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PRATA DA CASA | CONHEÇA O 3º COLOCADO NA CATEGORIA CONTO: LUCIANO CABRAL




SOBRE O AUTOR


Meu nome é Luciano Cabral, nascido em Magé, região metropolitana do Rio de Janeiro. Sou professor de língua inglesa e doutor em literatura estadunidense pela UERJ. Também sou ensaísta e tradutor. Publiquei contos em revistas literárias e ganhei dois prêmios literários de Barueri – 2017 e 2023 – como escritor não-residente. Recentemente, publiquei dois contos na coletânea Galerias do Artifício, resultado do projeto Poligrafia, coletivo de escrita criativa em parceira com os autores Lucas M. Carvalho (vencedor do Pena de Ouro e Barco a Vapor), Pedro Sasse (vencedor do prêmio Le Blanc), Jonatas Tosta B. e Gabriel Sant’Ana.  



O CONTO 3º COLOCADO


Babélico


foi uma época em que nenhum habitante da cidade, com exceção dos traidores, contestava a construção da torre, um tempo em que a fome, a mesma de hoje, movia cada vez mais corpos na esperança de mais comida, na fé de que, quanto mais perto do céu, mais chances de ter as súplicas atendidas, para nós, a torre era arte, era bela, grandiosa, imponente, os astrônomos a queriam a mais alta possível, as casas da cidade eram revestidas do betume de Noé, mas a arquitetura de uma torre demanda solidez, simetria, pedras e argamassa, as pedras eram retiradas das encostas dos montes pelos alteadores, o que exigia dedos apurados para selecionar rochas, eles deviam ter pernas e braços longos e agéis, mãos e pés adestrados, para evitar desperdícios, os alteadores eram punidos quando apresentavam olhos vermelhos que denunciavam horas de bebidas fortes, não era incomum a queda fatal por conta da embriaguez, alguns alteadores tornavam-se fixadores, por serem, de tempos em tempos, convocados a fixar as cordas no topo dos montes, mas cordas frouxas acarretavam acidentes e o castigo ao negligente era a prisão, julgamento, condenação e banimento pelo juizado geral, marteletes, marretes, porretes eram utilizados para prender as cordas e desprender as pedras que, depois de soltas, caíam ao sopé dos montes para serem recolhidas pelos coletores, era preciso ter gosto pela geologia porque os coletores não só recolhiam as pedras caídas como também deviam observar a estrutura dos montes, eram eles que, do solo, alarmavam os alteadores lá no alto contra possíveis desabamentos, para isso os coletores tinham que ter olhos hábeis e notar falhas nas encostas antes que um desastre ocorresse, ao redor dos montes, havia cabanas de brita que armazenavam as pedras coletadas, ali elas deviam ser lapidadas até que se transformassem em paralepípedos de quinze por quatro para serem carregados até os canteiros, as lascas de pedra que sobravam serviam de brita e eram levadas em cestos, a pé, porque havia poucos cavalos para o transporte, a maior parte deles servia aos conselheiros.

‘vocês já levaram nossos soldados, nossos ferreiros, nossos pastores, nossos meninos, agora entram aqui e querem também nossos cavalos, não, vocês não querem cavalos, vocês querem fama e não querem ficar espalhados pelo mundo’

‘senhores, a torre vai salvar a colheita’

‘se a colheita não foi suficiente, que se aumentem os sacrifícios’

‘isso foi feito e temos colhido cada vez menos’

‘vocês amantes de estrelas perdem tempo olhando para cima, mas esquecem que a terra é o suporte dos pés’ 

‘as estrelas dão respostas’

‘Yhwh dá respostas, sejam leais e ele responderá’

‘somos leais, todos nós somos’

‘ele quer lealdade incondicional!’

‘senhores, qualquer membro desse conselho que andasse pelas ruas e visse o que estamos fazendo, nosso empenho, nossa organização, nossa determinação para erguer a torre, qualquer um de vocês diria que somos o mais leal de todos os povos’

