top of page

PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: CARLOS CORREIA

SOBRE O AUTOR


O nome é Carlos Correia mesmo, sem foto. Morador da região do bairro da Luz, trabalhador assalariado, adicto adepto da Redução de Danos e dos cuidados da Saúde Mental, leitor de Saer, Machado, João Antonio, Bolanõ e dos anúncios de emprego e do meretrício paulistano.



O CONTO SEMIFINALISTA


Augusto P., el chileno

Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda.

Marcos, 15: 27

Aquele chileno, no tempo em que tinha pernas e punhos firmes, furtava à mão pequena - jamais à mão armada. Não em Sp, que não era nem louco... Mui ardorosamente, afanava tudo à sorrelfa, como dizem os antigos e os dicionários. Contudo, pensando bem, e conforme o burbúrio das madrugadas no Fluxo, vez ou outra, para além das facas, valeu-se do 38… Informo isto para ser-lhe justo - e não empobrecer demais sua biografia.

Por muitos meses, ele e seus conterrâneos viveram no Hotel Éden, uma espelunca incrustada no meio de prédios e cortiços envelhecidos, fincado entre calçadas tomadas por malocas de pau e lona, naquele perímetro urbano e sujo a que chamavam, rebaixadamente, de Cracolândia.

Eu trabalhava ali, de lua a lua, do crepúsculo noturno ao amanhecer poluído do dia; minha função era a de porteiro do hotel (recepcionista seria um termo inadequado para aquele antro). Recordo, como um sonho estranho na vigília, o letreiro de led na fachada, com as letras e números que numa sequência brilhavam em vermelho: “Hotel Éden, sua melhor opção no Campos Elíseos. DIÁRIA solteiro: R$ 40, casal: R$ 50. PERNOITE solteiro: R$ 30, casal: R$ 40. Triplo: R$ 60. PERÍODO de 1 h: R$ 10. Temos Tv e Vídeo”. Imaginem o pardieiro…

Todos o chamavam Augusto P., o chileno. Ninguém além dele me estranhava, desdenhando minhas mesuras e solicitudes, cuspindo no chão diante das tímidas inflexões de cordialidade e de respeito que eu lhe dirigia. Dos outros do Chile, ninguém jamais desprezou a mim ou a meu ofício... Os conterrâneos de Augusto (seus comparsas), jovens e incautos, eram muito permissíveis; não se importavam de me envolver em seus delitos, para os quais eu rapidamente tomava partido. El chileno, como ela o chamava (logo saberão quem), era um sujeitinho tão sinistro quanto enigmático; tinha um tique engraçado, usava a expressão “Es verdad” para concordar ou mesmo para divergir de tudo; ignoro se manterá as mesmas manias.

Em certo amanhecer, aparentando séria embriaguez e drogadição pesada, ele olhou para mim uns segundos, de cima a baixo, o rosto enrugado numa careta, como se fosse um Al Pacino ranheta ou um De Niro a representar Travis Bickle em alguma cena de Taxi Driver (perdoem o clichê). As maçãs do rosto estavam mais secas e amarfanhadas do que de costume; me olhou e depois inquiriu (ou apenas exclamou): “El portero?! El ne-gr!” (esta última sílaba soou assim, incompleta, ininteligível). Não compreendi inteiramente; mas disse a mim mesmo: ainda haveria de lhe cobrar o que quisera dizer com aquilo… E concluiu, à sua maneira tão característica: “Es verdad…”, sei lá se em dissenso ou concordância de alguma coisa. Daí subiu as escadas, olhando de soslaio sobre o ombro esquerdo, e dormiu o dia inteiro.

Nesta mesma noite, muitas horas antes, quando a noite ainda era criança, após uma excursão do bando dos chilenos pela cidade, ela, Cíntia, a única mulher entre eles, surgiu à entrada do hotel com o butim de quinze celulares numa bolsa; mui seriamente, cedeu um a mim. Aceitei-o com prazer. Augusto apareceu de repente e viu a cena, discutindo veementemente. Mas a moça simplesmente afirmou, talvez para deliberadamente aumentar sua ira, que eu era “confiable”... Ele mais irritou-se, soltou impropérios e finalizou carrancudo, no seu estilo verdadeiramente cômico: “Es verdad…”. Então, como sempre fazia, o chileno foi ocultar-se por uns poucos minutos no seu apartamento fuleiro do segundo andar (certamente, para dar umas cachimbadas). Retornando, não viu o bando; ia me perguntar alguma coisa, mas apenas cuspiu no chão do hall e saiu para rua, atravessando o tumulto da Cracolândia.

No que concerne aos furtos e crimes correlatos, devem perceber, eu já tomara credo e partido, agarrando com ardor o fardo destas patifarias. Logo depois que Augusto subira ao quarto, os chilenos saíram outra vez para a noite paulistana, regressando ali pela uma da matina, com uma mochila cheia, ofegantes, vindos de incursões piratas numa Parada Gay ou numa Virada Cultural, já não recordo. Cintia pediu para guardá-la nos fundos do balcão da recepção; “Ayúdame!”, ela exclamou, e tal fora mais uma ordem do que um pedido. Orientou que fosse em qualquer vão recôndito e escuro; ponderou também: era necessário estar atento e ser discreto, e principalmente - ela acentuou - nada dizer a el chileno. Explicou ainda que a madrugada seria longa, ainda era preciso trabalhar um pouco mais. “O trabajo es duro”, arrematou no seu portunhol cheio de mel.

Cíntia namorava um do bando, um que não me era hostil, pelo contrário… Hernán era simpático, e eu achava engraçado a forma como ele aprovava (com uns gestos de cabeça, sem dizer palavra) a totalidade das medidas ordenadas, ou sugeridas, por ela. A mulher tinha traquejo e instinto de liderança e os demais do bando, cuja associação carecia de organicidade e hierarquia sofisticadas (parecendo mais uma gangue de trombadinhas do que uma quadrilha “respeitável” de meliantes), gostavam de que Cintia, a chilena, rivalizasse contra o irascível Augusto.

Mas comigo a mulher não rivalizava, antes mais e mais me envolvia, como se eu lhe fosse um verdadeiro parente ou velho amigo. A chilena estava a cada três ou quatro noites, invariavelmente, a me agraciar com pequenos e furtados mimos, simples quinquilharias, mas às vezes carteiras elegantes, brincos, pulseiras, anéis, chapéus, eletrônicos populares etc etc. Estava a me cumpliciar, noites e noites, a seus crimes banais e rasteiros, que no entanto eram a fonte exclusiva de sua sobrevivência, o seu ganha-pão, a máquina de produção da bufunfa que lhe garantia três ou mais refeições ao dia, e um quarto de hotel. Contudo devo dizer que ela foi amiga e depois confidente - nunca uma amante minha… Houve um tempo em que lhe tive desejo, devem imaginar, e estou seguro de que ela chegou a sentir o mesmo, em alguns poucos momentos, bem circunscritos. Houve noites em que frequentei seu quarto, quando me ofertava seu cardápio de drogas; mas jamais íamos adiante, nada além do fraterno, do coleguismo, da camaradagem - ou seja, da simplicidade emocional. Algumas vezes, ficávamos a nos encarar, face a face, meio abobalhados (seriíssimos ou em ataques de riso), atazanados pelos efeitos de alguma substância, mas apenas isso e nada mais.

Numa destas ocasiões, veio uma vontade e fui declinando devagarinho minha boca até a beirada de seus lábios, todavia ela recuou, riu… - logo ficou séria, e permaneceu calada. Desde então julguei-a casta e verdadeiramente adicta: porém santa não era, só lhe cabia a adicção; nalgumas noites, julguei (equivocadamente) esperar de mim não o sexo, mas o compromisso sério, achei loucamente que ela esperasse um laço matrimonial, um noivado ou coisa assim... Isso porque falava sempre nos dois filhos, lá longe, em Santiago do Chile, na vida instável, precária, e no desejo de amainar o corre-corre do dia-a-dia. O sorriso de Cíntia correspondia com frequência a meus galanteios, mas sua pele moreno-indígena se recolhia ao mais leve de meus toques, ao mais inaudível soar de meus pedidos (que enfim não passavam de gestos e olhares). Casta, ou pudica, eu concluí.

Até que uma manhã finalmente rompera o relacionamento com Hernán, ao que parece por intriga de Augusto P., diziam; ato contínuo, já estava a andar nos braços doutro gringo, conterrâneo seu - ou natural dalgum outro país da América Latina ou do Caribe. De nosso espectral amor, pura fantasmagoria, restou a prática apaixonada, que executávamos regularmente, do consumo do álcool e da cocaína. Nosso amor ficara nisto: a pulsão ao pranto melancólico ou ao riso desmedido, a troca assexuada daqueles carinhos que eram menos tácteis do que verbais, menos tangíveis do que oníricos… Além da contemplação (à janela de seu apartamento no quarto andar) aos usuários e transeuntes circulando no meio do comércio ilícito da Cracolândia, entre as barracas de pau e lona, improvisadas ao longo das ruas Dino Bueno e Helvétia, ali nas fronteiras entre o bairro da Luz e do Campos Elíseos.

Os chilenos do hotel (creio já entenderam) praticavam a arte vulgar do furto e do roubo; no que tange a esta última categoria, todos os do bando já executavam, desde há muito, crimes da arte de roubar que se caracterizam pela violência física e ou psicológica, não excetuando coronhadas e ou teatrais ameaças à integridade física de outrem, por arma de fogo ou através de armas brancas, não excetuando o punhal ou a faca sobre o baço ou o pescoço… - mas isto não aqui, não na cidade de São Paulo, que não são loucos, que o medo da deportação implacável é por demais vívido, que não é assim que se ganha a vida em paz, conforme Hernán e Cíntia me explanaram certa vez, deveras comovidos…

Em Sp, exerciam com afinco a arte vulgar todavia mais sutil do furto, à mão pequena, à sorrelfa, nas multidões, nos agrupamentos festivos, nos trens e metrôs lotados, nas praças públicas, nos restaurantes e lanchonetes atulhados de possíveis vítimas inocentes - todas elas, sem exceção, aparvalhadas e em desconcerto a partir do exato momento em que se descobrem pilhadas e desossadas, dir-se-ia desalmadas, no sentido, um tanto abusivo, de que foram expurgadas de suas almas, apartadas de um material táctil todavia psíquico e ou espiritual que lhes dava esteio e sentido… Bom, já viram… Estou teorizando, elucubrando pernosticamente acerca da relação dos seres humanos e seus pertences e objetos de consumo, quase elaborando um parágrafo supostamente digno de um tratado acadêmico no campo da psicologia social ou da sociologia urbana; ora, os senhores têm razão: quem sou eu para isto?

Mas o fato para mim é: a lida destes chilenos praticantes do roubo e do furto nada possui de “verdadeira arte”, jamais chegando a ser sublime, restando adstrita e circunscrita ao vulgar: não teria indíce sequer no ramo do entretenimento sádico das vulgaridades que interessam aos sociopatas e aos cínicos. É labuta operária, de técnica elementar e de arraia-miúda. Talvez Hiralgo, o colombiano que também vivia no hotel naquele período, magro como um bailarino, primoroso como um artífice, talvez ele exerça a rapinagem com dom artístico. “Yo soy ladrón”, dizia, com fascinante soberba e serenidade no semblante, feito um ancião budista (ele não tem mais do que trinta e poucos anos). Dono de uma beleza e inteligência incomuns, Hiralgo sempre manteve-se preventivamente distante dos chilenos, exceto uma ou outra negociata obscura em parceria de Cintia.

