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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: EUNICE MACIEL




SOBRE A AUTORA


Meu nome é Eunice Maciel.

Economista de formação, comecei a escrever em 2009, quando publiquei meu primeiro livro, incentivada – quase obrigada – pelas minhas filhas. 

Assim surgiu o “Perigo na Ilha” e nasceu a Eunice escritora.  

Escrevi outro livro, “Perdidos na mina”, publicado dois anos depois, e mais outro, “Um ano difícil”. A seguir publiquei o “Cuidado! Onça!!”  e, comemorando meus dez anos de escrita, em 2019 surge “O Mistério da Ilha Grande”, edição revista e melhorada do meu primeiro livro.  Finalmente, encerrando a coleção dedicada aos jovens, publiquei “6 meses passam rápido”.

Em 2021 tive a alegria de apresentar meu primeiro romance para o público adulto, “Tombos”, e no início de 2023, a coletânea “Um conto por dia”. Tenho um livro inédito sendo avaliado por duas editoras e um outro pronto para ser revisado. 

A “Eunice-economista” definitivamente deu lugar à “Eunice-escritora”.  



O CONTO SEMIFINALISTA


DELAÇÃO PREMEDITADA


Nunca me senti tão mal. Dói tudo dentro de mim. Como se eu estivesse sendo virado pelo avesso à imagem de um casaco que a gente enfia a mão na manga para puxar para fora. Ao invés da manga sinto como se estivessem puxando meus intestinos, meu fígado, meus pulmões, fico sem ar e dói, e tento pensar em outra coisa. 

Na poltrona ao lado o sujeito lê um livro sem se dar conta do meu mal-estar. Quando cheguei ele já estava sentado. Coloquei minha maleta no compartimento superior e ele se levantou para que eu me sentasse no meu lugar à janela do avião. 

Sempre gostei de viajar na janela para ver o mundo de cima, a aproximação e a aterrissagem. Me dá prazer sentir o frio na barriga no momento da decolagem. No início tinha medo. Garoto matuto, fui voar pela primeira vez aos dezoito anos de idade. Depois me acostumei, mas sem nunca deixar de sentir o tal frio na barriga. Agora tenho um inverno na barriga, entranhas e cérebro. Tudo gelado, paralisado, e não é de medo de avião. É medo do que está por vir. Seria até bom se o avião caísse. Acabava de vez com essa droga de vida.


***


Conheci José Armindo antes mesmo de aprender a falar. Minha mãe é madrinha dele e a mãe dele me batizou. Melhores amigas e vizinhas de porta em Barreiros do Norte, no interior do interior do Nordeste do Brasil, que durante anos foi tudo que eu conheci do mundo. Ele, filho único, e eu, o quarto na linha sucessória, mas primeiro no coração do meu pai que teve que esperar anos pelo primeiro filho macho engolindo a decepção da chegada de três filhas mulheres antes que minha mãe acertasse a mão, como ele dizia, como se a escolha do sexo fosse atribuição da mãe da criança.

José Armindo não tinha irmãos e vivia em nossa casa. Preferia o aperto de um quarto pequeno dividido comigo e a comida contada numa mesa onde comiam seis ao seu conforto de filho único na melhor casa e mais farta mesa da vizinhança. Sua mãe, minha “dinda”, ficava genuinamente constrangida com aquela situação e dava um jeito de fazer chegar aos meus pais o que pudesse sem tornar óbvia a ajuda. Sempre me convidava para dormir em sua casa, mas o formalismo do pai do Armindo me deixava pouco à vontade. Alguma coisa naquela casa me oprimia e não foram poucas as vezes que vi minha madrinha chorar.