‘você acham que lealdade é passar o dia empilhando pedras?’, há seis coisas que se deve rejeitar e sete que se deve detestar, quem provoca a discórdia é detestado e, segundo o conselho, para não provocá-la, era melhor que a torre servisse ao mesmo tempo de escola e de estadia, para estudo e para descanso, nós desenhamos janelas largas com boa vista porque os conselheiros exigiam quartos grandes para abrigar os sacerdotes, as paredes tinham de ser duras e o solo tinha de ser firme, um terreno flácido faria o edifício desmoronar, o chão foi aberto pelos britadores, incumbidos de cavar até encontrar um lugar justo onde a torre pudesse ser fundada, ela foi erguida perto do mar porque o mar fornecia o calcário, a água e a areia, o natrão vinha dos altiplanos da fronteira com os extratores em jornadas que podiam durar um ciclo inteiro, os extratores tinham de resistir ao sol, beber água como os camelos e guardar na mente as rotas da estrada para não se perder, o caminho para a fronteira encantava, o caminho de volta podia ababelar os sentidos, corria a crença de que aquele que morresse na estrada seria amaldiçoado e sua alma, proibida de ganhar o paraíso, ficaria vagando pelo deserto, essas viagens eram indispensáveis porque o natrão curava a argamassa como nenhuma outra substância, nossa construção era magnífica, antes já se havia tentado e errado, para não cair em mais erros, todas as manhãs nossos joelhos dobravam-se na direção da capital e suplicavam sabedoria sobre os ingredientes, para conhecê-los, distingui-los, prepará-los, usá-los corretamente, calculamos que, depois que a torre atingisse a altura de dois mil homens, as pedras deviam dar lugar aos tijolos se quiséssemos evitar estragos, os tijolos, mesmo sendo mais compactos, eram mais leves, mas deviam estar bem secos.

‘vocês querem que os tijolos sequem por cinco anos porque ouviram boatos de que isso deu certo em Útica?’

‘não são boatos, senhores, mercadores confiáveis nos informaram que os edifícios de lá são seguros, então enviamos um dos nossos, que constatou que a secagem leva cinco anos, todos os tijolos são feitos na floração e comprovados pela vistoria do magistrado, no estio, o sol queima muito e o tijolo parece seco por fora, mas ainda não está seco por’

‘chega! vocês estão dizendo que a nossa casa, feita de tijolos que secam por dois anos, não são fortes? vocês estão dizendo que ela um dia cairá sobre as nossas cabeças enquanto rezamos?’

  ‘uma casa não é uma torre, ela não precisa’

‘nossas orações são diárias! nossas preces insuflam legiões! nossos pensamentos estão em Yhwh! como vocês podem insinuar que ele quer nosso mal?’

‘casas não precisam de tijolos tão fortes’

‘os utiquenses também não precisam’

‘senhores, os edifícios de Útica foram examinados, nós lemos os documentos dos magistrados que provam os bons tijolos’

‘Útica está na outra ponta do mar, de lá até aqui, as notícias estragam, os que conhecem os utiquenses mencionam coisas bem desagradáveis sobre eles, eles comem com pessoas mesquinhas, têm preguiça de arar a terra na época certa e perdem tempo falando com tolos’

‘não é verdade’

‘aliás, essa conversa é perda de tempo, vocês têm dois anos para secar seus tijolos’

‘dois anos é pouco’

‘mais do que isso é condenar nossa cidade a um eterno canteiro de obras!’, nossos tijolos eram feitos da terra vermelha que vinha das estepes, as ervas secas não aderiam bem ao barro arenoso, que era áspero e dissolvia na chuva, para suportar a altura de mais mil homens, calculamos que os tijolos deviam ter seis por dois, tamanho que diminuiria pouco a pouco para facilitar o transporte, havia relatos de tijolos de terra esponjosa feitos pelos sármatas, rígidos e ao mesmo tempo leves, que flutuavam na água, houve expedições por todo o nosso território em busca dessa terra, mas não a tínhamos e tomá-la dos sármatas exigiria um povo bem alimentado que gerasse soldados bem-feitos, a terra vermelha era moldada por ladrilheiras porque as mulheres aturavam a morrinha dos tijolos por mais tempo, os homens que ladrilhavam não resistiam duas horas enquanto elas trabalhavam um terço do dia sem enjoos, seus filhos e filhas, ligeiros e leves, corriam a torre de cima a baixo em busca de rachaduras para fechá-las com argamassa, não havia tempo para sonhos, o descanso era curto, festas proibidas, havia muito trabalho, façam como a formiga, eu dizia, a formiga não tem preguiça, por isso não passa fome, o entusiasmo estava na nossa língua enquanto a torre crescia e quando seu topo já podia ser visto além das nossas terras, os primeiros forasteiros começaram a chegar, queriam saciar a curiosidade, saber que construção era aquela que tomava o céu como nenhuma outra, corriam notícias de que nossos astrônomos, lá do alto, estavam decifrando as estrelas e que a colheita tinha sido boa, batata, berinjela, lentilha como refeição de todo dia de novo, figo e tâmara como sobremesa de novo, ouviram que nossas crianças eram saudáveis e que comiam peixe como os adultos, os elogios para a torre chegavam como água fresca e os forasteiros começaram a louvar a nossa obra, disseram que a voz de Yhwh ecoava lá dentro, que testemunharam sua presença nos corredores, paredes e até no chão, crianças desciam correndo, dizendo que Yhwh havia pedido que elas fossem até ele, em pouco tempo os joelhos deixaram de se dobrar para a capital e passaram a mirar a torre como novo santuário, todos queriam ajudar, queriam empilhar ao menos uma pedra para assegurar que estavam fazendo parte de algo extraordinário, até os magistrados de Útica nos visitaram, pediram nossos conselhos, documentaram nossas respostas e ficaram satisfeitos, previram que, em breve, torres tão altas quanto a nossa seriam vistas por aí, a fé guia nossas mãos, guia nossos pés, anima o coração, mas o raciocínio é mais eficiente, a torre já tinha a altura de seis mil homens, era esplêndida e isso era só o começo do que podíamos fazer, os arquitetos que confiaram apenas na fé engoliram decepção, mas nós, eu disse aos magistrados, nós decidimos trabalhar, por isso a multidão, antes inválida, agora tinha um propósito, depois dessa conversa fui andar pelas ruas para conservar os pensamentos bons, andei de canteiro em canteiro, pelas casas de brita, pelas casas de ladrilho e, em todo canto, eu ouvia uma prece sendo repetida pelos operários.


