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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: PAULO BRIGUET

SOBRE O AUTOR


“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.”(Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)


Paulo Antônio Briguet Lourenço é escritor, jornalista e professor de literatura.Nasceu em 10 de julho de 1970, na cidade de São Paulo (SP), filho do advogado e bancário Paulo Lourenço e da professora Aracy Costa Briguet Lourenço.Casado com a escritora e jornalista Rosângela Vale.Fez os seus primeiros estudos na Casa Pia São Vicente de Paulo (São Paulo-SP), Colégio Nossa Senhora Aparecida (Araçatuba-SP) e Colégio Anglo (Araçatuba-SP).Formou-se em Comunicação Social (Habilitação: Jornalismo) pela Universidade Estadual de Londrina (1992).


Experiência profissional


Repórter da Folha de Londrina (1994-1998); redator de Primeira Página da Folha de Londrina (1998-2000); redator publicitário da Agência Egg Comunicação Criativa (2001-2003); editor da Revista do Festival Internacional de Londrina (2000-2005); repórter do Jornal de Londrina (2004-2006); editor e colunista do Jornal de Londrina (2006-2015); colunista e repórter especial da Gazeta do Povo (2012-2015); assessor de imprensa da Associação Comercial e Industrial de Londrina (2012-2015); colunista da Folha de Londrina (2016-2020); curador e professor do projeto Clube do Livro de Londrina (2017-dias atuais); editor-chefe e colunista do jornal Brasil Sem Medo (2019-dias atuais); curador e professor do curso literário on-line Clube dos Heróis (2022).  


Livros publicados


“Diário de Moby Dick”, em parceria com Paulo Lourenço (crônicas, 1996, edição independente); “Repórter das Coisas” (crônicas, 2002, Imprensa Oficial do Paraná); “Amanhã Escreverei à Joaninha” (biografia, 2003); “Aos Meus Sete Leitores” (crônicas, 2010); “Plaenge — A Construção do Sonho” (biografia institucional, 2011); “Coração de Mãe — A História do Colégio Mãe de Deus” (biografia institucional, 2017, Instituto Novo Signo); “Nossa Senhora dos Ateus” (crônicas, 2021, Sétimo Selo) e “O Mínimo sobre Distopias” (ensaio, 2023, Cedet).Editor, prefaciador e revisor dos dez volumes do projeto “Expedições pelo Mundo da Cultura” (Sesi Paraná/Volvo do Brasil, 2015-2017).


Títulos e premiações


Vencedor do Concurso Nacional Literário do Banco do Brasil/Satélite (2003).Cidadão Honorário de Londrina (2017).


Informações adicionais


Autor de mais de 3 mil crônicas publicadas em jornais e sites desde o ano de 2000.Autor de três peças teatrais selecionadas para a programação do Festival Internacional de Londrina (2003, 2004 e 2006).Colunista mais lido da Folha de Londrina no ano de 2018.Ocupante da cadeira n° 7 na Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina (Patrono: Castro Alves).Com o projeto Clube do Livro, realizou mais de 100 aulas-palestras sobre clássicos da literatura universal entre 2017 e os dias atuais. 




O CONTO SEMIFINALISTA


Ainda que ande no vale das sombras


Observe o homem que se aproxima do confessionário. Ele vem cabisbaixo, com os olhos vermelhos e as faces pálidas, os cabelos em desalinho e as roupas amassadas de quem dormiu vestido e saiu de casa sem ao menos lavar o rosto. Nas costas, carrega uma mochila desbeiçada. Seu nome é Jorge, ele procura o Padre Jonas. Veio com a certeza de que o sacerdote está ali, e de fato reconhece-o por trás das grelhas. Ajoelha-se e diz:

― Padre, eu preciso da sua ajuda.Um mês antes, Jorge estava reunido com o Secretário-Geral do Partido, no Diretório da cidade antigamente chamada São Paulo. Tratava-se de uma ocasião muito especial: de tempos em tempos, o líder deixava Brasília e se dirigia a algum ponto do país para conversar com militantes locais. Jorge trabalhava sob as ordens do Secretário-Geral, mas seus contatos eram quase todos por videoconferência.