José Armindo tinha um tipo de inteligência que eu invejava. Ele, por sua vez, invejava a minha, que me permitia ser o melhor aluno da turma e tirar as melhores notas sem precisar estudar muito. A genialidade dele consistia em decorar rostos e nomes, o que cada um dissera do outro, quem era amigo de quem, e usar essa rede de conhecimentos e conhecidos em benefício próprio. Intuitivamente empregava as frases adequadas com as pessoas certas falando exatamente o que queriam ouvir, exaltando o melhor de cada um e se fazendo estimado. Seu pai era político, foi eleito várias vezes vereador, e talvez José Armindo tivesse essa facilidade de agradar os outros nos genes. Quanto a mim, devo ter puxado a memória e o raciocínio lógico de um antepassado distante pois meu pai chegava a ser simplório e minha mãe contava com um cérebro de tamanho inversamente proporcional ao imenso coração. Ao invés de competirmos, concluímos - inteligentemente - que mais valia nos aproveitarmos, um, das facilidades do outro, e nossa amizade de meninos seguiu cada vez mais forte pela vida afora. Meu benefício imediato foi ter escola particular paga pelo meu padrinho, convencido pelo filho de que seria muito melhor ir para a cidade grande com um amigo do que sozinho. Meu pai engoliu o orgulho e aceitou de bom grado o oferecimento do compadre. Passei a ser a esperança de toda família, a ponte para um futuro melhor.

Mudei-me com José Armindo e seus pais para Recife. De uma hora para outra virei homem. Deixei minha casa, meu quarto, três irmãs que me mimavam e pais que eu adorava. A imagem que guardo desse parto simbólico é a dos meus pais abraçados, minha mãe com lágrimas nos olhos e minhas irmãs acenando em frente à nossa casa, cada vez menor, à medida que o carro se afastava.

Eu tinha doze anos de idade.


***


Enquanto eu estudava como um louco José Armindo se divertia. Nunca levou muito a sério aquela coisa de colégio em Recife e eu o ajudava no que podia para que não fosse reprovado. O resto ele resolvia com seu jeito de convencer quem quer que fosse do que quer que seja, até mesmo os professores, e com alguma sorte para colar nas provas e não ser pego.

Minha madrinha, poucos meses depois, voltou para Barreiros do Norte. Não aguentou o tranco da vida na cidade grande, as ruas barulhentas, e muito menos o ritmo frenético da campanha de meu “dindo” à deputado estadual. A casa vivia cheia de gente que minha madrinha tratava como visitas servindo bolinhos e sucos, independente do visitante estar ali para tratar da eleição, entregar um envelope ou consertar um cano. Quando foi contratada uma empregada que assumiu a casa, minha madrinha não teve mais o que fazer. Passava os dias em seu quarto, com saudade de Barreiros e apesar de eu sentir pena, também não tinha tempo para ela. Um belo dia ela se foi, e não a vi mais. Nem quando morreu, alguns poucos anos depois, pude ir ao seu enterro. Foi tudo muito rápido, ela morreu dormindo, e eu estava no Rio de Janeiro. Tinha voado de avião, pela primeira vez para cursar direito na Universidade Estadual do Rio. José Armindo foi para o enterro da mãe e voltou no dia seguinte à missa de sétimo dia com a cara abatida, parecendo mais velho. Discutiu com o pai, que tinha sido eleito deputado federal e agora morava em Brasilia, e que não se deu ao trabalho de ir se despedir da mulher alegando compromissos inadiáveis.


***


Os anos de faculdade passaram rápido. Meu padrinho acompanhava meu progresso muito mais de perto que o do próprio filho. Só muito mais tarde entendi que, já naquela época, ele me via como uma peça sendo preparada para ser usada no seu jogo de poder. Ele investiu. Me formei em direito e, por sua indicação, fui contratado por um grande escritório de Brasília. Dei meu sangue e aprendi muito, tanto no que diz respeito à aplicação das leis quanto aos meandros das relações institucionais e políticas com as quais convivia no meu dia a dia, e nas quais navegava de vento em popa meu padrinho, então eleito senador por Pernambuco depois de exercer dois mandatos de deputado federal. José Armindo seguia os passos do pai com o mesmo brilho e foi eleito deputado estadual no mesmo ano em que me foi oferecido fazer um LL. M., curso de pós-graduação em direito, numa das melhores universidades americanas. Passei cinco anos fora do Brasil, o primeiro imerso nos estudos, os quatro seguintes trabalhando com direito societário internacional, num bom escritório de advocacia em Washington. 

Tirando minha infância em Barreiros, foram os anos mais felizes da minha vida.