Ah, tenho outra coisa bonita a dizer sobre o colombiano. Numa noite de Natal, celebrada na solidão do hall do Éden, Hiralgo me viu só e quis ficar ao meu lado, certamente tomado de fraternidade e compaixão, embora mal nos conhecêssemos (ou quem sabe ele igualmente não suportasse a solidão da data…). Dividiu comigo até o amanhecer sua cocaína, preenchendo as horas relatando causos, perguntando por vezes uma coisa ou outra a meu respeito, sem contudo ultrapassar os limites da impessoalidade. Em contrapartida, ele me contou algo sobre sua vida, mas este “algo” não chegava nunca a externar qualquer detalhe comprometedor, sem jamais - como se diz no jargão jurídico - criar provas contra si mesmo. Durante todo este Natal, eu e o colombiano ficamos a observar pelos vidros da porta da recepção e pelas janelas adjacentes a movimentação dos usuários do Fluxo, vulgo Cracolândia, que curiosamente parecia ainda mais intensa nas efemérides religiosas. Em dado momento, retomando a conversa, ele afirmou - categoricamente - que jamais havia sido detido por uma autoridade policial ou coisa que o valha, o que só vinha a corroborar seus dons de artista.

Mas, oh Deus!, eu falava de Augusto P., o chileno, até que desembestei a falar de Cíntia, também Hernan, em seguida de Hiralgo… Careço evidentemente de um melhor método para meu relato… Mas vejam, senhoras e senhores: se por ora tenho a memória de Cintia em primeiro plano, se dou primazia a ela, tem a ver também com o fato de a moça ter sido a primeira a me narrar os percalços, as pedras nos caminhos tão tortuosos, as vias sinuosas da pobreza latino-americana que ela tanto conhecia. Devo admitir que eu, em minha perene ignorância, antes de frequentar umas aulas na faculdade e, sobretudo, antes de conhecer os chilenos do hotel, associava a ideia e o conceito de "miséria" tão somente ao contexto da imensa desigualdade brasileira - ou ao sempre citado continente africano. Sim, os brasileiros gostamos de ignorar que somos latinos e dispensamos conhecer as realidades de nossos vizinhos… Cíntia, sem laivos de orgulho ou vergonha, foi a primeira a falar (mas depois Augusto P. também o faria) das errâncias percorridas através dos bairros miseráveis de La Victoria, La Pincoya, Cerro Navia, na periferia de Santiago do Chile, de onde partiram esses chilenos de origem metade espanhóis, metade indígenas da etnia mapuche (mestiços de europeus e nativos como a maioria da população do Chile), de que ora vos digo e acerca dos quais escrevo neste momento no computador, à mesa do balcão na recepção do hotel em meu novo emprego (cujo nome antagoniza o antigo; falo agora aqui do Hotel Hades), completamente sozinho nesta madrugada fria e monótona - agora que já não há mais nem fluxos nem cracolândias, ou melhor, agora que as operações policiais espalharam essas estigmatizadas aglomerações humanas para distintos pontos do centro velho da cidade, e o velho Hotel Éden, desde há muito decrépito, não passa de um amontoado de ruínas depois de seu processo de desapropriação e consequente demolição.

Ah, sim, me desculpem (mas tenham paciência): esta é a história de Augusto P., o chileno, prometo não mais esquecer… Ele trazia as maçãs chupadas, o corpo franzino, baixo; a pele (que mais parecia uma máscara mortuária) ficava entre o tom lívido e o amarelado, comum a todos os viciados no crack. Falava-se que tinha no máximo 35 anos, mas bem podia ter quarenta e cinco, quem sabe mais. Invariavelmente de cara fechada, é mesmo verdade que seus traços lembravam os do ator Al Pacino - mais especificamente o personagem Tony Montana (perdoem o clichê), da refilmagem de Scarface, dirigida por Brian de Palma em 1983. Sendo o mais velho do bando, e aquele que mais se perdera pelos cantões do mundo (logo saberão), às vezes parecia o arremedo de um líder entre os chilenos; não raras vezes o vi orientando, outras admoestando, de vez em quando discutindo em voz alta, de punho cerrado. Todavia, líder efetivamente nunca foi, pois os chilenos desprezavam qualquer hierarquia, como uma matilha de cães vadios.

O que mais impressionava em Augusto P. era a velocidade com a qual entrava e saía do hotel, sem nunca me cumprimentar, sequer olhar. Aparecia, subia para o quarto e descia, numa corrida de guepardo, seguidamente ao longo da madrugada, com ou sem bagagem (sacola ou mochila) nas mãos. Doutra feita, com frequência sumia por dias seguidos. Ele fazia questão, afrontando as regras do Éden, de levar sempre a chave do apartamento consigo.

Até um carro em desgoverno lhe rachar as pernas num cruzamento da avenida Paulista. O passo acelerado virara um arrastar de muletas; e a carranca funesta logo se tornaria um olhar súplice de pedinte. Imaginem… A ascendência do chileno naquele conluio étnico, sua suposta autoridade de cacique, se transmutara em fardo, logo em empecilho. Não que os outros o repelissem; havia entre os chilenos do hotel, de par com uma solidariedade de patrícios, uma fraternidade de gangue ou de quadrilha. Todavia os repetidos empréstimos, os recorrentes auxílios, os seguidos atrasos nas diárias do hotel e tantos outros ínfimos pedidos avolumaram-se com o tempo, e neste os desentendidos, o fastio, os inevitáveis conflitos.

Qual seria agora do ladrão na hora da fuga, sem a lepidez do primitivo felino nas ruas, nas lajes e nos telhados de zinco? - isto eu me perguntava dramática e poeticamente, recostado ao balcão da portaria do Hades, em meu novo emprego, rabiscando num caderno, em seguida me dirigindo ao laptop. Mas vejam só: os chilenos do bando deram também a andar cabisbaixos; Hernán fora preso, e Cíntia observava comigo que os ganhos estavam muito baixos, o trabalho rendia pouco. E admitia: Augusto P. lhe pedia dinheiro, prometendo lhe pagar após uma ajuda financeira que supostamente viria do Chile… Então outra coisa se deu naqueles dias infelizes (fazia cerca de duas semanas desde que Augusto P. retornara do hospital): de supetão, todos os chilenos deixaram de ser vistos, inclusive Augusto, desaparecendo feito um final de neblina; os quartos estavam lá em cima, intactos, com seus pertences, e as diárias pagas para o restante do mês inteiro… De todas estas ausências, claro que a chilena tomou o centro de minhas preocupações.

Certa meia-noite eu pensava nela, desaparecida há semanas, e Augusto P. reapareceu com suas muletas (foi antes de entrar definitivamente em desgraça com o hotel: ele tinha ainda cinco diárias pagas, até que findasse o mês). Tentei saber, mas ele debochadamente negou-se a proferir uma palavra sequer acerca dos chilenos, menos ainda sobre Cíntia… No entanto, algo sutilmente havia mudado: a carranca era a mesma, porém antes de subir ele me deixou com um fio imenso de pó no balcão (há tempos, quiçá desde a Criação, as câmeras na recepção estavam desativadas), um pó ruim (porém já era alguma coisa…), uma droga certamente oriunda dali mesmo no Fluxo - ou então do Galpão da rua Pilões, ou das biqueiras do Heliópolis, na zona sul do município, de todo modo um pó de mistura, bem comercial, uma bela porcaria. Seria a atitude do chileno uma sinalização de armistício, uma bandeira branca? Aceitei o mimo, e voltei a pensar em Cíntia, enquanto o outro subia as escadas para seu quarto com dificuldades, uma muleta, um pé, um pé, uma muleta… Lembrei que a cocaína que ela sempre repartia comigo (de melhor qualidade) vinha ali da rua Guaianazes no cruzamento da Aurora, ali onde latinos e africanos dão cor ao lugar com trajes da África e da América Latina: sim, pensem as senhoras e os senhores nos tons de Angola, Senegal, Peru, Bolívia…

Há na Guaianazes uma ampla variedade de serviços, de par com uma série de lojas de peças automotivas, mormente relativas a motocicletas e afins; e há o pequeno comércio de víveres, adegas, restaurantes peruanos e outros; há também apartamentos de domicílio, lanchonetes de nordestinos, botecos, puteiros baratos, sapatarias e barbearias. Dou este relato porque gosto daquela rua, mais especificamente na altura entre os cruzamentos das ruas Timbiras e Aurora, bem próximo da avenida Ipiranga com a São João, como se lá fosse um escondidinho destas vias tão afamadas e celebradas (se bem que em tempos de antanho)… E, subjazendo a tudo, há o crime organizado da lavra de nigerianos (é o que se diz) ou da mais poderosa facção paulista, eu nunca soube direito.

Madrugada a madrugada, o tempo foi passando. No meado do mês seguinte, Augusto P. fora expulso do hotel, devendo quinze diárias; nesse período, sua vida se resumira a ir do quarto à Cracolândia, e vice-versa, para abastecer-se de drogas (acostumou-se, nestes dias, a me agraciar toda noite com um pino de pó). Mas o chileno teve de partir, isto quase abaixo de pancadas do funcionário encarregado das horas diurnas, obedecendo às ordens da chefia do hotel... Ninguém estava para brincadeiras, estávamos todos à flor da pele; havia o burburinho de que a Cracolândia seria de vez exterminada, vítima de morte matada pelos poderes do Estado de São Paulo e pela especulação imobiliária que avançava sobre os bairros do centro velho. Meu hoje finado patrão Manuel, o velho português, andava receoso; a documentação que comprovava a propriedade do Hotel Éden era precária, controversa, dir-se-ia falsa (o homem ficara de posse da edificação após a morte do proprietário original, curiosamente seu ex-patrão…). Quem me informava de tais circunstâncias era um amigo, muito bem informado… E assim eu também andava cheio de temores, pois este mesmo amigo me dizia que o velho português, às vésperas das desapropriações, podia simplesmente abandonar tudo e sumir, sem consideração a meus direitos trabalhistas (já fazia bem uns três anos que eu trabalhava ali). Tal perspectiva certamente estourava meus nervos, reforçava meu consumo de drogas.

O amigo a me informar de tudo era o Caolho, um sujeito tão esquisito quanto interessante, que é militante dos direitos humanos e defensor dos usuários de drogas (ele se diz agente redutor de danos, seja lá o que isto queira dizer), uma figura deveras engraçada. Ligado ao movimento negro de São Paulo e à luta por moradia urbana, ele estava a toda hora por aquelas ruas naqueles dias de intensos conflitos, de desapropriações, de demolições de imóveis, de realocamentos de famílias inteiras, de tiros com balas de borracha que cegam e que podem levar a óbito, de bombas de gás lacrimogênio sobre as cabeças dos moradores e usuários, ou por sobre as cabeças dos simples desajustados tentando organizar sua frágil vida nas quadras do Fluxo, sobrevivendo naquelas ruas desprestigiadas que a polícia e a imprensa há três décadas atrás batizaram de Cracolândia. Muito bem informado e chapado o Caolho, devo lhes dizer… E além do mais um cara legal, calejado, cheio de cicatrizes na alma (inclusive no corpo).

Mas, e quanto à chilena? Oh, Cíntia… Por onde andará? Ela é mulher de grande sapiência, de enorme gana existencial; sonhadora, sofrida... Hoje, me pergunto: estará deportada, morta, ou novamente detida? Recordo uma noite em que quase lhe tocava a face, meus dedos deslizando no ar, circunscrevendo as linhas de seu rosto, delicadamente alisando seus traços na imaginação, a tez indígena tão hígida e os olhos dela refletindo bem fundo nos meus; sorrindo ela cantarolava, repentinamente alegre: “Su mirada es hermosa, hombre". Contudo, já lhes disse, para além daí não seguíamos.... Bom, já não resta qualquer relevância e a ninguém de vocês devo uma história de paixão ou de idílios.

