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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: LUCAS PEREIRA RODRIGUES


SOBRE O AUTOR


Nascido e criado em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Lucas é graduado em História e possui Mestrado na área, com foco em História Medieval. Atualmente, atua como professor da educação básica. Desde sempre fascinado por terror, possui um canal no YouTube e no TikTok onde fala sobre cinema de horror. Sua obra, enquanto escritor de ficção, transita por diversos subgêneros, abordando temas que vão do terror cósmico e sobrenatural ao horror visceral, físico ou psicológico, escondido nos recantos sombrios da alma humana, sem limites ou restrições ao retratar brutalidade e violência. Além disso, está em processo de escrita de uma saga de Dark Fantasy, com inspiração histórica na Idade Média.



O CONTO SEMIFINALISTA


Além do Véu da Realidade


Já faz uns bons anos que todos os dias me parecem iguais. Há um fluxo contínuo, cíclico, no qual minha consciência perambula sem nunca de sua correnteza se desenvencilhar, quase como ondas a quebrar infinitamente sobre si mesmas em alguma praia esquecida por qualquer coisa que se possa chamar de Deus; ondas sempre iguais, réplicas umas das outras, imutáveis, surgindo e desaparecendo no leito oceânico do qual vieram e para o qual inevitavelmente retornam. Hora após hora, dia após dia, minha vida surge e se esvai em si mesma, em pensamentos vagos e efêmeros que, como as ondas e como os dias, também se repetem em si próprios.

Talvez esse seja o melhor modo de explicar o estado no qual minha mente se encontra, como comentei, já há algum tempo. Certamente parte da culpa é dos remédios que fazem-me tomar aqui; analgésicos para as dores fortes, ansiolíticos para as crises de ansiedade, calmantes para dormir e antidepressivos para manter longe a vontade de me matar, e todos eles me mantém sedado dia após dia, ano após ano, enquanto no mundo lá fora qualquer memória de minha existência se esvai das mentes sãs daqueles que um dia me conheceram. E eu vou morrendo aqui, aos poucos, no mar de minha própria loucura. Esta, de fato, carrega o resto da culpa, pois os ditos pensamentos que mencionei são dela fruto, e teimam em gritar dentro da minha cabeça quando o efeito dos remédios passa por uma ou duas horas, para então serem por eles enterrados novamente, antes de surgirem de novo no dia seguinte. Eles vai e vêm como as ondas, e novamente vejo-me à eles retornando, lembrando-me de coisas que infelizmente não consigo esquecer.

Lembranças são uma coisa poderosa. Sinto que escrever sobre elas talvez ajude a reduzir seus efeitos cada vez mais destrutivos, em relação a minha sanidade, da qual temo pouco restar. Vago por elas dia após dia, e busco em meio às mesmas a raiz de tudo isso. Será que foi quando encontrei o baú no porão empoeirado da velha casa de madeira? Ou, talvez, antes, quando meu pai sucumbiu diante da mesma loucura que me aflige, naquela época distante demais para ser qualquer coisa além de uma memória distorcida e enevoada? Ou teria sido depois, quando os pesadelos começaram, quando nem eu, nem minha mãe, nem os médicos e psicólogos podiam explicá-los? Mais tarde, quando adulto, quando a loucura realmente começou a germinar entre as fibras de meu cérebro, disseram-me que era genético, e sugeriram nomes que explicassem minha situação: esquizofrenia foi o que consideraram mais apropriado, no final das contas, mas eu sei que essa insanidade toda tem raízes bem diferentes, e pelo menos encontro conforto em saber que qualquer um que pusesse as mãos naquele maldito baú teria o mesmo triste destino que eu. Quem, afinal, conseguiria manter a cabeça no lugar após ver o que eu vi, sentir o que eu senti, coisas estas que escapam até mesmo às mentes dos mais brilhantes cientistas e estudiosos? Que filosofia ou religião seria capaz de explicar o que absorvi com meus próprios sentidos? Não há espaço na menta sã para tais explicações, e é por isso que a loucura surge como resultado inevitável do conhecimento oculto. Chamem isso de esquizofrenia se quiserem, julguem-me por isso, como o fizeram, e me trancafiem neste inferno que chamam de sanatório, mas estarão para sempre errados, e serão felizes e sãos em sua ignorância.

