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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS FINALISTAS: NATHAN FERNANDES




SOBRE O AUTOR


Nathan Fernandes é jornalista e contador de histórias, que navega entre os domínios da ciência, política, direitos humanos e cultura. Sua caneta já passou pelas páginas da revista Playboy, onde foi repórter, e encontrou morada na Galileu, onde trabalhou como editor. Seu trabalho jornalístico já foi reconhecido com os prêmios Vladimir Herzog e da Unesco em parceria com a Aids Healthcare Foundation. Também já escreveu sobre crise climática, literatura e tecnologia em veículos como Veja, Folha de S.Paulo e MIT Technology Review. É editor do site Ciência Psicodélica e integrante do ICARO, grupo de pesquisa com psicodélicos da Unicamp. Através do projeto literário PunkYoga, ele explora os cantos profundos da mente e do espírito, tecendo reflexões sobre filosofia, expansão da consciência e vivência LGBTQIA+. 



A CRÔNICA FINALISTA


O trepanado enxerga mais que o olho são


A cantora Dua Lipa tem um podcast com um nome ótimo. Em tradução livre, seria algo como Dua Lipa ao seu dispor ("Dualipa at your service"). Esses dias, eu estava ouvindo a entrevista que ela fez com a Amanda Fielding, e elas caíram no papo de trepanação. Calma!


Amanda Fielding é uma condessa inglesa que se tornou um dos principais nomes da ciência psicodélica. A primeira vez que ouvi falar dela foi em uma reportagem da Trip, de 2010. Nessa matéria, ela explica que trepanação é a abertura de um pequeno buraco no crânio, com o objetivo de reduzir a pressão dentro da cabeça e facilitar a circulação de sangue no cérebro. Sim, um furo no crânio. Com uma broca elétrica.


Quando li isso pela primeira vez, devo ter feito essa cara que você está fazendo agora de "mas que porra...".


Acontece que a trepanação é uma técnica antiga. Ela já foi usada por culturas do planeta inteiro: desde os antigos egípcios e os indígenas do Peru até os chineses e europeus do século 16. Existem vestígios de caveiras trepanadas desde o período neolítico. A questão é que até hoje não se sabe muito bem por que as pessoas faziam isso. Um artigo do The MIT Press Reader fala que o procedimento era usado para tratar desde epilepsia até "males da mente", como a melancolia e a loucura.


Na entrevista com a Dua Lipa, a Amanda Fielding deu uma explicação interessante, que não estava naquele texto que eu li em 2010. Ela lembrou que, quando a gente nasce, o crânio é mais mole, e, conforme crescemos, ele vai endurecendo. Todo mundo que já pegou um bebê no colo sabe disso. Mas uma teoria diz que a pressão que vai se formando no cérebro, por conta do endurecimento da cabeça, é responsável por dizimar a nossa empolgação e a nossa energia vital ao longo dos anos. A trepanação seria então uma forma de devolver ao cérebro o impulso de vida que a gente tem na infância.


A Amanda soube disso e quis testar. Enfim, uma mulher curiosa…


Achei engraçado porque, semanas antes, havia sido publicado um estudo interessante que trouxe coisas novas para o entendimento sobre como agem as substâncias psicodélicas no cérebro. Basicamente, o que o estudo da neurocientista Gül Dölen, da Universidade Johns Hopkins, diz é que os psicodélicos também abrem a nossa cabeça para retomarmos padrões da infância. Mas não metendo uma broca elétrica na moleira. É de uma maneira mais metafórica.


Existe um conceito que se chama "período crítico", são fases de desenvolvimento, ou, como os cientistas mais poéticos dizem, são "janelas de tempo". São os períodos nos quais a gente tá mais apto a aprender alguma coisa, a andar, a comer de garfo e faca, a falar um idioma, etc... São milhares. A maioria dessas janelas se abre na infância. Não quer dizer que não dê pra aprender nada depois que elas se fecham, mas esses períodos facilitam a aprendizagem. Talvez isso explique porque, no passado, eu conseguia usar código html para programar meus blogs, mas hoje fico zonzo só de olhar o aplicativo do TikTok.


O que a pesquisa mostrou é que substâncias como LSD, ayahuasca e cogumelos são capazes de reabrir essas janelas de tempo. Como se fizessem o nosso cérebro voltar a ter a mesma flexibilidade do passado. Ou seja, hábitos e comportamentos que a pessoa tem impregnados hoje poderiam ser reprogramados. Isso pode ser uma maravilha não só para pessoas com dependências químicas ou depressão, por exemplo, mas também no tratamento de questões como Alzheimer, derrame e até cegueira.


