PENA DE OURO 2024 | CONHEÇA OS VENCEDORES: JORGE FERNANDO DOS SANTOS — 1º LUGAR CATEGORIA CONTO
- Casa Brasileira de Livros

- 14 de ago. de 2025
- 27 min de leitura

SOBRE O AUTOR
Jorge Fernando dos Santos é de Belo Horizonte. Jornalista, escritor e compositor, tem mais de 100 músicas gravadas e 51 livros publicados, entre eles o romance Palmeira seca (Prêmio Guimarães Rosa em 1989, adaptado para teatro e minissérie, também lançado na Argentina), As cores no mundo de Lúcia (finalista do Prêmio João de Barro em 2006), Condomínio solidão (menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte em 2012), Ave viola - Cordel da viola caipira (Prêmio Rozini em 2013), Alguém tem que ficar no gol (finalista do Prêmio Jabuti em 2014), Vandré - O homem que disse não (finalista do Prêmio APCA em 2015), Belo Horizonte em letra e música (indicado ao Prêmio AML - Academia Mineira de Letras em 2024), Cordel da MPB, Travessia no tempo e Cordiais saudações, Noel Rosa. Entre 1984 e 2008, foi colunista de teatro e cinema, cronista, articulista, repórter e editor de cultura, revistas e suplementos no jornal Estado de Minas. Colaborou em publicações da Fundacen, Suplemento Literário do Minas Gerais, revista Mundo Fiat e vários outros veículos, tendo sido também editor da Revista do Sebrae-MG.
O CONTO VENCEDOR (1º LUGAR)
E por falar no diabo
“No princípio eram as trevas e um imenso vazio. E Deus mandou que se fizesse a luz. E a luz se fez, corrompendo a escuridão. E esta, sem ter aonde se refugiar, habitou o coração dos homens.”
Se me lembro bem, foi exatamente isso o que ele me disse, tão logo se deitou no divã naquela tarde de sexta-feira. Achei que estivesse brincando ou apenas repetindo um pensamento anônimo, desses que vagam pelas redes sociais. Explicou que aquele seria o primeiro parágrafo de suas memórias. Na medida em que os minutos avançaram na primeira sessão, acrescentou observações confusas a respeito de Deus e da humanidade.
Realmente, esse cara precisa de terapia, falei comigo mesma ao notar aquele olhar triste de quem está à beira do abismo. E como se lesse meu pensamento, o estranho sorriu e disse que havia me procurado exatamente por isso. Para minha nova surpresa, o sujeito conhecia de cor o meu currículo, com detalhes dos quais nem eu mesmo me lembrava. Sabia até o nome dos professores e de alguns dos meus ex-colegas de faculdade.
Afirmou ter lido minha dissertação de mestrado sobre os efeitos devastadores do alcoolismo no âmbito familiar. Disse que o tema lhe dizia respeito, já que o livro adaptado do texto acadêmico se chama O diabo ao longo dos tempos. Devo esclarecer que a palavra “diabo”, nesse caso, refere-se ao “diabo da garrafa” e ao efeito do álcool na vida das pessoas. Ele também me parabenizou pelo doutorado em Filosofia, que defendi na Sorbonne.
O cara tinha pinta de executivo e aparentava quarenta e poucos anos. Era alto, de ombros largos, barba e cabelos escuros um pouco grisalhos, nariz aquilino... A pele era queimada de sol e os olhos, negros, de brilho intenso e melancólico. Usava terno preto bem cortado, camisa branca e gravata de seda vermelha. Botas pretas italianas, muito lustrosas, bom que se diga.
Seu perfume era suave e incrivelmente másculo. A voz de barítono tinha um timbre áspero, mas ao mesmo tempo agradável. Seus dedos eram longos e as unhas, bem cuidadas. Quando nos cumprimentamos, assim que adentrou o consultório, senti a palma de sua mão quente como se estivesse febril. Usava no anelar direito um anel de ouro com uma pedra negra.
Perguntei se era casado. Respondeu-me que havia conhecido muitas mulheres, “no sentido bíblico”, ressaltou. Sua favorita havia sido Cleópatra, embora não pudesse esquecer Salomé. Não a de João Batista, mas a outra, pela qual perderam a cabeça o filósofo Nietzsche e o poeta Rilke. Também afirmou ter descendentes espalhados pelos quatro cantos do mundo, mas preferia viver sozinho a maior parte do tempo. Confessou-me ser movido pelo desejo de sedução, a exemplo de seu saudoso amigo Giovanni Casanova.
Quando indaguei o seu nome, ele titubeou como se sofresse de amnésia. No entanto, com um sorriso enigmático no canto dos lábios, disse que eu poderia chamá-lo como quisesse. Habituara-se a vários nomes, mas achava que nenhum deles traduzia seu verdadeiro caráter ou jeito de ser. E acrescentou que o significado do nome geralmente expressa a natureza da pessoa. Justamente por isso ele havia me procurado. Disse que “Lúcia” vem do latim, lux, razão pela qual me via como a esperança de luz para sua vida atribulada e obscura, marcada por incompreensões de todo tipo.
“O nome é um mantra que molda a personalidade do nomeado”, acrescentou, olhando-me no fundo dos olhos, o que me deixou encabulada. Depois começou a divagar sobre seus supostos apelidos. Disse que a palavra “demônio” vem do grego daimon e significa conhecimento ou inteligência. Já o termo “Lúcifer” deriva do latim, lucem ferre, portador da luz ou da claridade. Esse seria seu nome de fato, pois fora criado como o mais belo dos arcanjos. “Satã”, que originou o termo “Satanás”, tem raízes no hebraico e significa questionador ou, simplesmente, o que se opõe a determinada ideia. “Diabo”, por sua vez, é aquele que divide em dois. É o número da confusão, que somado ou multiplicado por si mesmo resulta no mesmo algarismo. Daí veio a expressão popular “o diabo a quatro”.
