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PRATA DA CASA | CONHEÇA O 2º COLOCADO NA CATEGORIA CONTO: ELTON MESQUITA

SOBRE O AUTOR


Elton Mesquita nasceu em Chapadinha, Maranhão. Tem 46 anos, é Católico, mora em São Paulo e é escritor, tradutor e roteirista.



O CONTO 2º COLOCADO


BRACELETE NUMA DANÇA



“Magna pax et silvestris.”

— Janus de Basel


“Ei, ó imortal, que um dia foi chamado _____! O grande e glorioso Buda Heruka aparece, em cores vinho e marrom, com três fauces, seis braços e quatro pernas esticadas, sua fauce frontal marrom, sua fauce direita branca, sua fauce esquerda vermelha, e todo o seu corpo coruscando com raios de luz. Seus olhos faíscam, impiedosos, terrificantes, suas sobrancelhas estalam como o relâmpago, suas presas rebrilham como cobre novo. Ele urra gargalhando, ‘A la la’ e ‘Ha ha ha’, e faz sons altos sibilantes como ‘shu-uu’”

— Do Livro Tibetano dos Mortos


*


1


Terra afundando na água


“(…)onde todas as coisas são vazias como o céu e sem nuvens”.

— Do Livro Tibetano dos Mortos


é um planeta meu corpo, suspenso no éter da anestesia. Membros imensos quilômetros distantes de mim são como postos avançados em promontórios solitários, faróis intermitentes abandonados ao clima hostil em penínsulas que já foram mãos e pés. Braços gigantes sentem o que as planícies sentem: um prurido tênue, o contínuo fervilhar do Sol ártico da epidural. Não sei como está o céu lá fora. Já não posso caminhar debaixo dele ignorando a refração da luz, seu ângulo de incidência, a gradação da intensidade à medida que o dia cresce atrás dos edifícios, todos os matizes, de azul a creme leitoso rosa se derramando devagar sobre as cabeças encapuzadas de madrugadores compenetrados, um milagre feliz e completo se desenrolando generoso como maná vindo de longe, para humilhar nossa linguagem tateante, nossas preocupações de criança. Hoje pela manhã estava ameaçando limpar, não foi esta uma semana fria e nublada? Me parece que o suficiente jamais será dito sobre a mudança sucessiva das estações, sobre cada dia, cada floco de neve, agora que estou morrendo. Hoje pela manhã, quando acordei, pensei em vários pequenos assuntos do dia que me aguardava. Me perguntei por certo que horas deveriam ser (este me parece um pensamento bastante natural para quem recém-acorda, de volta a um mundo que ainda me quereria de volta uma última vez). Me perguntei se haveria suco de laranja na geladeira, e pensei em tomá-lo, e depois em não tomá-lo. Mais tarde, pensei em como estaria o trânsito. Minha casa. Minhas roupas. Meus amigos, meus conhecidos. Não pensei sobre a morte nem uma vez. Como uma criança arrastada para um destino que ela repele com cada músculo osso e nervo e para o qual avança cada vez mais rápido, sem parar pro fôlego, sem tempo para nada. Na mão que me arrancou da minha ignorância em direção à morte eu sinto a decisão, a vontade irrecusável que deve ter existido na mão que me arrancou da minha ignorância em direção à vida. O mundo não mandou recados. Como nos outros dias, vi as mesmas cores e luzes, ouvi os mesmos sons. Vivi minha vida de sempre até as 10:00 horas mais ou menos da manhã (quase não vivi este dia, muito dele me foi tomado). E então, para sempre antes que eu percebesse, houve um violento reorganizar de prioridades, um urgente re-escalonamento de preocupações. Me tomaram tudo que eu tinha, como quando um adulto toma um brinquedo de uma criança porque já é hora de dormir, ou como um adulto recolheria um brinquedo quebrado, para guardá-lo longe e protegido de mãos descuidadas e pequenas. Minha vida nunca foi definitivamente minha, não éramos, nunca fomos uma só coisa indivisível. Na verdade, meu suave rumor orgânico é tão alienígena a mim quanto os automóveis na rua lá fora. As pequenas peculiaridades deste corpo não eram eu, nem sequer eram minhas — eu usava sem lembrar que era empréstimo. Eu não ultrapasso os limites destas paredes de osso. Para além daqui é tudo outro, independente, material e incomunicável como um pedaço de madeira crua, eu olho para meu braço agora com o canto do olho como quem olha pra um bicho imbecil, impenetrável, como quem olha pra uma paisagem pela janela. A hora da morte é a hora da traição, a hora em que percebo que estava ainda mais só do que o usual que supunha, debaixo desta luz amarela odienta, didática, funcional, ela