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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS FINALISTAS: YUSSEF FRANCIS KALUME




SOBRE O AUTOR


Yussef Francis Kalume nasceu no Piauí, em 1979, mudando-se na adolescência para Brasília. De lá, recém-formado em Jornalismo, partiu para o Rio de Janeiro — onde reside desde então — a convite para trabalhar com Cinema. Em 2021, publicou o seu primeiro livro de contos, Ensaio sobre o fim, seguido dos romances Uma ficção científica pornô romântica (2022) —, e Anhangá (2023), todos pela Editora Urutau.



O CONTO FINALISTA


SOBRE BARDOTOS, ZEBRAS E BURROS


O pangaré relinchava tanto que parecia debochar, a gargalhadas, daquele pobre homem. A carroça, aquela gaiola maldita, jazia aos pedaços espalhados no asfalto e o seu dono estava ali, paralisado, com o chicote ainda em punho. O susto entalado na garganta conseguia escapar pelos olhos, arregalados, sem saber se chorava ou fugia. De um lado, os destroços da carroça; do outro, o automóvel destruído na colisão. Coitado! Como iria pagar por aquilo? Não tinha nem o suficiente pra botar comida em casa, quanto mais... Passava o dia dando duro, juntando papelão na rua em troca de uma merreca. Também carregava entulhos, mudanças... tudo que trouxesse um dinheirinho extra. Agora, quem pegava pesado mesmo era o pobre animal que arrastava a carroça pela cidade inteira e ainda era punido a chicotadas, mesmo quando o erro não era seu — e nunca era.

Naquele dia, resolveu cruzar uma avenida movimentada sem mesmo olhar pros lados. Lançou-se às cegas — com a carroça carregada de entulho — percebendo, tarde demais, o carro que vinha em alta velocidade:

— Corre, burro! — gritou o carrasco com o chicote, castigando o lombo do animal.

O bicho ficou endiabrado! Atravessou a rua, subiu na calçada e, deixando a carroça sobrar na pista, parou. O homem, desesperado, aplicou-lhe mais três chibatadas bem dadas:

— Bora! Corre, mula desgraçada!

O animal, porém, não deu um passo sequer. Com a maior tranquilidade do mundo, encarou-o com certo desdém, apontando com a cabeça o carro que se aproximava.

— Corre você, pois já estou a salvo!

O impacto foi inevitável, só deu tempo de pular da carroça. Do automóvel, desceu um sujeito baixinho, de bochechas rechonchudas que lhe davam um ar cômico, mesmo estando furioso.

— Não sabes guiar teu burro?

— Até tentei, mas ele ficava me batendo com o chicote... antecipou-se o equino, aproveitando a mudez de seu dono ainda em choque.

Acontece que aquele homem era proprietário de um pequeno circo falido e mal podia acreditar no que via. Era a mina de ouro que procurava, pensou, achando justo levá-la com ele, já que o carroceiro não tinha como pagar os danos do carro. E montou no bicho ali mesmo, abandonando o automóvel, já sonhando com o grande espetáculo.

O animal estava tão feliz que não deu a mínima em carregá-lo no dorso, tampouco o incomodavam as repetidas cutucadas que o estranho aplicava-lhe com os calcanhares. Nada conseguia ofuscar aquele mundo novo que surgia, livre, finalmente, do jugo pesado que o aprisionara por anos. Seria a estrela de um espetáculo e já começava a elaborar o seu nome artístico:

— Que tal “O Fabuloso Alazán”?

— Não é bom! Já tivemos o Fabuloso Arlok, um grande mágico, e ninguém vinha vê-lo.

— E Árion, o Magnífico?