Até o dia em que recebi um telefonema do meu padrinho que queria conversar comigo. Era o começo da cobrança pelo investimento feito em mim. Estava na hora de voltar ao Brasil como peça burilada e pronta para ser encaixada no jogo do poder do qual, a essa altura, José Armindo já participava.


***


José Armindo se formou engenheiro, mas nunca exerceu a profissão. Sua carreira na política foi meteórica alavancada pelo pai senador - quatro anos como deputado estadual e outros quatro como deputado federal. Quando se preparava para concorrer a um segundo mandato, foi indicado pelo partido governista ao cargo de presidente da EEJ - Empresa Eólica Jurupás - uma recém-criada empresa estatal geradora de energia renovável, filiada ao Ministério das Minas e Energia.

Nosso afastamento geográfico nos impôs um certo distanciamento que logo foi quebrado pela forma como José Armindo me recebeu em sua casa no dia seguinte à minha volta ao Brasil. Estava casado com Beatriz, filha e neta de políticos, e tinha dois filhos, prováveis futuros políticos, honrando a tradição familiar. Duas crianças adoráveis que me beijaram e me chamaram de tio Benedito assim que as conheci. Jantamos juntos, em família, e me senti em casa. Depois do jantar Beatriz se despediu e nos deixou sozinhos. Estava tudo ensaiado. Naquela mesma noite fui convidado por José Armindo para trabalhar na EEJ e entrar com pompa e circunstância no olho de um furacão que varreu tudo que eu tinha de melhor: seriedade, honestidade e honradez. E, como fui colocado precisamente em seu olho, demorei a me dar conta da magnitude do furacão.


***


Através de Beatriz conheci Priscila por quem me apaixonei. Eu tinha tido algumas poucas namoradas, que conto nos dedos das mãos. A última, com quem vivi por um ano inteiro em Washington, não quis me acompanhar quando vim chamado de volta ao Brasil, e sua recusa não me surpreendeu e nem doeu pois ela era editora-chefe de uma revista de moda importante e não abriria mão de sua carreira para se mudar com o namorado para um país distante. Voltei livre e, assim que conheci Priscila, me joguei em seus braços de bailarina, já que ela dava aulas de balé para crianças numa academia de dança. Priscila foi uma das poucas pessoas que encontrei vivendo na capital alheia a tudo que dizia respeito à política. 

Foi intensa e imediata a minha paixão por ela. Nos dávamos igualmente bem na cama e fora dela, e partilhávamos o prazer da companhia um do outro. Priscila tinha um corpo escultural esculpido por anos de balé, e um humor inteligente e ferino que me fazia rir dos seus comentários sobre as pessoas com quem convivíamos. Achava as festas do planalto uma chatice, mas me acompanhava de bom grado sabendo que elas faziam parte integrante da minha vida como braço direito do presidente de uma estatal de energia. 

Três anos depois nos casamos e assisti à cerimônia como mero espectador de um filme que se desenrolava numa tela gigante, sem acreditar que estivesse realmente acontecendo. Entrei na igreja com minha mãe, que se arrastava sob o peso da situação, passei por minhas três irmãs, deslumbradas e desconfortáveis em seus vestidos elegantes, e troquei olhares com meu pai, orgulhoso do filho que ele esperou pacientemente por anos enquanto sua mulher paria meninas. No altar, ofuscando até mesmo minha linda noiva, estavam meu “dindo”, Senador da República, José Armindo, meu melhor amigo ao lado de Beatriz, dois deputados federais e os muitos outros padrinhos. Troquei juras e alianças com minha agora mulher e nos dirigimos para a festa bancada por não sei quem, que haviam preparado para a celebração do nosso casamento.


***



Os anos que se seguiram foram confusos, uma alternância de momentos de felicidade no lar e de chateações no trabalho.

Vieram os gêmeos que mudaram a rotina da casa e o corpo da minha mulher sem que eu passasse a gostar menos dela, muito pelo contrário.

