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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: MARINA OLIVEIRA

SOBRE A AUTORA


Recifense de origem e de alma, Marina Oliveira mora em Belo Horizonte e é professora universitária. "Vista para o jardim" é seu primeiro conto. 



O CONTO SEMIFINALISTA


Vista para o jardim


A minha decadência havia começado anos antes. Ou talvez décadas. Foi precisamente quando percebi, ao fazer minhas caminhadas diárias por recomendação dos médicos e de quase todos os seres com quem convivia, que nenhum homem olhava mais para mim. Na época, cheguei a explicar a mim mesma que os tempos eram outros. Nesses tempos outros, um homem ser surpreendido ao olhar insistentemente para uma mulher havia se tornado, no mínimo, algo de muito mau gosto. Ou quem sabe poderia até levar à denúncia, ao processo, à prisão, à multa, à pena de morte, ao linchamento coletivo. Mas a minha explicação não convencia nem a mim mesma. Não era nada disso. Eles continuavam a se virar quando as mulheres passavam, para vê-las com aquele olhar insistente, grotesco e asqueroso que todos conhecem. Mas não eram todas as mulheres. Eram somente aquelas ainda não acometidas pela gravidade, pela flacidez dos braços, pela moleza dos músculos, pelo andar inseguro e sem charme, pelo corpo marcado pela melancolia de uma beleza perdida. Mesmo os velhos decrépitos, talvez movidos por uma espécie de arrogância e soberba acumuladas, viravam as cabeças para ver as ancas daquelas que ainda eram capazes de reproduzir. 

Depois, vieram os sinais de muitas outras decadências. 

Um dia, eu parei de ser chamada para dar palestras ou participar de bancas. Esse um dia não foi, evidentemente, um dia, mas deve ter durado meses ou anos. Mas, para mim, foi um dia. Um dia em que entendi que aquilo era verdade. Apesar de ter sido um dos primeiros nomes brasileiros a sequenciar genomas, não havia mais o que dizer, porque os dizeres agora eram outros. Os dizeres novos incluíam palavras diferentes, saídas de bocas e corpos também diferentes. Mesmo para falar de sequenciamento de genomas, as palavras tinham de ser muito bem escolhidas. Excessivamente bem escolhidas. Em uma das minhas últimas experiências com plateia, pude observar os olhares de espanto e de censura diante do que teimava em sair de mim em forma de palavra pública. Palavra agora aprisionada em gravações que iam diretamente para o canal da instituição e poderia ser vista e revista (ou visualizada e revisualizada) - e, mais, curtida e comentada - dezenas, centenas, milhares de vezes. 

Minha caixa de entrada começou a ficar exausta de tanto receber anúncios de plataformas de streaming, de investimentos bancários, de lojas de produtos aleatórios. Ao mesmo tempo, começou a ser desabitada de convites, de pedidos de parecer, de coisas que eu fingia odiar quando elas ainda existiam. Somente odiamos aquilo que existe. No início, eu bloqueava e denunciava os spams, mas, depois, vi que ficaria em uma solidão profunda se nem os algoritmos precisassem de mim. Mantive a rotina de abrir mensagem por mensagem e passei a responder algumas, principalmente aquelas que tinham a advertência “do not reply”. Eu respondia e, em segundos, recebia a resposta. 

Descobri que sentia falta de plateia; a mesma plateia que, durante décadas, me provocava crises de ansiedade, horas de preparação, anos de trabalho incansável, mas me aplaudia. Às vezes de pé, às vezes por escrito, às vezes em forma de chocolate, às vezes em convites e placas de formatura, às vezes em depoimentos emocionados. Quando os aplausos cessaram e a plateia desapareceu, não desisti. Primeiro, fiz um curso de cerâmica, até constatar que eu não tinha habilidade nenhuma para aquilo e nunca teria plateia, a não ser aquela que se apiedava de mim e de todas as minhas decadências; aquela que, em outra circunstância, me pedia para colocar a perninha na caminha para fazer um examezinho. Depois, tentei escrever literatura e cheguei a uma conclusão ainda mais deprimente. Por fim, entrei em um grupo de dança da idade decadente e, na primeira apresentação pública, tive medo dos rostos piedosos que nos olhariam e não entrei no palco, deixando um vazio na coreografia.  