Afinal, trata-se aqui del chileno. Cíntia também tinha a mão leve, tal qual Augusto; mas este agora, sem os joelhos sãos, como iria evadir-se, escapar, escafeder-se em fuga, tal qual a chilena também o fazia? O chileno havia se metamorfoseado num guepardo manco, arrastando-se na cidade de São Paulo, fodido feito um cachorro sarnento abandonado nas ruas. Como já afirmei, as coisas foram-se deteriorando para Augusto: atolado em dívidas, fora exortado a deixar o hotel; incapacitado, já não podia mais fazer parte do bando. Ele era então apenas um bandoleiro enfermo, um clandestino, um exilado no Fluxo, vulgo Cracolândia, e, já poucos dias depois dele deixar o Éden, quase diariamente eu o veria sentado à calçada (do hall do hotel através da porta envidraçada, ou de alguma janela), no meio daquelas gentes, dividindo um cachimbo.

Após sua queda, terminantemente proibido de hospedar-se no Éden, muita vez o chileno me pedia um doce, exposto à venda no balcão da portaria; outra vez, implorava por um refrigerante, uma cachaça ou qualquer outra bebida. Eu, de fato, tinha uma aguardente de alambique, que me presenteara um remoto hóspede em certo inverno longínquo, trazida de seu engenho num rincão do nordeste. Eu a mantinha sob o balcão, hermética e esquecida. A partir da notícia de seus infortúnios, sei lá porquê decidi abri-la (talvez por uma espécie de deferência; talvez para um brinde solitário, ou apenas para um ambíguo deboche) e desde então dava ao chileno periodicamente doses moderadas, como mostra de empatia.

Na terceira ou quarta vez em que surgiu, súplice, à porta do Éden, lhe servi uma dose generosa da cachaça; mas veio crecendo em mim uma pulsação violenta (eu inalava o cheiro da raiva e de ódio no ar) e decidi provocá-lo, lhe perguntando olho no olho: “O que disseste aquela noite, gringo?”, aquela noite mesma no balcão da portaria, quando ele ainda era um hóspede… Mas Augusto tão-só declinou o olhar, e disse como sempre dizia: “Es verdad…”, permanecendo um longo minuto num profundo silêncio. Para humilhá-lo, puxei do bolso do meus jeans um maço vultoso de notas, o bolso onde eu guardava o caixa do hotel (qualquer recepcionista ou porteiro de hotel vagabundo deve guardar os valores consigo, da melhor maneira possível), e lhe dei uma mísera e amarfanhada nota de dois reais. Só então relaxei, ignorando provisoriamente o assunto. E concluí satisfeito: não sou noia feito o outro, feito ele; tenho negócios e tarefas a cumprir - tenho o Éden para cuidar.

Augusto P., el chileno


 


Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda.

        Marcos, 15: 27      



                                                                                                                             

Aquele chileno, no tempo em que tinha pernas e punhos firmes, furtava à mão pequena - jamais à mão armada. Não em Sp, que não era nem louco... Mui ardorosamente, afanava tudo à sorrelfa, como dizem os antigos e os dicionários. Contudo, pensando bem, e conforme o burbúrio das madrugadas no Fluxo, vez ou outra, para além das facas, valeu-se do 38… Informo isto para ser-lhe justo - e não empobrecer demais sua biografia. 

Por muitos meses, ele e seus conterrâneos viveram no Hotel Éden, uma espelunca incrustada no meio de prédios e cortiços envelhecidos, fincado entre calçadas tomadas por malocas de pau e lona, naquele perímetro urbano e sujo a que chamavam, rebaixadamente, de Cracolândia. 

Eu trabalhava ali, de lua a lua, do crepúsculo noturno ao amanhecer poluído do dia; minha função era a de porteiro do hotel (recepcionista seria um termo inadequado para aquele antro). Recordo, como um sonho estranho na vigília, o letreiro de led na fachada, com as letras e números que numa sequência brilhavam em vermelho: “Hotel Éden, sua melhor opção no Campos Elíseos. DIÁRIA solteiro: R$ 40, casal: R$ 50. PERNOITE solteiro: R$ 30,  casal: R$ 40. Triplo: R$ 60. PERÍODO de 1 h:  R$ 10. Temos Tv e Vídeo”. Imaginem o pardieiro…

Todos o chamavam Augusto P., o chileno. Ninguém além dele me estranhava, desdenhando minhas mesuras e solicitudes, cuspindo no chão diante das tímidas inflexões de cordialidade e de respeito que eu lhe dirigia. Dos outros do Chile, ninguém jamais desprezou a mim ou a meu ofício... Os conterrâneos de Augusto (seus comparsas), jovens e incautos, eram muito permissíveis; não se importavam de me envolver em seus delitos, para os quais eu rapidamente tomava partido. El chileno, como ela o chamava (logo saberão quem), era um sujeitinho tão sinistro quanto enigmático; tinha um tique engraçado, usava a expressão “Es verdad” para concordar ou mesmo para divergir de tudo; ignoro se manterá  as mesmas manias. 

Em certo amanhecer, aparentando séria embriaguez e drogadição pesada, ele olhou para mim uns segundos, de cima a baixo, o rosto enrugado numa careta, como se fosse um Al Pacino ranheta ou um De Niro a representar Travis Bickle em alguma cena de Taxi Driver (perdoem o clichê). As maçãs do rosto estavam mais secas e amarfanhadas do que de costume; me olhou e depois inquiriu (ou apenas exclamou): “El portero?! El ne-gr!” (esta última sílaba soou assim, incompleta, ininteligível). Não compreendi inteiramente; mas disse a mim mesmo: ainda haveria de lhe cobrar o que quisera dizer com aquilo… E concluiu, à sua maneira tão característica: “Es verdad…”, sei lá se em dissenso ou concordância de alguma coisa. Daí subiu as escadas, olhando de soslaio sobre o ombro esquerdo, e dormiu o dia inteiro.

Nesta mesma noite, muitas horas antes, quando a noite ainda era criança, após uma excursão do bando dos chilenos pela cidade, ela, Cíntia, a única mulher entre eles, surgiu à entrada do hotel com o butim de quinze celulares numa bolsa; mui seriamente, cedeu um a mim. Aceitei-o com prazer. Augusto apareceu de repente e viu a cena, discutindo veementemente. Mas a moça simplesmente afirmou, talvez para deliberadamente aumentar sua ira, que eu era “confiable”... Ele mais irritou-se, soltou impropérios e finalizou carrancudo, no seu estilo verdadeiramente cômico: “Es verdad…”. Então, como sempre fazia, o chileno foi ocultar-se por uns poucos minutos no seu apartamento fuleiro do segundo andar (certamente, para dar umas cachimbadas). Retornando, não viu o bando; ia me perguntar alguma coisa, mas apenas cuspiu no chão do hall e saiu para rua, atravessando o tumulto da Cracolândia.

No que concerne aos furtos e crimes correlatos, devem perceber, eu já tomara credo e partido, agarrando com ardor o fardo destas patifarias. Logo depois que Augusto subira ao quarto, os chilenos saíram outra vez para a noite paulistana, regressando ali pela uma da matina, com uma mochila cheia, ofegantes, vindos de incursões piratas numa Parada Gay ou numa Virada Cultural, já não recordo. Cintia pediu para guardá-la nos fundos do balcão da recepção; “Ayúdame!”, ela exclamou, e tal fora mais uma ordem do que um pedido. Orientou que fosse em qualquer vão recôndito e escuro; ponderou também: era necessário estar atento e ser discreto, e principalmente - ela acentuou - nada dizer a el chileno. Explicou ainda que a madrugada seria longa, ainda era preciso trabalhar um pouco mais. “O trabajo es duro”, arrematou no seu portunhol cheio de mel.

Cíntia namorava um do bando, um que não me era hostil, pelo contrário… Hernán era simpático, e eu achava engraçado a forma como ele aprovava (com uns gestos de cabeça, sem dizer palavra) a totalidade das medidas ordenadas, ou sugeridas, por ela. A mulher tinha traquejo e instinto de liderança e os demais do bando, cuja associação carecia de organicidade e hierarquia sofisticadas (parecendo mais uma gangue de trombadinhas do que uma quadrilha “respeitável” de meliantes), gostavam de que Cintia, a chilena, rivalizasse  contra o irascível  Augusto.

 Mas comigo a mulher não rivalizava, antes mais e mais me envolvia, como se eu lhe fosse um verdadeiro parente ou velho amigo. A chilena estava a cada três ou quatro noites, invariavelmente, a me agraciar com pequenos e furtados mimos, simples quinquilharias, mas às vezes carteiras elegantes, brincos, pulseiras, anéis, chapéus, eletrônicos populares etc etc.  Estava a me cumpliciar, noites e noites, a seus crimes banais e rasteiros, que no entanto eram a fonte exclusiva de sua sobrevivência, o seu ganha-pão, a máquina de produção da bufunfa que lhe garantia três ou mais refeições ao dia, e um quarto de hotel. Contudo devo dizer que ela foi amiga e depois confidente - nunca uma amante minha… Houve um tempo em que lhe tive desejo, devem imaginar, e estou seguro de que ela chegou a sentir o mesmo, em alguns poucos momentos, bem circunscritos. Houve noites em que frequentei seu quarto, quando me ofertava seu cardápio de drogas; mas jamais íamos adiante, nada além do fraterno, do coleguismo, da camaradagem - ou seja, da simplicidade emocional. Algumas vezes, ficávamos a nos encarar, face a face, meio abobalhados (seriíssimos ou em ataques de riso), atazanados pelos efeitos de alguma substância, mas apenas isso e nada mais. 

Numa destas ocasiões, veio uma vontade e fui declinando devagarinho minha boca até a beirada de seus lábios, todavia ela recuou, riu… - logo ficou séria, e permaneceu calada. Desde então julguei-a casta e verdadeiramente adicta: porém santa não era, só lhe cabia a adicção; nalgumas noites, julguei (equivocadamente) esperar de mim não o sexo, mas o compromisso sério, achei loucamente que ela esperasse um laço matrimonial, um noivado ou coisa assim... Isso porque falava sempre nos dois filhos, lá longe, em Santiago do Chile, na vida instável, precária, e no desejo de amainar o corre-corre do dia-a-dia. O sorriso de Cíntia correspondia com frequência a meus galanteios, mas sua pele moreno-indígena se recolhia ao mais leve de meus toques, ao mais inaudível soar de meus pedidos (que enfim não passavam de gestos e olhares). Casta, ou pudica, eu concluí. 

Até que uma manhã finalmente rompera o relacionamento com Hernán, ao que parece por intriga de Augusto P., diziam; ato contínuo, já estava a andar nos braços doutro gringo, conterrâneo seu - ou natural dalgum outro país da América Latina ou do Caribe. De nosso espectral amor, pura fantasmagoria, restou a prática apaixonada, que executávamos regularmente, do consumo do álcool e da cocaína. Nosso amor ficara nisto: a pulsão ao pranto melancólico ou ao riso desmedido, a troca assexuada daqueles carinhos que eram menos tácteis do que verbais, menos tangíveis do que oníricos… Além da contemplação (à janela de seu apartamento no quarto andar) aos usuários e transeuntes circulando no meio do comércio ilícito da Cracolândia, entre as barracas de pau e lona, improvisadas ao longo das ruas Dino Bueno e Helvétia, ali nas fronteiras entre o bairro da Luz e do Campos Elíseos. 

Os chilenos do hotel (creio já entenderam) praticavam a arte vulgar do furto e do roubo; no que tange a esta última categoria, todos os do bando já executavam, desde há muito, crimes da arte de roubar que se caracterizam pela violência física e ou psicológica, não excetuando coronhadas e ou teatrais ameaças à integridade física de outrem, por arma de fogo ou através de armas brancas, não excetuando o punhal ou a faca  sobre o baço ou o pescoço… - mas isto não aqui, não na cidade de São Paulo, que não são loucos, que o medo da deportação implacável é por demais vívido, que não é assim que se ganha a vida em paz, conforme Hernán e Cíntia me explanaram certa vez, deveras comovidos…

Em Sp, exerciam com afinco a arte vulgar todavia mais sutil do furto, à mão pequena, à sorrelfa, nas multidões, nos agrupamentos festivos, nos trens e metrôs lotados, nas praças públicas, nos restaurantes e lanchonetes atulhados de possíveis vítimas inocentes - todas elas, sem exceção, aparvalhadas e em desconcerto a partir do exato momento em que se descobrem pilhadas e desossadas, dir-se-ia desalmadas, no sentido, um tanto abusivo, de que foram expurgadas de suas almas, apartadas de um material táctil todavia psíquico e ou espiritual que lhes dava esteio e sentido… Bom, já viram… Estou teorizando, elucubrando pernosticamente acerca da relação dos seres humanos e seus pertences e objetos de consumo, quase elaborando um parágrafo supostamente digno de um tratado acadêmico no campo da psicologia social ou da sociologia urbana; ora, os senhores têm razão: quem sou eu para isto?

