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PRATA DA CASA | CONHEÇA O 1º COLOCADO NA CATEGORIA CONTO: EDUARDO PACHECO




SOBRE O AUTOR


Eduardo Pacheco é Psicólogo formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e, na literatura, um iniciante. Floresta, um de seus poemas, foi publicado na edição 165 da revista Trama Bodoque. Seu conto Guardam-se Olhares aguarda no prelo a publicação na Revista Taup. Leva seu nome o roteiro do curta-metragem Gemas da Terra, um minidocumentário produzido com recursos da Lei Paulo Gustavo.

O Silêncio dos Eucaliptos é fruto do período da pandemia de Covid-19. Conta sobre luto, legado e silenciamento. Foi publicado de forma independente em um e-book que está disponível na Amazon.

Outras de suas experimentações podem ser lidas no site eduardopsicologo.com



O CONTO VENCEDOR


O Silêncio dos Eucaliptos


 

 - Pai, cuida. Por que tantas pessoas se foram? Não me cabem nas contas, pai - entornei sobre a jangada a primeira pergunta.

Somos velhas, a história e eu, mas ainda posso dizê-la, porque ainda estamos uma na outra. Esse corpo cansado, de couro puído, curtido por marés após marés,  bem guardou aquela manhã. Guarda ainda, dentro, cada palavra que se meteu no repouso dos nossos remos, entre um e outro de seus mergulhos. Sob meu pai e eu, o Abismo ondulava como nunca se havia testemunhado.

Abismo era o rio. Um rio imenso como uma noite. Oceânico. Quando alguém prendia âncora à margem de cá, o fio do horizonte lhe escondia a margem de lá. Sobre a pele do Abismo, havia quem se perdesse e muito se demorasse sem avistar margem alguma. Mas, a despeito da imensidão, pouco se confundia esse rio com os mares. Sem a generosidade pulsante daqueles, o Abismo não nos devolvia suas águas. Não se dobrava diante de nós para reencontros. Não vinha a nós. Incessantemente, de longe para longe, o Abismo corria indiferente. Assim era. Contam que sempre foi. E ainda é.

Sobre essa correnteza, é bem verdade que revelo menos ao dizer rio do que revelo ao dizer Abismo.

Durante aquela manhã, e desde antes da véspera daquele dia, nascia aquilo a que daríamos o nome Grande Onda. Onde havia embarcação, os remos pulsavam em arritmia. Rasgavam a superfície do Abismo os improvisos mais crus. Olhos e ouvidos bem despertos encontrariam a crueza em cada pedaço d'água. Mas os meus vagavam à deriva, entorpecidos. Confundiam outras ondas muito antigas, que sempre haviam abraçado os cascos dos barcos convocando ao trabalho - remem, remem -, com aquelas ondas estranhas, que então se erguiam engolindo povos, arrancando corpos da lida dos dias, afogando-os silêncio adentro. Verteu foi das minhas vísceras aquela pergunta, a primeira. Por baixo do couro, minhas entranhas haviam acordado frias, trêmulas.

Meu pai, antes de dizer palavra, respondeu à minha pergunta como respondia a cada tempestade nascente. Calado, recolheu o que podia: o remo ao colo, o ar ao fundo dos pulmões, o horizonte ao vazio das vistas. A correnteza carregava as vozes dos jangadeiros para muito além do alcance dos ouvidos. Ariscas, entocadas em brechas mínimas, restavam umas respostas muito rarefeitas, eu já o sabia.

- Filha, ninguém não vai - ele murmurou e voltou a remar. Minha mãe me havia explicado que um nó escondido fundo na garganta, bem no berço da voz, entortava o que ele dizia. Eu imaginava que, se o nó apertasse muito, uma a uma as palavras voltariam ao peito. Desceriam doendo. Poderiam pesar. Por hábito, eu tentava desentortar quieta o que escapava ao nó: - ninguém não vai… ninguém deixa de ir... todos se vão… todos nos vamos.

Minha mãe me havia lecionado muito sobre nós e sobre silêncios. Muito cedo, bem antes do início da Grande Onda, no dia em que acordei e não encontrei miado da Maré, a gata, e não a vi brincar de ser polaina a me aquecer, nem a senti rufar o peito, foi na voz de minha mãe que aportei: a Maré havia partido, ido para a margem de lá. Desde então, quando escutava que alguém havia partido, assim sem aonde, como história interrompida, eu entendia que havia ido para a margem de lá do Abismo. E sabia bem pouco o que era isso.

Meu pai viria a asseverar que essas eram idas sem vindas. Tendo suportado um dia e uma noite, eu voltei a acordar com o silêncio da Maré, um silêncio maior que a margem de cá. Um silêncio com o tamanho do Abismo. E o mesmo depois de duas noites. Três, quatro… No início, supus que a travessia fosse apenas incomensuravelmente longa, com ida e vinda desmesuradas. Talvez muitos já estivessem demoradamente retornando de lá desde tempos imemoriais, enquanto simplesmente não o sabíamos. De repente, começariam a atracar por aqui e desembarcariam rindo de nossas certezas sobre idas sem vindas. Mas depois, enquanto a Maré, todo o tempo, não cessava de não chegar, pouco a pouco desisti de catar quaisquer sinais de retorno em cada vulto do horizonte. Passei a ponderar que talvez ela não viesse porque a margem de lá era melhor, mais aconchegante, macia, com o aroma quente que as cobertas limpas exalavam depois de deitarem ao sol, que ela gostava como eu. Talvez corressem por lá uns ratos bem roliços, com uma proporção precisa entre tolice e astúcia…