Depois de um breve silêncio, desviou o olhar para o lustre pendente do teto e disse que, se fosse do meu agrado, poderia chamá-lo de Sued. Não consegui conter o riso diante do irônico anagrama. Ele ergueu a sobrancelha direita com tanta expressão que achei que tivesse se ofendido. Antes que me desculpasse, disse ter se acostumado com aquele tipo de reação das pessoas.
“Vocês, humanos, nunca me surpreendem”, comentou em seguida.
... Não, em momento algum exprimiu arrogância. Tudo o que dizia fazia certo sentido, e sua presença impunha respeito, sem dúvida. Em alguns momentos, parecia um artista famoso, um tipo de celebridade ou ídolo do cinema. Suas alegações soavam com tanta sinceridade aos meus ouvidos, que, na maioria das vezes, eu me sentia tentada a não duvidar dos seus devaneios e excentricidades. Ele discursava bem, revelando cuidado na escolha das palavras. Sem dúvida, tem o dom da oratória, concluí. Era um bom conhecedor do idioma, certamente habituado à leitura dos clássicos. Enfim, um homem de cultura, um intelectual mentalmente perturbado.
Quando perguntei qual era sua profissão, Sued sorriu novamente, dizendo-se senhor de vários ofícios exercidos ao longo dos tempos. Sugeri que escolhesse um deles para constar de sua ficha de paciente e fui autorizada a escrever “advogado”. Eu quis saber em que faculdade havia estudado, e ele se disse autodidata, “formado na escola da vida por notório saber”, ressaltou. Em vez de contratar um “advocatus diaboli”, preferia defender a si mesmo das acusações que a humanidade sempre lhe fizera. Questionei a que acusações ele se referia e a resposta pareceu confirmar o diagnóstico de alucinação do qual eu já havia suspeitado. Depois de um breve silêncio, perguntou-me se alguma vez eu tinha lido a Bíblia. Respondi que só conhecia alguns trechos do Novo Testamento, lidos ainda na infância.
“Eis o problema, doutora Lúcia”, comentou. “Quase ninguém tem paciência para ler ou interpretar um catatau daquele. Quem o faz, geralmente leva tudo ao pé da letra, sem vislumbrar as entrelinhas. A maioria se atém à superfície do texto, tendendo sempre a acreditar cegamente na versão oficial das histórias narradas.”
Depois de um breve silêncio, prosseguiu:
“A Bíblia é a biografia autorizada de Deus. Funciona feito uma peça publicitária. Parece natural que os autores tenham escrito somente o que fosse favorável ao protagonista. Para justificar as falhas divinas, atribuíram os erros da criação à minha triste figura. Mas isso eu sempre relevei, desde o início dos tempos. Afinal de contas, melhor ser o vilão do que o bobo da corte ou um mero coadjuvante na grande comédia da existência. O problema é que nunca me ouviram a respeito de nada. Jamais fui consultado sobre qualquer episódio do Livro Santo. Logo eu, testemunha ocular da criação.”
Em seguida, explicou que na visão de profetas e apóstolos a espécie humana é tão limitada que ninguém seria capaz de compreender os segredos divinos sem culpar alguém pelo pecado ou pelas falhas da natureza.
“Fizeram-me de bode expiatório, aquele que deve ser sacrificado para que os outros sobrevivam ao peso da própria consciência”, acrescentou.
“Mas consta que não foi um bode, mas o Cordeiro de Deus que morreu na cruz para lavar os pecados do mundo no próprio sangue.”
“Essa versão é ensinada no catecismo. No entanto, se ninguém tivesse cometido a anunciada traição, a história com certeza teria sido outra. Minha interferência ao tentar Judas Iscariotes garantiu o cumprimento da profecia.”
“Interferência? ”
“Sim, pois semeei a inveja e a presunção no coração daquele zelote. Sugeri que beijasse a face do Mestre para identificá-lo diante dos homens de Herodes Antipas, o tetrarca da Galileia e da Pereia. Mas confesso ter fraquejado ao antever o que viria depois. Foi por isso que entrei em cena no momento em que o Nazareno jejuava em busca de forças para o gran finale. Ofereci-lhe o reino terrestre para que desistisse de Sua divina missão.”
“Pelo que sei, foi-Lhe sugerido que transformasse pedras em pães.”
Sued pigarreou antes de retrucar:
“Eis a metáfora, doutora. Sugeri que transformasse a dor física em alimento do espírito... Mas, por favor, não me interprete mal. Não fiz isso por compaixão ou simpatia, de jeito nenhum. Eu apenas tentei evitar o pior.”
“Como assim?”
“Uma vez crucificado, o Filho do Homem se tornaria um poderoso argumento contra as minhas artimanhas, e isso resultaria no meu inferno particular, o que no final das contas acabou se concretizando. Mas foram os seres humanos que o crucificaram, e com uma crueldade surpreendente, devo salientar. Aliás, por minha sugestão, Pilatos ofereceu ao povo a chance de livrá-Lo do suplício. No entanto, a turba ensandecida preferiu salvar o ladrão e assassino Barrabás. Eis uma prova de que a democracia tem lá seus escorregões, não é? Mas não tive nada a ver com tanta brutalidade, pode acreditar. Até porque o sofrimento do Cristo inspiraria a adoração nos futuros cristãos, e isso, de fato, me seria prejudicial. Em vez de fazer mea culpa, até hoje me acusam pelos pecados da humanidade.”
“E quanto a Judas, foi você que o convenceu a se enforcar, não foi?”