Mas o fato para mim é: a lida destes chilenos praticantes do roubo e do furto nada possui de “verdadeira arte”, jamais chegando a ser sublime, restando adstrita e circunscrita ao vulgar: não teria indíce sequer no ramo do entretenimento sádico das vulgaridades que interessam aos sociopatas e aos cínicos. É labuta operária, de técnica elementar e de arraia-miúda. Talvez Hiralgo, o colombiano que também vivia no hotel naquele período, magro como um bailarino, primoroso como um artífice, talvez ele exerça a rapinagem com dom artístico. “Yo soy ladrón”, dizia, com fascinante soberba e serenidade no semblante, feito um ancião budista (ele não tem mais do que trinta e poucos anos). Dono de uma beleza e inteligência incomuns, Hiralgo sempre manteve-se preventivamente distante dos chilenos, exceto uma ou outra negociata obscura em parceria de Cintia. 

Ah, tenho outra coisa bonita a dizer sobre o colombiano. Numa noite de Natal, celebrada na solidão do hall do Éden, Hiralgo me viu só e quis ficar ao meu lado, certamente tomado de fraternidade e compaixão, embora mal nos conhecêssemos (ou quem sabe ele igualmente não suportasse a solidão da data…). Dividiu comigo até o amanhecer sua cocaína, preenchendo as horas relatando causos, perguntando por vezes uma coisa ou outra a meu respeito, sem contudo ultrapassar os limites da impessoalidade. Em contrapartida, ele me contou algo sobre sua vida, mas este “algo” não chegava nunca a externar qualquer detalhe comprometedor, sem jamais - como se diz no jargão jurídico - criar provas contra si mesmo.  Durante todo este Natal, eu e o colombiano ficamos a observar pelos vidros da porta da recepção e pelas janelas adjacentes a movimentação dos usuários do Fluxo, vulgo Cracolândia, que curiosamente parecia ainda mais intensa nas efemérides religiosas. Em dado momento, retomando a conversa, ele afirmou - categoricamente - que jamais havia sido detido por uma autoridade policial ou coisa que o valha, o que só vinha a corroborar seus dons de artista.

Mas, oh Deus!, eu falava de Augusto P., o chileno, até que desembestei a falar de Cíntia, também Hernan, em seguida de Hiralgo… Careço evidentemente de um melhor método para meu relato… Mas vejam, senhoras e senhores: se por ora tenho a memória de Cintia em primeiro plano, se dou primazia a ela, tem a ver também com o fato de a moça ter sido a primeira a me narrar os percalços, as pedras nos caminhos tão tortuosos, as vias sinuosas da pobreza latino-americana que ela tanto conhecia. Devo admitir que eu, em minha perene ignorância, antes de frequentar umas aulas na faculdade e, sobretudo, antes de conhecer os chilenos do hotel, associava a ideia e o conceito de "miséria" tão somente ao contexto da imensa desigualdade brasileira - ou ao sempre citado continente africano. Sim, os brasileiros gostamos de ignorar que somos latinos e dispensamos conhecer as realidades de nossos vizinhos… Cíntia, sem laivos de orgulho ou vergonha, foi a primeira a falar (mas depois Augusto P. também o faria) das errâncias percorridas através dos bairros miseráveis de La Victoria, La Pincoya, Cerro Navia, na periferia de Santiago do Chile, de onde partiram esses chilenos de origem metade espanhóis, metade indígenas da etnia mapuche (mestiços de europeus e nativos como a maioria da população do Chile), de que ora vos digo e acerca dos quais escrevo neste momento no computador, à mesa do balcão na recepção do hotel em meu novo emprego (cujo nome antagoniza o antigo; falo agora aqui do Hotel Hades), completamente sozinho nesta madrugada fria e monótona - agora que já não há mais nem fluxos nem cracolândias, ou melhor, agora que as operações policiais espalharam essas estigmatizadas aglomerações humanas para distintos pontos do centro velho da cidade, e o velho Hotel Éden, desde há muito decrépito, não passa de um amontoado de ruínas depois de seu processo de desapropriação e consequente demolição. 

Ah, sim, me desculpem (mas tenham paciência): esta é a história de Augusto P., o chileno, prometo não mais esquecer… Ele trazia as maçãs chupadas, o corpo franzino, baixo; a pele (que mais parecia uma máscara mortuária) ficava entre o tom lívido e o amarelado, comum a todos os viciados no crack. Falava-se que tinha no máximo 35 anos, mas bem podia ter quarenta e cinco, quem sabe mais. Invariavelmente de cara fechada, é mesmo verdade que seus traços lembravam os do ator Al Pacino - mais especificamente o personagem Tony Montana (perdoem o clichê), da refilmagem de Scarface, dirigida por Brian de Palma em 1983. Sendo o mais velho do bando, e aquele que mais se perdera pelos cantões do mundo (logo saberão), às vezes parecia o arremedo de um líder entre os chilenos; não raras vezes o vi orientando, outras admoestando, de vez em quando discutindo em voz alta, de punho cerrado. Todavia, líder efetivamente nunca foi, pois os chilenos desprezavam qualquer hierarquia, como uma matilha de cães vadios.

O que mais impressionava em Augusto P. era a velocidade com a qual entrava e saía do hotel, sem nunca me cumprimentar, sequer olhar. Aparecia, subia para o quarto e descia, numa corrida de guepardo, seguidamente ao longo da madrugada, com ou sem bagagem (sacola ou mochila) nas mãos. Doutra feita, com frequência sumia por dias seguidos. Ele fazia questão, afrontando as regras do Éden, de levar sempre a chave do apartamento consigo.

Até um carro em desgoverno lhe rachar as pernas num cruzamento da avenida Paulista. O passo acelerado virara um arrastar de muletas; e a carranca funesta logo se tornaria um olhar súplice de pedinte. Imaginem… A ascendência do chileno naquele conluio étnico, sua suposta autoridade de cacique, se transmutara em fardo, logo em empecilho. Não que os outros o repelissem; havia entre os chilenos do hotel, de par com uma solidariedade de patrícios, uma fraternidade de gangue ou de quadrilha. Todavia os repetidos empréstimos, os recorrentes auxílios, os seguidos atrasos nas diárias do hotel e tantos outros ínfimos pedidos avolumaram-se com o tempo, e neste os desentendidos, o fastio, os inevitáveis conflitos. 

Qual seria agora do ladrão na hora da fuga, sem a lepidez do primitivo felino nas ruas, nas lajes e nos telhados de zinco? - isto eu me perguntava dramática e poeticamente, recostado ao balcão da portaria do Hades, em meu novo emprego, rabiscando num caderno, em seguida me dirigindo ao laptop. Mas vejam só: os chilenos do bando deram também a andar cabisbaixos; Hernán fora preso, e Cíntia observava comigo que os ganhos estavam muito baixos, o trabalho rendia pouco. E admitia: Augusto P. lhe pedia dinheiro, prometendo lhe pagar após uma ajuda financeira que supostamente viria do Chile… Então outra coisa se deu naqueles dias infelizes (fazia cerca de duas semanas desde que Augusto P. retornara do hospital): de supetão, todos os chilenos deixaram de ser vistos, inclusive Augusto, desaparecendo feito um final de neblina; os quartos estavam lá em cima, intactos, com seus pertences, e as diárias pagas para o restante do mês inteiro… De todas estas ausências, claro que a chilena tomou o centro de minhas preocupações.

Certa meia-noite eu pensava nela, desaparecida há semanas, e Augusto P. reapareceu com suas muletas (foi antes de entrar definitivamente em desgraça com o hotel: ele tinha ainda cinco diárias pagas, até que findasse o mês). Tentei saber, mas ele debochadamente negou-se a proferir uma palavra sequer acerca dos chilenos, menos ainda sobre Cíntia… No entanto, algo sutilmente havia mudado: a carranca era a mesma, porém antes de subir ele me deixou com um fio imenso de pó no balcão (há tempos, quiçá desde a Criação, as câmeras na recepção estavam desativadas), um pó ruim (porém já era alguma coisa…), uma droga certamente oriunda dali mesmo no Fluxo - ou então do Galpão da rua Pilões, ou das biqueiras do Heliópolis, na zona sul do município, de todo modo um pó de mistura, bem comercial, uma bela porcaria. Seria a atitude do chileno uma sinalização de armistício, uma bandeira branca? Aceitei o mimo, e voltei a pensar em Cíntia, enquanto o outro subia as escadas para seu quarto com dificuldades, uma muleta, um pé, um pé, uma muleta… Lembrei que a cocaína que ela sempre repartia comigo (de melhor qualidade) vinha ali da rua Guaianazes no cruzamento da Aurora, ali onde latinos e africanos dão cor ao lugar com trajes da África e da América Latina: sim, pensem as senhoras e os senhores nos tons de Angola, Senegal, Peru, Bolívia… 

Há na Guaianazes uma ampla variedade de serviços, de par com uma série de lojas de peças automotivas, mormente relativas a motocicletas e afins; e há o pequeno comércio de víveres, adegas, restaurantes peruanos e outros; há também apartamentos de domicílio, lanchonetes de nordestinos, botecos, puteiros baratos, sapatarias e barbearias. Dou este relato porque gosto daquela rua, mais especificamente na altura entre os cruzamentos das ruas Timbiras e Aurora, bem próximo da avenida Ipiranga com a São João, como se lá fosse um escondidinho destas vias tão afamadas e celebradas (se bem que em tempos de antanho)… E, subjazendo a tudo, há o crime organizado da lavra de nigerianos (é o que se diz) ou da mais poderosa facção paulista, eu nunca soube direito.

Madrugada a madrugada, o tempo foi passando. No meado do mês seguinte, Augusto P. fora expulso do hotel, devendo quinze diárias; nesse período, sua vida se resumira a ir do quarto à Cracolândia, e vice-versa, para abastecer-se de drogas (acostumou-se, nestes dias, a me agraciar toda noite com um pino de pó). Mas o chileno teve de partir, isto quase abaixo de pancadas do funcionário encarregado das horas diurnas, obedecendo às ordens da chefia do hotel... Ninguém estava para brincadeiras, estávamos todos à flor da pele; havia o burburinho de que a Cracolândia seria de vez exterminada, vítima de morte matada pelos poderes do Estado de São Paulo e pela especulação imobiliária que avançava sobre os bairros do centro velho. Meu hoje finado patrão Manuel, o velho português, andava receoso; a documentação que comprovava a propriedade do Hotel Éden era precária, controversa, dir-se-ia falsa (o homem ficara de posse da edificação após a morte do proprietário original, curiosamente seu ex-patrão…). Quem me informava de tais circunstâncias era um amigo, muito bem informado… E assim eu também andava cheio de temores, pois este mesmo amigo me dizia que o velho português, às vésperas das desapropriações, podia simplesmente abandonar tudo e sumir, sem consideração a meus direitos trabalhistas (já fazia bem uns três anos que eu trabalhava ali). Tal perspectiva certamente estourava meus nervos, reforçava meu consumo de drogas.

