olhos puxados e pretos, malvados, achava-o lindo, e parecia impossĆvel que ele pudesse, de fato, lhe fazer algum mal maior. Ele era apenas um cĆ£o que latia, mas que jamais a atacaria. NĆ£o para valer. Realmente acreditava que poderia mudĆ”-lo. Seu amor imenso o mudaria, o curaria, o transformaria num homem de valor. Sim, ela e mais ninguĆ©m faria isso por ele. O amor tudo cura, ela pensava.
Gisele andava preocupada, apavorada, nĆ£o sabia como ajudar a mĆ£e a entender o que o sujeito estava fazendo com ela. Parecia-lhe óbvio que Marquinhos era um canalha, um gigolĆ“, e que queria arrancar cada centavo de sua mĆ£e, mas nĆ£o sabia mais o que fazer ou dizer para que a mĆ£e a escutasse. JĆ” nem se preocupava mais com patrimĆ“nio ou dinheiro, temia, de fato, pela vida da mĆ£e, que passava longas temporadas fora de casa e dava desculpas tolas para os hematomas nas pernas, nos braƧos, em locais visĆveis.Ā
Nunca Regina se havia machucado tanto: cancelou as massagens para esconder os hematomas da profissional; passou mais de um mĆŖs sem ir ver a filha em casa por conta de um olho roxo, resultado de uma cabeƧada de Marquinhos, dada em meio a uma conversa trivial com ela. JĆ” nĆ£o sabia como esconder os machucados em seu corpo, e por isso se isolou, tambĆ©m.Ā
Na rede social, o casal apenas sorria em fotos e vĆdeos, pareciam o espelho da felicidade, entretanto, os amigos próximos nada curtiam ā apenas aqueles conhecidos com pouco contato curtiam as fotos, o que deixava Regina bastante chateada, e Marquinhos bem satisfeito. Afinal, nĆ£o queria aproximação com ninguĆ©m. Ele a convenceu de que ela era apenas um cifrĆ£o para os outros. Sua vida nada valia mesmo, e ela passava um tempo todos os dias imaginando como seria bom ir para junto de AntĆ“nio lĆ” do outro lado.Ā
Regina aos poucos foi aprendendo como deveria se comportar quando estivesse com Marquinhos: aprendeu que andar de mĆ£os dadas era algo raro, que deveria ser valorizado, um prĆŖmio para quando ela se comportasse bem. Deveria andar sempre olhando para o chĆ£o. Esta lição aprendeu quando, ao saĆrem de um restaurante, ele acusou-a de olhar para um cara de dois metros de altura, sendo que ela sequer vira o tal sujeito. Se um homem bonito passasse perto dela, entĆ£o que rapidamente abaixasse os olhos, para nĆ£o ser acusada de olhar para ele. LiƧƵes do dia-a-dia. Tinha virado um cachorrinho adestrado por ele.Ā
Enquanto ele a xingava, aos gritos, dentro do quarto, ela, com o olhar distante, arrancava um pelo na perna com a pinça. Queria parecer não notar que ele a estava humilhando, agredindo:
- Retardada! Porra loca! Imbecil!