“Judas era um fraco, essa é que é a verdade. Com as moedas de prata pagas por Caifás, ele poderia ter fundado uma religião, construído um templo ou quem sabe o próprio Vaticano. Teria ficado biliardário, como tantos outros que vendem a palavra de Deus à vista e me entregam a prazo a própria alma. No entanto, o infeliz preferiu o caminho mais fácil para se livrar da culpa... Eu apenas o ajudei a encontrar a árvore na qual pudesse amarrar a corda.”
“Você condena as religiões?”
“De jeito nenhuma. Elas falam em nome de Deus, mas, no final das contas, olhando pelo lado prático da coisa, estão sempre a meu favor. Quase todas foram fundadas em nome Dele e em nome Dele sacrificaram mais vidas do que em meu nome. O melhor exemplo foram as famosas Cruzadas. Tamanha eficiência me causa uma certa inveja, devo admitir. E não podemos nos esquecer das fogueiras da Inquisição e do terrorismo islâmico. Por outro lado, os pastores sempre evocaram o meu nome na intenção de amedrontar suas ovelhas. E é justamente dessa forma que eles me glorificam.”
Em seguida, Sued fez um longo silêncio. E antes que voltasse a falar, o cronômetro anunciou o fim da primeira sessão.
*
Na semana seguinte, conforme havíamos agendado, Sued voltou ao consultório para continuarmos o tratamento. Elegante como sempre, dessa vez usava terno cinza, camisa branca e gravata preta riscada de amarelo. Inicialmente, sentou-se no divã e ficou calado, com os olhos fixos na pintura que mantenho na parede atrás da escrivaninha.
Comprei aquele óleo sobre tela num antiquário em Paris, quando fazia o doutorado na Sorbonne. É uma pintura em estilo impressionista, com pinceladas nervosas que retratam um bando de cavalos selvagens em plena corrida. Os alazões avançam do fundo da tela como labaredas, incendiando a paisagem ressequida na qual predomina uma profusão de verde, amarelo, branco e marrom, tendo acima um céu azul-esverdeado. A cena parece uma explosão de vida em movimento. Dependendo do ângulo de visão, é como se aqueles animais pudessem escapar da tela, saltando sobre as nossas cabeças.
“Gosta desse quadro?”
Sued olhou-me fundo nos olhos e comentou que o equino é uma das obras-primas da criação. Disse que o considera o melhor amigo do homem, embora o cachorro tenha levado a fama.
“Os cavalos serviram à humanidade na paz e na guerra, desde o início da civilização”, ressaltou num tom quase didático. “Ensinam aos homens que é possível conciliar força, elegância e servidão no seu modo de ser.”
Depois de um breve silêncio, concluiu, deixando-me de queixo caído:
“Foi por isso que eu pintei essa tela.”
“Como assim, você pintou?”
“Saiba que fui aluno do mestre Renoir. Levei quase três meses para concluí-la. Na verdade, assinamos um pacto. Ele me ensinaria a pintar e, em troca, eu o tornaria imortal. Meu nome artístico era Ranolfo de Córdoba. Um pintor anônimo, completamente ignorado na História das artes.”
Era fácil dizer isso, estando legível a assinatura do artista na parte direita inferior do quadro. No entanto, como se novamente adivinhasse meu pensamento, Sued recomendou que eu lesse a anotação atrás da tela.
“Toile de Ranolfo de Córdoba, Paris, printemps 1892, atelier du maître Pierre-Auguste Renoir”, acrescentou em perfeito francês, movendo a mão esquerda, como se escrevesse no ar com um pincel invisível.
Claro que não levei a sério a suposta brincadeira. Ele às vezes parecia fanfarrão, alguém capaz de rir dos próprios dramas e de brincar com a imaginação e os sentimentos do interlocutor. Movida pela curiosidade e pelo desejo de contradizê-lo, levantei-me da poltrona e fui até o fundo da sala. Tirei o quadro da parede branca e, cuidadosamente, deitei-o de frente sobre a escrivaninha para conferir o avesso da tela amarelada pelo tempo. À primeira vista, vi apenas um borrão, como se alguém tivesse tentado desmanchar o que fora escrito.
“Não tem nada aqui”, constatei.
“Por que não examina com a lupa que está na sua gaveta?”
Como é que ele sabe da lupa na escrivaninha?, quase resmunguei. Seja como for, acatei a sugestão e, ao fazê-lo, senti um arrepio. Pude decifrar, através da lente, a frase borrada que ele tinha acabado de dizer. Sued estava certo, e eu, milionária. Afinal, tinha na parede do meu consultório uma antiguidade, cuja importância histórica certamente havia escapado aos donos do antiquário onde a comprei por uma bagatela.
“Mas como isso é possível?”, indaguei, deixando o quadro na mesa e voltando a me sentar na poltrona. “Deve ser um truque. Você deve ser um ilusionista, como o famoso Houdini.”
“Houdini foi meu aluno, mas cada um que acredite no que quiser. Chamamos a isso livre-arbítrio, qualidade que sugeri a Deus quando criou a humanidade. Aliás, meu intuito foi apenas tornar a coisa mais divertida.”
“Como assim, divertida?”
“Ora, doutora Lúcia, o humor é uma invenção de minha lavra. Se realmente tivesse lido a Bíblia, ou pelo menos parte dela como me disse na semana passada, saberia que Deus é demasiadamente carrancudo, incapaz de dar um sorriso.”
Nessa hora, devo confessar que fiquei ainda mais perplexa e incomodada. Com quase duas décadas de consultório, nunca tinha me deparado com um paciente tão relutante em suas fantasias. Sued dizia aquele tipo de coisa com profunda convicção, como se fosse capaz de enganar até mesmo um polígrafo.
“Não, eu não sofro de alucinação nem sou esquizofrênico”, disse ele, novamente adivinhando meu pensamento. “Apenas me sinto decepcionado com a humanidade. Tenho assistido a coisas que me levam a questionar meu verdadeiro papel na divina comédia. Sinto-me velho e entediado, essa é que é a verdade. E foi isso o que me trouxe aqui.”