O amigo a me informar de tudo era o Caolho, um sujeito tão esquisito quanto interessante, que é militante dos direitos humanos e defensor dos usuários de drogas (ele se diz agente redutor de danos, seja lá o que isto queira dizer), uma figura deveras engraçada. Ligado ao movimento negro de São Paulo e à luta por moradia urbana, ele estava a toda hora por aquelas ruas naqueles dias de intensos conflitos, de desapropriações, de demolições de imóveis, de realocamentos de famílias inteiras, de tiros com balas de borracha que cegam e que podem levar a óbito, de bombas de gás lacrimogênio sobre as cabeças dos moradores e usuários, ou por sobre as cabeças dos simples desajustados tentando organizar sua frágil vida nas quadras do Fluxo, sobrevivendo naquelas ruas desprestigiadas que a polícia e a imprensa há três décadas atrás batizaram de Cracolândia. Muito bem informado e chapado o Caolho, devo lhes dizer… E além do mais um cara legal, calejado, cheio de cicatrizes na alma (inclusive no corpo).

Mas, e quanto à chilena? Oh, Cíntia… Por onde andará? Ela é mulher de grande sapiência, de enorme gana existencial; sonhadora, sofrida... Hoje, me pergunto: estará deportada, morta, ou novamente detida? Recordo uma noite em que quase lhe tocava a face, meus dedos deslizando no ar, circunscrevendo as linhas de seu rosto, delicadamente alisando seus traços na imaginação, a tez indígena tão hígida e os olhos dela refletindo bem fundo nos meus; sorrindo ela cantarolava, repentinamente alegre: “Su mirada es hermosa, hombre". Contudo, já lhes disse, para além daí não seguíamos.... Bom, já não resta qualquer relevância e a ninguém de vocês devo uma história de paixão ou de idílios. 

Afinal, trata-se aqui del chileno. Cíntia também tinha a mão leve, tal qual Augusto; mas este agora, sem os joelhos sãos, como iria evadir-se, escapar, escafeder-se em fuga, tal qual a chilena também o fazia? O chileno havia se metamorfoseado num guepardo manco, arrastando-se na cidade de São Paulo, fodido feito um cachorro sarnento abandonado nas ruas. Como já afirmei, as coisas foram-se deteriorando para Augusto: atolado em dívidas, fora exortado a deixar o hotel; incapacitado, já não podia mais fazer parte do bando. Ele era então apenas um bandoleiro enfermo, um clandestino, um exilado no Fluxo, vulgo Cracolândia, e, já poucos dias depois dele deixar o Éden, quase diariamente eu o veria sentado à calçada (do hall do hotel através da porta envidraçada, ou de alguma janela), no meio daquelas gentes, dividindo um cachimbo. 

Após sua queda, terminantemente proibido de hospedar-se no Éden, muita vez o chileno me pedia um doce, exposto à venda no balcão da portaria; outra vez, implorava por um refrigerante, uma cachaça ou qualquer outra bebida. Eu, de fato, tinha uma aguardente de alambique, que me presenteara um remoto hóspede em certo inverno longínquo, trazida de seu engenho num rincão do nordeste. Eu a mantinha sob o balcão, hermética e esquecida. A partir da notícia de seus infortúnios, sei lá porquê decidi abri-la (talvez por uma espécie de deferência; talvez para um brinde solitário, ou apenas para um ambíguo deboche) e desde então dava ao chileno periodicamente doses moderadas, como mostra de empatia. 

Na terceira ou quarta vez em que surgiu, súplice, à porta do Éden, lhe servi uma dose generosa da cachaça; mas veio crecendo em mim uma pulsação violenta (eu inalava o cheiro da raiva e de ódio no ar) e decidi provocá-lo, lhe perguntando olho no olho: “O que disseste aquela noite, gringo?”, aquela noite mesma no balcão da portaria, quando ele ainda era um hóspede… Mas Augusto tão-só declinou o olhar, e disse como sempre dizia: “Es verdad…”, permanecendo um longo minuto num profundo silêncio. Para humilhá-lo, puxei do bolso do meus jeans um maço vultoso de notas, o bolso onde eu guardava o caixa do hotel (qualquer recepcionista ou porteiro de hotel vagabundo deve guardar os valores consigo, da melhor maneira possível), e lhe dei uma mísera e amarfanhada nota de dois reais. Só então relaxei, ignorando provisoriamente o assunto. E concluí satisfeito: não sou noia feito o outro, feito ele; tenho negócios e tarefas a cumprir - tenho o Éden para cuidar.

Há bem pouco tempo, nos dias de folga de meu novo emprego aqui no Hotel Hades, eu me punha a palmilhar a rua Helvétia ou a Dino Bueno, circundando o largo Coração de Jesus, cruzando a rua Barão de Piracicaba, depois atravessando a avenida Duque de Caxias, alinhavando meu devir nos perímetros do bairro da Luz e do Campos Elíseos (quero crer que só a mim, e a algumas circunstâncias, devo meu passado e meu destino), observando a cidade e a Boca do Lixo, entre os moradores e os frequentadores do comércio, e as pequenas aglomerações humanas de usuários aqui e acolá, agora que a velha Cracolândia se foi, agora que o fluxo dos usuários se dá noutras esquinas e vãos do centro velho - e então notava o chileno numa calçada qualquer junto a dezenas de pessoas, tragando e permutando um cachimbo. Se acaso ele me via, olhava para mim com um sorriso, desavergonhadamente gritando: “Una dosis más, amigo”. Eu ria (à guisa de cumprimento) e apenas seguia em frente, embora alguma coisa, subterrânea, invariavelmente estivesse a me incomodar nestas ocasiões.

Noutra meia-noite, eu estava distraído a pensar em Cíntia (estaria ela ainda por São Paulo; algum lugar do Brasil?) e Augusto P. bateu novamente às portas do Éden. De modo inédito, deixei-o entrar para sentar-se no sofá do hall, movido por algum sentimento obscuro. Há muitos meses que o chileno havia sido expulso do hotel; diziam que, quando não estava no Fluxo, andava a esmo por aí, esmolando ao relento, pelas avenidas… A madrugada estava fria e o vento batia duro feito chibata; deixei-o entrar, talvez, porque a hora era erma (mas a Cracolândia jamais era erma, e sim multitudinária, contraditória, ambivalente) e o gesto era “humano” (mas sabe-se lá o que é isto); julguei que ele quisesse descansar, aquecer-se um pouco, acho que pensei que Cíntia era “humana” e assim o faria… Eu apenas quis lhe ceder provisória guarida, transitória quentura, alguns minutos de acolhimento (que se transformaram em horas), desprezando ordens em contrário de Manuel, o português que era o proprietário do hotel e hoje jaz num túmulo do Belenzinho, ou talvez o fizesse pela simples razão de que me sentisse só ou triste – pois há quanto tempo eu não via Cíntia? 

Então permiti que descansasse no carcomido estofado da recepção; notem, não era a humanidade, no sentido da compaixão ao próximo, a mover meus atos; todavia a curiosidade (compreendi depois)... No que concerne às relações humanas, talvez nada seja mais humano do que contar e ouvir histórias. Então lhe dei um pacote de doces; lhe servi uma dose de aguardente, mui caprichada… E fiz amistosamente com que ele falasse, me colocando a ouvi-lo, depois perguntando, às vezes inquirindo, e assim soube que vinha da favela de La Victoria, no recanto norte de Santiago de Chile, e desde cedo (“desde niño…”) ganhara o mundo, transitando dos reformatórios às delegacias, viajando por muitas cidades, em terras da América do Norte e da Europa (“Tierras del Viejo Continente: Madrid, Milano, Lisboa, Berlin…”), labutando em seu ofício… Ou seja, afanando cá e lá os pequenos engenhos e os pequenos produtos que o triunfal capitalismo urdiu, pronto a furtar (ou fazê-lo à mão armada) os milhares de artefatos que há quatro ou cinco séculos seguidos fazem-se à força de trabalho mal pago, geopolítica e colonialismo, e que desde tempos idos as sociedades vêm produzindo, acumulando, concentrando, repartindo, destruindo, reacumulando, ostentando, derruindo, taxando, ao menos foi o que depreendi das palavras de Augusto P., o chileno, e das aulas de História nos dias de faculdade, ao menos era o que dizia meu amigo Caolho, ativista dos direitos humanos e defensor dos usuários de drogas (é esquisito, já disse, mas é assim que ele se define), mui sincero e mui amigo o Caolho, um jovem de esquerda politicamente ativo e adicto e deveras preocupado com tudo o que se passa no bairro da Luz e em toda a Boca do Lixo... Chamamos ele de “Caolho”, se querem saber, porque a bala de borracha da arma de um PM indistinto cegou para sempre seu olho direito, isto numa operação policial (que durou dias) a que se deu o sinistro nome, pasmem, de Operação Sufoco, ou, mais sinistramente ainda, “Dor e sofrimento”, conforme as falas das autoridades e a alcunha da imprensa,  ali pelo ano de 2012. Procurem os senhores ler nos jornais da época, consultem o Google… Mas ai, desculpem; às vezes esqueço: esta é a história de Augusto P., o chileno. Mui estupidamente, quase faço dela um simples registro de longas e pequenas digressões…

Eu ouvia o chileno de pé, recostado ao balcão da recepção, e resolvi me sentar ao seu lado no sofá. Sem querer, derrubei uma de suas muletas, equilibradas num braço do estofado. Ele fez menção para que a deixasse ali mesmo, no chão. Augusto P. pediu outra dose da cachaça; bebeu-a num golpe só e, pausada e serenamente, seguiu relatando o seguinte: ele esfaqueou a si próprio no Uruguai, diante da polícia de Montevidéu porque, na iminência de ser detido, temeu o que se passara consigo nos cárceres da canalhada fardada em território argentino, que o torturara a contento…  Em Buenos Aires lhe disseram, com sadismo, após a sessão de tortura: se caísse enfermo num hospital estaria protegido, escapando de ir aos porões das delegacias portenhas. Bastava cair enfemo… Portanto, assim o fez diante dos agentes montevideanos, salpicando uns rasgos (rasos) no próprio estômago. “Cualquier cosa, excepto la tortura, amigo…”, murmurou. Mas a surpresa dele foi com o (suposto) fato de que os meganhas uruguaios eram aparentemente menos brutos com os clandestinos; eles lhe explicaram, quase com ternura, quase com carinho, que ali não se praticavam tais suplícios; Augusto riu...

Para desguiar deste brutal assunto, que durou longos minutos, creio lhe fiz umas perguntas banais; ele então elencou uma sequência de temas a seu bel-prazer: falou da casa bonita comprada e legada à mulher e à filha com o suor do ofício; e do desejo, ou do desprezo (não lembro bem), de revê-las um dia; de inimizades antigas e de um campo de flores; de ódios profundos e de amores inatingidos; de uma mulher nunca esquecida e um finado amigo; da música da senhora Mercedes Sosa, e da canção de Violeta Parra; pasmem, até de Paquito de Rivera, o jazzista cubano, que assistira à Cidade do México num concerto ao ar livre... Mas falou muito mais de “las cumbias” que ouvia e o faziam dançar, e lembrar, como num sonho, sua infância perdida. Ele tossiu, pigarreou e marejou os olhos - abaixou o rosto, olhando fixamente para o soalho; voltou a erguê-lo e então finalmente quis saber a meu respeito (mas não quis atendê-lo e pouco lhe disse). Daí levantou-se do sofá, pôs as mãos no bolso, e começou a andar pelo hall do hotel, dando uns passos bambos (sem muletas). 

Caminhava mancando, vagarosamente, sobre o piso sujo do recinto, a duras penas, como se quisesse provar alguma coisa; parecia muito pensativo, compenetrado. Num momento estancou e me encarou, perguntando (foi bem à hora exata em que um rojão, ou tiro, estourou no Fluxo): “Que tuviera usted con ella, negro?”, e, ante minha confusão e estupefação, ele repetiu, “Que tuviera usted con ella, amigo?”, e como eu seguisse desconcertado, sem atinar de fato ao sentido do que ouvira, e sem saber o que responder, e como Augusto tirasse do bolso uma das mãos, e com esta surgisse um objeto pequeno, pontiagudo, de cuja superfície percebia-se o fio de uma lâmina lustrosa mesmo à luz muito fraca daquela sala às quatro da madrugada, saltei num pulo do sofá e me coloquei de pronto… Imaginem; consideravelmente alcoolizado, meu olhos esbulhados o miravam como se fossem uma escopeta enferrujada: mas eu sabia que, para me defender, precisaria contra-atacar.