Ela continuava sua depilação louca, dolorosa, fio a fio, com uma pinƧa. DoĆa nada perto do que ele falava. Sentia que talvez devesse se cortar, talvez abrindo uma fenda na pele a alma parasse um pouco de doer. Pensava em AntĆ“nio, sentia saudade, bebia, chamava por ele, queria que ele viesse buscĆ”-la para acabar com aquele sofrimento louco.Ā
Talvez Marquinhos quisesse que ela morresse logo, por isso aquele tratamento todo, ou talvez ele quisesse que ela mesma tirasse a própria vida, seria uma forma legal de matĆ”-la sem sujar as próprias mĆ£os, pois ela mesma se mataria, por ordem dele, sem comprometĆŖ-lo. Ela pensava que essa era a real vontade dele. NĆ£o suportaria uma infidelidade, nĆ£o suportaria dividir o corpo dele com outra mulher. Simplesmente nĆ£o suportaria! JĆ” ele, nĆ£o se importava de olhar para qualquer mulher que passasse na rua, e ela tinha que ouvir ainda que āolhar nĆ£o tira pedaƧoā. Ele olhava descaradamente, mesmo. Um traste. Em segredo, para dentro, ela gritava āseu canalha!ā mas externamente abaixava ou virava a cabeƧa e fingia que nĆ£o notava. Ele sorria um riso diabólico, nestas oportunidades. Ela escreveu em seu diĆ”rio:
āQue as lĆ”grimas lhe escorram como um sorriso seco no deserto da tua alma, e a tristeza escorra, caudalosa, como uma avalanche de areia vermelha sobre onde jĆ” correu um rio. Que a sua vontade de gritar se traduza num longo silĆŖncio que ninguĆ©m vai escutar. Afinal, ninguĆ©m quer escutar isso, nem mesmo vocĆŖ. EntĆ£o, respire, suspire, sorria.āĀ
E ela sorria, sorria chorando.Ā
A teia
Em uma das muitas brigas que tiveram, Regina voltou para casa e conheceu Carlos. Ele era o oposto de Marquinhos, educado, carinhoso, cobria-a de gentilezas. A filha tentou apoiar a um possĆvel relacionamento, convidou-o para almoƧar, para jantar, para dormir na casa da mĆ£e. Regina tentou, tentou, beijou Carlos, foi para cama com ele, uma, duas vezes. Tentava desesperadamente tirar Marquinhos da cabeƧa, do corpo, do coração.Ā Ā
Ele continuava bloqueado nas redes sociais, no WhatsApp, no telefone, mas de vez em quando ela o desbloqueava para espiar o que ele andava fazendo. Nestas oportunidades, geralmente ele postava mĆŗsicas tristes, com letras que certamente eram indiretas para ela. Sabia que estava sendo monitorado e contava com seu charme irresistĆvel e a dependĆŖncia que havia criado na parceira. Era só aguardar. O desbloqueio era questĆ£o de pouco tempo.Ā
Do outro lado, Regina estava de saco cheio de Carlos. Ć sua maneira, ele criara uma teia, enredando-a de todas as formas possĆveis. SaĆa, almoƧava e jantava direto com a filha e as amigas dela, e atĆ© um grupo de whatsapp chegaram a criar, āGina felizā, tendo uma foto dela sorrindo como imagem de capa. Estava completamente apaixonado, e como tal, acabou metendo os pĆ©s pelas mĆ£os no pior momento possĆvel.Ā
Ela não gostara dele nem na cama, nem em lugar nenhum, apenas o aceitara, num momento de desespero, só que os dias passavam e o desespero, a abstinência de Marquinhos só faziam Regina sofrer ainda mais. Para piorar o quadro, Carlos mostrou-se excessivamente ciumento, obrigando-a a mandar sua localização em tempo real, o que a deixou furiosa, pois quem agia assim era o outro. Só que do outro ela gostava, de Carlos, não.