não queima nem mais nem menos por minha causa, se ligará e desligará da mesma forma para qualquer um que esteja sob ela, e o que ela mostra de mim, e como ela me mostra? De onde estou, não posso ver meus pés. Lamento que não possa ver meu corpo nu, completo, pela última vez. Olho para minhas mãos e para uma certa concavidade acima de minha clavícula, e mesmo sabendo não serem meus, eu os sinto meus, sinto por eles uma ínfima parte do que deve sentir um pai por um filho. Custei a acreditar que minhas mãos não eram minhas; só entendi quando tentei mover a esquerda e me vi refém de uma mudez ainda mais traiçoeira e dolorosa. Aqueles ali, eles “foram” eu, aquele joelho, a cicatriz da queda de bicicleta, eles me representavam para os outros, e logo serão como marcas de uso num móvel antigo. Impessoais, inobjetáveis, serão o registro silencioso da história deste corpo, de todos os objetos incontornáveis e irremovíveis contra os quais já me ofendi, com descrições detalhadas sobre a solidez indiferente da pedra, do ferro, do vidro. Este meu corpo, que se movia descuidadamente por entre os acidentes e os dias, tão pequeno e tão facilmente remoldável, lentamente sairá de mim (e não eu sairei dele) e se juntará à hoste exterior, e será como um ângulo, como a disposição de folhas no chão, ou como uma placa num corredor, ou o próprio corredor. Estou prestes a perder algo que não sei bem o que é, que nunca vi a não ser por vislumbres, e sei que perderei esta coisa junto com meu corpo. Esta coisa tão sutil que é mesmo uma impossibilidade: não foi feita para durar sob o Sol, oxida e se esboroa já só por existir. E tenho medo porque não me lembro de como é… de como pode ser… Sempre tive o conforto de ser meu próprio vaso, minha própria locomotiva, de me carregar com carinho daqui para lá e de volta. Eu sempre estive aqui. Agora não mais. Enquanto os cirurgiões andam ao meu redor e pressionam, cortam, injetam, sugam, sopram, sondam, eu faço o mesmo e me tenho diante dos olhos, e ando ao meu redor, me examinando como a um espécime novo. Há que haver método, rigor. Não disponho de muito tempo e tenho que tentar me aproximar do animal fugidio. Não será fácil. Sou como uma impureza no meu olho, a qual não posso perceber a não ser pela mais periférica visão, e que desliza para além do alcance quando eu tento nela fixar a vista. A ferramenta de que disponho é rombuda, inadequada, não pode analisar-se mas devo. Para quê? Talvez eu esteja apenas tentando me ocupar… Talvez eu não queira lembrar que dentro dos recessos escuros do meu corpo há vasos neste instante em que o sangue está parado sem pressa, em lenta decantação; que há talvez certas válvulas importantes que já não se abrem-e-fecham, que eu jamais chegaria a sentir uma carícia feita em minha mão: O relâmpago sutil do toque para sempre preso num nó sangrento de nervos esmigalhados. Não quero pensar nisso. N. Não. Ainda não. Será que ainda vivo? Não, eu vejo e ouço, então vivo — se isto for a morte eu vou enlouquecer. Não. Eu vivo, sinto raiva. Não posso nem começar a manifestar meu desagrado, minha frustração. Oh, se eu pudesse nem que ao menos apenas prolongar este momento terrível, aproveitaria cada segundo a mais com o coração no vale escuro entre duas batidas até que a loucura se instalasse. Mas é inútil. Vejo que não sei morrer, não sei como me comportar, o que pensar, a que dar prioridade, que ângulo usar, a que me ater, que contas tentar fechar. Não quero errar, e isso é tão estranho, pensar nisso como um desempenho, uma performance que poderá ser comprometida se eu não me concentrar no quer que seja que eu tenha que encontrar, agora na hora em que cada segundo finalmente importa, enquanto meu corpo apita e sibila no afã do desligamento iminente. O que meu corpo faz é a parte dele: lentamente esfria, apaga as luzes (ele está indo-se embora de mim. Eu estou ficando sozinho), corta suprimentos, encerra vários processos. Faz sua contabilidade séria de aglomerado vivo. Minha mente deve fazer o mesmo. Se organizar, catalogar; deve tentar entender, tentar extrair da experiência algo reconfortante, que me permita saber exatamente qual o meu papel. Pois é diante de mim somente que morro, não posso virar o rosto e tenho medo de fechar os olhos. Eu… sou uma represa se esvaindo. Como se fosse só portas e janelas. Abrindo. Eu sou um barco. Indo