Dito isso, começo agora a retornar às raízes de todos este problema, e lembro-vos que meu pai, homem culto ao qual não faltavam os recursos que permitiram a mim e minha mãe uma vida de fartura, tirou a própria vida com um tiro de revólver entre as têmporas. Eu tinha dez anos na época, e lembro-me que minha mãe teve dificuldade ao me explicar, entre lágrimas, o significado da palavra “depressão”. Eu sofri do jeito que uma criança sofre ao conhecer a dor da perda, ao senti-la em seu âmago pela primeira vez, embora eu não entendesse direito porque meu pai tinha se matado. É de conhecimento geral, entre a maioria dos que o conheceram, que o dito cujo não era um homem bom, mas pelo menos para mim e para minha mãe, ele sempre forneceu carinho, amor e cuidado, daquele jeito que todo pai deveria oferecer, e por isso senti por anos sua falta. Se os pesadelos tivessem começado naquela época, seria compreensível; mas o fato é que os primeiros me acometeram muito tempo depois, durante meu último ano no ensino médio, e foi por causa deles que não consegui entrar na faculdade: eles me impediam de dormir o tempo necessário e tiravam-me o foco dos estudos, de modo que falhei em todas as provas que fiz. Minha mãe, preocupada, procurou psicólogos, depois psiquiatras, e após um tempo os remédios cumpriram seu papel; logo vi-me livre dos pesadelos e pude finalmente ingressar num curso superior.

Demoro-me aqui um instante para descrever qual era, afinal, o conteúdo destes sonhos. Hoje me pareceriam demasiado distantes para descrevê-los com exatidão, porém ao ver seus reflexos em meus conhecimentos posteriores, voltaram-me à mente de tal forma a serem até hoje nítidos como as letras que surgem diante dos meus olhos conforme escrevo estas palavras. Lembro-me, principalmente e acima de tudo, da névoa ao meu redor e da lama sob meus pés. Diante de mim surgiam formas indistintas, vultos escuros que me gritavam as mais diversas coisas, entre súplicas e ameaças. Nem sempre eu entendia as palavras, mas elas de alguma forma me machucavam fisicamente, cada silaba como uma faca rasgando-me a pele, e eu tentava gritar, mas minha boca não produzia som algum; quando tentava correr, via-me preso na lama, afundando a cada segundo, até estar completamente rodeado por uma escuridão que parecia queimar meu olhos.  

Outras vezes eu via-me flutuando no vazio, sem nada onde me agarrar, sem chão onde pisar, apenas o nada, e do nada surgiam novamente as vozes, primeiro distantes como as estrelas no céu noturno, depois próximas demais, como sussurros em meu ouvido; e então eu via cores e coisas brilhantes, disformes, serpenteando pra lá e pra cá enquanto algo me envolvia, posteriormente dissolvendo-me aos poucos, e novamente o silencio suplantava meus gritos enquanto meu corpo ia sumindo no vácuo.

O padrão era sempre o mesmo: eu via-me consumido por algo hostil e venenoso, sem nada poder fazer, sem defesa ou lugar para correr. Em minha inocência ou ignorância, eu por muito tempo achei que eram só pesadelos, resquícios de uma fase da minha vida que eu felizmente já deixara para trás. Eventualmente parei com os remédios, e mesmo assim os pesadelos não voltaram, de modo vivi normalmente por muito tempo a partir de então. Terminei a faculdade, casei, tive um filho. Pergunto-me hoje o que teria acontecido caso as coisas tivessem sido diferentes, caso eu nunca tivesse colocado as mãos do conteúdo do baú. Teria eu sido pelo resto dos meus dias um bom pai? Um bom marido? Teria eu visto meu filho crescer e me orgulhado dele? Teria minha vida sido tão normal quanto feliz? De nada adianta confabular sobre coisas que poderiam ter sido, disso bem sei; mas nossa mente frequentemente vê-se inclinada a, e muitas vezes não consegue evitar, pensar nestes infinitos “se’s” de nosso passado, presente e futuro, por mais que saibamos que não há o que fazer para tornar realidade aquilo que há muito já deixou de ser possível. 