— Também não funciona. Já tentamos um vidente com nome parecido e não deu certo. As pessoas esperam por coisas novas, algo que nunca viram e nem ouviram falar, e isso precisa ficar bem claro logo de cara. “Magnífico isso”, “Fabuloso aquilo” não lhes dizem nada e já não despertam a curiosidade de ninguém respondeu-lhe, exibindo o anúncio que acabara de pintar em um pedaço de tábua: “A INCRÍVEL MULA FALANTE”

O animal irritou-se profundamente, tanto pela ignorância, quanto pela falta de criatividade:

— Primeiramente, não sou uma mula — disse-lhe indignado.

— Perdão — desculpou-se, substituindo a palavra “mula” por “burro falante”, o que quase lhe rendeu um coice.

— Nem burro, nem mula — replicou o animal — Sou um bardoto!

E percebendo que seu novo dono desconhecia o significado de tal palavra, resolveu explicar-lhe de forma bem simples:

— Meu pai é um cavalo; minha mãe, uma jumenta.

— Ué!? Então você é um burro!

— Burro é o filho de uma égua com um jumento respondeu-lhe, após respirar profundamente, mas o que ele queria dizer mesmo era: — Burro é o “fi-duma-égua” que não sabe diferenciar um do outro!

Mas de uma coisa aquele homem tinha certeza: “O INCRÍVEL BARDOTO FALANTE” não atrairia público nenhum. Quem diabos sabe o que é um bardoto?! E foi refazendo o cartaz que lhe surgiu a brilhante ideia: Bastava aproveitar a pelagem amarelada do bicho e pintar nela umas listras pretas. Oras! Todo mundo gostaria de ver uma zebra ao vivo, ainda mais uma que fala!

O jovem bardoto adorou. Seria a personagem perfeita para dar início à sua carreira artística, pensou, já imaginando-se, num futuro próximo, atuando como Pégaso. E trabalhou duro naqueles dias, carregando madeira para a construção daquilo que supôs ser o seu palco. Noutros momentos, ajudava a divulgar o espetáculo, desfilando pelas ruas e distribuindo cartazes: “KUMBA, A INCRÍVEL ZEBRA FALANTE!!!”

Foi um verdadeiro alvoroço na cidade. Todos queriam ver, pela primeira vez, uma zebra. Estavam maravilhados, mesmo sem ouvi-la falar. Para isso, era necessário pagar e assistir ao espetáculo. A estreia seria em uma semana e o bardoto aproveitou cada minuto vago para aprimorar sua personagem. Decorava longos discursos, criando histórias fantásticas sobre a África, onde nunca esteve, inventando até bicho que não existia ali. Foi também quem sugeriu o nome Kumba, segundo ele, o espírito de um grande rei africano encarnado em seu corpo... Tudo em vão! Primeiro, porque não haveria um palco, conforme idealizara; nem mesmo a lona do circo existia, pois já havia sido vendida para saldar as dívidas. No lugar disso, seu dono construiu-lhe uma espécie de baia a céu aberto onde ficaria trancado, cercado de gente que pouco se lixava para as suas histórias. Puxavam-lhe o rabo, davam tapas, atiravam pipocas, pedras, gravetos... só para ouvi-la gritar, irritada, enquanto caíam na gargalhada.

Não conseguiu dizer uma só palavra do que havia ensaiado, nem mesmo apresentar o seu nome. O espírito do grande rei Kumba desencarnava do corpo da zebra que abandonava os sonhos do bardoto que, no momento, sentia-se um burro. A multidão, ao mesmo tempo que o silenciava, cobrava dele o prometido no cartaz:

— Zebra, fala isso! Zebra, fala aquilo! — gritavam de todos os lados.

As crianças vinham com uma lista de palavras que julgavam engraçadas. Pediam para que repetisse palavrões e riam de qualquer coisa que ela dissesse. Alguns rapazes, inconvenientes, importunavam as mulheres com assobios, depois, acusavam a zebra. Queriam tirar fotos, que mandasse recado a grupos de celular, que chamasse não sei quem de não sei o que lá... Perguntavam pelos números da loteria, jogo do bicho, quem iria vencer o campeonato... Ofereciam cachaça, bituca de cigarro... até Coca-Cola, para vê-la arrotar. Ou seja: enchiam-lhe o saco! Se era pra ficar repetindo tudo o que lhe mandavam, melhor seria tê-lo pintado de verde e dizer que era um papagaio gigante, não o grande Kumba.