2


Água afundando no fogo


“No Inverno terá congelado, no verão terá apodrecido.”

— Do Livro Tibetano dos Mortos


há rostos de pessoas que conheci durante a vida de que não vou lembrar agora. Penso nisso porquê me ocorria, às vezes, de lembrar de certos rostos já há muito esquecidos, e era sempre como se nunca tivessem existido até então. Minha coleção de rostos apagados deve ser enorme. É como se os fatos agregados a cada rosto nunca tivessem ocorrido. De quanto exatamente consigo me lembrar? Sei que fiz coisas, pensei coisas, movi pequenos objetos, desfiz linhas e contornos e intrometi-me em ângulos de visão com o peso morno da minha presença, minha presença preciosa, única, irrepetível, do objeto que eu era, afetando outros objetos. Mas não as tenho, nem na ordem em que aconteceram, nem em ordem nenhuma. É como se nunca tivessem existido. Meu cérebro, por algum motivo alheio a mim, a eu, a nós, preferiu esquecê-las, as coisas que fiz, e agora para mim é como se um editor desinteressado tivesse decidido cortar cenas cuja importância não posso julgar. Isso, na manhã de hoje. E ontem, e antes de ontem, e na semana passada, e pelos últimos anos, agora que me dou conta da prisão branca que são as paredes deste crânio? Minha vida foi mais curta, e eu não me lembro de nada. Acredito que aconteceram coisas, que pinto com tintas exageradas, cenas que de outra forma já teriam se apagado, e à medida que o tempo tem passado, é com lembranças de lembranças que tenho tido que me contentar. Meu corpo pesa como uma âncora, descendo para não subir mais. Minha boca está seca de tudo. Há um silêncio novo, mais profundo e respeitoso por debaixo das vozes e ruídos mecânicos. Tenho que aceitar muito rapidamente fatos novos, desagradáveis: Nesta viagem, estou sozinho. Nesta viagem eu sou bagagem. Não posso opinar sobre o destino, sobre o meio de transporte, sobre as acomodações. E o momento, será como um clique? Haverá uma antecipação, como um mergulhador se preparando pro impacto? Ou vou morrer como quem se afunda em sono e acredita que não dorme? A dúvida me torna tenso. O coração acelera, é outra experiência agora, aqui preso no meu peito, se move como um besouro grande e maligno, com espasmos que estão longe de parecer humanos, e eu tenho medo da dor que esse pequeno pedaço de músculo burro pode decidir me infligir. A qualquer momento agora, no meio de uma palavra, não serei mais nada, ou serei o que não posso saber, agora, não, agora, ou — tenho que parar, parar de pensar, tentar ignorar o fato de que esta é a coisa mais importante que jamais me aconteceu. Tenho que tentar fingir que este não é o dia mais importante da minha vida, mas como, se meu corpo se encarrega de deixar tudo tão exposto? Minha cabeça lateja, meu peito pesa, meus poros sangram — parte de mim chora ao pensar na polpa rubra e disforme que já foi um delicado padrão de arabescos capilares, na antiga e justa distribuição e superposição dos músculos, que agora misturam-se, em pedaços, uns aos outros; na maciez da pele que se abriu sem demasiada resistência e que é incapaz de voltar ao que era, nunca, nunca mais. Tanto que foi desorganizado, com tanta fúria e determinação, que foi quase como se realmente houvesse um motivo, uma razão qualquer guiando o acidente para dentro das 10:00hs da manhã deste dia. O mundo desfez-se de mim, terminou comigo de maneira barulhenta, chamativa; não consigo deixar de pensar que talvez eu tenha feito algo de muito errado. Mas não é assim que funciona, não é, e ainda assim, ainda assim algo aconteceu; algo me pôs na rota da morte, e é tão é tão doloroso é maligno pensar que talvez tenha sido ter acordado meia-hora depois do que pretendia, ou ter cancelado a caminhada que sempre faço — fazia — ou ter decidido voltar pra almoçar em casa, ou ter demorado três segundos mais a amarrar os cadarços. Não sei. Não sei qual foi o gesto, o ato banal que me assassinou. Só existe isto aqui agora. Só existe esta sala, e mesmo assim só até onde a minha vista alcança. No mundo novo em que