Mas a falta da Maré não partia para lugar algum. Encalhou em mim. Por isso, perguntei a minha mãe se uma voz poderia atravessar o Abismo. Ela respondeu que não o sabia. Todas as vozes que conhecíamos alcançavam distâncias tão miúdas quanto a pouca lonjura que uns minutos bem caminhados podiam percorrer. Mas, segundo ela, existirem muitas vozes curtas não servia como prova de não existir voz longa, muito longa talvez. Então, eu passei a parar com as vistas fechadas à beira d'água, à margem da voz que atravessaria o Abismo. Me sentava sobre meus pés, tentava aprimorar as conchas que minhas mãos formavam em torno de minhas orelhas e esperava. Uma parte minha ainda teima que poderia ser questão de tempo. Mas um cais em que não se atraca enferruja, pode virar ruína, e assim lentamente desmoronaram as conchas que me haviam abraçado as orelhas. Assim, foi se deteriorando a espera.

Por um período que desisti de medir, permaneci voltando ao mesmo lugar. Assombrada, observava os escombros de minhas tentativas. E tentava não tentar. Em resposta ao tanto que eu não dizia, meu pai entortou uma acolhida:

- Filha, o pai tem escutado teu silêncio... É o quê?

- Me sinto mais pequena, pai.

- Gente é assim. Nasce sem cabimento e cresce minguando.

- Não entendo, pai.

Ele sorriu e me abraçou sem esclarecer.

A escassez e o desengonço daqueles gestos confidenciavam que o nó se entranhava muito além da garganta. Bem de dentro, parecia atá-lo quase todo. Mas os abraços se faziam refúgio, me eram morada. E bem conhecer as rachaduras, as infiltrações, os empenos não me fazia desgostar de estar em casa.

Sonhava lhe desembaraçar, então perguntei a minha mãe sobre a origem daquilo. Ela condensou a história: um homem, parado perto do caminho que meu pai percorria, o havia feito tropeçar em uma repreensão: - porcos é que trazem à boca tudo sem distinção! - Na queda ele se enredou. Eu enfureci.

- Mas, mãe, o que sabe um homem que, diante dum caminho, para em vez de caminhar?

- Sabe parar.

Ao meu pai, aquele homem lhe havia parado as palavras, os gestos, as coragens. Quando o soube, eu era ainda muito recente, verde e, como muda, vergava sob o peso daquelas paragens. Tenra, eu reverberava o silêncio dele. Mas o tempo traz à gente, como ao mato, uma dureza lenhosa. Naquela outra manhã, a do nascimento da Grande Onda, a ferrugem que crescia sobre as ruínas de minhas esperas já rangia quando me tentavam dobrar. Me manter muda começava a doer. Então teimei.

- Mas por quê, pai? Por que ninguém não vai? - Entornei sobre a jangada a segunda pergunta.

Meu pai desprendeu o ar dos pulmões, o remo das mãos, a água das vistas. E estas, sem erguer o rosto, ele lançou contra as minhas.

- Vê os eucaliptos da margem. São bons porque não são demasiados.

Mesmo os cofres e as jaulas mais intransponíveis não o são para quem detém as chaves. Da resposta de meu pai, a chave era um punhado de outras palavras que eu guardava desde quando ele as trouxe a bordo como se fossem umas quaisquer, inofensivas. Ele me havia instruído que as perguntas eram como os eucaliptos: comedidas, desabafariam o mundo, proporcionariam frescor; mas, num excesso, com suas raízes sedentas, o ressecariam feito praga. Eu via os eucaliptos. E os sentia com a pele, aos pedaços, na jangada que pisávamos e nos remos que empurrávamos. Nossas vozes recaíam sobre eucaliptos que havíamos secado para nos manter à superfície. Senti vergonha das árvores.

Meu pai continuou:

- Como falava meu pai, porcos é que trazem à boca tudo sem distinção!

Fendi meus lábios para passarem palavras que não passaram. Apanhei na garganta o impossível. Havia eu, havia meu pai e havia nós a nos desenlaçar.

De súbito, lembrei a vastidão do Abismo. A de dentro. Sempre houve quem aspirasse conhecer sua profundeza, tocar o fundo. Mergulhavam e, à exaustão, devotavam esforços e saberes para transcender os mapas e os rastros que haviam herdado. Contavam que, depois de devotados os esforços e os saberes, depois de transcendidos os mapas e os rastros, depois de passadas as horas e as décadas, quem mergulhou sempre trouxe à tona, entre outras, uma mesma convicção: ainda que tenha um fim a profundeza, antes tem fim o fôlego. Contudo, mesmo bem conhecendo as histórias, eu sonhava num mergulho penetrar o Abismo até o fim. Mas não porque não aceitasse suportar que faltasse chão aos pés ou às águas. O sonhava porque supunha que, se encontrasse terra firme sob a imensidão da correnteza, poderia sentir que as margens de cá e de lá eram, no fundo, a mesma. A terceira margem seria a única. Como eucalipto que despenca porque não pode mais vergar, pendi da jangada à água. Pela primeira vez, mergulhei no Abismo. E o Abismo, em mim.


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