Depois, veio um outro problema, entre os muitos das minhas decadências - nunca saber se o que eu dizia era realmente inédito; e inédito para quem, principalmente. Essas duas coisas se tornaram quase impossíveis de distinguir: se o caso estava dentro de mim aquele tempo todo e nunca havia saído da minha boca ou se já havia se libertado das minhas entranhas, mas em direção à outra pessoa, que não aquela a quem eu queria contá-lo naquele momento. No início, a filha me dirigia olhares de reprovação e repetia – ela também repetia – que eu já havia contado aquilo. Nunca entendi os motivos que faziam com que ela se irritasse com a repetição. Talvez ela nunca tenha entendido que contar o caso é necessidade de quem conta e não de quem ouve. A pessoa que ouve escuta, no máximo, as duas primeiras frases e, depois, ruma para outro lugar e aguarda até que chegue o seu turno. Escuta o suficiente para poder, ela mesma, falar. Assim, mesmo que a história que eu quisesse contar fosse inédita, seria ignorada, pelo menos em parte. Além disso, nos últimos tempos, as pessoas ainda livres das decadências repetem a mesma ideia duas ou três vezes quando conversam com alguém. Qual a razão, então, para essa obsessão em me observar e classificar o que eu dizia em original ou reprisado? Qual a razão para tornar o meu mal-estar e a minha vergonha também os dela? 

Além de nem sempre distinguir o que era inédito e o que não era quando eu falava, também passei a enevoar o que eu escutava. Começou assim: eu ouvia histórias pela segunda, terceira ou quarta edições, e achava que era a primeira. Em algum momento da narrativa vomitada pelo meu interlocutor, eu começava a ter a impressão de que já tinha ouvido fatos ou palavras, mas era incapaz de distinguir com precisão (ou mesmo sem precisão) se a impressão era verdadeira.  

Essa confusão entre o inédito e a nova exibição de um mesmo dizer se esparramou, aos poucos, para outros lugares. Tornou-se difícil não misturar quem já tinha e quem ainda não tinha morrido. Eu confundia quem eram os pais já mortos – quando, há alguns anos, todos os pais começaram a morrer, um a um, em uma sequência quase impossível de acompanhar - e comentava, para quem a mãe ainda estava viva, a tristeza de viver sem mãe. Depois, as névoas começaram a impedir a precisão de identificar quem, entre os amigos que partilhavam passados e presentes, já havia morrido, principalmente aqueles a quem eu não tinha ido ao enterro e, portanto, não tinha marcas materiais do desaparecimento das memórias e das histórias. 

Mesmo quando eu me encontrava com os vivos e as vivas, muito frequentemente passei a não ser capaz de distinguir de onde os conhecia, o que também constrangia a filha. Quando os via, examinava o sorriso ou a falta dele, e retribuía mais ou menos da mesma forma. Certamente, devo ter sido extremamente simpática com minha colega de departamento que impediu minha liberação para o programa de professor visitante no exterior, e fria com a minha amiga com quem viajei tantas vezes. Mas talvez elas também não conseguissem distinguir quem eu era e o que eu havia feito nos tempos anteriores às decadências, o que dava no mesmo – menos para os filhos, que ficavam solidariamente constrangidos. 

Aos poucos e ao mesmo tempo, os lugares também começaram a se misturar. Não me lembrava se aquele teatro era o mesmo que eu havia frequentado quando era jovem, se aquela paisagem havia sido admirada ou detestada em um filme ou em algum momento da minha vida, se eu já tinha ido àquele endereço. Não sabia mais onde as pessoas que eu encontrava moravam, mesmo quando havia frequentado aquela casa inúmeras vezes, e passei a dar respostas genéricas para as perguntas que me faziam. Às vezes, tinha soluções que pareciam convencer quem comigo conversava: dizia que a pessoa morava em um lugar muito movimentado ou que o trânsito estava cada vez pior naquele bairro. A probabilidade de errar era pequena e os constrangimentos eram reduzidos significativamente.

