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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: JOÃO V. S. GABRIEL




SOBRE O AUTOR


Nascido em 1997, João V. S. Gabriel mora em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Formado em engenharia pela USP de São Carlos, atua como professor na rede pública e concilia a rotina frenética em sala de aula com a silenciosa arte da escrita. Inspirado pelas grandes revoluções, desistiu de escrever histórias em que os reis são os grandes heróis e passou a dar o merecido protagonismo à classe trabalhadora. Em 2022, publicou o conto “O padre e o Cramunhão” no livro “Fractais: antologia de novos escritores” e, com ele, foi semifinalista da 1ª edição do Prêmio Prata da Casa, da Casa Brasileira de Livros, em 2024.


Você pode encontrá-lo no Instagram: @joaovsgabriel


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Para adquirir a versão digital da antologia "Fractais", acesse: https://www.amazon.com.br/Fractais-antologia-escritores-Jorge-Marques-ebook/dp/B0B55HGP91



O CONTO SEMIFINALISTA


O padre e o Cramunhão


De manhãzinha, Padre Mariano foi aguar as plantinhas do jardim da igreja de São Tibério quando notou que seu vistoso mandacaru tinha fulorado na noite anterior. A flor do mandacaru é tão tímida que só se abre durante a noite, quando não tem ninguém olhando, e amanhece murchinha, toda avergonhada com os raios do sol. Era uma pena o padre não ter estado presente para ver aquela cena tão abençoada, mas tinha sido por uma boa causa — ele servia sopa para os irmãos necessitados e, quando se deu conta, já era tarde da noite. Exausto, acabou indo direto para cama.

O fato de morar em uma casinha nos fundos da igreja ilustrava perfeitamente quem era Mariano, com toda a sua humildade e devoção. Depois da sua volta pelo jardim, ele voltou para dentro e começou a sua leitura bíblica matinal, até que, por volta das nove da manhã, foi interrompido pela inesperada chegada de Cabo Silvério.

Bença, padre — cumprimentou ele, todo esbaforido.

Que Deus te abençoe, meu filho! O que foi que aconteceu? Parece até que você viu uma assombração.

Então, recebemos um telefonema do quartel de Santa Virgínia. O Sargento Jardel precisava muito falar com o senhor, mas não conseguiu te encontrar por telefone.

Perdão, meu filho, é que eu não sei mexer nessas coisas de telefone não. Pedi até pra Mariazinha dar um jeito dele parar de fazer aquela barulheira. Essas crianças de hoje em dia são tão espertas! Mas o que é que o sargento tinha  de tão urgente pra falar comigo?

Silvério hesitou. Ele parecia estar com medo de dizer alguma heresia na casa do Senhor.

O senhor conhece o bandido conhecido como Cramunhão?

Conheço sim — o padre respondeu na maior tranquilidade, como se o cangaceiro mais temido da região fosse que nem o seu Antônio da padaria ou dona Oracilda da banca de jornal.

Pelo que o sargento me disse, o exército pegou ele numa emboscada…

E como é que ele tá?

Ele parecia bem tenso no telefone…

Não o sargento, perguntei do menino… do bandido.

É aí que tá o problema, padre. O coisa-ruim é ardiloso e conseguiu escapar. Pelo que me disseram, ele tomou uns dois tiros e viu que não ia conseguir fugir pra muito longe, então mudou de ideia e foi até a prefeitura, invadiu o prédio com os jagunços do seu bando e fizeram o prefeito de refém!

Misericórdia!

E agora vem a parte mais esquisita da história. Quando o sargento tentou negociar o resgate, Cramunhão disse que não vai ter acordo nenhum sem a presença do senhor, padre.

Mariano mordeu o lábio, sem saber como reagir. O praça continuou:

E agora eles tão lá, com o exército cercando a prefeitura, mas sem poder entrar, senão os cabras matam o prefeito. Ninguém entendeu direito essa condição que o Cramunhão impôs, mas o sargento pediu pra chamar o senhor pra ir até Santa Virgínia ver se consegue convencer o diabo a libertar o homem!

O padre suspirou, tentando digerir aquelas informações.

Olha, padre, eu entendo se o senhor não quiser ir…

Eu vou sim, pode deixar.

Tem certeza? Vai ser perigoso…

Deus vai me proteger. Não precisa se preocupar.

Amém — fez o sinal da cruz. — E pode deixar que o exército vai providenciar uma passagem pro senhor pegar o trem das dez.