estou, não tem nem chão. No novo mundo em que vivo, no meu novo (e muito curto) modo de vida, muita coisa não existe. É um mundo mais simples, vejo. Os terrenos da morte são simples, não requerem nada além do mínimo essencial: que se esteja vivo. Penso em meus parentes mortos; em conhecidos mortos. Em celebridades. Para aquém do total dos mortos do mundo, há uma legião considerável de ausências que deixaram o nome para trás como uma casca ressequida, ou um rosto congelado vagando por revistas. É a essa legião que irei me juntar, na memória dos outros. Não meu nome, não minha profissão, não meus pequenos gostos bobos. Minha nova característica definidora é “o que morreu”. Depois de algum tempo, já não há quem lembre. Épocas inteiras morrem todos os dias sem que percebamos. Um aluvião de nomes, rostos, idéias, momentos de beleza, momentos de desespero negro, teias de relações sociais, memórias compartilhadas — e as que só você guardou, e manteve até sem notar sempre próximas, voltando a elas de vez em quando, cutucando-as, conseguido convencer-se mais uma vez de que realmente aconteceram -, toda a pesada bagagem será enterrada e as pessoas terão que fazer um esforço da vontade para alcançar essas épocas, e só na memória, ou com a ajuda de textos, ou com a ajuda de fotos. Penso nas minhas fotos que ficarão. Serão como testemunhos: “Olha, uma vez houve isso aqui, e durou algum tempo”, mapas para uma cidade fantasma: Um determinado móvel, feito num determinado lugar, vendido por um certo preço, foi coberto com uma toalha em xadrez verde-claro e verde-musgo, e havia um braço que eu já usei por algum tempo, um bracinho gordo de criança, que pousou sobre esta toalha num Domingo…. Não lembro de muita coisa do que aquela criança viu, mas sei que viu muito e imaginou outro tanto. Tinha esquecido completamente dela. Ela achava que conversava com Deus por meio de uma pedrinha brilhante. Não conseguia ir do ponto A ao B, por mais próximos que fossem, a não ser na mais desesperada corrida, tinha uma coleção de besourinhos mortos numa caixa de bombons e se trombasse com alguém pelo lado direito tinha que repetir o encontrão do outro lado. Em dia exato essa criança morreu? Porque não se despediu? E todas as outras versões, todos os outros que se foram sem olhar para trás, sempre indo e sempre ficando? E venho a aprender a sentir saudade até desta hora em que eu morro. Aqui, eu conhecia e era meu. Mas agora, neste limite de abismo, neste turbilhão de voragem, não sei nem a medida do que perco. Do que me perde. Nunca lhe conheci os limites. Tenho lembranças das vezes em que senti a vida como um tigre furioso costelas adentro: No sexo, e quando uma vez eu me afoguei. Foi ali, naquela curiosa penumbra que prenuncia a presença da Morte (e para onde volto agora, sem ter partido), que achei que a vida tinha gosto de ferro. Tomei o sintoma pela doença: era o gosto do medo, ferro no sangue. Eu olhei para a esquerda e para a direita, e meus olhos piscaram assim. Nunca mais do mesmo jeito. Eu prendi a respiração e tentei ficar mais tempo embaixo d´água, brincando com outras crianças. Eu corri tanto e perdi o ônibus. Eu demorei quatro minutos a mais na cama. Eu ouvi sons indescritíveis. Mas olho para os lados como quem adormece e acorda em público, e descubro ressentido que ninguém guardou estes momentos para mim, e eu fui descuidado e esqueci. E se esta frase ficasse incompleta? A morte não tem curiosidade, e no entanto me parece tão inverossímil. Descarrilando agora, e não é uma sensação ruim, é boa. Muito menos coisa pra tomar conta. Cada vez mais só um cada vez mais tênue fio de pensamento, este fio de pensamento, este aqui, um sussurro entre trovões. Uma membrana se distende, frágil como um suspiro, e me dou conta de que passei a respirar com toda a delicadeza do mundo. Está tudo sem volta, tudo por terra. Mas talvez não seja o fim. Não é? As pessoas voltam da beira da morte. Há literatura sobre isso, eu já li, já ouvi histórias, e há também milagres. As pessoas voltam da beira da morte.


