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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: ANTÓNIO CORVO




SOBRE O AUTOR


Nascido em 20/06/71 no Rio de Janeiro (RJ), formado em Comunicação Social (1995) e Letras (2008), Mestre em Literatura Comparada e Doutor também em Literatura Comparada (2008-2012), António Corvo começou a escrever seus primeiros textos durante a primeira graduação nos gêneros conto, crônica e dramaturgia, mas foi a poesia, mais tardiamente e literariamente amadurecido, com que mais se identificou. Escreveu seu primeiro romance em 2012, O Romance do Horto – o primeiro romance como tese de doutorado do Dpto. de Letras da UFF, publicado pela editora Annablume Literária (São Paulo, 2013). Também tem publicados os livros de poesia Lepidopterophobia (2013) e Frenocômio (2022). Seu contato em redes sociais é @antonio.corvo, no Instagram.



A CRÔNICA SEMIFINALISTA


Tolerrâncias


Aconteceu numa tradicional, tradicionalíssima casa de comida árabe de um bairro ainda mais tradicional da cidade do Rio de Janeiro. Fato curioso: não faltam, curiosamente, bairros tradicionalíssimos na cidade do Rio de Janeiro. A propaganda é a alma do negócio, diz-se. Segundo a família dona do estabelecimento há décadas, conta-se que Seu Nassib, o antepassado que inaugurou esse comércio de comidas árabes ainda no século XIX, caixeiro viajante de profissão e cozinheiro por vocação, era requisitado pelo próprio Imperador D. Pedro II para fornecer, quase que diariamente, quibes, esfihas e afins para a família imperial. Seu Nassib teria praticamente enriquecido com as demandas gastronômicas das festas e eventos do Império e, assim, deixado de lado a vida de vendedor itinerante e construído um comércio de gêneros alimentícios de origem árabe ali no bairro.

Mas foi longe daqueles tempos, ignorando a importantíssima e secular relação imperial dos quitutes árabes que vendia, que Marcela, a caixa do restaurante, ao receber uma nota de 100, perguntou à cliente, uma senhora quase tão secular quanto a fama do lugar, se ela não teria por acaso uma nota de menor valor. Marcela estava sem troco.

— Mas você tem obrigação de ter trocado ao abrir o caixa. Não, não tenho, arrume o troco, faça-me o favor. E depressa, já estou atrasada para uma consulta — disse com toda a petulância digna de uma moradora de um bairro tradicionalíssimo do Rio de Janeiro Dona Custódia, freguesa assídua do local, exibindo um pedaço de cebola entre os dentes da frente, prestes a serem vistoriados pelo seu dentista. Em tempo, explico que, se não divulgo aqui o nome do estabelecimento comercial, é para manter a reputação da casa; tradicionalíssima e familiar, como já sabem.

— Mas, oxe, a menina só perguntou se a senhora teria uma nota menor. Quanta ignorância! – disse intervindo Marcos, um freguês novato na casa. Meia-idade, vestido casualmente, provavelmente de passagem.

— Menina não, menino! Paraíba... – Retrucou Marcela, ou melhor, soube-se depois, Marcelo.

O recém-chegado no estabelecimento mas não na vida congelou. Não sabia o que dizer diante daquela declaração, não tinha os protocolos corretos; não tinha feito ainda o update das relações socias contemporâneas (Humanidade 2.0). Totalmente desatualizado. Obsoleto.

 — Desculpa, moça, não sabia, só estava tentando te defender de uma agressão gratuita aí da senhorinha do troco. Resolvam-se aí então. E sou paraíba sim, nordestino com muito orgulho, porque nordestino não se presta a essas sem-vergonhices, não. Na Paraíba homem é homem e mulher é mulher e pronto! – irritou-se Marcos virando as costas e voltando à sua esfiha de carne com molho de alho.

— Hmmm... sei, muito macho... — debochou Marcelo.

Duas jovenzinhas, de certo a caminho da escola pelas roupas e adereços, tomando um suco de laranja cada uma, começaram a rir como é de praxe da idade numa situação dessas. Vergonha alheia. Cringe. Uma delas, pretensamente muito engajada com o status quo vigente, soltou:

— Mas aí não é nem menino nem menina. É menine, não é, que fala?