Combinado. Dez horas estarei lá na estação.

Cabo Silvério fez uma reverência, virou as costas e voltou correndo pro quartel. Depois que ele virou a esquina, o padre fez um sinal a uma criança que se escondia atrás de um pilar.

É feio ouvir a conversa dos outros, Mariazinha.

Perdão, padim. Vim trazer o seu chá e acabei ouvindo… sem querer.

Mentir também é feio, menina — deu-lhe uma piscadela e a garota soltou um risinho.

Mariazinha era uma criança gentil, tímida e muito curiosa. Tinha sido acolhida pelo Padre Mariano ainda bebezinha, logo depois que sua mãe morreu, dez anos antes. A partir de então, ele cuidou dela como se fosse sua filha, e com o passar do tempo, ela começou a cuidar dele também, uma vez que a saúde do velho Mariano ficava mais frágil a cada dia.

O senhor conhece mesmo o Cramunhão? — perguntou a menina, enquanto o padre se arrumava para a viagem.

Conheço.

E como é que ele é?

É um homem normal, que nem os outros.

Não é o que dizem por aí.

É mesmo? E dizem o quê?

Dizem que ele é um cabra sem coração, filho do Sete-pele. Ouvi falar que ele já matou mais de mil, e que depois que mata as crianças, ele corta fora as orelhas delas pra fazer coleção.

Essa gente inventa cada coisa… Isso aí é história pra assustar as crianças que ficam xeretando nas conversas dos adultos — deu um puxãozinho de leve em uma das orelhas da menina.

E como é que o senhor conheceu um bandido desse, padre? E por que ele quer falar com o senhor?

Longa história, minha filha. Não vai dar tempo de contar, senão vou perder o trem.

Posso ir junto?

De jeito nenhum.

Por quê?

Alguém precisa ficar aqui pra cuidar da igreja, não acha?

Mariazinha fechou a cara. Ela raramente saía de casa, a não ser para ir ao mercado ou para acompanhar o padre nas entregas de doações. Ultimamente, o beato dedicava toda a vitalidade que ainda lhe restava aos seus projetos sociais e quase nunca tinha tempo para a menina que, por sua vez, sonhava com o dia em que ele tirasse umas férias e a levasse à praia. Morria de vontade de conhecer o mar e finalmente descobrir se a água de lá era mesmo salgada, mas Padre Mariano sempre dizia que a fome dos irmãos que moravam na rua nunca tirava férias.

Vamos fazer assim: você fica aqui e, se você se comportar, eu te levo pra dar umas voltas naquele carrossel da praça quando eu voltar. Combinado?

Mas e se o senhor não voltar?

É claro que eu vou voltar.

Aquele moço disse que a viagem vai ser perigosa.

Com o intuito de confortar a menina, o padre se ajoelhou para que os seus olhos ficassem no mesmo nível dos dela e, com serenidade, disse:

Eu vou ficar bem — deu-lhe um beijo na testa — não precisa se preocupar.

Com os olhos rasos d’água, Mariazinha se jogou nos braços de Mariano, que finalmente se permitiu derramar uma lágrima. Nada melhor que um abraço bem apertado para aliviar o aperto que ele sentia em seu velho coração.

Boa viagem.

Fica com Deus. E não esquece de fechar todas as janelas — deu uma última olhada no mandacaru que tinha fulorado na noite anterior. — Tá vindo uma chuva daquelas.


***


Padre Mariano embarcou no trem às dez horas em ponto. Sentou-se no fundo de um vagão quase vazio e passou a viagem toda com os olhos grudados na janela. Ao longe, ele via a aproximação de um aglomerado de nuvens escuras; o anúncio de que, muito em breve, uma forte chuva se derramaria sobre o sertão. Enquanto contemplava a vista por detrás do vidro embaçado, ele se lembrou de uma noite em que também chovia e um menino encharcado bateu na porta da igreja procurando por abrigo. Menino esse que passaria a ser sua única companhia nos tempos mais difíceis de sua vida; que o ajudaria a cuidar do jardim e encontraria nesse ofício uma vocação; que cresceria com um sorriso no rosto e com a cabeça nas nuvens; que se apaixonaria por uma moça de boa prosa e com ela se casaria no verão.

Teria esse mesmo menino se tornado realmente aquele monstro que os jornais tanto denunciavam?

Mariano se recusava a acreditar.


