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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: EDNÉIA ANGÉLICA GOMES




SOBRE A AUTORA


Ednéia Angélica Gomes é mineira de Nanuque. Escreve desde os 15 anos e já  publicou dois livros: “A marca na testa” e “O pênis e seus homens”. É graduada em Pedagogia e Filosofia, Especialista em Filosofia e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente, mora em Ribeirão das Neves/MG e trabalha como professora da Educação Básica na rede municipal de Belo Horizonte/MG. É co-fundadora e integrante da comissão de curadoria da Casa Museu de Arte, espaço virtual que incentiva, abriga e divulga trabalhos em Literatura, Música e Audiovisual de artistas da região metropolitana de Belo Horizonte, além de promover formações e palestras sobre arte e educação. 



O CONTO SEMIFINALISTA


OS SENTIDOS DA VIDA ETERNA


O anjo Micael tinha os olhos presos em caracteres alfanuméricos sobre a tela do computador. Havia uma alteração no padrão das cores e algumas sequências inesperadas. Parte do código divino não rodava como deveria. “Mais um bug”, pensou, e franziu as espessas sobrancelhas,  empurrando as costas contra o espaldar da cadeira.

Quando iniciou a carreira de programador, no complexo tecnológico celestial, Micael acreditou que teria uma vida fácil. “Deus nunca erra”, diziam. Vinte anos depois, era o analista responsável por um sistema computacional gigantesco cujas falhas constantes consumiam-lhe a saúde e a paz. 

Não eram ainda dez horas da manhã e ele já havia esvaziado duas garrafas de café. “Está cada vez mais difícil”, queixou-se, “sem dinheiro para novos equipamentos e sem poder contar com mão-de-obra especializada…” Pensava seriamente em pedir demissão e ir trabalhar no setor de alimentos. Extrair leite e mel do seio de Deus certamente seria menos complicado.

LUZ, o grande sistema operacional da onisciência divina demandava mais espaço de armazenamento em nuvem para o seu volumoso banco de dados. A população da Terra não parava de crescer e, a cada dia, trilhões de novas informações tinham que ser recolhidas, processadas e arquivadas. Além disso, Micael precisava de especialistas em cibersegurança à altura dos hackers do inferno; novos engenheiros e programadores capazes de resolver conflitos entre os plugins e de corrigir os processamentos enviesados. Sem falar que a manutenção dos equipamentos exigia uma equipe técnica maior e mais qualificada.

No entanto, o anjo Gabriel, atual ministro da economia do Empíreo, havia retirado verbas do setor de tecnologia da informação para investir em projetos educacionais básicos. “As pessoas precisam aprender a louvar”, dissera ele. E não deixa de ter razão. Todo mundo sabe que o louvor é o combustível de Deus. Mas os mecanismos de controle das almas também necessitam de atenção e de capital! Afinal, sem o olho que tudo vê, o prestígio do Altíssimo não pode se sustentar.

“Daqui a pouco vamos ter que voltar aos processos primitivos”, pensou Micael, com sarcasmo, recordando o tempo em que as boas ações e os pecados eram anotados à mão, nos Livros da Vida. 

No início do mundo, os registros manuais feitos pelos anjos eram a base da sabedoria divina. Era neles que Deus buscava informação, antes de enviar suas bênçãos e antes de decidir se uma alma desencarnada merecia o Paraíso ou o fogo do inferno. É claro que, às vezes, para aliviar a tensão, o Eterno gostava de distribuir castigos imerecidos. Não obstante, toda vez que nascia uma criança na Terra, os anjos iniciavam um novo registro. 

Redigir e conservar esses manuscritos, certamente, dava muito trabalho. Um batalhão de seres alados se agitava, na Terra e no Céu, para que nenhuma ação humana deixasse de ser devidamente considerada. 