Penso nisso tudo em meus momentos de lucidez, é claro, quando não estou sedado pelos remédios; nestas ocasiões, entre a turbulência de pensamentos confusos e temores constantes, vêm à minha mente as lembranças destes dias de minha vida que posso seguramente chamar de normais, e que considero os mais felizes dessa miserável existência; e então penso em todos estes “se’s”, em qual teria sido meu destino caso tais dias não tivessem tão precocemente chegado ao fim.

Quando isso ocorreu? O psicólogo do sanatório uma vez me perguntou quando, em que ponto específico de minha vida, as coisas mudaram; em qual momento de minha existência tomei, por vontade própria ou por crueldade do destino, o rumo do fundo do poço. Em minha mente, procurei uma resposta, e talvez seja possível encontrar o fim dos meus dias felizes naquele do falecimento de minha mãe, vítima de um câncer de pulmão ocasionado por anos de tabagismo. 

Lembro-me do velório, ao qual fui acompanhado de minha esposa e meu filho, então com um ou dois anos de idade. Parecia tudo muito irreal, como um sonho dolorido do qual ansiamos por acordar, ainda que muito diferente dos meus pesadelos de outrora. Afundei-me em tristeza, naturalmente, como acontece com qualquer pessoa que testemunhe a morte de um ente querido ou parente próximo, e ainda estava no pior momento do luto quando. alguns dias depois do enterro, recebi uma ligação do advogado de minha mãe. Como filho único, a herança seria toda minha, de modo que precisava dar conta da papelada burocrática necessária ao contexto destes trâmites legais. Eu tinha um apartamento próprio naquele momento de minha vida, e não teria utilidade para a residência que minha mãe deixara, e por isso quis logo pô-la à venda. Tomei essa decisão racionalmente, fazendo certo esforço para não deixar-me levar pelo apreço que tinha pela casa onde cresci, e hoje penso que talvez teria sido melhor ceder ao meu lado emocional. 

Seja como for, tomada a decisão, fui até a residência com um amigo corretor de imóveis, que faria uma avaliação para determinar quanto poderíamos pedir pela casa. Era uma manhã agradável de outono, se bem me lembro. Enquanto o corretor fazia suas medidas e analisava os detalhes da construção, vi-me caminhando pelos cômodos e corredores da velha casa onde eu crescera, olhando para as paredes e para os móveis com um sentimento melancólico de nostalgia apertando-me o peito. Acho que derramei algumas lágrimas naquela manhã.

O fato foi que, em determinado momento, descemos ao porão da casa; não aqueles porões amplos que vemos em filmes, apenas um pequeno aposento de chão batido cheio de tralha embaixo do assoalho, acessível por uma portinhola baixa no quintal. Precisei me abaixar para entrar. O lugar tinha um cheiro fortíssimo de mofo. Meu amigo disse que não seria necessário entrar lá, que já tinha todas as informações que precisava, porém eu queria ver o que tinha no lugar. Em mãos eu tinha meu celular, cuja lanterna usei para iluminar as tantas coisas guardadas lá embaixo: móveis antigos ou quebrados, ferramentas de jardinagem enferrujadas, sucatas de eletrodomésticos velhos, entre tantas outras coisas que já não me lembro, tudo envolto em teias de aranha compridas e camadas grossas de poeira.

E havia, é claro, aquela merda de baú.

Não foi de imediato que a coisa me chamou atenção, pois era para mim, naquele primeiro momento, apenas mais uma tralha em meio a tantas outras; mas hoje lembro-me com clareza daquele dia justamente por ter sido a primeira vez que pus os olhos no negócio, o tal baú sem graça que no meio da poeira e das teias de aranha misturava-se quase que organicamente a todo o resto.

Eventualmente a casa foi vendida, o que significava que precisávamos tirar aquilo tudo do porão. Novamente, pego-me divagando a respeito dos inúteis “se’s” do meu passado: talvez, penso eu, se eu tivesse decidido ficar com o imóvel, ou mesmo me mudado para lá com minha família, eu provavelmente nunca teria dado bola para o baú; ele teria ficado lá embaixo por anos, talvez décadas, até minha morte possivelmente, esquecido, como deveria ter ficado. Por outro lado, talvez tenha sido algo bom tudo o que me sucedeu, pois caso contrário meu filho, ou o filho dele, poderiam ter encontrado o baú e o aberto, como eu fiz, e assim seria a vida deles, e não a minha, que seria arruinada; não desejaria isso para ninguém de minha família, e por isso, apenas por isso, eu talvez fique um pouco feliz de ter passado por tudo o que passei. 