***


O trem chegou na estação de Santa Virgínia antes do meio-dia. O padre desembarcou e foi escoltado até a prefeitura, onde uma enorme multidão o aguardava. O pelotão liderado pelo Sargento Jardel havia cercado o local a fim de evitar qualquer tentativa de fuga de Cramunhão e seu bando, mas não conseguiram barrar a aproximação dos civis que se aglomeravam às centenas  em torno do prédio.

A chegada do padre causou grande rebuliço na multidão. Os soldados que o escoltavam abriram caminho e, enquanto ele passava, as pessoas acenavam e aplaudiam. Mariano era, sem dúvida, a figura religiosa mais importante da região, contudo, mesmo acostumado a atrair centenas de fiéis para a missa de Páscoa em São Tibério, ele nunca havia sido aclamado com tanto entusiasmo. Um pouco acanhado, ele acenava de volta para as pessoas, atento ao que elas desesperadamente tentavam lhe dizer.

Padre, é verdade que o senhor é amigo do Cramunhão?

Padre, por favor, não deixe que matem Cramunhão!

Que Deus abençõe Cramunhão e Padre Mariano!

Em nenhum momento, houve menção ao prefeito. Por que o povo se preocupava tanto com a segurança de um cangaceiro e tão pouco com a vida de seu governante? Acostumado com a realidade dos que passavam fome, Mariano  conhecia bem os motivos.

Finalmente, hein? — disse o Sargento Jardel ao cumprimentar o padre.

Pensei que ia ficar o dia todo plantado aqui esperando.

Perdão, sargento. É difícil para um velhinho como eu encarar uma viagem dessas.

Mariano conhecia bem o sargento e não o julgou por sua abordagem rude, pois ele parecia completamente exausto. Provavelmente não dormia direito há dias. Jardel era um militar afamado no interior que, ao embarcar naquela caçada, tomou-a como a razão de sua existência. Pelo que o padre ouvira dizer, a caça ao Cramunhão havia se tornado o esporte favorito do exército, que passou a usar o combate ao terror como justificativa para invadir residências, torturar opositores e prender qualquer um que tivesse sido acusado de ajudar o cangaceiro. Mesmo depois de consecutivas derrotas, o cão do exército permanecia implacável no encalço de seu inimigo, sentindo o cheiro da medalha de honra e do passaporte para a fama cada vez mais próximos de suas narinas.

O sargento se dirigiu à escadaria do prédio e anunciou a chegada de Mariano. O portão se abriu.

Mande ele entrar — exclamou um dos cangaceiros, fora de suas vistas.

Porém, quando o padre deu um passo à frente, foi impedido de continuar por Jardel, que segurou o seu braço.

O que pensa que tá fazendo?

Eu vou entrar.

Ficou maluco? Vai acabar virando outro refém!

Sargento, o senhor me chamou aqui para negociar com o cangaceiro e cá estou eu.

Ele que venha aqui fora e negocie!

Com todo respeito, sargento, mas não acho que a gente não tá em posição de exigir muita coisa. A vida do prefeito tá em risco. O que acha que o governador faria se descobrisse que seu partidário acabou morto durante uma operação do exército?

Isso é um absurdo!

Não tem outro jeito, sargento. O senhor sabe que Cramunhão não  hesitará em matar o prefeito se a gente não colaborar.

Você tá caindo no jogo dele, padre.

Não, sargento, é ele quem tá caindo no jogo de Deus.


***


Dentro do prédio, Mariano se deparou com um cenário de terra arrasada. Além do prefeito, havia pelo menos mais uma dúzia de reféns os quais sequer tinham sido mencionados até então. O mais curioso era que os mesmos sentimentos de medo e desesperança que estampavam os rostos dos reféns pareciam habitar também no coração dos próprios cangaceiros, que por detrás das ameaças, das armas e da agressividade, escondiam a terrível sensação de que não sairiam dali com vida.

Cramunhão veio de encontro ao padre e, sem esboçar nenhuma reação, o chamou para uma conversa particular em uma salinha afastada. Mariano o reconheceu imediatamente, mas era inegável o quanto ele havia mudado desde a última vez em que os dois se viram, dez anos antes, em uma noite de verão. Uma cerimônia simples e sigilosa fora armada para unir um casal apaixonado que vivia um amor proibido. Ela, a filha do Coronel; ele, um mero jardineiro. E o que parecia ser o epílogo de um conto de fadas, tornou-se o primeiro ato de um trágico cordel, quando o pai da noiva e seus jagunços invadiram a igreja atrás da cabeça do cabra que desvirtuara a pobre donzela. Mariano jamais se esqueceria do último ato de bravura da moça ao se atirar na frente do noivo e parar, com seu próprio coração, a bala que estava destinada ao dele.