Ao final do espetáculo, o dono do circo era o único que parecia animado. A multidão já havia sido dispensada e o animal aguardava ansiosamente para sair daquele cercado. Queria galopar por aí, esfriar a cabeça, antes de discutir qualquer assunto sobre a decepcionante estreia. Seu senhor havia passado por ele todo sorridente — com os bolsos cheios — prometendo retornar assim que fechasse a conta. O bardoto esperou, esperou... porém ninguém apareceu para libertá-lo. Duplamente frustrado e exausto, recostou a cabeça sobre um monte de feno e pegou no sono.

Em sonhos, tinha espaço suficiente para tomar impulso e saltar o cercado. Nenhum chicote no mundo o fizera correr tanto. O salto pareceu-lhe tão leve... Percebera, então, que suas patas demoravam a tocar o solo, quando viu surgir nele duas grandes asas. Abaixo, uma multidão assistia ao espetáculo:

— É o Pégaso! — gritava a plateia maravilhada, estendendo as mãos aos céus.

— Não! Sou Árion, o Magnífico! — corrigia o imenso animal alado, dando piruetas no ar.

Porém ninguém mais parecia importar-se com a sua habilidade para voar. As pessoas voltavam a importuná-lo com os mesmos pedidos de sua estreia:

— Magnífico Árion, fala isso! Magnífico Árion, fala aquilo!

E lá do alto, vendo suas bocas escancaradas, o animal simplesmente mirava e cagava sobre suas cabeças. Sonhar voando é tão bom... Mas o despertar veio com a terrível sensação de quem sonha caindo, num susto, pondo o animal de pé. Alguém acabava de espetá-lo com uma vara e, mais uma vez, estava cercado de gente querendo que repetisse as tolices de sempre:

— Acorda! Fala isso! Fala aquilo! Assobia! — gritavam ao seu redor.

O senhorio, mais uma vez, só apareceu no final, animado com sua sacola de dinheiro. Passou apressado, pedindo que esperasse e, como no dia anterior, não retornou.

Naquela noite, preso numa jaula onde mal cabia o seu corpo, o bicho sentia falta de seu antigo dono. A carroça, mesmo pesada, lhe permitia vagar por toda a cidade, além disso, aquelas pessoas feriam bem mais que o chicote.

Zebra? Zebra coisa nenhuma! Pintaram nele um uniforme de presidiário. Dinheiro em nada lhe servia, nem era saboroso para comer. Se ao menos investissem num terreno grande onde pudesse pastar ou, no mínimo, lhe comprassem umas cenouras de vez em quando, mas... De que vale ganhar muito ou pouco dinheiro se, no final, receberás a mesma quantia em capim? Às vezes, uns grãos de milho no cocho...

Era a única atração de um circo que nem ao menos existia, mesmo assim, as pessoas continuavam pagando para vê-la. Passadas algumas semanas, até gente de fora veio conhecer a tal zebra falante. A notícia havia se espalhado pelas cidades vizinhas e o coitado já não tinha sossego algum. Mas tudo mudou quando, certo dia, os ventos sopraram forte, trazendo uma tempestade. A multidão tentava proteger-se debaixo de uma pequena lona, sem picadeiro nem arquibancadas, mas que abrigava o pipoqueiro e a barraca de bebidas. O pobre bicho ficou lá, debaixo de chuva, aliviado com aqueles minutos de paz trazidos pelas águas. O que não se esperava era que a tinta largasse de seu corpo, diante dos olhos de todos, revelando a farsa. E já não acreditavam, nem mesmo, que o bicho podia falar. Se aquilo não era uma zebra, logo, todo o resto também seria um truque. E ameaçaram quebrar tudo caso não devolvessem o dinheiro. Assim, logo que a chuva começou a diminuir, a multidão dispersou-se, rumo às suas casas. Não tão animado quanto nos demais dias, o homem finalmente abriu a cancela da baia e conversou com seu animal:

— Acabou, meu amigo. Fim do espetáculo! — lamentou, vendo-se novamente falido Estava tudo indo tão bem...