“Velho e entediado? Mas você ainda é jovem e parece saudável.”
“Sempre fui cuidadoso na escolha do aparelho.”
“Aparelho?”
“O corpo através do qual me manifesto quando quero falar aos mortais.”
Lembrei-me das religiões espiritistas, que acreditam em entidades incorporadas nos vivos. Resolvi dar corda àquele raciocínio para ver até onde ele ia.
“Então esse corpo não é seu?”
“Claro que não.”
“E a quem ele pertence?”
“Àquele ao qual foi emprestado por Ele”, disse, apontando para cima.
“Poderia ser mais explícito?”
“Esse é um dos problemas da sua espécie. Dizem meu corpo, meu braço, meu espírito e acham-se donos do próprio nariz.”
“E por acaso não somos?”
“Não, doutora, tudo isso é apenas um empréstimo. Se assim não fosse, não estariam de passagem. Aliás, todos já estão mortos desde sempre.”
“Você é um tanto niilista, não acha?”
“Nada disso. Apenas não acredito na verdade absoluta. Existem, sim, pontos de vista em torno dos fatos, e fato é que nada pertence a quem quer que seja. A não ser pela consequência de suas escolhas, todo o resto pertence a Ele”, disse Sued, apontando novamente para o alto. “Cada qual será julgado segundo os próprios atos. E ainda que esses atos tenham sido praticados em nome de alguém ou de alguma crença, o preço será cobrado de quem os praticou. Como foi escrito, cada um colhe o que planta.”
“E o livre-arbítrio ao qual você se referiu?”
“É dele que ainda estamos falando. Trata-se da única coisa a que vocês têm direito. E é a mim que devem agradecer. Deus, ou ‘de eus’, é o patrão vosso de cada dia, senhor absoluto da vida e da morte. Como os gnósticos já sabiam, Ele é vaidoso e jamais admitiu críticas à Sua criação. Um egocêntrico e temperamental, como todo artista que se preza.”
“Egocêntrico e temperamental?”
“Exato... Veja bem. Depois de criar o céu e a Terra, Ele sentiu falta de alguém que pudesse contemplar a Sua obra. Foi quando começou a criar os animais. Afinal de contas, os anjos são funcionários burocráticos, bajuladores e nada contemplativos. Jamais seriam sinceros com o patrão. Por sua vez, as plantas e os minerais são desprovidos de consciência, aquela fagulha a que chamamos de alma. Já os bichos, por não serem pensantes, não podem admirar o que quer que seja. Então, sugeri a Ele a criação de um ser inteligente, feito à Sua imagem e semelhança. Algo cuja sensibilidade pudesse ultrapassar o instinto animal e a vocação serviçal dos anjos. Pena a minha ideia ter sido um fiasco.”
“Como assim?”
“Adão e Lilith foram feitos de barro, um após o outro. Tão logo receberam o sopro divino, tinham tudo para ser os favoritos do Pai. Mas Lilith era de natureza rebelde e muita impulsiva. Era vaidosa e questionadora, e simplesmente se recusou a servir ao companheiro e ao próprio Criador. Livre pensadora e de espírito aventureiro, pulou o muro, literalmente. Sem que ninguém esperasse, fugiu do Éden, deixando o marido a ver navios.”
“Eu não sabia que Adão teve outra esposa antes de Eva”, exclamei.
“Sim, Lilith foi a primogênita das mulheres e acabou se tornando a primeira feminista da História. Por isso a Igreja criada por Constantino a excluiu da Bíblia. Mas, retomando o fio da meada, depois que ela se foi, Adão ficou desolado. Vendo a sua angústia, sugeri ao Criador que lhe desse uma segunda chance. Isto é, uma outra esposa, não mais de barro, mas feita com um osso retirado do corpo do pobre homem. Dessa forma ele teria total domínio sobre ela. Deus, então, consultou Adão se poderia arrancar-lhe a tíbia, e ele disse que não. Perguntou se poderia arrancar-lhe uma vértebra, e ele disse não, mais uma vez. Depois de outras recusas, o próprio Adão finalmente teve uma ideia original: ‘Veja o que pode fazer com uma costela’, sugeriu. E assim nasceu Eva, bela e feminina. E, diante de tal formosura, Adão se rejubilou dizendo: ‘Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada’.
“Nos primeiros tempos, o casal de humanos viveu em perfeita harmonia com a natureza. Isso durou até o dia em que Gabriel, enciumado com a atenção que Deus lhes devotava, trombeteou que cedo ou tarde a nova fêmea humana mostraria suas garras. Achei aquilo uma postura misógina imperdoável e apostei que aqueles dois eram as obras-primas da Criação. Seres nobres e incorruptíveis, ambos resistiriam a qualquer tentação, por mais tentadora que fosse. Para colocá-los à prova, transformei Lilith numa serpente e sugeri a ela que oferecesse a Eva o fruto proibido. Eu tinha certeza que a nova mulher jamais trairia a confiança de Deus. No entanto, eu estava errado.”
“Conheço o mito.”
“Mas não conhece o outro lado da história, não é?”
“E qual seria o outro lado?”