Quase tudo que havia no porão foi jogado fora, naturalmente. Eu tinha contratado trabalhadores para remover da casa as coisas que ficariam comigo, e até hoje amaldiçoo o momento em que olhei para o baú sendo retirado do porão e pedi para que fosse colocado junto com as coisas que eu desejava manter. Foi por pura curiosidade, não por realmente achar que havia algo interessante ou de valor ali, pois não havia nada que indicasse isso; eu quis ver o que tinha no dito baú, e por isso ele foi levado até meu apartamento, junto com uns poucos móveis, utensílios, ferramentas e decorações que minha mãe deixara para mim junto com a casa. Na verdade, no meio de tudo aquilo, acho que o baú foi a última coisa para qual dei atenção, e lembro-me de tê-lo feito em um domingo preguiçoso em minha casa, durante as horas em que o tédio suplantava qualquer outro sentimento, já algumas semanas após tê-lo retirado do porão. Minha esposa e meu filho não estavam em casa, por motivo do qual já não me recordo, e em algum momento da tarde decidi que era hora de abrir o baú.

Tratava-se de um objeto grande de madeira, retangular, de tamanho suficiente para que coubesse lá dentro, encolhida, uma criança já encaminhando-se para a pré-adolescência. Não havia decoração nenhuma, nem beleza de qualquer tipo; era uma coisa simples, chata, sem graça, mas naquele momento, em que decidi finalmente pôr as mãos no negócio, pareceu que algo me chamou; não uma voz, no sentido de ser audível, mas uma espécie de estranha sensação que remete à curiosidade, mas que difere desta última por conter um quê de magnetismo, realmente como um chamado ou súplica. Achei estranho, senti-me estranho, e diante dessa estranheza a parte racional de minha mente, ou talvez meu instinto de auto proteção, me disse para manter-me longe do baú, jogá-lo fora assim que possível, quase como se minha consciência estive tentando incutir em mim algum desinteresse pela coisa. A sensação, ou chamado, se assim preferirmos, no entanto, falou mais alto, e antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, minhas mãos estavam sob a fivela que mantinha o baú fechado, abrindo-a, erguendo a tampa e então revelando seu nefasto conteúdo. 

Franzi a testa ao deparar-me com livros. Muitos livros. Visivelmente velhos, todos eles, alguns mais que outros, além de cadernos e papéis soltos, cheios de anotações. Tudo fedia a mofo, o mesmo cheiro de coisa antiga que senti no porão da casa de minha mãe. Nenhum do volumes, particularmente, me chamou atenção, mas nesse ponto eu estava genuinamente curioso. Apanhei um aleatoriamente e o folheei, com cuidado para não danificar as páginas amareladas, demasiado desgastadas pelo tempo, que pareciam prestes a esfarelar-se. O conteúdo das mesmas era confuso: inúmeras formas geométricas, entrelaçadas em padrões que para mim não faziam sentido algum, além de números aparentemente aleatórios e letras que eu nunca antes vira. Havia coisas rabiscadas nas beiradas de algumas páginas, desenhos sem sentido, rasuras e palavras soltas escritas em uma caligrafia difícil de entender. Consegui, em uma das páginas, identificar a palavra “abismo” rabiscada ao lado da imagem de um círculo atravessado por linhas retas, verticais, horizontais e diagonais, com um ponto preto no centro. Logo abaixo, mais palavras rasuradas. Eu estava confuso, porém intrigado, e sem conseguir entender nada do que estava escrito naquele estranho livro, larguei-o e peguei o próximo, um caderno com diversas anotações dispersas. Não demorei para entender que as palavras tinham sido escritas por meu pai, e quando comparei com a caligrafia das palavras rabiscadas no primeiro, ficou-me claro que todos aqueles livros deviam ter pertencido ao homem. Imaginei que minha mãe os havia deixado no baú desde a morte dele, completamente esquecidos. Quantos anos faziam? Vinte e cinco, não? Sorri comigo mesmo, pensando ter encontrado algumas espécie de tesouro do meu pai, e decidi que leria, ou pelo menos tentaria ler, todos aqueles velhos livros.