Depois que o rapaz saiu correndo atrás do Coronel, que fugira depois de ter atingido a própria filha por engano, o padre nunca mais o viu. Dez anos depois, lá estava ele, bem na sua frente. O tempo o atropelara feito uma locomotiva; já não era mais aquele menino alegre que conhecera, tornara-se um homem calejado por uma vida sofrida e violenta, movido pelo ódio e pela vingança. Contudo, mesmo cansado e ferido, ele ainda carregava uma altivez notória, digna das lendas sobre o seu nome. Se é diante da morte que os grandes líderes realizam os seus feitos mais notáveis, o cangaceiro parecia determinado a escrever, naquele dia, um capítulo final memorável para a sua história.

Quando os dois finalmente ficaram a sós, longe dos olhares curiosos, Mariano sentiu que já não estava mais diante do herói dos cordéis e nem do vilão dos jornais, mas sim de um bom e velho amigo. Depois de fechar a porta

atrás de si, deixando o mundo todo do lado de fora, Cramunhão já não era mais Cramunhão.

Eu sempre soube que nos veríamos de novo, Valdemiro — disse o padre, evocando o nome de batismo do cangaceiro.

Faz tanto tempo que ninguém me chama por esse nome, que eu quase me esqueci dele.

Mas eu não. Passei todo esse tempo esperando você voltar pra casa.

Não tem mais volta pra mim, padim. Foi o que eu te disse naquele dia.

Disse que ia atrás de vingança. Que ia fazer o Coronel pagar pelo que tinha feito. E, no fim, ele pagou. Deu em todos os jornais que o homem tinha sido assassinado por um terrível criminoso. Logo imaginei que fosse você.

Eu não deixaria aquele lazarento morrer pelas mãos de outro.

E a vingança lhe trouxe o quê, meu filho? Se, depois dela, nem voltar pra casa você voltou.

Eu voltei pra ver o túmulo dela. E também o da menina que ela carregava… Mas eu não podia ficar.

Podia ter dado notícias, pelo menos. Procurei pelo seu nome nos jornais todos os dias, na esperança de que ainda estivesse vivo. Eu tinha tanta coisa pra te contar…

Eu não tive coragem de procurar o senhor, padim.

Então por que me chamou aqui hoje?

Eu caí numa arapuca e não tenho pra onde correr. Chamar pelo senhor foi o único jeito de ganhar algum tempo pra poder pensar.

E no que você pensou?

Que não tem saída, é o meu fim. Agora só me resta enfrentar a morte de frente — o cangaceiro se aproximou e tocou na mão do padre. — Só que antes, queria aproveitar que o senhor veio até aqui pra te pedir desculpas por não ter voltado pra casa. Queria que o senhor me desse uma última bênção, pra que eu possa morrer em paz.

O quê? Então esse é o plano? Rezar pra que Deus perdoe todos os seus pecados, pra depois sair lá fora e atirar que nem um doido até que uma bala te acerte?

Vou fazer o quê, padim? Não tem jeito d’eu sair vivo daqui.

Você pode se entregar. Vão te prender, mas você fica vivo.

E aí vão me matar na primeira oportunidade.

Não sem um julgamento. Eu não vou deixar que te executem. Você sabe da influência que eu tenho.

Prefiro morrer lutando.

Deixa de ser cabeça dura, homem! Lá fora tem uma multidão enorme  torcendo pra que eu te tire vivo daqui. Você é o herói daquela gente!

Eu não vou ser herói de ninguém se eu me entregar.

E vai ser o que, se cair morto na frente de todo mundo?

Lenda

Mariano suspirou.

E os seus amigos? Simplesmente vão pra cova de mãos dadas com você?

Eles escolheram que fosse assim, quando decidiram lutar ao meu lado.

E tudo bem pra você que eles morram por causa de um erro seu? 

O cangaceiro estremeceu. 

Pelo que me disseram, o seu bando teve que invadir a prefeitura porque você tava ferido demais pra fugir da cidade. E, no fim, todo mundo vai morrer porque você não foi forte o bastante.