— E o que faremos agora?

— Você, não sei! Eu vou pegar o dinheiro que sobrou e consertar o carro. Talvez, investir num táxi...

— E a minha parte?

— Que parte?

— A parte que me cabe pelo meu serviço.

— Te dei um lar e o que comer, não?

— Lar? perguntou com certo sarcasmo — E se ao invés do táxi, investisse num bom pasto? Você poderia plantar o nosso alimento nele e ainda te deixaria dormir lá! Que tal?

— E que tal se eu te vendesse pruma fábrica de salsicha?

O papo foi interrompido pela chegada de um estranho, com pinta de cowboy e cara de grã-fino. Tinha sido o único a permanecer no local depois que todos partiram. Esteve ali o tempo todo, sem ser notado, atento à conversa dos dois.

— Boa noite!

— Se veio pedir o dinheiro de volta, chegou tarde. Não restou nada. 

— Na verdade, vim lhe fazer uma proposta.

Finalmente puderam reconhecê-lo. Seu rosto estampava cartazes por toda a cidade e até o bardoto sabia de quem se tratava: João Divino. Havia feito fama como peão de rodeio e, ao lado do irmão, juntaram uma inexplicável fortuna. O irmão era um pastor charlatão, fundador e líder da Igreja Pentecostal do Profeta Divino — no caso, o “Divino” vinha do próprio sobrenome — com templos gigantescos espalhados por todo o país e um canal de televisão.

João Divino, por sua vez, era sócio do irmão, produtor de rodeios e dono de algumas empresas de fachada. Também era o maior latifundiário da região. Além da criação de cavalos, fornecia muares — burros e mulas — para o trabalho no campo. Por último, metera-se na política, o que justificam os cartazes espalhados na cidade: naquele ano, concorreria à prefeitura.

Tinha nos rodeios e entre os latifundiários o seu eleitorado forte. A outra parte ficava por conta dos religiosos. E foi esse o motivo que o levou ali: unir as duas coisas. Soube, pela boca de seus empregados, sobre uma tal zebra falante que havia aparecido na cidade e foi lá conferir. O objetivo era fortalecer a campanha nas igrejas, pois sua fama não era lá muito alinhada aos preceitos cristãos. Tinha, porém, o irmão por aliado e maior cabo eleitoral. Foi dele a ideia de procurar aquele extraordinário bicho, inspirado na passagem bíblica em que a mula do profeta Balaão falou, após apanhar, mesmo depois de salvar sua vida por três vezes. Bastaria pintar a zebra e transformá-la numa mula, o que já não seria necessário, graças àquela chuva quase providencial. O animal estava pronto, faltava o homem aceitar a proposta. E não havia momento mais apropriado.

— Quanto quer pelo bardoto?

Antes que o homem assimilasse a pergunta, o animal já havia doado a si mesmo, gratuitamente, com total devoção àquele homem que sabia distinguir um bardoto de um burro. O burro, no caso, era o seu dono, que aceitou vendê-lo pelo equivalente a três vezes o valor do prejuízo causado pela chuva, sendo que uma mula de carga, na fazenda de João Divino, era vendida por muito mais — imagina uma que fala e nem mesmo era mula, mas um bardoto. O homem, satisfeito com a quantia recebida, ainda prometeu-lhe o voto.

Acostumado a carregar carroças e humanos, o animal teve a primeira experiência sendo carregado, feliz da vida, sobre a carroceria de uma caminhonete. Também era o seu primeiro dono a possuir um nome. Nunca tinha percebido a importância de um dono ter nome, já que ele mesmo nunca havia recebido um. Mas aquele tinha um nome conhecido em todos os lugares, João Divino e, com a sua ajuda, seria o futuro prefeito da cidade.