Também passei a não saber se o ontem era anteontem ou o mês passado. Comecei a viver assoberbada de escritas. Anotava tudo em folhas soltas, blocos, cadernos, cadernetas, papéis quadriculados, bilhetes, margens de livros. Minha cabeça enevoada ganhava ordem e matéria, embora a angústia fosse somente muito parcialmente aplacada.   

Talvez por tudo isso eu tenha ficado cada vez mais intolerante a ver fotos. Elas têm a presunção e a arrogância de nos fazer acreditar que existe uma distinção nítida entre o que é e o que não é real. Mentira. Elas fingem (como a estatística). Na verdade, nunca gostei de máquinas, filmes, revelações, álbuns. Cada mais vez me irrito quando alguém tenta me seduzir com elas, as fotos. Quase sempre servem para as pessoas falarem sobre si próprias, sobre os poderes sobrenaturais dos seus filhos, sobre as viagens inesquecíveis e até sobre a vitalidade dos seus pais. Não queria confessar, mas depois das minhas decadências, tenho medo delas. Medo de reencontrar com pessoas que já não existem, seja porque morreram, seja porque desapareceram da minha vida (às vezes deixando pistas, às vezes sem deixá-las), seja porque se tornaram outras pessoas, marcadas pela presença do tempo. O bebê se torna um homem de bigodes, feio e muito brega. A amiga linda, de quem sempre tive inveja, se torna mais uma velha decadente. O grande amor agora é um homem gordo, que pinta os cabelos de acaju e usa dentadura. Medo de me reencontrar muito menos decadente, com pessoas também menos decadentes. Medo de compreender que, mesmo quando eu me achava decadente – a partir, mais ou menos, dos meus 25 anos –, a decadência somente fazia sentido naquele presente, porque ela foi se tornando cada vez mais decadente, inexoravelmente decadente. Medo de descobrir, de forma doída, que, mesmo quando eu me achava feia, tinha alguma beleza – definitivamente perdida. As fotos dos meus filhos me afligem. Não sei se elas são reais e se toda aquela alegria e expectativa incontidas – minha e deles – foi desvirtuada e eles se tornaram somente uma ínfima parte do que eu esperava.

Agora, depois de tantas decadências perceptíveis e dos sucessivos constrangimentos que causei, eu havia chegado à casa, à instituição, ao asilo, como ainda diziam alguns. A filha havia conversado sobre o tema muitas e muitas vezes, longamente, repetidamente, exaustivamente, com muita paciência - e também sem nenhuma. Se eu continuasse sozinha, poderia acontecer o pior e o pior sempre acontece: uma queda que me deixaria no chão imobilizada longe do interfone, do telefone fixo e do celular (por que teima em ficar longe do celular?, ela perguntava irritada) incapaz de pedir ajuda; uma panela no fogo que causaria um incêndio jamais visto em toda a cidade; um gás esquecido ligado que provocaria o desabamento do prédio; um infarto que me mataria de maneira fulminante e somente com o cheiro forte de defunto, três ou quatro dias depois, os vizinhos desconfiariam de alguma coisa e arrombariam a porta. O pior acabou acontecendo, embora não fosse aquele pior que ela havia imaginado. Foi outro pior. Caí na rua e quebrei o fêmur e não pude mais andar. Passei a ver o mundo de outra perspectiva: a horizontal. A filha contratou a cuidadora, mas a cuidadora não ficou. A outra cuidadora, contratada a seguir, também não ficou. Depois, veio um cuidador, que também não ficou. Talvez eu fosse ranzinza, prepotente, arrogante, impaciente, desmemoriada, inconveniente, ou qualquer uma dessas coisas que todas as velhas acabam se tornando – principalmente aquelas que um dia sequenciaram genomas -, ou talvez minha filha pagasse pouco, ou talvez eles sempre conseguissem um trabalho menos doído. Um dia, como vai costumar acontecer com quase todas as velhas (e também com os velhos sobreviventes) em pouco tempo, entre lágrimas dramaticamente arrumadas em seu rosto de mulher já marcada pela gravidade, minha filha me disse que a situação estava insuportável e insustentável. Ela continuou dizendo isso por vários dias e várias semanas e vários meses, longamente, repetidamente, exaustivamente, com muita paciência - e também sem nenhuma. Desconfio que já disse isso antes. Novamente a confusão entre o inédito e o repetido. Mas o dia em que a situação realmente se tornou insustentável e insuportável fui levada para a casa, a instituição, o asilo. Ela me disse que escolheu o melhor quarto, na ala dos que tinham vista para o jardim. 