No encontro, Jorge apresentou o relatório final de seu trabalho com as torcidas organizadas. O Secretário-Geral, cujo rosto, juntamente com os dos outros membros do Coletivo Supremo, está estampado em todos os prédios públicos do país ― ou seja, em todos os prédios ― leu o relatório em silêncio por doze minutos e meio, durante os quais Jorge debalde procurou alguma expressão de contentamento ou contrariedade no rosto do dirigente partidário. Ao final da leitura, o Secretário-Geral levantou os olhos e, para grande surpresa de Jorge, sorriu. Em seus vinte anos de Partido, cinco deles trabalhando com o Secretário-Geral, Jorge não se lembrava de tê-lo visto sorrir. Jorge sabia que é necessário mover diversos músculos da face para sorrir; mais especificamente, 12 músculos. Jorge chegara a pensar alguns desses músculos estariam para sempre danificados no rosto do Secretário-Geral. Mas, como se podia constatar agora, essa hipótese era falsa. O homem sorria.

E sorria com dentes amarelos, algo tanto mais estranho quando se sabia que o Secretário-Geral não fumava e não usava drogas. Jorge tinha convivido de perto com os noiados da Craco, em tarefas do Partido, e era capaz de reconhecer pelos dentes não apenas um usuário de pedra, mas até mesmo estimar há quanto tempo o sujeito era viciado. Os dentes que o Secretário-Geral lhe exibia agora possuíam a cor de uma alguém que usou crack por sete anos. Obviamente o Secretário-Geral tinha recursos para fazer um tratamento naqueles dentes a ponto de deixá-los mais brancos do que a pomba da paz, mas não o fizera.

― Jorge, Jorge... Você é um velho e bom companheiro. Seu relatório está excelente.

― Obrigado... Zé.

Jorge sempre hesitava ao chamá-lo de Zé. Tinha permissão para isso, mas preferia sempre o termo companheiro, mais impessoal e respeitoso. Naquele momento, porém, Jorge se sentia mais próximo do dirigente, embora nem sonhasse com a possibilidade de pertencer ao seu círculo íntimo.

No fundo, Jorge sabia que o elogio era merecido. Durante um ano, ele trabalhou como agente recrutador junto a uma das torcidas organizadas da cidade antigamente chamada São Paulo. Desde os tempos da Resistência, as organizadas revelaram-se aliados importantes do Partido na luta contra os milicianos negacionistas, especialmente nas Jornadas de 22, que impediram a fraude conservadora nas eleições. Quando sobreveio a proibição definitiva dos jogos com público, após a 21ª onda do vírus genocida ― especialmente letal para as grávidas e as idosas ―, houve uma crise nesse relacionamento, mas o Partido agiu com eficiência, realocando as massas de ex-torcedores nas frentes de cultivo da Cannabis farmacológica e no comércio de substâncias recreativas. No entanto, essa foi tão-somente uma solução provisória; na visão do Coletivo Supremo e do Presidente Petros, toda aquela paixão, toda aquela energia vital antes direcionada para a eliminação dos torcedores adversários deveria ser canalizada para algo socialmente relevante, que contribuísse para a edificação do socialismo global. Após ouvir a voz da comunidade em várias audiências públicas, o Partido decidiu transformar os membros das organizadas em soldados de elite da Luta Antifascista. Jorge foi um dos militantes que ajudaram a promover essa coalizão entre os ex-torcedores e o Partido.

― Graças a operadores dedicados como você, a transformação das torcidas organizadas em Coletivos Antifascistas já está praticamente finalizada em todo o país. Quando vejo os antigos corintianos identificando e neutralizando negacionistas como se fossem os antigos palmeirenses, vejo que o nosso trabalho não tem sido em vão, Jorginho.

Jorginho! De fato, esse era o dia das coisas inéditas. Tanto tempo trabalhando juntos e o Secretário-Geral nunca havia usado um diminutivo para referir-se a alguém, muito menos a ele. Sim, ele sabia que o diminutivo possuía uma certa ambiguidade, sendo usado igualmente para demonstrar carinho ou desprezo. Mesmo assim, o coração de Jorge deu um pequeno salto naquele instante; e ele se lembrou dos tempos de faculdade, quando todos o chamavam de Jorginho do Partido.