Os aborrecimentos no trabalho sucediam-se em forma de operações limítrofes ao que seria esperado de uma empresa minimamente séria e meu dia a dia com José Armindo era um cabo de guerra: de um lado a necessidade constante de caixa para doações às campanhas eleitorais e, de outro, os impedimentos que eu, como articulador e chefe do jurídico, era obrigado a apontar, e que inviabilizavam as operações mirabolantes elaboradas por uma turma de lunáticos que orbitavam a sala do meu amigo e patrão. À medida em que as eleições se aproximavam a pressão crescia. O entra e sai de políticos ou seus emissários me dava a certeza de que havia algo muito além da geração de energia sendo discutido. Fiz vista grossa para tudo que não dizia respeito às consultas feitas formalmente a mim e à minha equipe e fechei os olhos para muita coisa. Tomei ciência, mas ignorei, a formação de um caixa dois que engordava a cada licitação e obra. Me limitei aos pareceres formais, às operações de superfície, sabendo que navegava num mar abjeto e sombrio. Fui conivente sem me envolver e não fui diretamente exposto à podridão até o dia em que José Armindo me chamou para uma conversa em sua casa. 

Era a primeira vez que isso acontecia: um encontro de trabalho em sua casa, e ainda mais no fim de semana. Nossas salas no escritório eram contíguas e nos falávamos várias vezes, todos os dias.

Mal cheguei e ele foi direto ao assunto, olho no olho, sem rodeios:

- Quero saber agora se posso contar com você.

- Sempre pôde, que história é essa?

- Sem m..., sem frescura, de irmão pra irmão. Ou você entra no barco sabendo que não tem santo nenhum a bordo ou não vou mais contar com você. Te chamei pra trabalhar comigo porque você é gênio. Gênio, sacou? E de confiança. Mas tá emperrando o sistema. Ou entra no esquema ou não vai dar pra continuar.

Fui pego de surpresa. Sabia que vivia na lama, na ponta dos pés para não me sujar, e agora estava claro que se eu quisesse continuar no cargo era hora de descer do salto. Do pedestal. Sujar as vestes da virgem vestal. E o Armindo me puxando para baixo.

- Benedito, olha pra trás. Vê bem aonde a gente chegou. E podemos ir muito mais além. Todo mundo luta pra estar onde estamos. E eu te trouxe comigo. Meu parceiro, meu irmão. Mas agora eu preciso saber: tá comigo ou não tá? Coisa grande. Tá ou não?

E ele me explicou tudo.

A Eólica Jurupás ia investir pesado para eleger o candidato do partido do governo a Presidente da República. Fazer caixa, muito caixa dois, grana preta. Plantar postes para gerar energia eólica por todo esse Brasil, até onde não tinha vento e nem linhas de transmissão. Depois, plantar postes também fora do país. Não faltava governo interessado em infraestrutura superfaturada. Os caminhos já estavam abertos por outras empresas, cabia à gente seguir a mesma estrada. No novo governo Armindo seria nomeado Ministro das Minas e Energia, já estava tudo acertado. Meu padrinho Senador da República garantia.

- E aí Benedito, tá dentro ou não tá?

Estava, claro que estava. Seria uma burrice virar a cara pra sorte. Afinal, eu tinha feito por onde estar ouvindo aquilo tudo. Era o gênio que se esfalfou de estudar e que tinha condições de bolar o esquema para levar o plano adiante. Me levantei. Estendi minha mão.

- Me passa a bola que eu mato no peito e meto pra dentro do gol - e dei uma gargalhada!

Minha mão ficou no ar pois ao invés de um cumprimento recebi um abraço apertado e um beijo na testa que selou nosso pacto de amizade e sociedade no novo projeto que batizamos ali mesmo de "Gol de placa"!

Foi então que meus problemas começaram de verdade.



***



Meu desconforto aumenta. Penso em chamar a comissária e pedir ajuda. Me falta ar, parece que vou sufocar. Desisto de chamá-la e tento me controlar. Penso em Priscila e passo a prestar atenção ao ritmo da minha respiração. Priscila respira lentamente sempre que está nervosa e garante que isso ajuda a acalmar. Mas seus grandes motivos de estresse são as apresentações de seus alunos de ballet, ou quando um dos gêmeos tem febre, ou quando a babá não aparece - nada a ver com a minha situação. Ainda assim eu tento. Não funciona.