“Vamos lá. Depois de ceder à tentação, Eva engoliu a isca. Ela não só comeu, como convenceu Adão a provar do fruto proibido. E ao tomar consciência do bem e do mal, ambos adquiriram ego, deixando de contemplar a criação divina com inocente passividade. Tornaram-se, por assim dizer, críticos por excelência. Críticos! Uma espécie nefasta para a qual eu reservei um lugar especial no inferno... Criativo, o casal tratou de inventar o Kama sutra e cismou de modificar a natureza para melhor adaptá-la às suas necessidades. E assim nasceu o pecado original. Diante disso, Gabriel, mais uma vez, alertou que cedo ou tarde aqueles dois comeriam o fruto da árvore da vida eterna. Se isso ocorresse, viveriam para sempre, subvertendo a ordem natural do Cosmos e ambicionando o trono de Deus. Portanto, pelo bem da criação, deveriam ser expulsos do Paraíso. Dessa vez, o Criador deu ouvidos ao arcanjo e ordenou que homem e mulher fossem despachados para a Terra. Quanto a mim, que já era malvisto no céu, fui condenado a acompanhar os infelizes na sua queda vertiginosa...
“Mas a coisa não parou por aí, a senhora sabe. Adão e Eva tiveram três filhos, embora a Bíblia só conte a história de Abel e Caim. Como é do conhecimento de todos, esses dois nunca se deram bem desde a infância. A tragédia era algo previsível. Deus só aceitava as oferendas do primeiro, que era pastor, e rejeitava os sacrifícios do outro, um pequeno agricultor que não tinha onde cair morto. E assim brotaram o ciúme e a inveja no coração de Caim. Pouco a pouco, o ressentimento foi crescendo dentro dele, até que finalmente assassinou Abel, esmagando-lhe o crânio com uma queixada de burro. Desde então, pecuaristas e agricultores pobres vivem se pegando. Estão aí os ruralistas e o sem-terra que não me deixam mentir.”
“Pelo visto, você não acredita na teoria de Darwin”, comentei.
“Eu diria que Darwin exagerou um pouco. Era só uma piada que lhe contei, mas sabe como são os cientistas...”
“Você é muito pessimista quanto à humanidade”, provoquei.
“Nem tanto, doutora Lúcia. O mal que causei até hoje à sua espécie foi uma forma de vingança pela minha queda. Mas, apesar disso, também pratiquei boas ações, pode acreditar.”
“Cite uma delas, por favor.”
“Pensa que foi Ele que salvou Isaac de ser sacrificado por Abraão?”
“E não foi?”
“O patriarca era muito dedicado à crença e Deus resolveu testá-lo. Por mero capricho, ordenou que sacrificasse Isaac, seu amado primogênito. Na última hora, antes que a desgraça se cumprisse, avisei ao bom homem que a simples intenção do sacrifício já era suficiente aos olhos do Criador. Antes disso, eu já tinha socorrido Moisés e seu povo na fuga do Egito.”
“Não me diga! E como foi que fez isso?”
“Na verdade, foi por acaso. O tsunami que provoquei para arrasar Atlântida provocou a abertura do Mar Vermelho, a milhas de distância.”
“Ajudou o povo de Deus mesmo sem querer?”
“Exatamente. Mas o lado bom da história é que os soldados do faraó morreram afogados, e eu me regozijei com isso.”
“Posso saber por quê?”
“Por uma simples razão. Os egípcios, assim como os atlantianos, adoravam a tantos deuses que nem me davam bola. Já eram suficientemente enganados pelos sacerdotes de plantão... Não captou a ideia? Ora, a minha existência só faz sentido no monoteísmo, no qual o homem se equilibra numa corda bamba. Alguém tem que segurar a outra ponta, não é mesmo? Se Deus é Aquele que é, eu sou aquele que está. E é por isso que estou entre vocês.”
“Sentiu prazer em sacrificar um exército inteiro?”
“Sacrificar a humanidade tem sido o meu propósito desde a minha queda neste vale de lágrimas. Pelo menos foi assim no começo, sabe? Com o passar dos séculos, a crueldade humana saiu de controle a tal ponto que eu perdi a razão de ser. Tanto que Ele tentou pingar um ponto final em tudo. Foi quando decidiu provocar o grande dilúvio. Até mesmo a família de Noé deveria ser varrida do mapa. No entanto, do meu ponto de vista, o mundo sem os homens perderia a graça. Por isso convenci o sujeito a entrar na arca com a mulher, os filhos e a sogra. Verdade que na última hora ele deixou a velha para trás. Dos males, o menor, convenhamos.”
“Está me dizendo...”
“Exatamente, doutora. Deus queria salvar os animais e as plantas. Os homens estavam todos condenados à extinção, mas eu me afeiçoei de tal maneira à sua espécie que achei um desplante, um verdadeiro desperdício. O mundo sem os homens não faria sentido. Afinal de contas, nenhum outro bicho comete pecados. Mas, com o passar dos séculos, descobri que o Criador estava certo. Os homens são movidos por vaidade e desejo. Tanto que quando não têm do que se exaltar, vangloriam-se da própria humildade. A vaidade é a raiz de todos os males e por isso é o meu pecado favorito.”
Nesse ponto, a conversa foi interrompida pelo cronômetro.
*
A terceira sessão não foi diferente. Sued continuou devaneando sobre coisas que eu mal compreendia. Estava mesmo convencido de sua natureza diabólica, e o pior é que eu também comecei a me convencer. De fato, sua narrativa escapava à lógica científica, mas a sinceridade e a clareza de suas declarações me deixavam perplexa, já que revelavam certa lucidez na linha de raciocínio. E assim ele prosseguiu:
“Durante toda a História, os piores males da humanidade me foram atribuídos. Na Idade Média, por exemplo, os religiosos me culpavam pelos pecados cometidos por homens e mulheres, dentro e fora da Igreja. Alguns infelizes foram mortos na fogueira, mas isso não foi suficiente para aplacar a sede de sangue e me inocentar das infames acusações. Chegaram a me responsabilizar pela peste bubônica, mesmo deduzindo que a matança dos gatos foi o que a fez proliferar. Afinal, a população de ratos quadruplicou nas grandes cidades. E olha que os felinos sempre foram da minha predileção. Tanto que inspirei Edgar Allan Poe a escrever O gato preto.”