Quando o Secretário-Geral o despediu, não sem antes dizer que a sua nova tarefa seria enviada por meio de criptomensagem em 72 horas, Jorge sentia-se nas nuvens. Só queria chegar em casa e dar as boas notícias para Ana. Ao sair do prédio do Diretório, estava tão empolgado que se esqueceu de colocar a máscara tripla do Partido. Foi despertado pelo berro eletrônico de um drone facial, que sossegou apenas quando Jorge pôs a máscara tripla e exibiu o QR-code de militante, impresso em sua jaqueta. Assim que o drone se virou para o outro lado, Jorge disse em voz baixa:

― Mais respeito. Eu sou o Jorginho do Partido. 

***

Jorge e Ana moravam em um coletivo de habitação no largo antigamente chamado Santa Cecília, ao lado da igreja transformada em Unidade Paulo Freire. Quando a porta da célula se abriu, ele entrou em silêncio. Percebeu que a luz da tela estava ligada e que Ana, com fones de ouvido, assistia a algum programa. Quando viu quem era o apresentador do programa, trincou os dentes. Ela estava acompanhando uma aula clandestina do tal Padre Jonas, famoso cristofascista.

― Que é isso, Ana? Esse bandido de novo?

Tirando os fones, a mulher respondeu com um sorriso que desarmou Jorge:

― Ele não é bandido, é só um homem que fala coisas bonitas.

― Você sabe muito bem que pode ser presa e eu posso perder o emprego se alguém descobrir que você vê essas coisas.

― Jorge, ninguém mais entra neste apartamento, só eu e você. As janelas estão fechadas, a internet está desligada, eu estava usando fones. E, logicamente, é um vídeo gravado.

― Mas desliga isso, Aninha. Hoje é um dia de boas novas.

 

***

        

Ana ficou contente com o sucesso da reunião. Embora não gostasse do Partido e menos ainda do Secretário-Geral, alegrava-se sinceramente com o sucesso do marido. À noite, contemplando o sono suave de Ana, Jorge pensou que uma das grandes qualidades da mulher era ser capaz de um amor incondicional e independente das circunstâncias. As estratégias do Partido para ela não significavam nada. Havia uma única coisa realmente importante: que Jorge estivesse feliz.

Jorge olhava para a mulher e se perguntava como era possível esse desinteresse total pela política, o que antigamente chamavam de alienação. Mas o termo era completamente inadequado para definir Ana: seu distanciamento das coisas do poder não lhe impedia uma proximidade comovente com as coisas da vida. O modo como ela conversava com os velhos, com as crianças, com os mendigos, até com os fascistas... A paciência com que ela ouvia os lamentos e as reclamações da vizinha, ex-professora da universidade antigamente chamada USP, cujo marido foi preso durante o Expurgo dos Tucanos... Ana, você não existe.

E, no entanto, ela acreditava que Deus existe. Segundo Ana, dentro de cada pessoa havia uma chama, por ela referida como Espírito Santo, que conferia até ao mais desgraçado dos indivíduos ― um miliciano, um negacionista, um genocida ― uma dignidade irremovível. “Meu Criador, meu Salvador, meu Consolador”, Jorge certa vez a ouvira dizer baixinho.

Cedo, ainda na época do namoro, Jorge descobrira que com ela não funcionavam as habituais críticas ao fundamentalismo cristão; ela simplesmente as admitia e pedia perdão. Deixar que Ana assistisse aos vídeos do Padre Jonas ― desde que tomadas as devidas precauções ― era um preço muito baixo a se pagar por viver com uma mulher tão encantadora.

 

***

Três dias depois, ao abrir a sua caixa de criptomensagens, Jorge respirou fundo. Antes de uma nova missão, ele sempre sentia um leve travo de insegurança, mas se conhecia o suficiente para saber que passaria a partir do momento em que ele começasse a operar. Operar: esse verbo era fundamental na carreira de Jorge dentro do Partido. Ele sabia que os companheiros de Diretório viviam usando a mesma frase: “O Jorginho opera”. Por vias indiretas, soube que o próprio Zé já pronunciara as três palavras mágicas numa plenária do Coletivo Supremo.

A mensagem por vídeo era sucinta. Jorge não viu na tela o mesmo Zé que encontrara vis-à-vis no comitê da cidade antigamente chamada São Paulo; quem aparecia agora era o Secretário-Geral do Partido e membro do Coletivo Supremo, temido pelo próprio Presidente Petros, conhecido globalmente, íntimo do Presidente Deng.

E a missão que ele deu a Jorge era estranha, para dizer o mínimo.