Em uma reportagem da Wired sobre o estudo, a psiquiatra Rachel Yehuda disse que é comum as pessoas relacionarem a terapia psicodélica com um “botão de reset” na mente, mas, até esse estudo ser publicado, ninguém conseguia explicar “como algo de duração tão curta [a experiência psicodélica] pode ter efeitos duradouros e transformadores que vão muito além do período de tempo em que a substância está lá”.


O mais fascinante é que, mesmo sem um eletroencefalograma, muitos grupos espiritualistas que usam ayahuasca falam justamente da recuperação da "criança interior" como uma forma de cura.


Minha experiência como uma "criança viada artística" mostra que a expressão criativa e a imaginação livre podem ser formas poderosas de acessar essa parte mais autêntica de nós mesmos. Eu Adoraaava organizar espetáculos com minhas primas e meu irmão — mesmo que eles se recusassem a participar, já que eu era o mais velho e mandava. A gente fazia musicais e reproduzia cenas de novela. Um dos meus grandes momentos foi fazendo o personagem de José Mayer em “Mulheres Apaixonadas”, o Pedro.


Quando descobri que Fuga das Galinhas tinha sido feito com massinha, aos doze anos, fiquei doido, e cismei que queria fazer um filme em stop motion — mesmo sem roteiro e sem a mínima ideia de como fazer isso. Mas não existia câmera caseira na periferia de São Paulo em 2000, e isso acabou atrapalhando um pouco os planos. 


Uma vez, com a câmera de um primo, conseguimos gravar um filme que se chamava “O Dragão Dourado de Budapeste”. Aproveitei a ocasião para propor uma supreprodução com contraplanos, planos sequências, planos aéreos, perseguição de carrinhos de plástico e vilã misteriosa dublada em tempo real. O roteiro foi sendo feito na hora mesmo, e a gravação ainda deve existir no fundo de algum armário mofado.


Eu era empolgado demais com a câmera e vivia pensando nas maravilhas que eu faria se tivesse uma em casa.


Hoje, eu tenho uma no bolso. E não faço nada. 


Por isso, um dia qualquer, lavando louça, me questionei: por que eu nunca mais brinquei de fazer filminhos?


Não tenho pretensão de abandonar o jornalismo e fazer cinema com quase quarenta anos de idade. Não quero trocar uma profissão que paga mal por outra que paga pior. Mas, ao recuperar um desejo do passado, fiquei pensando que, talvez, a infância seja um bom lugar para visitar quando a gente está meio perdido.


É claro que a infância também pode ser um momento de muita vulnerabilidade, medo e insegurança. E é nessas horas que lembro do meu amigo Gust e do símbolo do torus. Esse símbolo, que parece uma rosquinha com a cobertura derretendo em direção ao próprio centro, mostra que nós estamos sempre voltando para o mesmo lugar. Mas não pelo mesmo caminho. Quando chegamos no ponto em que partimos, já estamos transformados. Joseph Campbell com certeza saberia explicar isso melhor do que eu. 


Acho engraçado quando ouço pessoas mais velhas dizendo que gostariam de ter a cabeça que tem hoje mas com o corpo da juventude. Fico pensando que seria uma aberração ter uma criança especializada em direitos humanos e políticas de drogas, por exemplo. Ou seria legal... Ela apareceria no programa da Eliana, pelo menos.


Mas não é possível "ter a cabeça de hoje com o corpo de jovem". O Elon Musk ainda não conseguiu estar viabilizando esta demanda. O que é possível, no entanto, é ter o corpo de hoje com a cabeça da juventude. Um corpo com experiências e conhecimentos acumulados durante anos, mas que, por dentro, mantém a curiosidade, a empolgação e a abertura para se surpreender com as coisas ainda inéditas da vida.


Cada vez mais, me parece que vence esse jogo de se-manter-são-em-meio-ao capitalismo-alucinado quem entende que a infância não é um período de tempo finito na vida de uma pessoa, mas sim um estado mental, que a gente cultiva junto com a experiência. Isso é reabrir os períodos críticos no cérebro, diriam os cientistas psicodélicos, com o símbolo de torus na mão. Isso é quebrar o tempo.




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