Por muito tempo pensou na figura de uma teia de aranha na qual tivesse inocentemente caĆdo, como quem tropeƧa numa pedrinha e cai de um penhasco escondido. Agora, todavia, entendia que sua vida tinha sido transformada num jogo de xadrez. Naquele jogo, ela era a Rainha, nĆ£o porque se achava ou o fosse, atĆ© porque sua autoestima era capenga, alguĆ©m lhe dissera. Tinha sĆ©rias dĆŗvidas sobre isso. Ela apenas era a Rainha porque o jogo era a sua vida, alguĆ©m o transformara nisso.Ā
Bom, a Rainha pode se movimentar para todos os lados. E a Rainha escolhe o seu Rei. E o Rei nĆ£o tem valor de troca, jĆ” que nĆ£o pode ser trocado por qualquer outra peƧa. EntĆ£o por que tanta gente insistia em tirar-lhe o Rei? Por que Marquinhos nĆ£o servia? Por que tinha que abrir mĆ£o dele?Ā
Sim, queriam derrotÔ-la! Sua filha, suas amigas, o psicólogo, Carlos, queriam tirar dela o que havia de mais precioso em sua vida! Perder o Rei no jogo seria a derrota. Tentaram colocar um bispo no lugar do seu Rei, sim! Vestiram-no com vestes reais e tentaram impor sua escolha à Rainha, um verdadeiro complÓ! O próprio bispo ficou achando que detinha algum poder sobre ela, e começou a ditar-lhe regras e ordens, tal e qual o verdadeiro Rei. O asqueroso tornou-se um rei deposto antes mesmo de sê-lo! Quem nasceu para ser bispo, jamais serÔ rei. Não enquanto eu for a Rainha, ela sentenciou!
E foi assim que Marquinhos foi desbloqueado e voltou Ć ativa. Em instantes, ela o havia desbloqueado, e, exatos dois minutos após o desbloqueio, ele retomou o contato. No dia seguinte, ela jĆ” estava na estrada indo atrĆ”s dele. JĆ” ia sem muita esperanƧa de que as coisas melhorassem, mas o vĆcio nele a obrigava a ir.Ā
E, de fato, a cada volta, a coisa piorava, ele ficava mais agressivo. Agora tinha ainda a ferida da traição dela com Carlos. Ela queria dizer que fora horrĆvel, que Carlos fora pĆ©ssimo na cama, mas se confessasse ter ido para a cama com outro, com certeza, ele a teria matado no ato. O sentimento de propriedade que ele detinha sobre ela fazia com que ele considerasse qualquer coisa uma traição, ainda que ocorresse quando os dois estivessem brigados. Sim, ela o traĆra com o almofadinha do Carlos, o bonzinho, o bem-nascido, e agora teria que mentir, mentir, mentir, jurar de pĆ©s juntos que nada alĆ©m de uns beijos ocorrera, sob pena de morrer.Ā
A partir daquele dia, sob o fantasma do Carlos, a vida do casal tornou-se ainda pior, como se isso fosse possĆvel. Marquinhos torturava Regina o tempo todo, atirando-lhe na cara que ele jamais a traĆra, enquanto ela saĆra com o primeiro cara que apareceu pela frente. Os xingamentos cresciam em progressĆ£o geomĆ©trica:
- Puta, puta, prostituta, cadela, tu foste a Ćŗnica mulher que eu nunca traĆ, e me fazes isso...Ā
E ele especializou-se em bater sem deixar marcas. Ela andava com o corpo totalmente dolorido, machucado, mas agora, as marcas eram poucas. Tinha dor no seio esquerdo? Lembrava-se do soco recebido hÔ dias. A dor era na panturrilha? Era o empurrão aquele. Perdeu a sensibilidade em uma parte do polegar devido a uma mordida dele, os dois dentes marcados, o sangue grosso brotando dos buracos no dedo..