“Sei... Mas a humanidade evoluiu muito, você há de concordar.”
“Nem tanto, doutora. O que evoluiu foram as condições tecnológicas. Na Pré-História, os homens se matavam com pedras, lanças e tacapes. Depois inventaram o arco e flecha, a balista e a catapulta. Mais tarde, a descoberta da pólvora e a invenção das armas de fogo aumentariam a eficácia das carnificinas. Hoje, os mísseis de longo alcance substituem tudo isso com extrema eficiência. Não por acaso, têm a forma fálica das bordunas.”
“Convenhamos que o pessimismo só agrava os problemas.”
“Não sou pessimista, eu insisto. Apenas encaro a realidade dos fatos com a devida frieza que merecem. Sabia que uma das minhas principais diabruras foi ditar O capital ao velho Marx?... Não, não fique tão perplexa! Na verdade, embora materialista, ele era um bom psicógrafo. Estou falando do filósofo alemão, naturalmente, e não do Grouxo. Até porque os humoristas não precisam de mim, pois já são suficientemente endiabrados.”
“E por que você fez isso?”
“Por um bom motivo, é claro. Dessa forma inventei o materialismo dialético, um modo perspicaz de fazer os homens sonharem com o paraíso na Terra, não mais no céu. Eu queria também sacanear os banqueiros, cuja ganância ultrapassa os meus moldes, diga-se de passagem. Mas o problema é que não antevi figuras execráveis como Stalin e Mao Tsé-Tung, dois nanicos que se fizeram adorar como deuses. Posso assegurar que não tenho nada a ver com o Arquipélago Gulag nem com a Revolução Chinesa. Aqueles dois foram muito originais e eu não gosto de concorrência.”
“Então o diabo se interessa por política”, deduzi, sarcasticamente.
“Mas é claro! Não só me interesso como a inventei. Só não contava que os políticos pudessem ser mais diabólicos do que eu. Essa é mais uma prova de que a maldade humana supera os meus parâmetros. Na Segunda Guerra, os croatas foram tão cruéis com os sérvios que os próprios oficiais da SS alemã intervieram contra a barbárie.”
“Acompanhou a Segunda Guerra de perto?”
“De muito perto, eu diria. Inspirei as ideias da propaganda nazista ao doutor Joseph Goebbels. O problema é que aquele baixinho coxo e arrogante ultrapassou os limites da sanidade. Apoiou a chamada solução final, o que, naturalmente, contribuiu para a derrota psicológica dos alemães.”
“Não estou entendo.”
“É muito simples. Imagine só, perseguir o povo de Deus daquele jeito. Tem cabimento? O Cara lá em cima ficou furioso e por isso guiou os aliados no desembarque da Normandia e exagerou no inverno russo.”
“Mudando de assunto, é a primeira vez que você faz terapia?”
“Oh, não! A primeira tentativa foi com o doutor Sigmund, na época em que morei em Viena.”
“Está dizendo que foi paciente de Freud?!”
“Sigmund para os íntimos, em carne e osso. Mas o velho resmungão estava sempre ocupado, fumando charutos e escrevendo livros. Só depois de muita insistência da minha parte é que ele arranjou um tempinho na agenda.”
Diante de tal informação, procurei esticar a corda para ver até onde o paciente chegaria.
“Escolheu logo o pai da Psicanálise”, provoquei.
“Veja bem, doutora: Freud não foi exatamente o pai da coisa.”
“Como assim?”
“Fui eu quem o inspirou na descoberta do inconsciente, e a partir daí ele fez História. Mas o fato é que o arrogante não me levou a sério quando o procurei para me consultar. Parecia cansado, talvez devido ao uso prolongado de cocaína ou ao câncer que já se pronunciava no céu de sua boca. Não era para menos. Pensei em alertá-lo sobre os malefícios do tabaco, mas não cedi à tentação. Até porque eu sempre detestei o céu, não importa qual seja. Por outro lado, o médico era ele e eu nunca fui de ensinar o pai-nosso a vigários.”
“Posso saber até que ponto Freud conseguiu ajudá-lo?”
“Depois de algumas sessões, ele veio lá com aquele discurso pronto sobre o complexo de Édipo. Tentei explicar que os anjos, mesmo depois de caídos, somos todos órfãos.”
“E ele?”
“Egocêntrico e materialista, Sigmund argumentou que, se eu fosse de fato um anjo, Deus seria ao mesmo tempo minha mãe e meu pai. Sendo assim, talvez eu alimentasse por Ele um dúbio desejo de pulsão e morte. Diante de tal blasfêmia, explodi numa gargalhada, coisa que não estou habituado a fazer, diga-se de passagem. Cheguei à conclusão de que estava perdendo o meu tempo com aquele velho tarado e nunca mais voltei a vê-lo.”
“Devia ter insistido. O processo psicanalítico exige paciência e pode durar uma vida inteira”, ironizei.
“Convenhamos que, no meu caso, seria uma eternidade inteira. Mas o fato é que não desisti de buscar ajuda, não senhora. Dias depois, fui bater na porta do Carlos Gustavo.”
“Carlos Gustavo? Você se refere ao Dr. Jung?”
“O próprio. Ouvi dizer que ele acreditava na eficácia dos oráculos, que, por sinal, foram invenções minhas para iludir homens e mulheres quanto ao destino.”
“Sei... E como foi a consulta?”
“Foi mais uma perda de tempo.”
“Pode explicar?”
“Carlos Gustavo disse que o diabo não existe e que eu certamente sofria de alguma doença psíquica, cuja causa estaria sincronizada com o inconsciente coletivo. Propôs estudar o meu caso e me convidou a velejar no lago, perto do hospital onde trabalhava. Lembrei-me do seu caso com a jovem Sabina Spielrein e nunca mais o procurei. O sujeito se envolvia com pacientes e, francamente, não fazia o meu tipo.”