se eu cruzo o deserto até a fronteira

   eu entrego a ti a minha vida inteira

afasta de mim, senhor, os malditos do deserto

mantenha minha alma, senhor, no caminho certo


nosso peixe era abençoado, era fonte de fama, mas os extratores não queriam mais comê-lo, alegaram que, no deserto, o cheiro de peixe anunciava a aparição das almas amaldiçoadas, eles estavam aterrorizados, diziam que o fedor era insuportável, que as almas gritavam em desespero, pedindo socorro quando eles tentavam retirar o natrão dos cadáveres, foi então que os extratores cruzaram os braços, recusavam-se a viajar mesmo depois de cinquenta açoites, durante o castigo, eles gritavam que sangrar era melhor que morrer maldito, a prece mais desorientava do que amparava, a notícia passava de boca em boca e até os que nunca tinham ido para os altiplanos acreditaram na maldição.

   ‘o deserto sempre foi abrigo de almas e isso nunca incomodou vocês empilhadores de pedras’

‘senhores, não tem almas lá’

‘o fruto do justo é a árvore de vida e justo é aquele que conquista almas’

‘nós cuidamos da alma e do corpo dos operários, com oração e corda, mas no deserto não tem alma nenhuma, o que acontece lá é uma ilusão do sol quente que afeta a cabeça e faz ver coisas que não existem’

‘vocês sempre têm respostas’

‘nós mandamos um dos nossos, ele não viu almas, o que tem lá são ossos, restos, mal cheiro, mas nada disso é amaldiçoado, nós sabemos que o’

‘vocês sabem! vocês sabem! vocês sabem de tudo! têm resposta para tudo! vocês mandaram milhares para o deserto, agora que eles têm medo, a culpa é deles?

‘a culpa não é deles’

‘de quem é, então?’

‘homens sempre viajaram pelo deserto e nunca o amaldiçoaram antes’

‘essa torre desagrada Yhwh’

‘ele devia agradecer por ela’

‘sua rebeldia atrairá a ira e a discórdia’

‘o que pedimos é que parem de ensinar essas preces, se perdermos mais operários, vai haver desgraça’

‘preces aliviam o peito, acalmam o coração agitado, o que ensinamos aos seus trabalhadores é para aconselhá-los e confortá-los’

‘e causou mais confusão do que conforto, digam a eles da próxima vez que não’

‘quem vocês pensam que são para nos ensinar a dar conselhos?’, ao se despedirem, os magistrados utiquenses disseram que começariam o quanto antes a construção de sua torre e seus arquitetos prometeram uma altura de dez mil homens, em alguns anos a torre de Útica seria vista de qualquer ponto do território, eles mencionaram que seu betume podia aguentar quarenta dias de chuva sem remate, mas eu mal dei ouvidos, não tinha tempo para invencionices, eu devia trabalhar, o juizado geral havia banido milhares de fixadores para fora da cidade porque a lei determinava essa sentença, eles então se instalaram nas cercanias, imundos, inúteis, vivendo à mercê de caridade e nós quisemos trazê-los de volta, perdoá-los, torná-los extratores, dentre eles, poucos tinham ouvido sobre os malditos do deserto e aceitariam a viagem como um presente, os juízes, no entanto, denunciaram nosso intento e os fixadores foram novamente banidos, alguns deles nos cercaram, exigindo que cumpríssemos o prometido, mas eu sugeri que batessem no conselho, não na nossa porta e mandei os feitores usarem as cordas, decidimos então enviar as ladrilheiras para resgatar o natrão, elas se queixaram, protestaram, mas cederam diante dos açoites, para não sangrar mais, escolheram rumar para o deserto, sua resistência a enjoos era a providência de que precisávamos, nas casas de ladrilho, só os homens ficaram para ladrilhar e não demorou para que eles pedissem uma audiência porque as casas começaram a cheirar a vômito e o cheiro persistia mesmo depois de sucessivas lavagens, eles estavam desanimados e eu os animei, façam como a formiga, eu dizia, porque a minha ordem era seguir em frente.