Só que, por uma das Ćŗltimas ocorrĆŖncias contra ele, em que fora feito exame de corpo de delito, o Promotor ofereceu denĆŗncia contra Marquinhos. Embora ela fizesse boletins policiais esporadicamente, quando a coisa ficava muito feia, ela sempre corria lĆ” e retirava a queixa. Assim Ć© que o sujeito tinha mais de vinte boletins de ocorrĆŖncia por violĆŖncia domĆ©stica e nenhuma condenação, porque as vĆtimas sempre se compadeciam dele, como Regina, ou com medo mesmo, e retiravam as queixas. E assim ele seguia livre, fazendo o que bem entendesse com as suas mulheres. E nĆ£o eram poucas.Ā
O sujeito era um verdadeiro Don Juan no ambiente virtual. Fora dele nĆ£o passava de um bĆŖbado, um traste, um espancador de mulheres, mas na internet ele falava bonito, chamava todas as mulheres de āamadaā e tinha uma coleção de dezenas de perfis escondidos em seu celular, que ele tratava de analisar para ver onde conseguiria alguma vantagem, que poderia ser apenas sexo, ou algum presente, ou uma rodada de cervejas, ou qualquerĀ coisa que fosse. NĆ£o escolhia mulheres nem pela cara nem pelo corpo, mas pelo perfil.. mulheres com carro, independentes financeiramente, mais velhas, carentes, eram suas presas favoritas. Regina foi um prato cheio para ele, só que nunca foi a Ćŗnica. Sempre houve muitas mulheres, na internet e fora dela.Ā
Embora fosse bonita, Regina estava excessivamente preocupada com a própria aparĆŖncia. Marquinhos a convencera de que ela era pouco mais que lixo, e tinha adjetivos especiais para ela: barriga de Ć©gua, peito caĆdo,Ā coisas do tipo; só que ele fingia que eraĀ perfeito: aos 45 anos, careca, usava um bonĆ© para disfarƧar e parecer um garotĆ£o. E tinha só cinco anos menos que Gina. Ela, sim, aparentava menos idade do que tinha, só que os ataques dele a faziam achar-se horrĆvel, indigna de andar com aquele ābonitĆ£oā.
Ele tinha olhos estranhos, havia alguma coisa muito ruim neles. Muitas pessoas comentaram isso com Regina, mas onde eles viam maldade e sentiam medo, ela sentia desejo, muito desejo. O psiquiatra, que fora contratado para analisĆ”-lo, mudou de opiniĆ£o sobre ele vĆ”rias vezes, e sobre ela tambĆ©m; ora dizia que ela tinha SĆndrome de Estocolmo, ora dizia que todos merecem uma chance. Na verdade,Ā estava mais interessado em dizer o que ela queria ouvir, pois ela pagava ā e caro ā pelas consultas. AntĆ“nio, apesar de partida prematura, deixara-a amparada. Marquinhos sabia disso. O psiquiatra sabia disso.Ā
Regina custou a entender que Marquinhos criava brigas para fugir dela e ir encontrar-se com outras mulheres. Ficava se perguntando o que fizera de errado para ele ficar tĆ£o furioso a ponto de voltar para a casa dos pais. Sim, aos quarenta e cinco anos, o cara era solteiro,Ā sustentado pelos pais e morava no fundo da casa deles, num quarto com confortos e luxos que em nada combinavam com a pobreza do lugar. Meses depois ela descobriu que a TV de 60 polegadas, assim como o som eĀ o home theater, haviam sido āfinanciados involuntariamenteā, digamos assim, por sua antecessora, a Joana.Ā
No dia anterior, Marquinhos acusara-a mais uma vez de ter dormido com Carlos, e, muito indignado, avisou que estava voltando para a casa dos pais. Nestas horas Regina sentia um misto de alĆvio, pela iminente possibilidade de reaver sua liberdade, e de dor, pela falta que o sexo faria em sua vida. Sim, ela sabia, no fundo, que era apenas sexo que a prendia a ele. NĆ£o conseguia admirĆ”-lo por absolutamente nada: o cara era um fracassado, bebia desde a adolescĆŖncia, nĆ£o adquirira sequer uma bicicleta e passava o tempo todo invejando os outros e largando o seu recalque contra tudo e contra todos. NĆ£o tinha amigos, os parentes o ignoravam, só mesmo os pais para aturĆ”-lo. E ela. E as mulheres para as quais ele mentia.Ā