“É preciso que o cliente colabore com o terapeuta.”
“Tudo bem, mas há que se ter um limite, concorda? Além do mais, tenho pavor de hospitais”, ressaltou o pobre diabo. “Mudando de assunto, certa vez um sujeito chamado Fausto evocou o meu nome na intenção de me propor um pacto. Ele queria que eu lhe concedesse a eterna juventude e um pouco de sabedoria em troca de sua alma pecaminosa. Achei graça naquilo e logo o descartei.”
“Posso saber por quê?”
“Ora, doutora, o inferno está cheio de narcisistas. A senhora deve imaginar que não é fácil conviver com essa gente que só tem olhos para a própria imagem refletida no espelho. Mas, apesar da minha recusa, todos pensam que assinamos o contrato. Culpa de Goethe, a quem detalhei o caso. Era para ser apenas uma fábula, mas o poeta a escreveu com tanto esmero que os leitores passaram a acreditar que era verdade. Levou sessenta anos para concluir a peça, sabia? Pena ter mudado o enredo, levando a crer que Fausto era meu protegido e que me enganou no final das contas.”
“Conheceu Goethe pessoalmente?”
“Não apenas ele, mas muitos outros de sua nobre estirpe. Nunca me esquecerei, por exemplo, da visita de Dante a Dite, a capital do inferno, guiado pelo grande Virgílio. Sabe, os poetas são os únicos que podem transitar no além sem pagar pedágio.”
“E por que o privilégio, posso saber?”
“A poesia é filha da tormenta, e os poetas são movidos pela paixão. Vivem uma vida sofrida e caótica, o que serve para purgar seus pecados. Mas, voltando à questão do pacto, assinei contrato com muitos músicos. Entre eles, Paganini, que, apesar do nome, nunca me pagou.”
“O violinista? Perdoe-me, mas não posso acreditar”, reagi.
“Sem problema. A mim me interessa mesmo que as pessoas sejam incrédulas. Contudo, a realidade não é o que você imagina. Sua espécie se subestima diante da maldade e por isso me culpa pelos próprios pecados, essa é que é a verdade. De fato, Paganini era um gênio e no, final das contas, conseguiu me passar a perna igual ao personagem de Goethe.”
“Em que sentido?”
“Antes de me procurar, o sacana havia feito um acordo com Deus, a quem devolveu a alma tão logo desencarnou.”
“Nunca entendi essa coisa de pacto de músicos com o diabo.”
“É muito simples. Antes da queda, eu era o mestre de harmonia nas hostes celestiais. Minha ligação com a música e a poesia sempre foi visceral e sempre estive disposto a ensinar o que sei mediante um módico pagamento. Alguns ganharam fama depois de me contratar.”
“São apenas lendas medievais”, argumentei.
“Mas a coisa funciona, pode acreditar. Robert Johnson e Keith Richards que o digam. Não tocavam nada antes de me evocar. Essa foi a maneira que encontrei de me manter ligado à música depois de ter sido despejado do céu. Aliás, naquele dia, Gabriel perguntou a Deus por que não me destruía em vez de simplesmente me exilar. Sabe qual foi a resposta?”
“Qual?”
“O inferno precisará de um gerente.”
Quando a sessão terminou, Sued se foi e eu mal consegui prestar atenção no paciente seguinte.
*
É muito comum o cliente se sentir atraído pelo terapeuta no início do tratamento. A atração é uma espécie de transferência e resulta de certa dependência psíquica. Mas, com o tempo, isso passa. Pouco a pouco, os papéis vão se firmando na relação médico-paciente, e os resultados da terapia começam a surgir naturalmente. No caso de Sued, a coisa ocorreu de modo inverso. Em vez de se sentir atraído por mim, eu é que me deixei levar pelo seu charme, sua conversa e sua aura de mistério.
De repente, ele não saía mais do meu pensamento. Toda sexta-feira eu contava os minutos até o início da sua sessão. Numa semana em que faltou sem avisar, eu quase explodi de angústia. Não consegui dormir naquela noite. O som da sua voz ecoava na minha cabeça e me afugentava o sono. Seu sorriso irônico parecia colado nas minhas retinas. Cheguei a sonhar com ele, um sonho erótico do qual não me lembro direito. Só sei que acordei menstruada, embora não fosse o dia certo disso acontecer. Minha camisola estava empapada de sangue e tive até que trocar os lençóis.
No sábado, bem cedo, fui ao consultório, peguei sua ficha e anotei o endereço numa folha de papel. Eu estava muito ansiosa. Se não falasse com Sued, não conseguiria tirá-lo da cabeça. Precisava saber quem realmente ele era. Talvez um vizinho ou o porteiro do prédio pudesse me prestar alguma informação. Aquela história diabólica havia passado dos limites e não fazia o menor sentido. Por mais grave que fosse o quadro clínico, nenhum psicótico sustentaria uma alucinação com tamanha coerência e por tantas sessões.
O edifício de dez andares com sacadas na frente ficava num bairro nobre da cidade. Era o de número 999, numa rua arborizada e sem saída. Estávamos na primavera, com as árvores floridas e um cheiro de pólen no ar. Empurrei a porta de vidro e me dirigi ao velho porteiro sonolento, sentado atrás de uma mesa de mogno.
“Bom dia. Em que posso ajudá-la?”
Li o nome no crachá, preso no bolso da camisa azul:
“Bom dia, seu Alípio. O senhor conhece o morador do 105?”
“Quem?”
“O nome dele é Sued. Doutor Sued, advogado.”
“E a senhora, quem é?”
“Meu nome é Lúcia Werneck. Sou psicóloga, e ele é meu paciente.”
