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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: ALISSON SBRANA

SOBRE O AUTOR


Alisson Sbrana, ou @alifas (perfil nas redes sociais), é cineasta, jornalista e fotógrafo. Como realizador, destacam-se direção e roteiro dos curtas "Profana Via Sacara" (Documentário, 2011) e "Presos Que Menstruam" (Ficção, 2019), com 10 prêmios em festivais nacionais e internacionais de cinema. É diretor, roteirista e editor da série "Olhares Sobre São Paulo - Especial Hip-Hop" (documentário em 5 episódios, agosto de 2023). Dirigiu e editou videoclipes e webdocs das bandas Sambô, Jeito Moleque, do selo de jazz Blaxtream e dos artistas Thiaguinho, Péricles e Sandami. Escreve contos e participa de concursos literários esporadicamente, tendo sido menção honrosa do Selo Off Flip e finalista por duas vezes entre 2022 e 23. 



O CONTO SEMIFINALISTA


A mulher do espadachim


Acho que ia beijá-la exatamente no momento em que senti o corte afiado da lâmina passar em diagonal pelas minhas costas. Ela tinha acabado de me dizer que era mulher de um espadachim, mas não me dei conta do perigo. Na verdade, ainda nem me dei conta de nada. Na literatura, o tempo é paralisado pela verve do texto e, fora destas linhas, estou naquele momento crucial em que esse fluxo de pensamento é cortado repentinamente por uma dor aguda que surge como um raio explodindo na vizinhança. No lugar da descarga elétrica, rompe de mim um grito:

 

“Ai, caralho! Mas que porra é essa?!”

 

Acho que iria mesmo beijá-la. Seria um beijo roubado! Porque não tinha a mínima ideia se ela iria me beijar também. E nem sei que tipo de beijo roubado daria. Talvez fosse um infantil, rapidinho, um pecadinho. Smack! Ou só um tisck, um pfss. Talvez nem fizesse barulho. Não dá para saber agora, enquanto meus olhos tentam defenestrar das órbitas devido a essa dor aguda.

 

“Ai, caralho! Mas que porra é essa?!” 

 

Ela disse que era mulher de um espadachim. Acho que estava repetindo isso quando me veio o impulso do beijo. Não tenho como saber. Mirando nos olhos, prestei atenção em tudo, mas naquela hora me distraí. Antes dela terminar a frase toda, eu já tinha descido do seu par de olhos castanhos e estava focado nos lábios rosinhas. Eles se mexiam aproveitando as diferentes sílabas. Faceiros! O de cima, pequeno, fininho, com um dos cantos pendendo para seu sorriso marcado do lado direito, tocando leve e rápido o outro, o de baixo, gordinho numa medida, cheio de rachadurinhas, umedecido pela tímida língua despontando ao som e sopro de cada palavra que vinha na minha direção. Ai, ai, estávamos tão pertinhos. Terminou aquela frase num biquinho. Um chim! Foi isso? Espadachimmm? Palavra maldita! Mas me fez querer o beijo. Me fez querer roubar esse beijo. Não beijei naquela hora e o biquinho terminou num sorriso. Suave. Dentes de cima se mostrando brilhantes. Marquinhas felizes enrugando as maçãs. Era um presente este sorriso. Voltei pros seus olhos tentando me recompor. Mas foi inútil. Estava encantado, imantado por aqueles lábios que me atraíam como um imã desses de brincar. Sinto que me puxa. Vou beijá-la. Um beijinho. Não resisto. Um beijinho rapidinho. Será que beijo? Acho que beijo. Acho que beijo. Beijo? 

 

"Ai, caralho! Mas que porra é essa?!"

 

Ai, antes tudo isso fosse uma grande metáfora de uma consciência que pesa por um impulso subversivo. Não sou desses de ficar roubando beijos por aí. Mas vejam: eu me demorava, eu sorria junto, eu me distraia perdido em lábios, sorrisos, pontas de línguas, fôlego, delírios, espadachins. Talvez ela me beijasse também. Talvez ela, em algum momento, fosse quem me roubasse o beijo. Se ela me beijasse, eu teria um dilema. Se ela me beijasse, eu teria um poema. Se ela me beijasse, eu teria gostado. Se ela me beijasse um beijo estalado. Se ela me beijasse um ônibus lotado. Se ela me beijasse atropelado. Se ela me beijasse esse beijo roubado. Se ela me beijasse vírgula. Se ela me beijasse pronto, aclamação.

 

"Ai, caralho! Mas que porra é essa?!"

 

E se eu roubasse esse beijo e ganhasse um tapa, desses de retumbar na vizinhança? Ou só um esculacho, um discurso constrangedor, uma cusparada no chão pelo gosto ruim, ou alguma sentença canceriana de partir corações? 

 

"Ai..."