A amiga não se conteve e caiu na risada, histérica, típica de adolescentes. Tudo culturalmente tradicional até agora, para orgulho de Dom Pedro II e Seu Nassib, com exceção, talvez, do vocábulo menine, gênero neutro, antiquíssima novidade, em vias de se normalizar como tradição.

Nesse ponto da ocorrência, ainda não policial, como é costume do carioca, todos os fregueses e funcionários da Casa (vamos chamá-la assim, apenas) se sentiam íntimos do assunto e uns dos outros e deram vazão a um burburinho ininteligível, contudo, familiar; como a Casa e o bairro em que estavam, mas já mencionei, não? Pois.

— Bom, não me interessa se você é menina ou menino...

— Ou menine — contemporizou uma das adolescentes, aos risos.

— ... eu quero é o troco! Vou perder a consulta com o Dr. Znovszclawvsky!

— Pois a senhora vai ter que esperar eu subir pra ver se estamos com dinheiro trocado lá em cima — disse Marcelo, desafiador e provocativo. Mais provocativo que desafiador.

— Palhaçada isso, hein, garota!

— Garoto! Velha ridícula – sussurrou Marcelo.

— Processa logo! – foi a sugestão que o Ricardinho deu em tom de chacota. Ricardinho fazia crossfit e se identificava como transgênero, e, por ser bastante afeminado e grande, corpo de atleta, chamava a atenção por onde passava. E pelo que falava. E como falava. Ricardinho, assim, no diminutivo, era opção onomástica dele.

— Processar quem? A moça do caixa por etarismo ou a senhorinha por crime de ódio? Se decidir eu represento e ainda cobro barato! — gritou lá do fundo Ernesto, rindo, debochado, querendo ver o circo pegar fogo. Era advogado criminalista e comparecia religiosamente à Casa àquela hora para tomar o café da manhã a caminho do escritório. 

— Gente, pra que isso? Que processar o quê? Ninguém mais pode falar mais nada também, caramba! — foi o comentário de Marcos, old school, vintage, das antigas. Vítima do seu próprio tempo.

No meio do agora bate-boca, Marcelo desce pela escada caracol e se dirige ao caixa dizendo com firmeza passivo-agressiva catedrática:

— Senhora, estamos realmente sem troco. Vou precisar que a senhora me dê uma nota menor.

— Então põe na conta, pago amanhã. Não vou perder uma consulta caríssima – pôs ênfase no caríssima – do Dr. Znovszclawvsky por causa disso.

— Gente, que velhinha caloteira! — disse Ricardinho, procurando confusão.

— Caloteira é a sua mãe, que não soube criar um filho e deu no que deu, uma bicha sem vergonha – respondeu Dona Custódia como podia.

Ricardinho pôs as mãos na cintura e foi quase instintivo: — o quê??? Repita isso aí que a senhora disse se tiver coragem nessa cara! Eu devia chamar a polícia! Aliás, eu vou chamar a polícia é já!

— Isso, chame mesmo a polícia que agora agredir idoso dá cadeia, seu sem vergonha — retrucou Dona Custódia.

— A senhora vai pagar o salgado ou não, madame? — mudou de assunto rapidamente Marcelo. Afinal, naquele estabelecimento comercial jamais havia dado polícia. Seria uma vergonha à memória de seu Nassib e para o bairro inteiro. Sem mencionar à memória da Família Real — Deu polícia lá na Casa – diriam alguns. — A que ponto chegamos — os vizinhos escandalizados.

Ernesto, que já havia pontualmente terminado de tomar seu café da manhã habitual, veio lá do fundo da Casa e ia pedindo licença pelo grupo para sair quando, sem querer, pisou na pata de um pequinês tradicionalíssimo, ícone do bairro, de um estilo de vida inteiro. O bicho ganiu tão alto que todos na Casa ficaram em silêncio tentando entender o que acontecera tamanho o susto. Nada como um animal em perigo ou sofrendo para igualar emocionalmente uma turba. A dona do pequinês, Yolanda, mocinha elegante em roupas de ginástica, se virou para acudir seu cãozinho de estimação preocupadíssima e consternadíssima:

— Mike! Mikinho! Ô, meu filho, você tá bem? — Yolanda consolando o Mike agora no seu colo, verificando se a pata do bicho estava ilesa da pisada quase fatal.

— Desculpe, moça, não vi o bichinho – desculpou-se Ernesto.