É irônico como o destino despeja em nosso caminho coisas, pessoas e situações que faz parecer tesouros, quando na verdade são maldições. Foi o caso do baú e de seu nefasto conteúdo, que na época não considerei de forma alguma como algo minimamente ruim; isso nem passou pela minha cabeça. A coisa toda era completamente inofensiva aos meus olhos. No momento em que li pela primeira vez os tais livros, não imaginei que naquelas páginas eu encontraria a razão dos infortúnios de meu pai, que eventualmente levaram à sua morte, e que levariam também à minha ruína. 

De início, tudo aquilo parecia-me coisa de gente louca, talvez do tipo que interessaria à teóricos da conspiração. Achei curioso que meu pai tivesse se interessado por aquelas coisas; ele nunca fora religioso ou supersticioso de qualquer forma, sempre me parecera um homem completamente centrado, guiado pela razão. Foge à minha compreensão de que forma ele colocou as mãos naquele baú, até porque nada em suas anotações sugeria qualquer coisa a respeito da origem daqueles livros. O que sei, e isso me ficou claro ao ler seus cadernos, é que ele eventualmente ficou obcecado.

Pode-se dizer que o mesmo aconteceu comigo ao longo das semanas que se seguiram ao dia em que descobri o livros. Lia-os à noite, antes de dormir, lia-os no intervalo do trabalho, entre um afazer e outro, e aos poucos, muito aos poucos, as coisas que neles encontrei começaram a fazer sentido; as formas geométricas, as fórmulas e equações, os símbolos e desenhos, as palavras rabiscadas, e até mesmo as rasuras, tudo fazia parte de um mesmo conjunto, que remetia sempre a um mesmo assunto; algo que, conforme foi ganhando forma e corpo em minha mente, como um quebra cabeças que a cada nova peça encaixada torna mais claro o desenho a ser formado, passou a me atormentar ao mesmo tempo em que cada vez mais me intrigava: havia coisas realmente perturbadoras ali, verdades desconcertantes a respeito da realidade que foram devagar mudando a forma como eu interpretava o mundo; partir de certo momento aprendi não só a compreendê-lo de forma diferente, mas também a reconhecer o que há além do mesmo, desde de o nosso redor até as mais distantes estrelas e buracos negros.

 O tormento tornou-se receio, o receio tornou-se temor, e o temor tornou-se medo. Por vezes decidi efetivamente parar de ler os livros, cogitei até mesmo queimá-los junto com o baú no qual vieram; porém esse mero pensamento soava para mim simplesmente inconcebível, e foi aí que percebi que a ideia de não tê-los era ainda mais aterradora do que os segredos que aquelas páginas pouco a pouco me revelavam, dia após dia arrastando-me em direção ao fundo do poço. Senti-me como um viciado, incapaz de pôr fim à raiz de seu vício, um drogado incapaz de desfazer-se do pó ou da pedra que irremediavelmente tornou-se razão de sua existência.

Por isso continuei lendo, aprofundando-me nos mares obscuros daquelas páginas amareladas, ao ponto de os livros se tornarem a única coisa na qual conseguia pensar; quando não estava lendo, estava indo atrás de mais informações a respeito do conteúdo surreal dos volumes do baú, ainda que eu pouco encontrasse na internet ou em outras fontes quaisquer. Meus dias se tornaram, como os de meu pai, preenchidos com aquilo tudo, e nada que tivesse vindo do lado de fora do baú, ou que não se relacionasse com o que viera de dentro, me interessava mais. Pouco comia, mal dormia, fui ficando doente, mas a doença não me preocupava; eu só queria saber dos livros.