O jardim, eu via da cama, bastava olhar para cima. Havia dias em que pensava que aqueles pedaços de vida iam cair em cima de mim, mas as flores, as folhas e os insetos eram impedidos por uma espécie de plástico que fazia as vezes de teto. Os outros pedaços de vida não eram coloridos e passavam de vez em quando no quarto, principalmente para me alimentar e para mudar a minha posição na cama. Quando me colocavam de lado, o que acontecia muitas e muitas vezes por dia, a vista não era mais do jardim, mas de pedaços de morte que estavam em pior situação do que eu. Eu ficava muito irritada quando os corpos de branco me acordavam para mudar meu corpo de lugar, porque dormir era raro, cada vez mais raro. Por isso, eu gritava, gritava de um jeito que eles tinham medo e, assim, me davam um pouco de sossego. Medo e sossego. 

A filha também vinha me visitar de vez em quando. Não sei precisar o que era a vez – e o quando. Existia também o filho, mas, parece que para cumprir as profecias de todas as mulheres idiotas com quem a vida me castigou com a convivência, quase não aparecia. Quando eu perguntava por ele à filha, ela se irritava, profundamente e agressivamente. Dizia que não fazia sentido a minha pergunta, pois ele não se importava comigo, enquanto ela havia abdicado de coisas muito importantes por minha causa. Era um absurdo que eu perguntasse por alguém que não se importava comigo. Ela esquecia que eu me importava com ele.  

A filha era estranha, sempre foi estranha, desde que estranhei aquela criatura em meus braços, depois de tanta exaustão tentando parir. Tornou-se ainda mais estranha quando passou a depender do meu leite para sobreviver. Depois do leite, vieram outras dependências e um irmão. Cresceram como costumam crescer certas crianças que não estão nem lá nem cá, nem na pobreza, nem na riqueza - escolas, brinquedos, parques, parques de diversões, aulas de inglês, festas de aniversário, teatro infantil, zoológico e expectativas. Muitas expectativas, que eles vão derretendo na medida em que começam a gostar de música que sempre ensinamos ser de gosto duvidoso, de piercings e tatuagens, de não estudar, de não se esforçar. Na proporção do derretimento das expectativas, ocorreu o afastamento. Nunca soube nada sobre o primeiro cigarro de maconha, o primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira entrevista de emprego. A vida deles passou a não me interessar na mesma medida em que fracassavam as minhas expectativas. 

A filha se formou em uma faculdade privada em um curso genérico - não me lembro ao certo (nem ao errado) o nome. Fez concurso público, casou, teve uma filha e vive com o marido em um apartamento no 34o andar, em um prédio com piscina, varanda gourmet, quadra e área para pets. Não, nunca trabalhei em imobiliárias. 

O filho era diferente da filha. Quando veio, já não me causou tanta estranheza. Parir e amamentar continuavam a me parecer atos animais demais, mas era assim – e pronto. Cresceu, casou, teve dois filhos, divorciou-se, casou novamente, teve duas filhas. Não sei qual é o seu trabalho, nem se ele estudou em uma universidade; não me lembro, talvez. A filha me disse que ele vive em um condomínio longe do caos, com os quatro filhos. Não sei se vive com as duas mães, com apenas uma ou com nenhuma. Não me lembro se já fui em sua casa longe do caos. Não me lembro se ele já veio me visitar na minha casa ou no quarto com vista para o jardim.  