Do outro lado do corredor, numa fileira à frente da minha, avisto meu professor da faculdade, advogado respeitado, sócio principal de em grande escritório do Rio. Me afundo ainda mais na poltrona. Em outros tempos teria feito questão de cumprimentá-lo. Tivemos excelente relacionamento aluno-professor e ele chegou a me oferecer um estágio que declinei, mas mantivemos contato. Me pergunto onde eu estaria hoje se tivesse focado em uma carreira num grande e respeitado escritório. Podia ter ficado em Washington, ou ido para qualquer outra cidade dos EUA, para qualquer outra cidade do mundo... Voltar para o Brasil tinha sido meu primeiro grande erro. Voltei por um senso de dever, uma obrigação para com meu padrinho que bancou minha educação sem a qual não teria chegado aonde cheguei. A conta veio inesperada e cara. Nada mais certo do que a frase "não existe almoço grátis". No meu caso, um banquete de finas iguarias regado a champanhe francês.

Olho o relógio, falta pouco para pousar. Vou conseguir. Um passo de cada vez. Desembarcar, entrar num taxi, dirigir-me à minha sala, trabalhar como se nada houvesse de extraordinário e no final do dia - só no final do dia - comparecer à reunião que eu convoquei. José Armindo, João Tostes e eu.

Até lá vou ter que aguentar a ansiedade, o medo de ser descoberto, os grampos no meu peito e colarinho, a caneta com microfone, dois celulares gravando e o chumbo na minha consciência pelo que estou prestes a fazer.



***

- Dr. Cavalcante, o Ministro na linha três pro senhor.

- Pode passar a ligação.

José Armindo queria conversar. Ainda hoje, ele tinha insistido. Depois do expediente, no ministério. Foi marcada a reunião: João Tostes, ele e eu, sinal de que era coisa importante. Avisei em casa que chegaria tarde e me preparei psicologicamente para o que estava por vir.

A barra andava pesada. Faltavam poucos meses para a eleição presidencial e precisávamos a todo custo manter no posto o presidente que tínhamos conseguido eleger quatro anos antes, e que vinha fazendo um mau governo. Um péssimo governo. A ordem era fazer caixa para o partido gastar, nossa chance de obtenção de votos - e garantir que ainda sobrasse algum para a pessoa física. Eu estava envolvido até a raiz dos cabelos num esquema de contas anônimas em paraísos fiscais, cada vez menos anônimas em paraísos que mais pareciam purgatórios. Para piorar, tinha envolvido a Priscila. Abrira contas em seu nome, uma forma de separar o "caixa dois" do "caixa meu". Minha esposa bailarina assinava o que quer que eu colocasse à sua frente numa entrega que beirava a burrice... e eu me aproveitava de sua ingenuidade.

A reunião se estendeu madrugada afora. Caberia a mim montar a operação e equacionar o recebimento do caixa – milhões! - que "sobrariam" da construção de uma série de quinze fazendas eólicas, outorgadas a um consórcio montado entre a Construtora RCA, cujo dono era um tal Senador Ronaldo Correa Andrade, e a fabricante de hélices, postes e aerogeradores francesa MdF - Moteurs de France. A notícia da criação do edital de concorrência tinha saído menos de 48 horas antes e desta participariam a RCA e duas outras empresas para dar credibilidade ao processo. 

José Armindo confirmou o que eu já sabia: estava tudo acertado. O estudo da viabilidade técnica estava pronto, elaborado na casa do ministro do planejamento em poucas horas de trabalho. As fazendas seriam construídas em locais de baixa densidade demográfica e o fato de que seriam incapazes de gerar a energia para um secador de cabelo e um elevador funcionando juntos - que dirá os prometidos 200 megawatts previstos no edital - era o menor dos problemas.

Antes da adesão às novas normas de combate à corrupção na Comunidade Europeia, uma lei na França permitia que até 10% das despesas com vendas de equipamentos no exterior pudessem ser contabilizadas sem explicações. Algumas empresas, depois da revogação da tal lei, haviam desenvolvido um esquema financeiro de repasse de comissões e pagamento de corrupções que, segundo se dizia no mercado, era “à prova de bala”. Caberia a mim, com base neste esquema e invertendo os percentuais, montar uma operação na qual apenas 10% dos gastos teriam explicação. Aumentaríamos as contribuições partidárias para os gastos eleitorais e os 90% destinados às fazendas eólicas seriam “jogados fora”, uma vez que não havia vento suficiente nos locais previstos para a construção das tais fazendas. E o Tostes daria um jeito de espalhar esse percentual por contas em paraísos terrestres.