 

***

O prédio ficava numa parte sombria da cidade, a praça antigamente chamada Roosevelt. Caía uma chuva fina, molha-bobo. O horário da reunião era bastante incomum: 6h09 da manhã ― escrito exatamente assim, como um horário de trem alemão. Era um prédio sórdido, inteiramente pichado com vários slogans dos Comandos de Luta Antifascista, dentre os quais um se destacava:


QUEIMEM OS CRISTÃOS!


Antes de sair de casa, Jorge percebera que Ana estava rezando o terço escondido, como por fazia todas as manhãs. Por trás da porta, com seu ouvido de militante, escutou-a pronunciando aquela frase enigmática: “Meu Criador, meu Salvador, meu Consolador”. Jorge não pôde deixar de pensar em Ana quando viu a imensa exclamação anticristã, pichada com tinta vermelha. Se um dia os garotos do Comando descobrissem que a esposa de um militante do Partido rezava o terço, isso certamente causaria problemas colossais para Jorge. Talvez nem o Secretário-Geral pudesse salvá-lo de um julgamento público e da expulsão sumária. Quanto a Ana, o que aconteceria com ela ao ser removida para um Centro Marielle Vive?

Mas Jorge era um operador disciplinado, e afastou esses pensamentos tão logo chegou ao endereço procurado. O prédio de seis andares, construído nos anos 70, situava-se exatamente no centro da praça, totalmente ocupada por consumidores de substâncias recreativas. Uma garota de cabelo azul, com os seios à mostra e orelhas de elefante, chorava compulsivamente, de cócoras no meio-fio. “Se a Ana estivesse aqui, iria conversar com ela”, pensou Jorge, antes de mostrar o QR-code na entrada do prédio.

A porta se abriu automaticamente. Na penumbra do hall de entrada, havia uma mesa, e atrás da mesa uma mulher extraordinariamente gorda dormia e roncava alto. Para surpresa de Jorge, a porteira despertou e disse em voz tonitruante, enquanto ele se dirigia ao elevador:

― Você está errado. A Sociedade não fica no sexto andar. É no subsolo.

Disse, e imediatamente voltou a dormir e roncar. Na parede, dois metros acima da cabeça da gorda, um relógio de ponteiros marcava 6h09.

“Estou atrasado”, pensou Jorge ― e abriu a porta do elevador. Apertou o botão onde se lia SS. O elevador desceu dois andares e parou diante de um corredor escuro, em que as luzes se acendiam conforme Jorge caminhava. Havia apenas uma porta, ao fundo do corredor. Antes que Jorge tocasse a campainha, a porta se abriu e apareceu um tipo magro, macilento, com os cabelos cortados à escovinha e óculos de aros pretos e lentes grossas. O sujeito vestia um paletó marrom de camurça e calças azuis com pregas. O interior do apartamento subterrâneo era banhado por uma luz artificial amarela. Diante do olhar interrogativo, Jorge pronunciou:

― Solve et coagula.

O homem fez um gesto com a cabeça para que Jorge entrasse. Para surpresa de Jorge, o homem estava sozinho.

― Eu pensei que teríamos uma reunião. Os outros estão atrasados?

― Não. Hoje seremos somente eu e você.

― Você é o Sá?

O homem demorou um pouco para responder.

― Correto.

― Gostaria de conhecer um pouco mais sobre a Sociedade. Admiro o trabalho de vocês.

― Não precisa perder seu tempo com bajulações, Jorge. Sabemos exatamente por que você está aqui. Quer recrutar alguns dos nossos, não? Ficamos lisonjeados. Somos apoiadores sinceros do Partido. Companheiros de viagem, para usar um velho jargão.

Sá caminhou alguns passos e convidou Jorge a sentar diante de uma escrivaninha, sobre a qual jazia um livro de encadernação antiga. Na parede de trás, iluminada fracamente por um abajur, havia um polígono e um crucifixo invertido.

― O equívoco que vocês cometem é achar que nós não acreditamos nEle. Ao contrário do que vocês pensam, Ele existe! A diferença é que nós o chamamos de Inimigo.

Sá parou por um instante e colocou a mão esquerda, nodosa e cinzenta, sobre a capa do livro.