“Não conheço nenhum Sued.”
“Mas ele me deu esse endereço.”
“Deve haver algum engano, doutora. O morador do 105 chamava-se Raul, Raul Luna de Deus. Engenheiro civil.”
“Faz muito tempo que se mudou?”
“Doutor Raul e a esposa morreram há dois meses, num violento acidente de carro. A senhora não viu a notícia? Saiu na imprensa e nas redes sociais. A tragédia abalou todo o condomínio e até hoje o apartamento está vazio.”
“Que coisa horrível.”
“Mas o pior a senhora não sabe.”
“O quê?”
“O corpo dele desapareceu da funerária pouco antes do velório. Somente a mulher pôde ser sepultada.”
Fiquei boquiaberta, sem saber o que dizer. Agradeci ao porteiro pela informação e entrei no carro, estacionado do outro lado da rua. Meus olhos se fixaram num bando de rolinhas que catavam grãos no passeio. Permaneci ali por um tempo, refletindo sobre a situação confusa e inusitada.
Sued havia passado dos limites. Eu mesma havia passado dos limites ao procurá-lo inutilmente. Não sei onde estava com a cabeça ao me envolver com um paciente daquela forma. Será que todas as histórias que ele havia me contado eram verdade? Seria ele de fato o diabo no corpo do tal Raul?
*
Novamente era sexta-feira e eu mal conseguia prestar atenção na fala dos outros pacientes. Meu pensamento continuava prisioneiro do olhar enigmático de Sued. Quando iniciamos a sessão naquela tarde, o som da sua voz me causou a sensação de levitar pela sala.
“Como foi a sua semana?”, perguntei.
“Não tão confusa quanto a sua.”
Estremeci diante da resposta, pigarreei e tentei disfarçar o embaraço.
“Sei que está atraída por mim e devo confessar que também estou interessado em você”, continuou Sued, enquanto minhas faces coravam. “Devo imaginar que tal sensação se deva à dependência psicológica que o paciente experimenta durante a terapia. Talvez seja um sinal de confiança mútua, não acha?”
“É, sim, quero dizer...”
“Não precisa ficar acanhada, doutora. Acredite que parte da sua atração por mim se deve ao aparelho. O engenheiro Raul, que morreu naquele acidente, era de fato um homem bonito, e isso até lhe causava problemas com as mulheres.”
“Desculpe, mas não estamos aqui para falar da vida alheia. O objeto do nosso trabalho é você, suas aflições e fantasias. Você é o sujeito.”
“Tem razão, me desculpe.”
Sued prosseguiu com o seu discurso fantasioso. Disse que o atual estado de beligerância da humanidade simplesmente o colocava à margem dos acontecimentos. Mesmo tendo certos poderes, era-lhe totalmente impossível estar em todos os lugares ao mesmo tempo, a incutir tanta maldade no coração dos homens.
“A onipresença é um dom que somente Ele possui”, exclamou, apontando o indicador direito para o alto, como de hábito. “Gabriel estava certo. Os níveis de crueldade atingidos pela humanidade tornaram-me obsoleto. Fome e epidemias na África, guerras no Oriente Médio, terrorismo na Europa, recordes de corrupção e assassinatos no Brasil... Francamente, eu não tenho nada a ver com isso. Por muitos séculos ensinei a maldade à sua espécie, mas hoje sou forçado a reconhecer que os discípulos me superaram.”
Sued fez silêncio.
“E qual seria a solução?”, perguntei.
“Eu tenho me feito essa mesma pergunta há mais de um século e, acredite, a senhora me ajudou a encontrar a resposta. Desde que cheguei aqui, comecei a refletir com muita clareza sobre os fatos. Em outras palavras, Lúcia me trouxe a luz. Estou decidido a desistir do Homo sapiens sapiens.”
“Como assim?”
“Existe vida inteligente em outros planetas, doutora. Aliás, em outros planetas, bom ressaltar. Vou-me embora da Terra. Quero encontrar um lugar onde eu possa reassumir o meu papel. Não vou esperar o Armageddon.”
Aflita diante de tal conclusão, deixei escapar um pensamento infeliz:
“Mas você não pode me deixar.”
“Não se preocupe, já transferi o valor das consultas para sua conta bancária. Aliás, depositei bem mais do que lhe devo. Até porque o cartão é do finado Raul, e ele não precisará mais se preocupar com dinheiro, não é?”
Nessa hora meu coração disparou. Minhas mãos ficaram trêmulas e as pernas, bambearam. Eu não sabia o que dizer, mas o certo é que não poderia perder aquele homem de vista. Nenhum outro havia despertado em mim todas aquelas sensações. Amor, desejo e paixão, tudo ao mesmo tempo. Minha cabeça rodava, e meus olhos começaram a lacrimejar.
“Mas você não pode ir embora”, balbuciei. “Não pode interromper o tratamento, justo agora que estamos começando a obter resultados.”
“Sinto muito, doutora Lúcia. O mundo dos homens já não me cabe.”
Sued se levantou, abriu a porta e se foi. Pensei em correr atrás dele, confessar o meu amor e implorar que ficasse, mas fui impedida pelo orgulho e por esse maldito senso ético que a profissão me impingiu... No dia seguinte, o telejornal noticiou que o corpo do engenheiro Raul Luna de Deus havia sido encontrado pela manhã, à beira do túmulo onde deveria ter sido sepultado.
Sabe? Depois de tudo o que aconteceu, eu não sou mais a mesma pessoa. A saudade, a insônia e o desespero tomaram conta de mim... Não acredita em mim, não é, doutor? Eu compreendo. Até outro dia eu também não queria acreditar. Como escreveu Baudelaire, o maior truque do diabo foi ter nos convencido da sua inexistência. Os poetas têm sempre razão, eu é que sei.




Comentários