Na fazenda, recebera tratamento digno de uma estrela de cinema, com direito a banho, escova e figurino. Ornaram o animal de correntes douradas e o cobriram com um manto sacerdotal azul celeste e pequenos sinos presos nas bordas. Também lhe fizeram um longo trançado na cauda e apararam a crina.

Já na igreja, o pastor preparava os fiéis anunciando a campanha “Os Três Livramentos de Balaão”, a qual prometia curar doenças, resgatar finanças e vencer o diabo, tudo pela boca daquele santo bardoto, apresentado à congregação como a mula profeta:

— Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir as sábias; e as coisas vis, desprezíveis e que não são, para confundir as que são. Nos tempos de Balaão, deu voz a uma mula, que lhe salvou a vida por três vezes. Da mesma forma, enviou a mim para resgatá-los da perdição! o animal discursava girando e batendo os cascos no chão, marchando e trotando por entre os fiéis, que faziam os mesmos movimentos, entre gritos de “Glórias!” e “Aleluias!” — O diabo é articulado e atua em todas as áreas, inclusive na política. O país está em crise, o município está em crise... Tua vida está em crise? Sua empresa quebrou? Falta dinheiro pro aluguel deste mês? Algum familiar doente nas filas dos hospitais? Os filhos estão nas drogas e o aumento da violência te preocupa? Ouçam minhas palavras: Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará! Eis que vos envio o Novo!

No final, convencia a todos a votarem no João Divino e, claro, a contribuírem com uma boa oferta para que se cumprissem os desígnios de Deus. E transitou por toda a cidade, visitando não somente as congregações daquela igreja, como também as de outras denominações, dizendo-se porta-voz de Deus — no caso, João Divino — e persuadindo a muitos de que aquele homem — de fala torpe e mau-caráter — era um exemplo de santidade.

Fora dos púlpitos, o animal acumulava milhares de tarefas e, quando menos esperava, até carroça voltara a puxar. Sobre ela, montaram o palanque onde João Divino discursava, carregado pelo animal que gritava, aos quatro cantos, o slogan da campanha: “Não seja burro! Vote em João Divino!”

E nada disso o incomodava — nem por voltar a carregar carroça, nem por ser chamado de mula, ou comparado a um burro por aquele homem que havia sido o único a reconhecê-lo como bardoto — muito pelo contrário: sentia-se cheio de autoridade.

E não era só o devoto animal que parecia não se importar com as incoerências do candidato. Certa vez, mandou fechar uma galeria de artes, por expor a pintura de uma mulher nua beijando um bode. Disse que aquilo era apologia ao bestialismo, sendo ovacionado pelos religiosos e vigilantes da moral; porém, noutra ocasião em que dava entrevista a um programa de tevê, revelou — sem nenhum constrangimento — ter tido sua primeira experiência sexual com uma jumenta, segundo ele, “uma coisa normal entre a molecada de sua época”. E parecia também ser normal entre os defensores dos bons costumes, pois ninguém disse uma palavra. Já o bardoto desatinou em acreditar que João Divino poderia ser o seu pai, guardando para si, como segredo de família. O animal estava presente no mesmo programa e também respondia à entrevista:

— Temos uma pergunta enviada por um internauta: “Não te aflige, sendo você uma mula, apoiar um homem conhecido por explorar animais, tanto em rodeios como no comércio de muares para o trabalho pesado?”

— Primeiramente, sou um bardoto, mas nem vou perder o meu tempo explicando isso! Eu também já trabalhei pesado, desde filhote, puxando carroça, levando chicotada no lombo... e olha onde estou? Se cheguei aqui, foi por que mereci!

