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PRATA DA CASA | CONHEÇA O 2º COLOCADO NA CATEGORIA CRÔNICA: NAJIN MARCELINO LIMA

Atualizado: 5 de jun.




SOBRE O AUTOR


Nascido em Recife (1976), ama o mar e a luminosidade da sua terra. Graduado em Letras (Português/Inglês), é mestre e doutor em linguística pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em seus mais de 25 anos de carreira tem atuado no ensino de língua inglesa, na formação de professores e na produção/revisão de materiais didáticos. Atualmente reside em Concórdia (SC), onde leciona Português e Inglês no Instituto Federal Catarinense (IFC). Escreve textos ficcionais curtos há pelo menos quinze anos, mas só recentemente decidiu assumir seu enlace com a Literatura. Em 2023 teve os contos Assombração e Sinais publicados na antologia “Realidades Estilhaçadas” (Mondru); o conto A dois dias e a crônica Aprendendo a voar foram publicados na coletânea Nordestes (Selo OffFlip). A crônica Os sabores do abacate dá título ao seu livro de estreia, lançado em 2023 pela editora Gataria. Para 2024 teve o conto Por debaixo da chuva selecionado para participar do Prêmio Off Flip de Literatura. Najin é um entusiasta das crônicas pois acredita que elas têm o poder nos fazer rir, emocionar e refletir sobre a vida, apesar de suas poucas linhas.

Instagram: @najinlima



A CRÔNICA 2ª COLOCADA


Os sabores do abacate


Os primeiros cronistas que chegaram ao Brasil tinham como missão reportar ao rei de Portugal as descobertas da nova terra. A crônica tinha sobretudo um caráter documental e jornalístico. Tento explicar isso aos meus alunos adolescentes para que eles comecem a entender as diferentes acepções da palavra crônica e não confundam o ofício dos cronistas da época com o daqueles que escrevem os blogs de hoje em dia. Em algumas das aulas, todos os anos, tento mostrar para eles como deve ter sido difícil para o Caminha colocar em palavras o que ele tinha diante dos olhos, um mundo que extrapolava os ares conhecidos de Entre-Douro-e-Minho e cujas águas fariam o Tejo se sentir um igarapé. Eu os relembro de que não existia Iphone com três câmeras, nem Insta, de modo que o que restava como filtros eram os adjetivos conhecidos do autor.

A propósito, sempre imagino que o Caminha deve ter sentido, numa proporção infinitamente maior, o que eu senti quando estive no topo do Pão de Açúcar pela primeira vez. Mesmo sendo brasileiro, filho de mãe carioca, mesmo conhecendo natureza exuberante, mesmo já tendo visto várias novelas do Manoel Carlos, ao ver aquele conjunto de curvas tocando o céu e o mar, não pude deixar de me render a um embasbacamento letárgico por uns dez minutos. Para uma pessoa como eu, sem a habilidade de um Caminha, foi um não sei quanto de beleza que não consegui descrever. Não sou tão velho quanto o emissário português, mas ainda assim, não havia Insta!

Só bem mais tarde a crônica foi se tornando esse gênero tipicamente brasileiro, que nos permite falar do nada ou de quase tudo. Que permite você juntar uma aula de literatura no primeiro parágrafo com um dia feliz de janeiro no segundo. Que acha a universalidade nos detalhes e nas esquinas das cidades. Muitos já disseram que a crônica não se pretende nobre e, contentando-se em ser menor, eterniza sua grandiosidade. Esse jeito de perambular pelas linhas como se andássemos desprevenidos pelas ruas da cidade onde nascemos é privilégio brasileiro. Em inglês, há quem a chame de personal essay, mas o academicismo do termo atira para longe a leveza desse gênero curto que nos arranca um sorriso inesperado, um suspiro de lembranças amenas, um conforto em algum lugar entre o estômago e coração. A crônica é como um carboidrato literário, um cookie da alma. 

Tenho momentos de prazer lendo as reminiscências de infância cheias de humor do Antonio Prata; sinto orgulho do olhar grandiloquente do Xico Sá criando um Nordeste onírico, com personagens antológicos que resumem muito bem o humano; tenho raiva do Gregório Duvivier, que consegue escrever o que quiser; me divirto com as neuroses embrulhadas em papéis coloridos de realidade da Tati Bernardi; surpreendo-me com uma prosa poética de uma Miriam Leitão. Tento aprender com esses mestres a arte de contar a vida em poucos caracteres e de lambuja trago leveza para os meus dias. Ultimamente, contudo, o que os textos de todos eles têm dito, de uma forma ou de outra, é que o Brasil não tem deixado a crônica ser crônica. Não há como fugir da realidade que nos nega o oxigênio… e uma lembrança de felicidade desmedida, de uma risada farta ou de uma amenidade qualquer poder até soar imoral, insensível. Eu também tenho me sentido sem ar. Após a leitura da minha última crônica, um amigo me escreveu no inbox “Parece que você escreveu com o fígado”. Foi isso mesmo.

É que 3600 mortes por dia é maldade demais. É a incerteza de não ver horizonte.

Seria tão bom se eu pudesse falar apenas de vida. Como as vidas dos filhos dos meus amigos, que, mesmo nascendo ou crescendo em meio a esse caos, não nos negam sopros online de esperança. Liz tá cada dia mais linda e já colocou os pais para trás nas poses paras fotos. Helena já diz frases completas e nem parece mais aquele bebezinho que colocamos nos braços há pouco mais de um ano. Breno acha que é um ursinho porque lhe colocaram um chapéu de pelúcia na cabeça e ri todo faceiro. Pilar não sabe ainda que existe um verbo estranho chamado “saudar” e é flagrada cantarolando sozinha, sentada ao pé de uma porta, a música da Eliana “Eles se saúde, eles se saúde… e se vão… e se vão”.

Essa semana Artur descobriu o abacate. De cara achou estranho aquele ovo verde gigante figurando no seu prato. Mas logo estava gargalhando lambuzado no Instagram. Em alguns dias ele vai descobrir a vitamina de abacate, e o abacate com açúcar e canela. Ele vai descobrir que os franceses fazem um patê de abacate com atum e azeite de oliva delicioso, e que os mexicanos fazem muitas coisas com abacate. Logo, logo, mais rápido do que possamos imaginar, ele vai estar tomando cerveja com guacamole com os amigos da faculdade em algum novo bar legal de Recife, que talvez eu nem venha a conhecer. 

É isso… eu só queria poder falar novamente sobre coisas leves e essenciais da vida, como por exemplo a importância de se apreciar os diferentes sabores do abacate.


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