Parando para pensar, hoje, naquilo tudo, não sei exatamente quanto tempo se passou entre a descoberta dos livros e o ponto derradeiro de meu triste destino. Tudo parece nublado quando olho novamente para aquela época da minha vida, hoje tão distante, como se tudo o que fiz, vi, falei e pensei naqueles dias fosse misturado e se tornasse algum tipo de massa disforme, sem ordem, sem cronologia, descolada de todo o resto, não presa às regras do espaço-tempo ou da existência humana, tal qual as entidades abissais que eu cada vez mais percebia ao meu redor. No meio dessa massa, no entanto, ainda consigo identificar alguns momentos marcantes, embora não consiga ao certo dizer o que veio antes, o que veio depois, ou mesmo qual a relação entre duas dessas coisas diferentes.

Um desses momentos foi quando minha esposa me deixou, levando junto meu filho. Lembro-me das lágrimas em seus olhos, nos dela e nos dele, e lembro-me de ter sentido uma pontada de remorso, mas nada forte ao ponto de me fazer chorar, ou mesmo de eu sequer cogitar fazer algo para mudar aquela situação; eu não me importava. 

Acho que lembro-me, também, de quando fui demitido, embora não saiba dizer exatamente quais foram as palavras de meu chefe na ocasião. Imagino que já fazia então um bom tempo que eu não aparecia no trabalho. Ao que meu patrão disse, não devo ter sequer respondido, pois, novamente, eu não me importava.

O momento mais marcante foi quando os pesadelos voltaram; primeiro enquanto eu dormia, chegando devagar em meus sonhos, e depois mesmo nos momentos em que eu estava acordado. Talvez eu tenha cogitado a possibilidade de serem alucinações causadas pela falta de sono, mas no fundo eu sabia que não era isso, pois na verdade eu já estava esperando ver aquelas coisas; os livros diziam, afinal de contas, que eu as veria, cedo ou tarde, como meu pai também vira. E, diferentes dos pesadelos de minha juventude, estes eram muito mais nítidos, e faziam muito mais sentido, pois eu passara a conhecer sua origem, revelada a mim pelas páginas amareladas.

Até hoje é fácil para mim lembrar daquelas coisas, mesmo já não as vendo há algum tempo, graças aos remédios. Lembro-me claramente, e acima de todo o resto, dos olhos, grandes e arregalados, vermelhos como os daqueles que por longas horas esvaem-se em choro e desespero; eles me observavam de perto, me julgavam, derramavam sobre mim lágrimas de piche nas quais eu me afogava entre gritos e espasmos. Eu via-os nos cantos escuros de minha casa, ao meu redor, espreitando entre as sombras aqui e acolá, sem parar; via-os sempre que me virava, para onde quer que eu fosse ou olhasse.

E junto aos olhos logo passei a ver as bocas, retorcidas em ângulos que podiam expressar desde um sorriso doentio a um lamento melancólico; lembro-me de vê-las escancaradas, exibindo dentes que brotavam de uma massa de carne rosada que poderia ser qualquer coisa entre língua e gengiva; e as bocas falavam palavras estranhas, sons esganiçados e guturais que soavam ao mesmo tempo como choro e como riso, confundindo-se num miasma ensurdecedor que parecia fazer minha cabeça explodir. E enquanto umas berravam, outras mordiam, arrancando-me a pele, cortando-me os músculos, mastigando minhas entranhas.

Lembro-me do momento em que a dor lancinante tornou-se um prazer quase sexual.

Nesse ponto eu já não saia mais de casa, a não ser para usar o dinheiro que me restara para comprar as coisas necessárias aos rituais que eu vinha realizando, guiado pelas instruções detalhadas encontradas nos livros; e quando o fazia, certificava-me de usar calças e camisas de manga longa, de modo que ninguém via as feridas que cobriam meu corpo. Pode-se dizer o que quiser a respeito das minhas visões, e pode-se argumentar, com o esclarecimento arrogante de quem afirma que tais coisas não existem, que tudo era fruto de minha mente; tudo, menos as feridas, que eram absolutamente reais.

Havia mais coisas também, além de bocas e olhos, entre as coisas que eu via; rostos disformes, formas irreconhecíveis e corpos retorcidos, que apareciam para me atormentar e me ferir de todas as formas imagináveis.  Lembro-me da pele cinzenta de algumas dessas figuras, suas faces não humanas, mas também não totalmente animalescas. Eram estas coisas que me faziam companhia nas noites solitárias, enquanto eu jazia deitado em meio à sujeira de meu apartamento, tomado por lixo, coisas podres e meus próprios excrementos; elas me abraçavam e eu as sentia, úmidas e pegajosas, enquanto esfregavam-se umas nas outras e junto a mim, e isso me confortava tanto quanto suas unhas e dentes me machucavam.