Valdemiro desviou o olhar. Já não conseguia mais encarar o padre.

Há dez anos, padim, o senhor disse que a busca por vingança iria arrasar não só a minha vida, como a de todas as pessoas que estivessem ao meu redor. E foi justamente por isso que eu quis ficar o mais longe possível de casa. Tentei viver sozinho nesse sertão, pra que a maldição que eu carrego não caísse sobre mais ninguém. Mas eu não consegui.

Todos nós temos uma cruz pra carregar, meu filho. Não se sinta amaldiçoado por causa da sua.

O cangaceiro ficou em silêncio. Mariano continuou.

E se tivesse um jeito de salvá-los? E se tivesse outro jeito de você se tornar uma lenda? E se, ao invés de ir lá fora e morrer lutando, você pudesse, em um último ato de bravura, se redimir de todos os seus pecados diante de Deus e ainda resgatar a alma de seus companheiros?

Completamente atônito, Valdemiro caiu de joelhos aos pés do padre.

Como eu posso salvá-los, meu padim?

Mariano se inclinou, com o olhar cheio de ternura, e beijou a testa do menino.

Deus tem um plano pra você, meu filho. Chegou a hora de botar ele  em prática.


***

Ele vai se entregar — anunciou o padre ao sargento, depois de voltar  da prefeitura.

O quê? E por que ele faria isso?

Ele tem uma condição.

Ele tá brincando com a gente!

Vim aqui pra negociar com ele, e foi o que eu fiz. Ele disse que vai libertar os reféns e depois se entregar. Em troca, ele quer a liberdade de seus parceiros. Eu vou levá-los até a igreja de São Tibério e eles serão submetidos a trabalhos voluntários sob a minha supervisão.

E por que ele acha que eu vou deixar esse bando de marginais ficar solto?

Porque eu tô aqui pra garantir que caso o acordo seja selado, o senhor cumprirá a 

sua parte.

De que lado você tá, padre?

Do lado da verdade. Se o acordo for feito, eu farei de tudo pra que seja cumprido honestamente. Imagino que o senhor queira se mostrar um homem de palavra diante dos olhos de toda essa gente e, ainda por cima, diante dos olhos de Deus.

Me recuso a aceitar esses termos.

Sargento, é a única forma de libertar os reféns. E, no fim, o senhor terá o que tanto quer, Cramunhão como o seu prisioneiro. É isso o que importa, não  é verdade?

Mas…

Imagina só! A captura de um bandido desse vai abrir as portas que o senhor tanto sonhou e que trabalhou duro pra conquistar. Vai mesmo deixar que a liberdade de uma dúzia de marmanjos te impeça de chegar no patamar que o senhor merece?


***


Começou a chuviscar quando os reféns começaram a ser liberados. A multidão acompanhava com apreensão, pois já circulavam rumores a respeito do acordo firmado com Cramunhão e ninguém tinha certeza de quais tinham sido os termos discutidos. O prefeito foi a última vítima a sair do prédio, acompanhado por Mariano, que foi, mais uma vez, ovacionado pela população. Ao perceber a popularidade do padre, o político não perdeu a oportunidade de saudá-lo na frente de todos, condecorando-o como o grande herói do dia e tentando pegar carona nos aplausos.

Assim que encontrou uma brecha, Mariano deixou o oportunista falando sozinho, tomou emprestada uma algema do sargento e voltou para dentro do prédio. Agora a grande questão era se Cramunhão iria realmente se entregar. Alguns achavam que sim e muitos torciam para que não. Incomodado com a demora do cangaceiro para se render, Jardel se segurava para não ordenar uma invasão ao prédio, uma vez que ainda havia o risco de, dessa vez, o próprio padre ser tomado como refém.

O prefeito foi levado até o sargento, que se mostrou exageradamente preocupado com sua integridade física e ficou aliviado ao constatar que ele não havia sofrido nenhum ferimento. Crente que seria parabenizado pelo político, Jardel foi pego de surpresa ao ser duramente repreendido por ele na frente de todo mundo. No fim, a culpa da situação ter saído do controle e resultado na invasão da prefeitura cairia sobre as suas costas, e todo o crédito pela captura do cangaceiro mais temido da região ficaria nas mãos de um velhinho que nem sabia usar uma arma. Humilhado, ele se afastou do prefeito, incapaz de aceitar que todas aquelas noites maldormidas de perseguição tinham sido em vão.