José Armindo sabia fazer o impossível parecer simples e saímos de lá nos sentindo os donos do mundo com Brasília aos nossos pés. Mas bastou entrar no meu quarto, já de madrugada, e olhar para minha mulher que dormia com a luz acesa, provavelmente exausta de tanto me esperar, para que a euforia fosse substituída por um cansaço extremo que se espalhou pelo meu corpo e me manteve acordado por horas, imerso em preocupação.


***


- Perdemos, porra, perdemos!! Nem com toda grana esse m... conseguiu se reeleger?

Abatimento geral, angústia, preocupação. Apostamos alto demais. De um lado o investimento absurdo numa campanha multimilionária. Do outro, os abutres da imprensa fuçando na podridão e vertendo a conta-gotas as notícias, cada dia uma, sabendo que pequenas doses diárias tem um efeito mais devastador do que o veneno todo de uma vez. O presidente tinha chegado sangrando às urnas e o seu sangue respingara em todos nós. Agora era uma questão de tempo. José Armindo achava que, acabada a eleição e atingido o objetivo da oposição, iam nos deixar em paz. Eu não tinha tanta esperança, mas ainda assim me apegava às suas palavras que ecoavam nos meus ouvidos, toda noite, única maneira de eu conseguir dormir.

Até o dia em que acordei de manhã com a notícia estampada na primeira página do jornal: "João Tostes, conhecido doleiro da capital, preso em operação da Polícia Federal".

João Tostes ficou três meses preso, falou muito e foi liberado. Estava de volta à Brasilia olhado de viés como carne podre. Fiquei surpreso quando José Armindo me chamou para a reunião com o Tostes. Só nós três, ele me garantiu. Depois do expediente, quando todos tivessem ido embora, em sua sala. Nada de se encontrar com o doleiro em lugares públicos, muito menos em sua casa. José Armindo precisava saber o quanto o Tostes tinha falado e o tanto que estávamos envolvidos.


***


Foi a decisão mais difícil que tive que tomar na minha vida. E, também, a mais fácil, já que eu não tinha alternativa. Lá, nesta mesma sala, eu os faria falar. Os faria contar tudo num roteiro de perguntas aparentemente ingênuas que eu tinha acabado de ensaiar de forma exaustiva com o delegado de polícia e com os dois procuradores do Ministério Público Federal, com quem eu acabara de negociar minha delação. A primeira delação premeditada, de alguém que ainda não tinha sido preso, sequer indiciado.

 Peguei um avião, fui até o Rio de Janeiro e negociei com uma frieza que não era minha uma pena menor para mim e a promessa de que deixariam minha mulher de fora da confusão. E eles me garantiram que o fariam, desde que eu os provesse com informações - muitas informações - e provas. Queriam saber tudo sobre a construção das fazendas eólicas; queriam saber tudo sobre o financiamento da campanha do presidente derrotado; queriam saber tudo sobre a Construtora RCA, do Senador Roberto Correa Andrade; queriam detalhes do consórcio com a MdF. Precisavam corroborar a delação do João Tostes e chegar ao ex-ministro José Armindo e ao seu pai, meu padrinho Senador. E eu seria o caminho, a prova de que precisavam. A porta da cadeia do meu amigo de infância e do seu pai, meu benfeitor.


***


Dói tudo. Dentro de mim. Como se eu estivesse sendo virado pelo avesso.

Escuto um estrondo e sinto o avião oscilar. Ouço a voz do piloto, quase histérica, mandando apertarmos os cintos. O avião tem uma turbina em chamas e começa a perder altura. Ouço gritos de desespero, vejo meu antigo professor que olha em volta apavorado e finalmente me vê. Ele me cumprimenta com um aceno, está sorrindo. De um momento para outro tudo se normaliza. Desperto do meu delírio, retribuo o cumprimento, ouço a voz do comandante comunicando o pouso próximo.

O avião não está caindo. Não tive essa sorte. Quem está caindo sou eu.




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