Na ponta do processo estavam os anjos espiões que, escondidos atrás de árvores, muros, igrejas, ou ocultos dentro das casas (principalmente nos banheiros), anotavam, em cadernetas, tudo o que as pessoas faziam, diziam e pensavam. Essas anotações eram entregues aos anjos escriturários, cuja tarefa era decifrar os garranchos dos espiões e transcrever, em letra redonda e legível (se possível com algum estilo), as informações mais importantes para os livros. Depois disso, os grossos volumes eram catalogados e guardados em estantes gigantescas; sob a responsabilidade dos anjos bibliotecários. 

Quando a população da Terra ultrapassou o primeiro bilhão, esse sistema entrou em colapso. É impossível, mesmo para um Criador eficiente, produzir a quantidade necessária de anjos para vigiar tanta gente. Ademais, seria preciso um planeta inteiro só para a biblioteca. Sem falar no enorme consumo de tinta, de papel e na lentidão do processo. 

Houve casos de pessoas julgadas e condenadas ao abismo das trevas, antes que os seus respectivos livros pudessem ser localizados.

Foi então que um anjo escriturário teve a ousada ideia de construir uma máquina para contabilizar os pecados. O dispositivo primitivo consistia em uma leitora de cartões perfurados capaz de contar a quantidade de furos em pedaços de papelão, armazenar a contagem em uma memória mecânica e imprimir o resultado final em tabelas. Era o primeiro passo rumo à modernização dos processos de vigilância celeste.

Infelizmente, o nome desse anjo genial não pode ser encontrado no cânone eterno; isso porque, no Céu, Deus recebe todos os créditos. 

Com a nova tecnologia, as cadernetas dos anjos espiões foram substituídas por cartões, nos quais eles registravam as falhas humanas, fazendo furos. Um furo para cada erro. E os escriturários, em vez de anotar, descritivamente, pecado por pecado, apenas consultavam a tabela final e adicionavam a quantidade computada no dia, ao montante do pecador.

A geringonça recebeu inúmeras críticas. Uma das suas principais limitações era a impossibilidade de considerar qualitativamente as faltas. Pelo novo paradigma (um furo para cada erro) os pecados se tornavam equivalentes. Assim, uma infração corriqueira, como esquecer de fazer o nome-do-pai diante da igreja (ou espiar o primo nu, no banho) era tão grave quanto um crime de estupro seguido de assassinato. Sem falar que as boas ações (cada vez mais raras, é verdade) passaram a ser ignoradas.

Com o tempo, foram surgindo aperfeiçoamentos. O advento da energia elétrica possibilitou a supressão da força bruta utilizada para girar a manivela, dispensando o trabalho braçal de muitos anjos. Um novo sistema de relés, tornou o processamento mais rápido. Por outro lado, no que concerne à abordagem diferencial dos pecados, foi introduzido um esquema de pesos (furos maiores para erros mais graves) que, se não resolvia o problema, pelo menos mitigava.

Apesar disso, ainda havia muitas insatisfações em torno da máquina. Algumas de ordem material, como os enormes custos envolvidos na construção e manutenção do mecanismo. Outras, políticas, como a querela entre os anjos espiões e os escriturários. Enquanto os segundos exaltavam a grandiosidade da nova invenção; os primeiros reclamavam que a engenhoca tornava o trabalho inicial dos registros ainda mais extenuante, afinal, fazer furos em cartões era bem mais difícil que rabiscar anotações.  

Passados alguns séculos, as engrenagens ficaram sobrecarregadas e começaram a emperrar. Por maior que se construísse a máquina, ela nunca era grande o suficiente para acompanhar o crescimento da população e, consequentemente, do número dos pecados humanos. Deus, quando exortou seus filhos a “crescer e multiplicar”, não avaliou o custo que essa determinação acarretaria para os seus sistemas de vigilância.

O número de habitantes já ultrapassava sete bilhões quando um anjo espião percebeu que os homens e as mulheres possuíam pequenos artefatos eletrônicos que levavam sempre consigo. E que todas as  suas ações podiam ser vigiadas através desses aparelhos. A tecnologia de espionagem na Terra (quem diria?) estava anos luz à frente do firmamento. 