3


Fogo afundando no ar.


“A vida não é o mais importante na vida”.

— Sir Theodore Fox.


como no fim de uma surpresa, como quem acostuma os olhos a menos luz. Estes órgãos meus que agora sentem a inaugural carícia suave do ar fresco, expostos à luz do mundo, esta configuração nova, terrível, tão repentina e irrevogável. Eu sou o que uma gaveta é, eu sinto o que uma camada de tinta sente. Cada pensamento que eu tenho agora, irrepetível, irrecuperável. E os gestos que não fiz. Agora a sensação é a de um cais. A qualquer momento vou me ouvir partir, e eu pressinto o impulso no escuro leitoso, no leito do oceano onde não existem horas, no campo de âncoras brancas como ossos, enfileiradas como antenas, nós os que ouvimos o sussurro das estrelas com torres e pratos, nossa maneira de dizer “estamos prestando atenção”; mas qualquer que pudesse ter sido a mensagem, não veio a tempo, nunca chegará. Não me diz respeito porque estou morto. Eu estou morto. Eu vejo o que um morto vê. Eu penso o que um morto pensa. Os médicos são uma outra espécie se movendo, pesada, química, quente, mas a hora deles também vai chegar, e talvez há de haver outros médicos para eles, e na hora do fim eles talvez se vão com um pequeno sorriso. Morro me engasgando delicadamente com tubos de plástico e fios. Nada de natural, meu último momento neste mundo é como um tipo de tortura branda. As lacerações, o sufocamento, o engasgo de engulho suspenso o tempo todo, com um dedo longo de eletrodoméstico maldoso entrando pela minha traquéia. Estou morrendo e não posso respirar. No nariz, na garganta; ar avaro, dosado, e dói. Não sinto meus pés. Está começando e eu não me aprontei. Pessoas gritam na hora da minha morte, porque não me deixam em paz? O barulho, as luzes quentes me irritam, chega, já não preciso disso. O dia em que morro se ocupa de mim com a ponta dos dedos, e mal me nota. Ninguém é mais insignificante que eu, ninguém jamais morreu mais do que eu. Lá fora, notícias acontecem e são retransmitidas ao redor do planeta. Nenhuma é sobre mim. Todos vivem, menos eu. Não há tempo para parar, muito menos para voltar e apanhar os que caíram numa curva mais aguda. O carro já segue, lá adiante sumindo na poeira. Aqui na estrada fico eu, agora também veículo. Sou a locomotiva que me leva pra algum lugar perto, algum lugar calmo. Sou minha última carga, meu último passageiro, meus vagões um a um diminuindo de velocidade, suspirando aliviados pela carga que começa a ser levada embora. Já não sinto minhas pernas. Meus passageiros pouco a pouco me abandonam e vão cuidar de seus afazeres. Eu estou triste como ficamos tristes quando fechamos um livro de que gostamos, e sabemos que, façamos o que façamos, jamais poderemos voltar a lê-lo pela primeira vez. E eu estou alegre e leve, porque os pesos e medidas já não são necessários, e os limites das horas já não se aplicam a mim, e meus compromissos, pois compromissos eu tinha, ora, eles ficarão para