— Yolanda levanta o rosto, olha bem nos olhos de Ernesto e, virando-se de imediato, sussurra: — Tinha que ser...

— É o que, minha senhora? Tinha que ser o quê? — Ernesto chegou a ser ameaçador. O que nem era muito difícil nem precisava ser intencional, porque Ernesto era um homem grande, quase dois metros de altura, porte de sobrepeso – o médico diagnosticara obesidade mórbida – barba e bigode generosos e, por um acaso, negro.

Nesse momento o silêncio reinou na Casa. Ninguém dizia palavra. Até Mike parou de choramingar. Nada como uma insinuação de racismo ou, no caso, de gordofobia no ar – quiçá ambas – para igualar emocionalmente uma turba.

— Tinha que ser advogado! Vocês acham que podem tudo. Olha aí, machucou meu cachorro. E se tiver quebrado a patinha? Vai ter que pagar a conta do veterinário Você sabe que isso dá danos morais, né? — disse Yolanda com tremenda presença de espírito. E, talvez, coragem. Escapara do inescapável.

Antes que algum desdobramento, muito provavelmente letal ou jurídico, se desse na Casa, chegaram dois policiais militares e foram até o caixa.

— Senhora, bom dia — cumprimentou um dos PMs.

— É senhor. Bom dia – respondeu Marcelo.

— Recebemos uma reclamação de perturbação da ordem. A senhora, desculpe, o senhor é o responsável pelo estabelecimento? Pode dar uma explicação? – perguntou o PM.

As duas alunas do ensino médio, politizadíssimas, ensaiaram: fas-cis-tas! Fas-cis-tas!

Então começou a juntar gente na porta daquela tradicionalíssima casa de comida árabe e todos os envolvidos queriam dar seu depoimento aos policiais num falatório onde ninguém entendia ninguém. Foi quando um dos PMs gritou: — Silêncio, por favor!

— Fascista! — condenou uma das estudantes.

— Que que foi aí ô comunista de iPhone? Tá querendo ser recolhida por desacato, ô de menor? — A estudante achou melhor silenciar. — Voltando aqui pros adultos. Vai todo mundo pra delegacia pra depor – sentenciou o PM, Sargento Duarte, descendente de Ariosvaldo Duarte, membro dos Dragões da Independência, primeira formação de 1808.

E assim se cumpriu: Marcelo teve que fechar o estabelecimento já que os outros funcionários tinham que testemunhar o que viram e foram todos para a delegacia. Era a primeira vez que isso acontecia em praticamente duzentos anos. Que teria dito o Imperador? — Ah, que vergonha! — lamentaria Seu Nassib.

Marcos denunciou violência contra idosos e foi denunciado por intolerância de gênero. Ernesto foi acusado por Yolanda de maus tratos a animais e, por sua vez, prestou queixa contra racismo por parte de Yolanda. E gordofobia. Ricardinho acusou Dona Custódia de homofobia e crime de ódio, e por ela foi acusado de etarismo. As duas jovens estudantes tiveram que aguardar os pais na delegacia acusadas de desacato, sob protestos de estarem sendo vítimas de atos antidemocráticos. Tudo postado em suas contas do Instagram e Tik Tok. Dias depois estariam em todos os programas matutinos de televisão, desses sobre atualidades e comportamento. Marcelo denunciou Dona Custódia por estelionato e Dona Custódia não se eximiu de acusá-la de crime contra o Estatuto do Idoso.

Durante, porém, o depoimento de Dona Custódia, seu telefone tocou e, mesmo com a censura do delegado à interrupção do procedimento, ela atendeu.

— Dona Custódia? Bom dia, aqui é a secretária do Dr. Znovszclawvsky. Estou ligando para comunicar que, como a senhora faltou sem avisar à consulta, o doutor vai ter que cobrar o horário. Se desejar remarcar é só avisar. Bom dia. – E desligou.

Dona Custódia, atônita, olhar perdido, disse para si mesma: — era do consultório do Dr. Znovszclawvsky. Ele vai me cobrar por não ter aparecido. As consultas dele são caríssimas (enfatizou novamente o caríssimas).

— E ainda por cima com esse nome? Deve ser judeu – disse o delegado.


Esta crônica se identifica com uma poesia. Declamá-la como tal.


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