‘essas são as ordens’

‘dadas em uma língua que vocês mal entendem?’

‘Yhwh dá sinais de modo misterioso e vocês sabem disso’

‘e por que parar a construção?’

‘ele tem suas razões e só ele sabe delas’

‘estamos trabalhando dia e noite, podemos fazer mais, por que parar agora?’

‘todo o julgamento de Yhwh é feito com sabedoria’

‘que sabedoria é essa quando a ordem é condenar uma torre que traz glória depois de anos de colheita ruim?’

‘pelo que sabemos, nunca faltou pão a ninguém’

‘não se vive só de pão’  

‘e nem só de construção!’

‘olhem para cima e vão ver que podemos mais, Yhwh é forte, ele determina os nossos passos, mas nós planejamos o caminho, a torre é uma dádiva, um presente, um ímpeto que alarga nossa vontade, olhem para as ruas e vão ver beleza, tem uma força lá fora e está acontecendo agora, uma força que nem Yhwh consegue impedir’

‘a harpa’

‘senhores, perdoem nosso irmão, ele não sabe o que diz’

‘parou de tocar nesse exato momento, quando encontrarem larvas e vermes nas suas camas, saberão que foram longe demais’, uma ordem divina é lei irrefutável, os astrônomos disseram e disseram que, como estava, já se podia fazer muito, falei que a torre podia ser mais alta e lembrei que eles mesmos tinham pedido que ela fosse a mais alta, eles disseram que isso não era mais importante, a fome tinha sido controlada, a observação e a vigilância seriam nossa prática dali em diante e eu clamei que era preciso continuar, vocês não entendem, para que a fome acabe de vez, é preciso ir mais alto, eu disse, por fim eles confessaram que estavam cansados da construção, do trabalho incessante, da cidade que era um eterno canteiro de obras, um eterno canteiro de obras, um eterno canteiro de obras, essas palavras ressoaram na minha cabeça como um golpe de porrete, exatamente as mesmas palavras dos conselheiros, todo esse tempo achando que os astrônomos, meus irmãos de profissão, meus irmãos de construção, estavam do meu lado, mas não, queriam tirar proveito da torre para entrar na história como mensageiros da caridade e apagar a pecha de amantes de estrelas, mas ai deles porque, quando terminarem de trair, serão traídos, enxergar a cidade como um canteiro de obras era grosseria, a cidade era êxtase, forasteiros vieram e chamaram a torre de milagre, os utiquenses vieram e quiseram aprender conosco, a torre foi o monumento que reuniu pessoas que, sem ela, estariam espalhadas, a construção não podia parar, mas os astrônomos pediam que eu me dobrasse e os nossos também quiseram se entregar e essa foi a traição maior, vocês não são formigas, eu disse, expulsei todos da minha casa, alguns perguntariam o motivo do desperdício se vissem o masguf na minha mesa, se a comida é largada, ela apodrece, assim como a cama que se enche de poeira quando não se deita nela, eu passava as noites em claro, olhando na direção de Útica, esperando ver a qualquer momento outra torre crescendo, um dos meus veio informar que as crianças estavam chorando a falta das mães e o choro tomava o tempo que elas deviam estar fechando rachaduras, a insensatez é própria dos pequenos, porém a vara da disciplina sempre os afasta dela, a vara trouxe de volta crianças caladas e tempos depois trouxe mães revoltadas contra esse castigo, que se negavam mais e mais às viagens ao deserto mesmo debaixo de cinquenta açoites, os meses seguintes trouxeram só desgraça e meus joelhos, rogando solução, dobravam-se para a torre cinco, seis vezes ao dia, um dos meus veio informar que os tijolos, por não terem secado no tempo necessário, estavam se desmanchando, outro passou a queixa de que a argamassa sem o natrão deixava a construção vulnerável, outro informou que os fixadores tentavam forçar sua entrada de volta, empurrando os portões da cidade e, em meio a tudo isso, um mensageiro avisou que os conselheiros me convocavam.     