outro, ou serão esquecidos, e nada mais têm que ver comigo. Pela primeira vez em minha vida inteira, eu sei como é não ter a mais ínfima, a mais pálida preocupação, de qualquer ordem que seja. Eu nunca me senti assim antes. Nenhuma preocupação. Nada pode me atingir, nada pode me afetar. Intocável, irrepreensível. É uma locomotiva louca meu corpo, desmontando-se espasmódica, desintegrando ao se aproximar do final dos trilhos (agora úmidos de orvalho. Frio de floresta e noite, raízes, besouros, cogumelos. Terra sob pálpebras). Eu conheço esta paz negra. No clube, com catorze anos num domingo branco, cegante como espelho, eu me afogo. Meus dedos batem a alguns centímetros da borda da piscina. Água azul, arco azul de céu aberto; faíscas molhadas queimam meus olhos e eu não faço nenhum barulho. Polidez, decoro na hora da morte. Estacionado sem peso num ponto suspenso, sacudindo braços e pernas já sem convicção, sentindo a doçura de um néctar severo, antigo, subindo do meu sangue, da velhice cega dos meus ossos, um conforto terrível e belo, um acordo tácito eu morro e você me mata, a gente concorda nisso e eu estou feliz, mas então meus dedos bateram contra o sólido contra a borda de azulejo da piscina, que me susteve, me agarrou como uma mão, e eu me icei para fora, tossindo, furioso, belo, feliz. Como dobraram aqueles cotovelos enquanto eu subia, uma criança molhada, trêmula, que disse então “oh bom Deus” com uma solenidade ridícula, humilhada em agradecimento como um escravo fugitivo diante do leito seco do oceano, água espirrando para os lados e a prancha bate de volta no peito de Katerina, o dinheiro pro lanche dobrado no bolso da bermuda, protegido em um saco plástico junto com o baseado. O semáforo passa de vermelho para amarelo para verde, pausadamente. Chega o rapaz das quentinhas. Às margens do Munim, um crocodilo magro encara o Sol, pupilas paralisadas, incrustado na cena com precisão de relojoeiro. A temperatura aumenta, se estabiliza. Uma sombra progride. Automóveis Volkswagen prateados chovem de contêineres cujos cabos de sustentação, rebentando simultâneos, produzem um estalo complexo que soa como uma palavra nova e terrível sobre os trabalhadores atordoados. Um cão dilacera um bebê numa tarde quente, ao som de fogos de artifício e fanfarras. Chegam os novos aparelhos de ar condicionado. Suspenso em negro a 50 anos-luz da Terra, um diamante bruto de dois trilhões de trilhões de toneladas flutua solitário. Quando a luz de Proxima Centauri incide sobre ele, a jóia despede estilhaços cegantes brancos e vermelhos, e torna-se um anjo luminoso, um farol de luz insuportável. O ônibus continua enfrentando buracos e Li Ning, de doze anos, amolece o corpo, sentindo em cada junta o abalo cheio de barulho das placas de metal vibrando. Ele fala baixinho durante os solavancos, deliciando-se ao ouvir a própria voz, sacudida como um bracelete numa dança.


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