O pai: a irritação começou muito antes das decadências - minha e dele. Ela ia e vinha, mas um dia se instalou de um modo que não foi mais. Foi quando as manias superaram o afeto e o sexo – e talvez o amor. No início, havia alguma racionalidade para me irritar com elas; afinal, me prejudicavam de algum modo. Algumas eram clássicas: a pasta de dente apertada ao meio; o uso da pia nas horas em que eu mais precisava; o mastigar de boca aberta; o ligar a televisão em volume insuportável; o ouvir áudios e vídeos da internet em salas de embarque de aeroportos; os dramas nas doenças mais banais; a incapacidade de lavar um copo; a preguiça de tomar decisões; a incompetência para encontrar as coisas de que precisava; a dificuldade em abraçar e beijar o menino e a menina; o hábito de fazer carinho em cachorros de rua; a introspecção excessiva quando eu conversava com desconhecidos ou conhecidos; a indolência em procurar empregos melhores do que o que sempre teve. Depois, as manias foram crescendo e passaram a ter vida própria - e eu não conseguia mais controlá-las dentro do meu corpo irritado: o timbre agudo da voz – agudo demais para um homem; o andar desengonçado - desengonçado demais para alguém com quem eu compartilhava a vida; o jeito deselegante de cruzar as pernas – deselegante demais para um homem que um dia eu havia admirado. Todo ele virava a própria mania e eu já não conseguia enxergar o resto do seu corpo ou as palavras que saíam daquela boca cheia de trejeitos. Foi quando todas essas manias se juntaram e resolveram se fundir no modo como ele ajeitou os óculos depois do almoço que decidi sair de casa.  

Deixei o menino e a menina com ele. Nunca me considerei uma boa mãe e ele, apesar de tudo, era capaz de fazê-los continuar sobrevivendo com relativa segurança. Do resto, certamente os futuros psicanalistas, psicólogos, terapeutas holísticos, pastores, padres, psiquiatras, pais e mães de santos, certamente cuidariam.

O que mais me fez falta quando passei a viver comigo mesma e todos os dias passaram a ser meus foi a ausência de alguém para ir aos lugares, ao cinema, às festas, ao teatro, aos concertos, aos shows, às viagens, aos museus, ao supermercado. Descobri o quanto é cansativo estar permanentemente em busca de alguém para não estar sozinha. Nos primeiros tempos, quando cansei da minha própria companhia, procurei, na agenda que era da casa, encadernada com arame, nomes de amigos. Encontrei os telefones de serviços de esquadria de alumínio, da tesouraria das escolas onde os filhos estudaram, de eletricistas, de colegas do menino e da menina, de alguns parentes, de pessoas que eu não sabia mais quem eram, de mortos. Concentrei-me em meia dúzia de nomes que poderiam ser de amigos; mas, como separar os amigos dele dos meus amigos? Quem estaria do meu lado? Quem estaria ao meu lado? Passei a procurar nomes nos meus contatos de e-mail, pois eram seguramente os meus contatos e não os dele. Seguramente? Comecei, então, a convidar orientandos e ex-orientandos para sair. Iniciava o périplo pelos pós-doutorandos e, em ordem cuidadosamente planejada, chegava aos bolsistas de graduação. No início, quando ainda não havia sinais de decadência, quase todos aceitavam e muitos me exibiam como uma espécie de troféu - sou amigo particular, deviam pensar, de uma de um dos maiores h-index do país. Depois, nem eles. A história vivida parece, aos olhos dos outros, desabitar o corpo dos velhos.    

***

Encontrei os manuscritos na gaveta do quarto com vista para o jardim e as gravações no celular da minha mãe dois dias depois que o teto caiu e ela teve politraumatismo e, depois de mais outros dois dias, morreu. Relutei muito em lê-los, organizá-los e dar-lhes algum sentido. Foram semanas trabalhando sobre eles e sobre mim mesma. A meu favor e me defendendo de possíveis acusações que certamente vou sofrer depois que esses escritos forem publicados, quero dizer que minha mãe também era estranha, invasiva, arrogante e queria controlar a vida e as expectativas de quem ela achava que amava (e até de quem não amava). Talvez esse seja o problema, em maior ou menor grau, de todas as mães: um desajuste entre si mesma e os filhos. 




     


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