Ela corria sĆ©rio risco de vida, e sabia disso. Aos poucos, com o corpo todo machucado, sentiu que talvez ela estivesse buscando algum tipo de punição pela morte de AntĆ“nio, como se inconscientemente ela tivesse culpa disso. NĆ£o era algo consciente, mas ela buscava um algoz para, de alguma forma, aliviar seu sofrimento.Ā
Em uma madrugada em que Marquinhos estava completamente bĆŖbado, caĆdo sobre uma cadeira, ela viu que seu celular estava desbloqueado, e rapidamente o pegou. Como encontrasse um pedido de senha para ter acesso ao WhatsApp, resolveu ver a galeria de imagens, a qual conseguiu acesso: ela viu dezenas de capturas de telas de mulheres nuas, em vĆdeo chamadas com ele, todas recentes: ele fazia prints da nudez das mulheres, talvez para depois extorqui-las, ou mesmo como um trofĆ©u de suas conquistas.Ā
Como estavam pernoitando num motel, ela aproveitou o sono dele, vestiu-se, agarrou sua bolsa e saiu deslizando como pĆ“de do quarto. Passando pela portaria, ainda pagou a conta, dizendo que o namorado ficaria atĆ© a manhĆ£ seguinte. Ainda tremendo de raiva e medo, embarcou em seu carro, acelerou e foi embora. Só depois de ganhar a estrada, de volta para casa, teve o cuidado de bloqueĆ”-lo em todos os aplicativos possĆveis.Ā
Sentiu medo, muito medo, de fraquejar novamente e voltar Ć quela situação. Foi entĆ£o que, no banheiro do estacionamento do posto de gasolina, reconheceu que se o seu corpo estava machucado, parecia que sua alma havia cicatrizado. Ali mesmo, ajoelhou-se, pediu socorro a Deus e agradeceu por ainda estar viva. Entre lĆ”grimas, pediu perdĆ£o por todos os seus pecados, especialmente o da carne, que a levou a cometer tantos desatinos nos Ćŗltimos meses, contra si e contra seus amigos e parentes.Ā
Então levantou-se, lavou o rosto, olhou-se no espelho e percebeu que, apesar de todas as besteiras que fizera, ainda estava viva. Tomou a firme decisão de nunca mais aceitar de ninguém nada menos do que respeito. Decidiu viver um dia de cada vez.
Retomando a estrada, voltou para sua casa. Foi Ć polĆcia e prestou queixa contra Marquinhos, decidindo que jamais a retiraria. Pediu medida protetiva contra ele, tirou de sua vida tudo que pudesse acionar qualquer gatilho emocional. Mandou instalar alarmes e cĆ¢meras em sua casa. E decidiu viver um dia de cada vez.
Conscientizou-se de que não estava sozinha, e tratou de ir buscar as amizades perdidas, e, principalmente, fez as pazes com Deus. Passou a agradecer por cada dia livre daquele monstro.
A caminhada nĆ£o foi fĆ”cil, atĆ© porque Marquinhos usou vĆ”rios amigos, pessoas que ele manipulava, para irem atĆ© Regina expressar o quanto ele estava sofrendo e arrependido com a separação. Regina estudou sobre o assunto, passou a assistir vĆdeos sobre narcisismo e psicopatia, e entendeu que estivera doente, muito doente, e aderiu ao chamado contato zero com tudo que pudesse acionar qualquer gatilho psicológico em relação a ele.
Era um domingo de manhĆ£, quando ela, depois de uma noite agradĆ”vel na companhia dos amigos, abriu o jornal e passou a ler as manchetes. Quando chegou Ć pĆ”gina policial, levou um choque: a foto de Marquinhos estava lĆ”! A manchete dizia āassassinado em briga de barā. Recuperando-se do choque, ela leu a notĆcia, parece que eleĀ mexera com uma mulher casada, e o marido, jĆ” alcoolizado, desferira-lhe a facada mortal.Ā
AtĆ© hoje, Regina atua na conscientização de mulheres contra a violĆŖncia domĆ©stica.Ā