E como eram coisas maravilhosas aquelas! Ou pelo menos eu assim às percebia na época; pela graça que me fora concedida por aqueles livros, eu, e apenas eu, aprendera a vê-las; eu fizera os rituais necessários, desenhara as formas geométricas nas paredes, chão e teto; eu compreendera a alquimia de tudo aquilo, e por tudo isso eu estava sendo recompensado. Em determinado momento eu já não sentia mais dor, não sentia mais frio; não sentia mais fome, nem sono, e o mundo parecia-me mais claro que nunca, pois eu conseguia ver aquilo que rodeia a todos nós, nas nossas ruas e casas, mas que nem nos mais absurdos sonhos pode ser visto pela maioria.

E tudo isso teria sido apenas meu triste fim, meu próprio fundo do poço, isso se as vozes, agora nítidas em meus ouvidos, não tivessem me pedido mais sangue. 

Deste dia eu lembro-me melhor que qualquer outro. Revirei o caos que se tornara minha casa em busca de um pedaço de papel, procurando pela primeira vez, desde que descobrira os livros, algo que não tivesse vindo do baú. Encontrei o papel amassado no bolso de uma calça, e calmamente li o endereço ali anotado, na caligrafia de minha ex mulher. Apesar da loucura que tomava minha mente, eu ainda estava suficientemente são para premeditar minhas ações e para saber onde ficava o dito lugar, e por isso caminhei, sob a garoa leve que caia na noite de inverno, em direção ao meu fatídico fim. 

E por todos os lados estavam aquelas coisas todas; os olhos, as bocas, os rostos e os corpos; no ar ao meu redor, no chão sob meus pés, nas nuvens distantes acima de minha cabeça, nisso tudo eu os via, e todos imploravam-me pela mesma coisa.

Obediente, fui sem demora atender ao macabro pedido.

A casa em questão era pequena e suficientemente distante de meu apartamento para que fossem necessárias algumas horas de caminhada. Era de madrugada quando cheguei lá, e por alguns instantes observei de longe; nenhuma luz acesa, nenhum barulho, nada vinha de dentro da residência, mas eu sabia quem eu encontraria lá dentro.

Bati na porta com insistência; seria muito mais fácil e mais rápido do que tentar entrar sem ser visto. Ouvi os passos vindos lá de dentro, e quando a porta se abriu notei a confusão no olhar sonolento de minha ex esposa. Imagino que ela tenha demorado, talvez, alguns segundos para me reconhecer, e não era para menos: eu estava magro demais, escondido atrás de olheiras escuras e palidez cadavérica. Eu devia estar fedendo. Seus olhos se arregalaram e seus lábios se abriram, começando a balbuciar meu nome, do qual, naquele ponto de minha vida, nem eu mesmo me lembrava direito. 

E então eu golpeei, antes que ela pudesse completar a última sílaba, e no instante seguinte senti o calor do sangue morno jorrando em minha mão. Eu tinha levantado o punho num movimento rápido, certeiro, enterrando a chave de fenda abaixo do maxilar. Ouvi o som esganiçado, rouco, e golpeei novamente, agora na barriga; uma, duas, três, quatro, cinco vezes, e então de novo, de novo, de novo e de novo. Ela não conseguiu gritar, as cordas vocais destroçadas; segurei seu corpo para que não fizesse barulho ao cair no chão, para não acordar nosso filho, e então entrei na casa.

Lá dentro, escuridão e silêncio tétrico, perturbado apenas pelas vozes incessantes das coisas ao meu redor, que ali se aglomeravam como larvas em carne apodrecida.

O que eu fiz em seguida foi parar nas capas de jornais, e teria me rendido a pena máxima permitida pela lei, não fosse o diagnóstico do médico que me declarou mentalmente incapaz. Soube, depois de um tempo, que houve até mesmo protestos exigindo que eu fosse preso, e talvez eu realmente merecesse a prisão. 

