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PRATA DA CASA | CONHEÇA O 1º COLOCADO NA CATEGORIA CRÔNICA: PAULO BRIGUET

Atualizado: 6 de jun.

SOBRE O AUTOR


“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)


Paulo Antônio Briguet Lourenço é escritor, jornalista e professor de literatura. Nasceu em 10 de julho de 1970, na cidade de São Paulo (SP), filho do advogado e bancário Paulo Lourenço e da professora Aracy Costa Briguet Lourenço. Casado com a escritora e jornalista Rosângela Vale. Fez os seus primeiros estudos na Casa Pia São Vicente de Paulo (São Paulo-SP), Colégio Nossa Senhora Aparecida (Araçatuba-SP) e Colégio Anglo (Araçatuba-SP). Formou-se em Comunicação Social (Habilitação: Jornalismo) pela Universidade Estadual de Londrina (1992).


Experiência profissional


Repórter da Folha de Londrina (1994-1998); redator de Primeira Página da Folha de Londrina (1998-2000); redator publicitário da Agência Egg Comunicação Criativa (2001-2003); editor da Revista do Festival Internacional de Londrina (2000-2005); repórter do Jornal de Londrina (2004-2006); editor e colunista do Jornal de Londrina (2006-2015); colunista e repórter especial da Gazeta do Povo (2012-2015); assessor de imprensa da Associação Comercial e Industrial de Londrina (2012-2015); colunista da Folha de Londrina (2016-2020); curador e professor do projeto Clube do Livro de Londrina (2017-dias atuais); editor-chefe e colunista do jornal Brasil Sem Medo (2019-dias atuais); curador e professor do curso literário on-line Clube dos Heróis (2022).  


Livros publicados


“Diário de Moby Dick”, em parceria com Paulo Lourenço (crônicas, 1996, edição independente); “Repórter das Coisas” (crônicas, 2002, Imprensa Oficial do Paraná); “Amanhã Escreverei à Joaninha” (biografia, 2003); “Aos Meus Sete Leitores” (crônicas, 2010); “Plaenge — A Construção do Sonho” (biografia institucional, 2011); “Coração de Mãe — A História do Colégio Mãe de Deus” (biografia institucional, 2017, Instituto Novo Signo); “Nossa Senhora dos Ateus” (crônicas, 2021, Sétimo Selo) e “O Mínimo sobre Distopias” (ensaio, 2023, Cedet). Editor, prefaciador e revisor dos dez volumes do projeto “Expedições pelo Mundo da Cultura” (Sesi Paraná/Volvo do Brasil, 2015-2017).


Títulos e premiações


Vencedor do Concurso Nacional Literário do Banco do Brasil/Satélite (2003). Cidadão Honorário de Londrina (2017).


Informações adicionais


Autor de mais de 3 mil crônicas publicadas em jornais e sites desde o ano de 2000. Autor de três peças teatrais selecionadas para a programação do Festival Internacional de Londrina (2003, 2004 e 2006). Colunista mais lido da Folha de Londrina no ano de 2018. Ocupante da cadeira n° 7 na Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina (Patrono: Castro Alves). Com o projeto Clube do Livro, realizou mais de 100 aulas-palestras sobre clássicos da literatura universal entre 2017 e os dias atuais. 




A CRÔNICA VENCEDORA



A leitora espera a crônica


Sei que, em algum lugar do mundo, alguém espera esta crônica. Deve ser apenas uma leitora que reserva cinco minutos de seu dia para saber o que um cronista decidiu escrever. Na maior parte das vezes, ela se decepciona, mas não desiste. Um dia, talvez, o cronista dirá aquelas palavras que ela está precisando ouvir, que despertariam o segredo mais valioso das profundezas da alma, como a forma desperta o conteúdo, como o dia desperta a noite, como a partitura desperta a música. A leitora não desiste, e o cronista também não.

Certa vez, um grande amigo do cronista ouviu, de um completo desconhecido, a seguinte frase:

— Minha mãe acabou de morrer.

Talvez a leitora queira saber o que o cronista tem a dizer sobre isso, sobre uma clara de manhã de junho em que abrimos a porta e um estranho nos diz, como se fossem as únicas palavras do idioma:

— Minha mãe acabou de morrer.

A leitora que espera a crônica não sabe quem é a mãe nem o filho, a leitora talvez nem saiba quem é o grande amigo do cronista. A leitora espera uma crônica que ela possa entender e reconhecer como a mãe reconhece um filho no caos do bombardeio. A leitora espera uma crônica que desperte o seu instinto materno, e assim o mundo teria menos uma criança órfã, mesmo que em forma de letras e espaços em branco na tela do computador.

A leitora que espera a crônica, desnecessário dizer, espera o impossível. Se é desnecessário dizer, então, por que dizer? Ora, porque a crônica gosta de dizer exatamente o desnecessário, e aí mora a sua impossibilidade. Impossibilidade e inutilidade que ninguém tem paciência para ver — exceto a única leitora da crônica.

A leitora espera uma crônica que tenha algo para lhe dizer sobre a jornada de trabalho que começa; sobre o gerente que não conhece bulhufas do serviço; sobre o mendigo que dorme na mureta da loja de autopeças; sobre o cavalo doente que está apanhando do dono; sobre o cachorro que tem saudade. A leitora espera uma crônica sobre a leitora que espera a crônica.

É para essa leitora que eu escrevo, embora não saiba seu nome, nem sua profissão, nem seu endereço. Embora talvez nunca venha a saber quem ela é. Embora, meu Deus, às vezes me atormente a ideia, bastante lógica, de que ela não existe.

Talvez a leitora espere que eu fale sobre a musiquinha que tocava aos domingos no Fantástico (“Olhe bem / Preste atenção...”). A chatice dos sapatos que engolem as meias é outro assunto que a leitora apreciaria ver na crônica. Espera que eu fale do Tio Patinhas, milhardário de Patópolis. Ou, ainda, que eu lembre as tardes de julho na Alameda Barão de Limeira, quando morávamos no primeiro andar, em cima da lavanderia.

Por isso, por isso tudo, a crônica existe. Existe para ser esperada, para decepcionar, para voltar à carga. Na verdade, ninguém sabe por que a crônica existe, por que continua sendo escrita. Quem sabe, a leitora da crônica tenha desaparecido para sempre, junto com a frase daquele homem desconhecido:

— Minha mãe acabou de morrer.  



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