‘você insiste em nos desobedecer’

‘vocês exigem que eu obedeça uma ordem que tem pouca verdade’

‘você não crê nas palavras de Yhwh, o deus dessa cidade, o deus desses mares, o deus desse céu que você tanto almeja?

‘não duvido das palavras dele, mas duvido que ele seja tão vaidoso a ponto de proibir que façamos coisas tão admiráveis quanto as dele’

‘sua desobediência está trazendo sofrimento para a cidade’

‘todo o sofrimento vai ser recompensado quando a torre estiver pronta’ 

‘os astrônomos disseram que ela já é suficiente como está’

‘eles são traidores! todos traidores! amam as estrelas, mas falam com a boca suja!’

‘eles são leais’

‘eles traem!’

‘eles obedecem!’

‘vocês traem!’

‘você nos acusa, mas é curioso que tenha respostas para tudo na ponta da língua, mas não saiba responder porque insiste nessa construção’

‘eu posso fazer mais por todos nós!’

 ‘já temos comida boa no prato’

‘se temos, é graças à torre!’

‘é graças à Yhwh!’, quando o bem ainda estava acima dos caprichos, eu acreditava que outra história poderia ser escrita nas primeiras páginas, mas esse tempo acabou e só me restou passar os dias esperando Útica, o masguf tinha atraído formigas e foram elas que, até o fim, se mostraram leais, pela manhã vi larvas no meu lençol e vermes na minha roupa, sacudi o corpo para me livrar deles, mas continuavam agarrados em mim, ouvi gritos, olhei pela janela, havia um escarcéu nas ruas, chamei um dos meus para me informar o que era aquilo, apesar do meu esforço, eu não entendia o que ele dizia, então saí para verificar, uma poeira espessa cobria o ar, era difícil respirar, a construção tinha sido obstruída, os operários que insistiam em trabalhar estavam sendo espancados por outros operários, retive uma mulher pelo braço, querendo uma explicação para o motim e الأشباح في كل مكان ,! الأشباح في كل مكان, ! الأشباح في كل مكان ! era o que ela repetia, as casas de brita tinham sido incendiadas, as casas de ladrilho foram apedrejadas, os canteiros estavam sendo arrasados, os armazéns saqueados, uma turba pilhava a cidade, muitos passavam por mim, bradando ‘مجازاتی نیست دیگر ! مجازاتی نیست دیگر !’, com os punhos levantados, pela túnica real que usava, identifiquei na multidão um dos conselheiros perambulando pelos entulhos, ele tentava abrir passagem entre a população, empurrando os insurgentes, tropeçando nos escombros, eu o persegui por uns novecentos côvados até agarrá-lo pelas roupas, ele tentava se desvencilhar de qualquer coisa que o atrapalhasse e puxou, sem olhar para trás, sua túnica várias vezes, travei sua gola com força e então, impedido de avançar, ele se virou na minha direção, não me reconheceu de início, tentava fugir das minhas mãos como um porco foge do laço, perguntei o que estava acontecendo, mas ele não me compreendia, seu semblante era um agregado de desalento, derrota e desespero, o oposto daquele velho que, durante as audiências, zombava do meu raciocínio, o que vocês fizeram com a torre?, eu perguntei e então ele se acalmou, pareceu voltar a si, corrigiu a postura e, com a ponta dos dedos, secou a testa, tateou minhas roupas como se quisesse confirmar minha identidade, segurou meu rosto entre as mãos e começou a negar com a cabeça, apontava o dedo na minha cara, apontava os vermes na minha roupa, seu rosto logo refletiu sua veemência, as veias do seu pescoço incharam, sua boca se encheu de ar e ele gritou,גרים בה מאה אלף אי וכל אחד מהם שונא אותך  !, um berro horroroso, antes que eu pudesse reagir, ele me empurrou para longe com os punhos fechados no meu peito e, ainda gritando a mesma frase, entranhou na multidão, desapareceu, a turba seguiu destruindo o que podia, os forasteiros roubaram como podiam, a população acabou se espalhando, eu me abriguei nos escombros, vivendo de restos e, do meu abrigo, testemunhei o estrago deixado para trás, o tempo da torre é tempo passado, agora é só sujeira e súplica e eu tenho rezado todos os dias, com os joelhos dobrados na direção das ruínas, por aqueles que não sabem falar, hoje, eu sinto fome quando vejo a torre de Útica tomando o céu e ela é magnífica.


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