Mas Augusto P. sorriu mostrando a arcada dentária precária, porém muito expansiva, onde se notava a ausência de um canino; lembrei insensatamente de Keith Richards. Curiosamente, havia um rádio ligado bem baixinho no balcão da portaria, e começara a tocar Gimmie Shelter ou Paint it black, essas coisas que tocam só nas horas turvas da madrugada. Seria algum sinal? Bom, não sou nada sensitivo, ou melhor, não sou nada supersticioso - e deixei imediatamente de dar importância à música. Pensei: pois será que o ladrão inveterado tentará me roubar, este animal aleijado e soturno? Instintivamente, pus a mão no bolso direito do meu jeans, onde eu sempre guardava (ainda o faço) o caixa do hotel.  Augusto P. moveu um passo temerário à frente, tropeçou, quase caiu… A custo reajustou-se, e pôs-se comicamente ereto, como um brinquedo de criança. Senti desprezo, mais do que ódio; da maneira mais arrogante e superior, lhe perguntei qual seria seu plano estúpido. Mas ele empertigou-se e simplesmente me esticou o objeto, informando: “Es un regalo de Cíntia…”.

Recebi passivamente o canivete da mão de Augusto; por um segundo, o rosto da chilena figurou-se, detalhe por detalhe, na minha mente; lá no fundo, contudo, estava tudo subitamente claro para mim: eu clamava menos à moça do Chile, e mais contra o peso de chumbo da solidão em que eu vivia… Só não sabia se a solidão era apenas minha ou inexorável condição de todo ser consciente da finitude de seu corpo e da risível tese de que alhures haverá uma outra vida… Alçando o olhar por sobre o chileno, espiei lá fora, pela porta envidraçada do Éden, admirando a extensa aglomeração humana ao longo da rua; pensei comigo: “Aquilo será vida? Qual vida é a minha? Quem poderá decidir se as pessoas ali na rua Dino Bueno são menos dignas do que aquelas no Bom Retiro, no bairro da Consolação, no da Santa Cecília?”. Afastei tais ideias para me concentrar em Augusto; perguntei mas ele negou-se a falar (argumentou ser impossível) acerca do paradeiro de Cíntia. “Está presa ou repatriada?”, questionei. “La mujer ha huido”, sugeriu parcimonioso, esquecendo-se de que não domino o espanhol. “Probablemente se fue”, insistiu Augusto, sem me ajudar em nada; diante de meu olhar perplexo, levantou a voz num portunhol que era mais compreensível: “Ella fugiu… está en fuga…”.

Calculei que ele mentia por obra do ciúme; ou então de fato ignorava o paradeiro dela, irremediavelmente… Augusto complementou dizendo não fazer a menor ideia do destino de Cíntia. Ansiava tanto quanto eu pela chilena? E com relação ao canivete, o que dizia? A moça deixou-o com Augusto P. em dezembro (estávamos então em fevereiro ou março); encontrou-o na região do Largo do Paissandu, lhe  pagou comida e bebida, e umas diárias num pequeno hotel da rua do Seminário. Confidenciou ao chileno: não podia voltar à Cracolândia, tinha lá umas dívidas, e ele, Augusto, poderia fazer o favor de entregar o presente a mim?… Se foi assim, lhe questionei o porquê de tamanha demora; Augusto confessou que retardara deliberadamente a entrega. Após abandonar o hotel da Seminário, pensou em vender o canivete; numa noite onde tentaram roubá-lo, contudo, o instrumento furou o ventre de um dos vagabundos e afugentou o outro, salvando-o da perda de seus parcos pertences ou mesmo a vida; o artefato tornara-se então amuleto. O chileno vagou os últimos meses pelas bandas do centro velho, mas bem longe da Cracolândia; explicou que temia me encontrar e fraquejar, falando acerca de Cíntia e do presente que era meu por direito. 

Eu já estava enfadado de tantas histórias; mandei-o ao inferno, gritei dizendo que ele agira errado, que deveria me ter procurado no mesmo dia, quem sabe eu encontrasse a chilena... Mas a réplica dele foi esta - seca, mal-educada, como se voltasse a ser o primitivo Augusto P., veloz como um guepardo, sinistro como um assassino: “Yo no quiero ni hablar de Cintia ni me gusta dar el regalo a un…”. Ele não terminou a frase, mas entendi… Ah, já era tempo de me prestar contas; levantei-o violentamente pelo colarinho, pus o canivete sob o seu pescoço: “O que disseste aquela noite, gringo?”, aquela noite mesma no balcão da portaria, quando ainda era hóspede… Mas, para minha decepção, ele apenas prostrou-se, lasso, sem forças.

Quis esbofeteá-lo, humilhá-lo, diminuí-lo; chamei-o de índio, sociopata, clandestino. Porque Augusto P., o chileno era um mentiroso, um ladrão sorrateiro, um deplorável latrocida (eu supunha), o filho bastardo de Pinochet e da Escola de Chicago, o rebento maldito de um ditadorzinho de bosta e de sua escola importada de economia neoliberal, que fez de todo o Chile um experimento social abjeto porque iníquo, uma máquina de triturar pessoas como Cíntia, Hernán, Augusto… uma máquina de produção de desigualdades e… - e isto o Caolho me ensinou primeiro, e isto foi bem o que li e ouvi depois nas aulas sobre a América Latina… Mas estou devaneando: que culpa terá Augusto P. disto tudo? Antes, o que de fato deveríamos nos perguntar é outra coisa: qual parte lhe caberá na hora do ajuste de contas, no juízo final? (o Caolho dirá, me corrigindo: na hora da revolução, embora seja simultaneamente um homem de fé). Todavia Augusto, apartado de suas muletas, de novo frágil e derrotado, pedia agora mil desculpas, parecia estar em prantos… 

Senti dó, acreditem; larguei-o de lado, e bebi toda a cachaça do meu copo. Ele se jogou ao sofá, respirou fundo; sem olhá-lo nos olhos, enchi seu copo: o homem enfiou goela abaixo todo o conteúdo da bebida. Eu estava tomado de um sentimento sincrônico de raiva e vergonha; era difícil encará-lo. Aí alguma coisa se passou, algo como uma pacificação ou iluminação… (pensei em escrever epifania, mas não foi nada disto). Após um breve silêncio, o chileno, cansado mas com uma estranha tranquilidade na voz, começou a repetir toda a história (resignado, deixei que o fizesse), desde o encontro com Cíntia no Paissandu  até o dia imediatamente anterior à nossa conversa ali no hall do Éden, e o fez intercalando novos detalhes e novas situações, relatando tudo em tom confessional, como numa pequena igreja… (ah, recordo as mega-igrejas neopentecostais invadindo a cidade de São Paulo, e encolerizo…). 

Fechei meus olhos enquanto Augusto falava na semi-escuridão do Éden e pensei em Deus-Pai, na misericórdia do Espírito Santo, e na imagem do Cristo pregada na parede do hall do hotel (um louro crucificado que parecia mais um Brad Pitt); pensei no meu amigo Caolho, o ativista dos direitos humanos, revolucionário, adicto - mas assaz religioso, que sempre me diz (principalmente nas horas em que divide um cigarro de mesclado comigo) que o ateísmo é invenção da burguesia: bom, com frequência eu pouco entendo o que ele fala, mas dane-se, deve ser só provocação (ele sabe que sou ateu). O Caolho também costuma me dizer outra coisa, solene e convicto: “A Revolução brasileira dar-se-á pela cor, não pela classe, ou não tão-só pela luta de classes”, arrolando sei lá quantos intelectuais negros, gringos e nativos, realmente uns crânios fodidos, uns sujeitos pensantes, uns pretos barra-pesada. “Pela cor”, insiste repetidamente. Ele é mais preto do que eu, é inequívoco; talvez seja verdade, como o Caolho diz, que o fato d’eu ser mulato (ele odeia que eu use tal palavra: prefere afrodescendente, negro de pele clara etc) efetivamente atrapalhe meu entendimento das contradições do racismo no País… Bom, tenho aqui comigo uns textos que o Caolho me deu, e com eles reflito.

Oh Deus, perco outra vez o prumo, avanço em digressões vazias, não é? Provavelmente queira negar estas páginas, jogá-las no lixo, deve ser isto: elas revelam minhas atrocidades, mais que as de Augusto P., percebem? Se o Caolho estivesse aqui eu diria: no final das contas, my friend, não vou aderir a nenhuma religião nem ideologia - embora saiba que as condições históricas para um mundo melhor (para o socialismo?) serão construídas um dia, mas por ora eu duvido; não sob um tal pensamento hegemônico conservador e esses discursos caretas, à direita e à esquerda do espectro político... Cético demais? Individualista demais? Cínico demais? Talvez; mas é o que resta no momento para um recepcionista de hotel da Boca do Lixo. 

Ah, sim, esta história já vai longa, é melhor que acabe logo. Nossa intenção, falo de mim e de Augusto P., nunca foi criar panfletos, ou confessar segredos; sequer fazer literatura. Sim, sou um ser cheio de dúvidas - somos todos…; nesta hora da noite, escrevendo no computador ao balcão do Hotel Hades - meu novo local de emprego, como já sabem - apenas rogo aos deuses que não me vejam chorar pelo amor de uma ladra clandestina.

Depois da fadiga e de nossa luta, o chileno já era de novo o homem-menino semi-aleijado de muletas que o carro da Paulista criara, com aquele olhar súplice de pedinte, desde sempre franzino e baixo, de maçãs chupadas, tristes. Ambos prostrados no carcomido sofá, dali avistávamos a rua Dino Bueno e o fluxo da Cracolândia através da porta envidraçada do Éden. Lá fora o dia ia clareando, ainda sob o domínio da noite. E, talvez porque de repente eu sentisse frio, desejei algo como um calor humano, um clamor de amizade, de comunhão. Servi mais duas doses da cachaça, convidando Augusto para um autêntico brinde; e, por minha sugestão, ele voltou uma vez mais às velhas histórias, melancólicas ou alegres, de sua vida; então lhe refiz perguntas, elaborei novas curiosidades, repeti e reinterpretei à voz alta suas experiências ditas a mim ao longo daquela noite incomum. E no primeiro matiz da aurora Augusto P. declarou surpreendentemente, feito um padre ou poeta, efetivamente comovido, inescapavelmente lírico: “Que rico estar acá a hablar contigo… acerca de mi tierra y mi viajes, mi desventuras y martirios… Mui rico… A veces parece que estoy num soño y que estoy neste hotel a contarte recuerdos soñados, más que vividos… y usted ahí a oír mi soñadas memorias…”.  

Terá sido mesmo o que disse? O álcool fazia água em meu corpo, atravessando os meandros do cérebro, turvando a memória... Mas já não importa; às vezes relembro aquele outro Augusto P., anterior à queda, antes de seu exílio nas ruas e na chamada Cracolândia, a poucas quadras daqui onde escrevo; mas só às vezes (fica-nos mais presente as memórias do imediato e cinzento cotidiano, e olhe lá). Felizmente, ele não sabe onde agora trabalho; como viram, naqueles dias eu lhe dava água, cachaça, alguma comida, de vez em quando uma pedra de crack… Todavia, não é verdade que nos tornamos amigos? Provavelmente, se me der na telha, vá agora procurá-lo no Fluxo e lhe ofereça uma cama, um chuveiro, um abrigo. Ah, sim… Já não há mais o complexo fluxo daquelas gentes, mas várias e várias cracolândias espalhadas pela cidade. Contudo, para ser sincero, quero-o distante de mim; ah, não me julguem: o que vocês querem é um final feliz que tranquilize suas consciências imbecis… Só lhes digo uma coisa: toda a Boca do Lixo está agonizando debaixo de pauladas da polícia e das balas de borracha, e o crime organizado, que antes primava por tudo - hoje não organiza nada… É uma espécie de eminência parda, que já não se distingue da polícia, pelo menos no centro velho da cidade… Cadê disciplina? São Paulo é foda; vai sempre ser assim? 