Mas nada disso me passava pela cabeça naquela noite, pois minha única urgência era atender ao pedido das vozes, dos olhos, das bocas e dos rostos, que naquele momento enchiam cada centímetro da casa de minha ex esposa. Calmamente andei até o quarto de meu filho e parei ao lado de sua cama. Observei-o por alguns minutos, e acho que tentei sentir alguma coisa por aquela criaturinha. Quantos anos ele tinha na época? Seis? Sete? Não soube dizer, e no fundo eu não me importava. Sorri ao ver uma das coisas, uma particularmente grande, pairando sobre ele, acariciando sua pele infantil suas muitas línguas, observando-o com seus muitos olhos; ele, é claro, nada via e nada sentia, dormindo um sono tranquilo e profundo. 

Coloquei a mão sobre sua testa e comecei a recitar as palavras que eu aprendera nos livros, evocando os poderes das coisas além do véu da realidade, e isso o manteve dormindo. Dizem os médicos que nunca conseguiram descobrir porque o garoto não acordou quando o tirei da cama e o arrastei até a sala; ou quando preguei seus dedos das mãos no assoalho de madeira, um após o outro.

Sangue do teu sangue...

As coisas reuniram-se ao meu redor para apreciar o espetáculo; eu sentia sua respiração na minha nuca, e meu corpo inteiro vibrava com excitação. Abri a pequena barriga com uma faca de cozinha, tarefa que me despendeu menos tempo do que a preparação do ritual; eu tinha desenhando círculos e triângulos no chão, ângulos perfeitos que eu havia já tantas vezes treinado em meu apartamento; queimei folhas secas de certos tipos de plantas, entoei cânticos, clamei pela presença das criaturas e espíritos, que àquela altura lotavam o recinto e quase gritavam em meus ouvidos.

Sangue do meu sangue...

O poema que recitei naquele momento havia sido transcrito em diversos dos livros de meu pai por suas próprias mãos, numa língua capaz de ser pronunciada apenas por quem conhecesse o conteúdo daquelas páginas. Juntei as minhas em concha e, após uma última prece, as mergulhei no ventre aberto de meu filho. Senti o calor das entranhas junto a meus dedos ao mesmo tempo em que o cheiro metálico de sangue inundou-me as narinas. Deixei a concha encher-se e então a levei à boca, sorvendo em fartos goles, e repeti o processo várias e várias vezes, até que não houvesse mais nada para beber daquele pequeno corpo. 

Neste ponto, confesso que não lembro o que aconteceu em seguida. Há um vazio em minha memória entre este momento e aquele em que acordei no hospital, amarrado à cama. Eu já não via mais nada, graças aos remédios que tinham me dado. O resto, o que veio depois disso, não guarda nenhuma surpresa.

Pergunto-me se algum dia voltarei a ver aquelas coisas; hoje, essa possibilidade me assusta. Minha mente não está mais tomada pela loucura, pelo menos não o tempo todo, e tenho já consciência de tudo o que fiz, dos terríveis horrores que cometi; e por isso sei que quaisquer sofrimentos me que afligem hoje são mais que merecidos. Não reclamo.

Só não me convencem ainda, como nunca convenceram, os médicos, que insistem em me chamar de esquizofrênico; dizem eles que não foi encontrado livro nenhum em meu apartamento, apenas um baú vazio, comida podre e dejetos humanos, meus próprios; dizem eles que as coisas que vi e senti, e as vozes que ouvi, são tudo fruto de minha mente perturbada. Enganados estão, isso eu afirmo com a mais absoluta certeza, mas não discuto mais, pois sei quanta sorte eles têm por estarem enganados.

Há certamente um motivo para que os humanos não vejam o que há atrás do véu; não temos condições psíquicas de compreender nada do que há daquele lado, e por isso tais coisas, quando percebidas, nos levam à loucura. Não devemos procurar vê-las, hoje sei disso, e sinto-me grato por não mais conseguir sentir, ouvir ou enxergar nada daquilo; embora eu saiba, com a mais absoluta certeza, que estas coisas ainda estão aqui, comigo, ainda que invisíveis, e que estarão sempre em todo lugar; em cada beco, cada casa, cada corredor e cada quarto, nos cantos escuros e nas sombras que nos rodeiam.

Sempre à procura de qualquer desafortunado que as possa perceber.


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