Tudo o que as pessoas faziam, da manhã à noite, e, mais do que isso, a qualidade do sono, seus batimentos cardíacos, seus desejos, suas inclinações e até suas intenções inconfessáveis eram captados pelas telas desses dispositivos. Os dados coletados  eram geralmente utilizados para objetivos mundanos: manter a população cativa em redes sociais virtuais e incentivá-la a consumir certos produtos. Contudo, essa riqueza informacional, com os processamentos devidos, poderia ser usada para acelerar o processo de avaliação e julgamento das condutas.

“Para que reinventar a roda?” perguntou-se o anjo espião, que, disfarçado de humano, passou a frequentar cursos de programação na Terra. Depois de formado, roubou um computador e desenvolveu um vírus capaz de invadir os dispositivos eletrônicos dos seus espionados. Com isso, livrou-se das cansativas viagens (e dos maçantes cartões), podendo trabalhar à distância, no conforto da sua própria residência, em home office.

Ao contrário da leitora de cartões perfurados, a inovação do espião não beneficiou apenas a sua categoria; reduziu o trabalho de todos. Aliás, com as informações registradas e arquivadas diretamente na memória do computador, muitos escriturários e bibliotecários puderam ser dispensados. É claro que os anjos ociosos foram reaproveitados nos louvores, uma vez que, no Céu, apenas Deus tem direito ao repouso. 

Há até quem diga (à boca pequena, é claro) que o Altíssimo vive de barriga para cima, desde que o destino dos homens passou a ser decidido por algoritmos. 

Além de reduzir o trabalho no Céu, a informatização, trazida da Terra, tornava o “olho de Deus” mais eficiente e mais eficaz. 

Os coros dos anjos, agora reforçados, cantavam uma vida eterna mais colorida e mais leve. Reinava um clima de esperança e otimismo. Uma nova era parecia estar se iniciando no Paraíso. 

O esperto espião soube aproveitar a oportunidade; abriu uma rede de escolas de tecnologia que atraiu jovens anjos de todas as esferas do Firmamento. Entre eles, Micael, que sonhava com uma vida fácil e prestigiada. Entretanto, não é mais um jovem sonhador, este que encontramos, em seu escritório, diante do computador. 

Os líderes políticos do Céu parecem acreditar que o computador divino funciona por milagre e dão o problema da vigilância das almas como encerrado. Aliás, uma das verdades mais difíceis de aceitar no Empíreo, onde reina a pretensão de ser para sempre, é que nenhuma solução é definitiva. Como todos na Terra sabemos (principalmente quando o assunto é tecnologia informacional), o que não se atualiza se torna, rapidamente, ineficaz. 

“Mas, quem vai convencer o cabeçudo do Gabriel?” pensou Micael, checando novamente a caixa de mensagens, na esperança de que Deus tivesse lido pelo menos um dos seus e-mails. 

Não havia resposta.

Mais de oito bilhões de pessoas para vigiar, tantas falhas (nos homens e no sistema) e tão poucos recursos. 

Pobre Micael. 

Oito bilhões de pessoas. “Quem se importa com oito bilhões de pessoas?” perguntou-se com amargura. E, se fosse honesto o suficiente para admitir a dimensão oculta da sua dor, acrescentaria: “apenas uma pessoa importa”.  

O que não foi dito até agora é que, além das dificuldades do trabalho, o analista estava lidando com uma rejeição amorosa. Seu angelical coração tinha sido destroçado. Por isso,  quando viu entrar Ramiel, o anjo responsável por uma das portarias do Céu, não pode evitar um pensamento maldoso: “mas o que esse porteiro veio fazer aqui?” E, sem responder ao cumprimento do outro, disparou, com violência:  “o que você deseja?”

Meio constrangido, mas sempre muito cortês, Ramiel pôs-se a explicar o caso. Havia recebido, em sua portaria, que é a décima primeira (caso Micael tenha esquecido), um homem cujo nome não constava na lista da vida eterna. A princípio, pensou se tratar de um falecimento repentino e consultou o sistema. Mas o nome também não constava na tabela dos mortos.