 

E se, nesse mundo de conjunções condicionais e condições adversativas, no lugar de lhe roubar um beijo, pedisse-lhe? E ela assustasse, ela negasse, ela não correspondesse, se palestrasse contra o machismo, se ternamente se dissolvesse só jurando as amizades, se só se risse do ridículo, se se enxerga panguá ela dissesse? Ah, se fosse esse o caso, na hora eu até diria que aquilo doía muito mais que um rasgo repentino dum afiado sabre oriental. Mas não! Mentira. Agora eu sei bem que essa lâmina desgraçada dói que só a peste!

 

"...caralh…"

 

Foi exatamente assim. Como devem ter ouvido todos, dei esse grito soltando palavrões. Saltei para a frente num gesto instintivo, derrubei toda cerveja e me esborrachei na terrinha da praça. Ergui a cabeça, virei-me dolorido e ela estava abismada, com as mãos tapando as bochechas num espanto daqueles de pintura pop. Inclinei-me um pouco mais, contorcendo, retorcendo a carranca pela dor no espinhaço. Foi quando o vi.

 

"Que porra é essa?!"

 

Pronto. Ali ele! Parado, posição marcial, sustentando a espada sangrenta apontada para o ataque, ombros para frente, todo uniformizado, todo aferrado, todo pomposo, todo brilhoso, lustrado, extravagante, todo escandaloso, nem combinava aquela ovalada peneira branca de esgrima que lhe tapava a cara. Mas era ele. O espadachim!

 

"Que? Porra? É? Essa?"

 

Repeti assim, pausadamente, com um bom tanto de dolorido e outro paco de indignado, ajoelhado na terrinha, os braços abertos e tudo. 

 

"Ai, ai..." 

 

A dor do corte me espeta. Um chumaço de vento bate e arde como se fosse uma mãezinha soprando ferida de filho. Percebendo a camiseta rasgada, senti a pele das costas gelar no local riscado pela espada. Ajeitei-me lentamente no chão e sentei de cócoras. Retorci os braços até tocar o corte. Fechei os olhos. Grunhi:

 

"..." (que saco, pensem um grunhido qualquer, desde que dolorido).


De repente, ainda de olhos fechados, algo me chama atenção. Não sei explicar bem o que é, porque é tudo meio confuso. Um tipo de silêncio que precede um barulho importante num filme de suspense. Sabe aquele clichê, como se alguma coisa fosse acontecer? Pois era isso, eu ali de olhos trancados e essa sensação crescendo, crescendo, crescendo... 


Bem que poderia ser um beijo, um beijo, um beijo… 


Imagina, gente? Depois de tudo isso, um beijo? Um roubado. Um que me acordasse desse susto e transformasse esse suspense numa comédia romântica. Ah, seria perfeito. Eu, de olhos fechados de dor nessa eternidade literária, surpreendido pelo beijo que pensei roubar. Smack! Ou tisck! Ou apenas pfss! Um beiinho, rapidinho. Ou muito melhor: línguas que se entrelaçam loucamente num incontido furor adolescente de verão! Sim, por que não? Pode ser isso essa sensação, esse suspense, essa futura surpresa… Deve ser. Até desfaço a careta repugnante pela ardência nas costas e já sorrio pensando nesse beijo iminente. 


Ouço um tilintar metálico. 

Alivio a testa já me derretendo. 

Ressoa um pequeno silvo de ar cortado. 

Dou uma esfregadinha entumecida nos lábios à espera do melhor. 

Surge um assovio tímido, que vai crescendo, crescendo, crescendo... 

Armo um biquinho. 

Um chiiimmm…

Plunft!Abro os olhos assustado e a mulher do espadachim se dissolve da minha boca como um sonho que se desfaças. Procuro-a ainda como se ela estivesse aquele quadro do Munch, mas não a encontro. Sumiu? O marido, sim, olha lá ele, cínico, ainda estátua desgraçada em posição de ataque. E muito próxima a mim, caída dos céus com a ponta fincada funda, balançando freneticamente o corpo como vara estilingada movimentando o ar, ali está outra espada! Aí porra que caralho é esse. Ao redor, um movimento de vultos e vozes que se organizam como plateia. A lá ela! A lá a mulher do espadachim. Está sendo conduzida por duas pessoas até umas cadeiras na frente da multidão. Senta-se graciosa. Educada, agradece o gesto de apoio de quem se aproxima. Aceita algo que, dessa distância, parece-me um saco de pipocas. Mas ela não come, só o segura entre as pernas junto de um copo com alguma bebida borbulhante. A lá ela me olhando. Ergue as sobrancelhas e balança a cabeça como quem diz é isso aí, boa sorte, confie, vai dar tudo certo, o mundo é lindo e a vida é uma aventura. Levanto, pego a espada e penso que, assim que isso acabar, vou beijá-la. 



Alifas


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