A chuva apertou, mas, enquanto Cramunhão não desse as caras, ninguém arredaria o pé. Não se sabe com exatidão quanto tempo demorou para que ele saísse do prédio, pois não houve quem ousasse desviar o olhar para conferir o relógio, tamanha era a apreensão. O fato é que o cangaceiro acabou se entregando, em silêncio e de cabeça erguida. Era o fim de uma era.

Algemado e acompanhado de perto pelo padre, o homem descia a escadaria da prefeitura, enquanto a população testemunhava a cena, paralisada. Quando ele desceu o último degrau, começaram a pipocar alguns aplausos, a princípio abafados pelo barulho da chuva, mas que logo foram tomando mais e mais força. De repente, a cidade toda parecia estar aplaudindo.

Mesmo aqueles que haviam torcido para que seu herói não se entregasse, no fim, ficaram sabendo do acordo que tinha sido firmado e compreenderam a sua nobre decisão de se sacrificar pelos seus companheiros. O plano de Mariano estava dando certo, afinal. Todos os reféns haviam sido liberados com vida, e os companheiros de Cramunhão teriam uma oportunidade de recomeçar, enquanto seu líder entraria para a história sem precisar dar mais nenhum tiro. Não seria um final trágico, tampouco feliz, mas seria digno de toda a grandeza daquela história, entretanto, por mais que a perspectiva desse desfecho agridoce pudesse ter, ao menos, tranquilizado o coração do padre, ainda havia um detalhe que ele tinha deixado escapar.

A chuva e os aplausos da multidão eufórica esconderam a aproximação sorrateira de uma figura que todos já julgavam ser uma carta fora do baralho, mas que também entraria para a história naquele dia.

O Sargento Jardel, com seu fuzil em mãos, já não tinha mais nada a perder.


Bang!


E como num trágico cordel, a triste história se repetiu. A bala que estava destinada a Valdemiro mais uma vez atingiu o coração de outra pessoa.

Ainda algemado, o cangaceiro não conseguiu tomar o padre em seus braços para impedir que ele desabasse no chão.

De uma hora para a outra, o mundo pareceu virar de cabeça para baixo. O bando do Cramunhão agiu imediatamente, disparando contra os militares e correndo para socorrer Mariano e libertar seu líder das algemas. A multidão, revoltada com a traição de Jardel, invadiu a área de isolamento que cercava a prefeitura e partiu para cima do sargento. O povo queria a sua cabeça a todo custo, mesmo que tivesse que arrancá-la com as mãos nuas.

No meio da confusão generalizada, Cramunhão conseguiu voltar para dentro da prefeitura, carregando Mariano em seus braços. Deitou-o sobre uma mesa e avaliou o ferimento. Era mortal.

Valdemiro… — chamou o padre.

O senhor vai ficar bem, padim. Aguenta firme.

Não… chegou a hora d’eu ir pra junto de Deus. Cramunhão rangeu os dentes.

Aquele lazarento do Jardel vai pagar pelo que fez com o senhor!

Não, menino… chega dessa coisa de vingança — tossiu. — Tem uma coisa que você precisa saber… alguém que precisa de você… eu não vou tar mais aqui pra cuidar dela.

Cuidar de quem?

Mariazinha… sua filha.

O quê?

Sim… Mariazinha ainda tá viva.

Mas, o túmulo…

Vazio… foi tudo pra proteger a menina.

Onde ela tá?

Na igreja… vai atrás dela… aproveite o furdunço lá fora e fuja.

Eu não posso, padim…

Deixa de besteira, homem! A vida é curta… se você não tiver lá quando a flor do mandacaru desabrochar… no dia seguinte já vai ser tarde demais.

Como vou ter coragem de olhar pra menina depois de ter abandonado ela e virado esse… monstro?

Com a mão trêmula, Mariano tocou em seu rosto e simplesmente disse:

Que Deus te abençõe, Valdemiro… meu filho.

Valdemiro fechou os olhos, respirou fundo, e assentiu. Havia tomado a decisão mais importante de sua vida.

Mariano sorriu.

Pela última vez.

Isso… vá lá e leve ela… pra andar no carrossel…

E, assim, chegava ao fim aquele trágico cordel. O homem que virou santo teve o seu merecido descanso e o diabo que voltou a ser homem chorou pela primeira vez em dez anos. Mesmo depois de tanto tempo de seca, a chuva finalmente chegou ao sertão dos seus olhos.





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