“Não é possível que você tenha vindo aqui pedir para eu ensinar-lhe o seu trabalho” exclamou Micael, contrariado: “se o homem não está entre os mortos, envie-o  de volta à Terra!”, concluiu.

“Não posso!” exclamou Ramiel, “o nome dele também não está entre os vivos!” 

“Mande-o, então, para o inferno!” Explodiu Micael, “tenho mais o que fazer!”

“M-mas é que…”, gaguejou Ramiel, “eu não tenho acesso à listagem do inferno… e e-eu gostaria que você confirmasse o destino dele… sabe como é… não se pode cometer erros!”

“Não se pode cometer erros…” repetiu Micael, em pensamento. Que erro havia cometido? Por que ela não falava mais com ele?

Praguejando, o analista perguntou o nome completo do homem, sentou-se diante de LUZ, e digitou a seguinte pergunta: Guilherme Soares dos Santos deve entrar no Céu ou ser enviado ao inferno? Recebeu em resposta: “Não há, em meu banco de dados, nenhuma informação a respeito do nome informado.” 

Desconcertado, Micael interrogou Ramiel “tem certeza que o nome é esse mesmo? é assim mesmo que se escreve?” 

“Na verdade, ele chegou sem os documentos”, disse Ramiel, meio constrangido. 

“Vamos tentar localizar pelo sistema de reconhecimento facial”, disse Micael, “tem uma foto do sujeito?” 

“Isso eu posso conseguir agora mesmo”, respondeu Ramiel.

O anjo porteiro enviou uma mensagem a Pedro, seu auxiliar, que respondeu, imediatamente, encaminhando uma foto do homem. Micael transferiu para a memória do computador e pediu que LUZ o identificasse. A resposta, porém, foi quase a mesma: “Não há, em meu banco de dados, nenhuma informação a respeito da pessoa fotografada.”

“Ora, ora” disse Micael, rindo de nervoso, “temos um problema aqui. Certamente os dados desse homem se perderam no último ataque de malwares. Não há o que fazer!”

 “Mas quem é que vai decidir o destino dele?” perguntou o responsável pela portaria. 

“O algoritmo, assim como Deus, precisa de dados. Não se pode fazer nada sem informações. Neste caso específico, você mesmo terá que tomar a decisão” 

Ramiel ficou espantadíssimo. “Como assim? Não sou digno de decidir nada! A sentença final cabe somente ao Altíssimo”, exclamou.

“Como você acha que o Altíssimo decide?” perguntou Micael com sarcasmo; e, diante do silêncio de Ramiel, continuou: “não venha me dizer que Deus conhece o coração de todos os homens. Não é possível que vocês, porteiros, ainda acreditem nesse tipo de bobagem!” E concluiu, em pensamento, dialogando com as próprias dores: “não é possível conhecer nenhum outro coração…”

“Ora, mas se é assim, como podemos ter certeza de que uma pessoa merece, realmente, o destino que terá?” interrogou Ramiel.

“É tudo questão de probabilidade.” disse Micael, secamente.

Ramiel não disse nada. Apenas olhou o engenheiro, espantado.

“Ora, mas o que você quer?” finalizou Micael, irritado, “já disse que não posso fazer nada.”

“Não podíamos enviar a pergunta diretamente ao Todo-poderoso? perguntou Ramiel.

E Micael soltou uma estrondosa gargalhada. “Experimente fazer isso e vai passar a eternidade esperando a resposta”.

“Não quero carregar o peso de ter enviado um inocente ao inferno…” ia dizendo Ramiel.

“Então, deixe-o entrar na vida eterna”, interrompeu Micael.

“Mas também não tenho certeza de que seja merecedor.” retrucou o porteiro.

“Ora bolas, quem quer saber?” explodiu o analista.

“Ma-mas, a vontade de Deus…” gaguejou Ramiel

“A vontade de Deus é apenas uma forma de encerrar o assunto”, disse o analista e pôs Ramiel porta afora, decidido a encerrar logo aquele assunto e abrir uma garrafa de vodka.



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