“(...) y usted ahí a oír mi soñadas memorias…” caras senhoras, estimados senhores.  

Mas lembro muito bem, naquela madrugada remota no Hotel Éden, que lhe notei uma lágrima tênue em meio às cores da aurora principiando a iluminar o hall; ou, quem sabe, fosse apenas o vaivém dos mosquitos que dançavam sobre nossos rostos, no amanhecer da sala ainda em penumbras… Quem sabe para disfarçar seus sentimentos, Augusto ergueu-se com dificuldades, seguiu capengando até o balcão, e serviu-se de uma dose generosa da cachaça, sob meu olhar de aprovação. Senti cansaço e me deitei, sereno e em harmonia, alicerçando minha nuca nas mãos, minhas costas num dos braços do sofá, meus pés no chão... Já ia amanhecer e dali a pouco uns tantos hóspedes desceriam dos quartos ou chegariam da rua - em bandos ou solitários e soturnos. Eu, coisa incomum, tinha sono e as imagens chegavam embaciadas em minhas retinas, como numa atmosfera de fumaça ou de espuma. Não tive medo quando vi Augusto P. velozmente movimentar, creio que para nunca mais, ágeis e majestáticos, seus passos de guepardo na minha direção, nem quando sentou-se a meu lado, pois trazia nas faces as mesmas chupadas e tristes maçãs, pondo-se pela última vez a me contar uma história… Suas palavras, acolhedoras, diziam do fraterno e do bem-quisto; todavia, eu agora não lhe ouvia direito: em algum momento, pensei até que cantarolava uma música chilena, alheio ao blues que tocava baixinho na estação do rádio. Finalmente, o corpo numa preguiçosa modorra, acho que por um ou dois minutos adormeci, certo de ter cativado um novo amigo.

Acordei sobressaltado, sob a impressão de que um bicho - barata ou lagartixa, digamos - passeava sobre mim, na região do baixo-ventre. El Chileno também assustou-se, pediu desculpas e saiu a muletadas duras e apressadas, deixando a porta do Éden escancarada; quando ainda era um ladrão de verdade, contumazmente o fazia. Dependurada, a um triz de cair no chão, notei que declinava do bolso direito do jeans, pertencente ao caixa do hotel, uma suja e desgastada nota de cem reais. 

Noutra meia-noite, eu estava distraído a pensar em Cíntia (estaria ela ainda por São Paulo; algum lugar do Brasil?) e Augusto P. bateu novamente às portas do Éden. De modo inédito, deixei-o entrar para sentar-se no sofá do hall, movido por algum sentimento obscuro. Há muitos meses que o chileno havia sido expulso do hotel; diziam que, quando não estava no Fluxo, andava a esmo por aí, esmolando ao relento, pelas avenidas… A madrugada estava fria e o vento batia duro feito chibata; deixei-o entrar, talvez, porque a hora era erma (mas a Cracolândia jamais era erma, e sim multitudinária, contraditória, ambivalente) e o gesto era “humano” (mas sabe-se lá o que é isto); julguei que ele quisesse descansar, aquecer-se um pouco, acho que pensei que Cíntia era “humana” e assim o faria… Eu apenas quis lhe ceder provisória guarida, transitória quentura, alguns minutos de acolhimento (que se transformaram em horas), desprezando ordens em contrário de Manuel, o português que era o proprietário do hotel e hoje jaz num túmulo do Belenzinho, ou talvez o fizesse pela simples razão de que me sentisse só ou triste – pois há quanto tempo eu não via Cíntia?

Então permiti que descansasse no carcomido estofado da recepção; notem, não era a humanidade, no sentido da compaixão ao próximo, a mover meus atos; todavia a curiosidade (compreendi depois)... No que concerne às relações humanas, talvez nada seja mais humano do que contar e ouvir histórias. Então lhe dei um pacote de doces; lhe servi uma dose de aguardente, mui caprichada… E fiz amistosamente com que ele falasse, me colocando a ouvi-lo, depois perguntando, às vezes inquirindo, e assim soube que vinha da favela de La Victoria, no recanto norte de Santiago de Chile, e desde cedo (“desde niño…”) ganhara o mundo, transitando dos reformatórios às delegacias, viajando por muitas cidades, em terras da América do Norte e da Europa (“Tierras del Viejo Continente: Madrid, Milano, Lisboa, Berlin…”), labutando em seu ofício… Ou seja, afanando cá e lá os pequenos engenhos e os pequenos produtos que o triunfal capitalismo urdiu, pronto a furtar (ou fazê-lo à mão armada) os milhares de artefatos que há quatro ou cinco séculos seguidos fazem-se à força de trabalho mal pago, geopolítica e colonialismo, e que desde tempos idos as sociedades vêm produzindo, acumulando, concentrando, repartindo, destruindo, reacumulando, ostentando, derruindo, taxando, ao menos foi o que depreendi das palavras de Augusto P., o chileno, e das aulas de História nos dias de faculdade, ao menos era o que dizia meu amigo Caolho, ativista dos direitos humanos e defensor dos usuários de drogas (é esquisito, já disse, mas é assim que ele se define), mui sincero e mui amigo o Caolho, um jovem de esquerda politicamente ativo e adicto e deveras preocupado com tudo o que se passa no bairro da Luz e em toda a Boca do Lixo... Chamamos ele de “Caolho”, se querem saber, porque a bala de borracha da arma de um PM indistinto cegou para sempre seu olho direito, isto numa operação policial (que durou dias) a que se deu o sinistro nome, pasmem, de Operação Sufoco, ou, mais sinistramente ainda, “Dor e sofrimento”, conforme as falas das autoridades e a alcunha da imprensa, ali pelo ano de 2012. Procurem os senhores ler nos jornais da época, consultem o Google… Mas ai, desculpem; às vezes esqueço: esta é a história de Augusto P., o chileno. Mui estupidamente, quase faço dela um simples registro de longas e pequenas digressões…

Eu ouvia o chileno de pé, recostado ao balcão da recepção, e resolvi me sentar ao seu lado no sofá. Sem querer, derrubei uma de suas muletas, equilibradas num braço do estofado. Ele fez menção para que a deixasse ali mesmo, no chão. Augusto P. pediu outra dose da cachaça; bebeu-a num golpe só e, pausada e serenamente, seguiu relatando o seguinte: ele esfaqueou a si próprio no Uruguai, diante da polícia de Montevidéu porque, na iminência de ser detido, temeu o que se passara consigo nos cárceres da canalhada fardada em território argentino, que o torturara a contento… Em Buenos Aires lhe disseram, com sadismo, após a sessão de tortura: se caísse enfermo num hospital estaria protegido, escapando de ir aos porões das delegacias portenhas. Bastava cair enfemo… Portanto, assim o fez diante dos agentes montevideanos, salpicando uns rasgos (rasos) no próprio estômago. “Cualquier cosa, excepto la tortura, amigo…”, murmurou. Mas a surpresa dele foi com o (suposto) fato de que os meganhas uruguaios eram aparentemente menos brutos com os clandestinos; eles lhe explicaram, quase com ternura, quase com carinho, que ali não se praticavam tais suplícios; Augusto riu...

Para desguiar deste brutal assunto, que durou longos minutos, creio lhe fiz umas perguntas banais; ele então elencou uma sequência de temas a seu bel-prazer: falou da casa bonita comprada e legada à mulher e à filha com o suor do ofício; e do desejo, ou do desprezo (não lembro bem), de revê-las um dia; de inimizades antigas e de um campo de flores; de ódios profundos e de amores inatingidos; de uma mulher nunca esquecida e um finado amigo; da música da senhora Mercedes Sosa, e da canção de Violeta Parra; pasmem, até de Paquito de Rivera, o jazzista cubano, que assistira à Cidade do México num concerto ao ar livre... Mas falou muito mais de “las cumbias” que ouvia e o faziam dançar, e lembrar, como num sonho, sua infância perdida. Ele tossiu, pigarreou e marejou os olhos - abaixou o rosto, olhando fixamente para o soalho; voltou a erguê-lo e então finalmente quis saber a meu respeito (mas não quis atendê-lo e pouco lhe disse). Daí levantou-se do sofá, pôs as mãos no bolso, e começou a andar pelo hall do hotel, dando uns passos bambos (sem muletas).

Caminhava mancando, vagarosamente, sobre o piso sujo do recinto, a duras penas, como se quisesse provar alguma coisa; parecia muito pensativo, compenetrado. Num momento estancou e me encarou, perguntando (foi bem à hora exata em que um rojão, ou tiro, estourou no Fluxo): “Que tuviera usted con ella, negro?”, e, ante minha confusão e estupefação, ele repetiu, “Que tuviera usted con ella, amigo?”, e como eu seguisse desconcertado, sem atinar de fato ao sentido do que ouvira, e sem saber o que responder, e como Augusto tirasse do bolso uma das mãos, e com esta surgisse um objeto pequeno, pontiagudo, de cuja superfície percebia-se o fio de uma lâmina lustrosa mesmo à luz muito fraca daquela sala às quatro da madrugada, saltei num pulo do sofá e me coloquei de pronto… Imaginem; consideravelmente alcoolizado, meu olhos esbulhados o miravam como se fossem uma escopeta enferrujada: mas eu sabia que, para me defender, precisaria contra-atacar.

Mas Augusto P. sorriu mostrando a arcada dentária precária, porém muito expansiva, onde se notava a ausência de um canino; lembrei insensatamente de Keith Richards. Curiosamente, havia um rádio ligado bem baixinho no balcão da portaria, e começara a tocar Gimmie Shelter ou Paint it black, essas coisas que tocam só nas horas turvas da madrugada. Seria algum sinal? Bom, não sou nada sensitivo, ou melhor, não sou nada supersticioso - e deixei imediatamente de dar importância à música. Pensei: pois será que o ladrão inveterado tentará me roubar, este animal aleijado e soturno? Instintivamente, pus a mão no bolso direito do meu jeans, onde eu sempre guardava (ainda o faço) o caixa do hotel. Augusto P. moveu um passo temerário à frente, tropeçou, quase caiu… A custo reajustou-se, e pôs-se comicamente ereto, como um brinquedo de criança. Senti desprezo, mais do que ódio; da maneira mais arrogante e superior, lhe perguntei qual seria seu plano estúpido. Mas ele empertigou-se e simplesmente me esticou o objeto, informando: “Es un regalo de Cíntia…”.

Recebi passivamente o canivete da mão de Augusto; por um segundo, o rosto da chilena figurou-se, detalhe por detalhe, na minha mente; lá no fundo, contudo, estava tudo subitamente claro para mim: eu clamava menos à moça do Chile, e mais contra o peso de chumbo da solidão em que eu vivia… Só não sabia se a solidão era apenas minha ou inexorável condição de todo ser consciente da finitude de seu corpo e da risível tese de que alhures haverá uma outra vida… Alçando o olhar por sobre o chileno, espiei lá fora, pela porta envidraçada do Éden, admirando a extensa aglomeração humana ao longo da rua; pensei comigo: “Aquilo será vida? Qual vida é a minha? Quem poderá decidir se as pessoas ali na rua Dino Bueno são menos dignas do que aquelas no Bom Retiro, no bairro da Consolação, no da Santa Cecília?”. Afastei tais ideias para me concentrar em Augusto; perguntei mas ele negou-se a falar (argumentou ser impossível) acerca do paradeiro de Cíntia. “Está presa ou repatriada?”, questionei. “La mujer ha huido”, sugeriu parcimonioso, esquecendo-se de que não domino o espanhol. “Probablemente se fue”, insistiu Augusto, sem me ajudar em nada; diante de meu olhar perplexo, levantou a voz num portunhol que era mais compreensível: “Ella fugiu… está en fuga…”.