Sobre os rodeios, o animal seguia numa ótica bem particular. Enquanto, nas regras básicas, vencia o peão que durasse mais tempo sobre o cavalo, na visão do bardoto, não importava o tempo que o peão levasse para cair: se fosse derrubado, perderia a luta. O grande vencedor seria o cavalo que o derrubasse mais rápido. Não via nisso maus-tratos, mas o oposto. Para ele, aqueles cavalos eram bravos guerreiros e chegou ao cúmulo de elogiar o “brilhante desempenho” de um animal que acabara de ter os ovos espremidos e o couro perfurado por esporas, enquanto ele se divertia. Mas o bardoto, inocente talvez, parecia não acreditar nessa história, tampouco mostrou-se sensível. Não entendia que gladiadores, homens ou cavalos, eram também escravos, usados para o entretenimento, como o próprio bardoto continuava sendo e não percebia. E se achava tão dono da razão que já nem parava pra pensar em suas palavras, cometendo a gafe de responder a próxima pergunta:

— Tens a pretensão de ocupar algum cargo na prefeitura?

— Não havia pensado nisso, mas uma Secretaria seria de bom grado.

— E não seria nepotismo, seria “hipotismo” interveio o próprio João Divino, soltando uma gargalhada solitária, que mais parecia um relinchado.

A infeliz piada acendeu ainda mais a esperança do bicho em ser o seu filho bastardo. No dia seguinte, João Divino e seu bardoto estampavam capas de jornais e revistas. Uma delas trazia a ilustração do candidato, deitado ao lado do animal numa cama, com o título “AVE CÉSAR CALÍGULA!” acompanhado da chamada: “A exemplo do imperador romano, João Divino pretende indicar seu asno a Secretário Geral”.

O animal foi proibido de dar entrevistas, puto por ter sido chamado de asno, e o candidato foi a outro canal dizer que a matéria havia sido editada para prejudicá-lo. Temendo a repercussão negativa daquela declaração, tratou de elaborar um plano mirabolante: um grande teatro que convenceria a todos.

Após convocar uma multidão, adentrou a avenida montado no bardoto, cercado por milhares de eleitores que o saudavam com folhas de palmeiras, como num Domingo de Ramos, distribuídas no culto que antecedeu aquele último comício, às vésperas da eleição.

O bardoto jurava que tudo aquilo era para ele, que lhe ofereciam os ramos por comida e até petiscou alguns. João Divino não havia lhe passado os detalhes do plano, apenas que precisaria ser realista, por isso, preferiu fazer surpresa. E ali, com a cobertura de toda a imprensa, encenando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, o homem cravou as esporas e o bicho deu um pinote, lançando o candidato no chão. O bardoto sentiu na pele aquilo que reclamavam os cavalos de rodeio, mas ele nunca tinha dado crédito: as esporas realmente existiam, talvez, mais dolorosas que o chicote.

A notícia rendeu matéria em todos os jornais: “O candidato a prefeito, João Divino, encontra-se em estado grave no hospital, com traumatismo craniano, após cair de sua mula. Segundo alguns membros do partido, naquele mesmo dia, João havia negado um cargo à mula, levando a polícia a suspeitar de que o animal teria agido por vingança”.

Mas João Divino não tinha sequer um arranhão. Forjara o acidente em parceria com o irmão, só o bardoto não sabia de nada. Chamado de traidor e de coisas que desconhecia, como comunista, o animal foi arrastado e amarrado num poste, até chegarem as autoridades.

A estratégia deu resultado. Comovida com o candidato à beira da morte, a população o elegeu prefeito. Como por milagre, João Divino levantou-se do leito, logo após a apuração. E administrou mal o município, sendo tão cruel com seu povo quanto era com seus animais.

Após um tempo sumido, o bardoto reapareceu na área — sujo, sem nenhum dono — arrastando voluntariamente uma carroça pesada que ele mesmo prendera ao corpo. Contudo um fenômeno estranho acontecia: toda a cidade havia ficado muda. Somente o bardoto permanecia falando e protestava. Não contra João Divino, de forma alguma. Reivindicava, apenas, que o prefeito assumisse a sua paternidade.


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