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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: MAURA VOLTARELLI ROQUE



SOBRE A AUTORA


Maura Voltarelli Roque nasceu em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo, em 1989, e vive em Campinas desde 2007. É escritora, crítica literária e pesquisadora. Possui mestrado e doutorado em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e pós-doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Realizou estágios de pesquisa em Paris, na França, pelo período de um ano. Seus estudos mais recentes têm se voltado para um diálogo entre a palavra e a imagem a partir das figurações da Ninfa na literatura brasileira. É autora dos livros de crítica literária O Sequestro da Ninfa (2024), sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade, e Amar, depois de perder: uma poética da Ninfa (2021), além do livro de poemas Nymphé e outros poemas (2014) e de diversos artigos científicos na área de literatura brasileira, teoria e crítica literária e artes visuais.



O POEMA SEMIFINALISTA


Estou morta (não vês que ardo?)


“A morte de uma mulher bela é, sem sombra de dúvida, o tema mais poético do mundo.”

Edgar Allan Poe, “A filosofia da composição”




Meu horizonte era a grisalha de Paris,

Ítaca era longe, Ítaca era logo ali.


Parei de contar os decassílabos,

parei de contar os dias iguais.


Como me foi doce aquele estilhaço de tarde,

íntimo de lágrimas que fluíram

para dentro.


Pensei em como seria tragicamente romântico afogar-me

nas águas esverdeadas do canal de Saint-Martin,

tomaria para mim aquela ausência

larga, soturna, antiga.


Não nasci do esperma de nenhum deus,

do sangue do céu ferido pelo tempo,

mas meu ventre é histérico qual vento

a varrer e arrastar e escorrer

todos os desejos.


O lençol branco, o abismo e o mar.


Do meu corpo submerso não restarão

flores na superfície líquida.

Ele saberá mergulhar fundo

cada vez mais fundo.


O amor, que move o sol e as estrelas,

talvez as montanhas,

não pode nos salvar.


Só dois remédios: esquecer, esperar. 

O cheiro o gosto o olho seco,

o tecido do tempo a esvoaçar.


Nem perfume

– insólito e demente –

nem musgo pegajoso e imundo,

gemido de víscera inconformada,

arabescos a enlaçar-se e desatar-se

nada mais que um abandono


e não há palavra 

vil, amarga, 

de que eu goste mais.


Onde terá você me deixado?

Onde suas fotografias vazias,

seus abraços distantes, seus remorsos?


Nem os fogos de artifício

em um céu de verão

têm a bela desordem

de um amor que acorda. 


Vapores, os pálidos paraísos. 


Aos fantasmas dedico

tais volteios indecisos

e o arrepiar de séculos.


O olhar que despe se demora...


Ainda uma vez, perdi

o nevoeiro do teu rosto.


Todos os rostos são impenetráveis

e o segredo das suas noites ofuscadas

e o horror que não se alcança

e o vasto prazer, quieto, profundo

é longo, deliciosamente longo. 


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