Calculei que ele mentia por obra do ciúme; ou então de fato ignorava o paradeiro dela, irremediavelmente… Augusto complementou dizendo não fazer a menor ideia do destino de Cíntia. Ansiava tanto quanto eu pela chilena? E com relação ao canivete, o que dizia? A moça deixou-o com Augusto P. em dezembro (estávamos então em fevereiro ou março); encontrou-o na região do Largo do Paissandu, lhe pagou comida e bebida, e umas diárias num pequeno hotel da rua do Seminário. Confidenciou ao chileno: não podia voltar à Cracolândia, tinha lá umas dívidas, e ele, Augusto, poderia fazer o favor de entregar o presente a mim?… Se foi assim, lhe questionei o porquê de tamanha demora; Augusto confessou que retardara deliberadamente a entrega. Após abandonar o hotel da Seminário, pensou em vender o canivete; numa noite onde tentaram roubá-lo, contudo, o instrumento furou o ventre de um dos vagabundos e afugentou o outro, salvando-o da perda de seus parcos pertences ou mesmo a vida; o artefato tornara-se então amuleto. O chileno vagou os últimos meses pelas bandas do centro velho, mas bem longe da Cracolândia; explicou que temia me encontrar e fraquejar, falando acerca de Cíntia e do presente que era meu por direito.

Eu já estava enfadado de tantas histórias; mandei-o ao inferno, gritei dizendo que ele agira errado, que deveria me ter procurado no mesmo dia, quem sabe eu encontrasse a chilena... Mas a réplica dele foi esta - seca, mal-educada, como se voltasse a ser o primitivo Augusto P., veloz como um guepardo, sinistro como um assassino: “Yo no quiero ni hablar de Cintia ni me gusta dar el regalo a un…”. Ele não terminou a frase, mas entendi… Ah, já era tempo de me prestar contas; levantei-o violentamente pelo colarinho, pus o canivete sob o seu pescoço: “O que disseste aquela noite, gringo?”, aquela noite mesma no balcão da portaria, quando ainda era hóspede… Mas, para minha decepção, ele apenas prostrou-se, lasso, sem forças.

Quis esbofeteá-lo, humilhá-lo, diminuí-lo; chamei-o de índio, sociopata, clandestino. Porque Augusto P., o chileno era um mentiroso, um ladrão sorrateiro, um deplorável latrocida (eu supunha), o filho bastardo de Pinochet e da Escola de Chicago, o rebento maldito de um ditadorzinho de bosta e de sua escola importada de economia neoliberal, que fez de todo o Chile um experimento social abjeto porque iníquo, uma máquina de triturar pessoas como Cíntia, Hernán, Augusto… uma máquina de produção de desigualdades e… - e isto o Caolho me ensinou primeiro, e isto foi bem o que li e ouvi depois nas aulas sobre a América Latina… Mas estou devaneando: que culpa terá Augusto P. disto tudo? Antes, o que de fato deveríamos nos perguntar é outra coisa: qual parte lhe caberá na hora do ajuste de contas, no juízo final? (o Caolho dirá, me corrigindo: na hora da revolução, embora seja simultaneamente um homem de fé). Todavia Augusto, apartado de suas muletas, de novo frágil e derrotado, pedia agora mil desculpas, parecia estar em prantos…

Senti dó, acreditem; larguei-o de lado, e bebi toda a cachaça do meu copo. Ele se jogou ao sofá, respirou fundo; sem olhá-lo nos olhos, enchi seu copo: o homem enfiou goela abaixo todo o conteúdo da bebida. Eu estava tomado de um sentimento sincrônico de raiva e vergonha; era difícil encará-lo. Aí alguma coisa se passou, algo como uma pacificação ou iluminação… (pensei em escrever epifania, mas não foi nada disto). Após um breve silêncio, o chileno, cansado mas com uma estranha tranquilidade na voz, começou a repetir toda a história (resignado, deixei que o fizesse), desde o encontro com Cíntia no Paissandu até o dia imediatamente anterior à nossa conversa ali no hall do Éden, e o fez intercalando novos detalhes e novas situações, relatando tudo em tom confessional, como numa pequena igreja… (ah, recordo as mega-igrejas neopentecostais invadindo a cidade de São Paulo, e encolerizo…).

Fechei meus olhos enquanto Augusto falava na semi-escuridão do Éden e pensei em Deus-Pai, na misericórdia do Espírito Santo, e na imagem do Cristo pregada na parede do hall do hotel (um louro crucificado que parecia mais um Brad Pitt); pensei no meu amigo Caolho, o ativista dos direitos humanos, revolucionário, adicto - mas assaz religioso, que sempre me diz (principalmente nas horas em que divide um cigarro de mesclado comigo) que o ateísmo é invenção da burguesia: bom, com frequência eu pouco entendo o que ele fala, mas dane-se, deve ser só provocação (ele sabe que sou ateu). O Caolho também costuma me dizer outra coisa, solene e convicto: “A Revolução brasileira dar-se-á pela cor, não pela classe, ou não tão-só pela luta de classes”, arrolando sei lá quantos intelectuais negros, gringos e nativos, realmente uns crânios fodidos, uns sujeitos pensantes, uns pretos barra-pesada. “Pela cor”, insiste repetidamente. Ele é mais preto do que eu, é inequívoco; talvez seja verdade, como o Caolho diz, que o fato d’eu ser mulato (ele odeia que eu use tal palavra: prefere afrodescendente, negro de pele clara etc) efetivamente atrapalhe meu entendimento das contradições do racismo no País… Bom, tenho aqui comigo uns textos que o Caolho me deu, e com eles reflito.

Oh Deus, perco outra vez o prumo, avanço em digressões vazias, não é? Provavelmente queira negar estas páginas, jogá-las no lixo, deve ser isto: elas revelam minhas atrocidades, mais que as de Augusto P., percebem? Se o Caolho estivesse aqui eu diria: no final das contas, my friend, não vou aderir a nenhuma religião nem ideologia - embora saiba que as condições históricas para um mundo melhor (para o socialismo?) serão construídas um dia, mas por ora eu duvido; não sob um tal pensamento hegemônico conservador e esses discursos caretas, à direita e à esquerda do espectro político... Cético demais? Individualista demais? Cínico demais? Talvez; mas é o que resta no momento para um recepcionista de hotel da Boca do Lixo.

Ah, sim, esta história já vai longa, é melhor que acabe logo. Nossa intenção, falo de mim e de Augusto P., nunca foi criar panfletos, ou confessar segredos; sequer fazer literatura. Sim, sou um ser cheio de dúvidas - somos todos…; nesta hora da noite, escrevendo no computador ao balcão do Hotel Hades - meu novo local de emprego, como já sabem - apenas rogo aos deuses que não me vejam chorar pelo amor de uma ladra clandestina.

Depois da fadiga e de nossa luta, o chileno já era de novo o homem-menino semi-aleijado de muletas que o carro da Paulista criara, com aquele olhar súplice de pedinte, desde sempre franzino e baixo, de maçãs chupadas, tristes. Ambos prostrados no carcomido sofá, dali avistávamos a rua Dino Bueno e o fluxo da Cracolândia através da porta envidraçada do Éden. Lá fora o dia ia clareando, ainda sob o domínio da noite. E, talvez porque de repente eu sentisse frio, desejei algo como um calor humano, um clamor de amizade, de comunhão. Servi mais duas doses da cachaça, convidando Augusto para um autêntico brinde; e, por minha sugestão, ele voltou uma vez mais às velhas histórias, melancólicas ou alegres, de sua vida; então lhe refiz perguntas, elaborei novas curiosidades, repeti e reinterpretei à voz alta suas experiências ditas a mim ao longo daquela noite incomum. E no primeiro matiz da aurora Augusto P. declarou surpreendentemente, feito um padre ou poeta, efetivamente comovido, inescapavelmente lírico: “Que rico estar acá a hablar contigo… acerca de mi tierra y mi viajes, mi desventuras y martirios… Mui rico… A veces parece que estoy num soño y que estoy neste hotel a contarte recuerdos soñados, más que vividos… y usted ahí a oír mi soñadas memorias…”.

Terá sido mesmo o que disse? O álcool fazia água em meu corpo, atravessando os meandros do cérebro, turvando a memória... Mas já não importa; às vezes relembro aquele outro Augusto P., anterior à queda, antes de seu exílio nas ruas e na chamada Cracolândia, a poucas quadras daqui onde escrevo; mas só às vezes (fica-nos mais presente as memórias do imediato e cinzento cotidiano, e olhe lá). Felizmente, ele não sabe onde agora trabalho; como viram, naqueles dias eu lhe dava água, cachaça, alguma comida, de vez em quando uma pedra de crack… Todavia, não é verdade que nos tornamos amigos? Provavelmente, se me der na telha, vá agora procurá-lo no Fluxo e lhe ofereça uma cama, um chuveiro, um abrigo. Ah, sim… Já não há mais o complexo fluxo daquelas gentes, mas várias e várias cracolândias espalhadas pela cidade. Contudo, para ser sincero, quero-o distante de mim; ah, não me julguem: o que vocês querem é um final feliz que tranquilize suas consciências imbecis… Só lhes digo uma coisa: toda a Boca do Lixo está agonizando debaixo de pauladas da polícia e das balas de borracha, e o crime organizado, que antes primava por tudo - hoje não organiza nada… É uma espécie de eminência parda, que já não se distingue da polícia, pelo menos no centro velho da cidade… Cadê disciplina? São Paulo é foda; vai sempre ser assim?

“(...) y usted ahí a oír mi soñadas memorias…” caras senhoras, estimados senhores.

Mas lembro muito bem, naquela madrugada remota no Hotel Éden, que lhe notei uma lágrima tênue em meio às cores da aurora principiando a iluminar o hall; ou, quem sabe, fosse apenas o vaivém dos mosquitos que dançavam sobre nossos rostos, no amanhecer da sala ainda em penumbras… Quem sabe para disfarçar seus sentimentos, Augusto ergueu-se com dificuldades, seguiu capengando até o balcão, e serviu-se de uma dose generosa da cachaça, sob meu olhar de aprovação. Senti cansaço e me deitei, sereno e em harmonia, alicerçando minha nuca nas mãos, minhas costas num dos braços do sofá, meus pés no chão... Já ia amanhecer e dali a pouco uns tantos hóspedes desceriam dos quartos ou chegariam da rua - em bandos ou solitários e soturnos. Eu, coisa incomum, tinha sono e as imagens chegavam embaciadas em minhas retinas, como numa atmosfera de fumaça ou de espuma. Não tive medo quando vi Augusto P. velozmente movimentar, creio que para nunca mais, ágeis e majestáticos, seus passos de guepardo na minha direção, nem quando sentou-se a meu lado, pois trazia nas faces as mesmas chupadas e tristes maçãs, pondo-se pela última vez a me contar uma história… Suas palavras, acolhedoras, diziam do fraterno e do bem-quisto; todavia, eu agora não lhe ouvia direito: em algum momento, pensei até que cantarolava uma música chilena, alheio ao blues que tocava baixinho na estação do rádio. Finalmente, o corpo numa preguiçosa modorra, acho que por um ou dois minutos adormeci, certo de ter cativado um novo amigo.

Acordei sobressaltado, sob a impressão de que um bicho - barata ou lagartixa, digamos - passeava sobre mim, na região do baixo-ventre. El Chileno também assustou-se, pediu desculpas e saiu a muletadas duras e apressadas, deixando a porta do Éden escancarada; quando ainda era um ladrão de verdade, contumazmente o fazia. Dependurada, a um triz de cair no chão, notei que declinava do bolso direito do jeans, pertencente ao caixa do hotel, uma suja e desgastada nota de cem reais.


7 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page