― Para chegar até aqui, você certamente deve ter visto os noiados da praça. Pense só, Jorge. O Inimigo criou cada um deles e os colocou aqui. A vida desses vermes é um pesadelo sem fim: sofrimento, êxtase, doença, morte. O Inimigo é um sádico; essas criaturas desgraçadas são as Suas cobaias.

Jorge sentiu que deveria dizer alguma coisa.

― Eu trabalhei alguns anos com os noiados da Craco. De certo modo, você tem razão. Quase ninguém se salva ali. Mas eu vi duas ou três exceções.

― Aposto que se converteram, esses dois ou três.

― Sim.

― Pois foram esses os mais desgraçados, Jorge. Escolheram ser escravos. Não há pior forma de escravidão que servir ao Inimigo!

Sá disse a última frase com um ódio que Jorge poucas vezes vira na vida; talvez apenas nas sessões de julgamento dos líderes negacionistas, muito tempo atrás.

― Você viu a pichação do prédio?

― Queimem os cristãos? Sim, não há como não perceber.

― Pois fui eu que mandei fazer, Jorge. Na semana passada. Sabe quem foi a pichadora? A menina de cabelo azul, que você viu chorando na sarjeta.

Sá coçou a orelha, passou a mão sobre a boca, soltou um leve suspiro.

― Sabe por que ela estava chorando? É que ontem morreu o macho dela. O habitual: morreu por dívida de pedra, registraram como covid. Quando o Inimigo mata um desses, é o Seu único momento de compaixão. Logo logo a cabelinho azul segue a mesma trilha. Agora, me diga uma coisa, Jorge: para quem eu mandei fazer aquela mensagem?

― Não faço ideia.

― Faz ideia, sim. Aliás, você sabe perfeitamente. Aquela mensagem foi direcionada para um velho militante do Partido. Veja se não é ridículo: o cara acha que pode esconder o fundamentalismo de sua mulher...

Nesse momento, Sá riu pela primeira vez. E Jorge então percebeu que os dentes do sujeito eram exatamente iguais aos de Zé: uma fileira de triângulos isósceles amarelos, podres, irregulares. A boca de alguém que usou crack por sete anos.

Sá levantou-se abruptamente e estendeu a mão nodosa para seu visitante. A reunião estava encerrada. Com estranha gentileza, conduziu Jorge até a porta de saída. Tendo colocado a mão sobre o ombro esquerdo de Jorge, sorriu com os dentes triangulares:

― A sua mulher vai morrer em um mês.

A porta fechou-se na cara de Jorge. Escorando-se na parede e tateando no escuro ― a iluminação automática não funcionou ―, ele conseguiu chegar até o elevador. Na portaria do prédio, o relógio ainda marcava 6h09, mas a gorda não estava mais lá: em seu lugar, dormia e roncava a moça de cabelos azuis.

 

***

Um funcionário do hospital veio dar a notícia quando Jorge estava tomando a sétima cerveja em um boteco da estação antigamente chamada Luz, no coração da Cidade 2. No último mês, a vida de Jorge se alternava entre o boteco e o quarto 609 do Núcleo de Saúde Coletiva Dr. Ernesto Che Guevara, mais conhecido como Hospital Che, antigamente chamado Hospital das Clínicas. Como funcionário do Partido, era-lhe facultado o direito de acompanhar a internação da mulher. Pela primeira vez na vida, Jorge pedira férias de 30 dias.

O médico-chefe, Dr. Henrique, garantira que o problema de Ana não era covid, e lhe assegurou que ela não seria entubada. Por uma notável coincidência, Jorge conhecera Henrique nos tempos de movimento estudantil, quando houve o julgamento dos negacionistas. Vinte anos haviam se passado, e Jorge não esquecera o ríctus de felicidade e ódio na face do então acadêmico Henrique no dia em que um de seus professores — um virologista famoso, com doutorado em Oxford — foi condenado à morte por defender o tratamento sem comprovação científica.

Henrique ainda não descobrira o verdadeiro problema de Ana, mas disse a Jorge estar convicto de que não ela não corria risco de vida, apenas demandava cuidados médicos especiais. Por isso, grande o espanto de Jorge ao ver o funcionário adentrando o boteco com seu uniforme roxo e seu escafandro hospitalar.

— Companheiro Jorge, não trago boas notícias.

— Que foi? Que aconteceu?

— A companheira Ana teve que ser entubada agora à tarde.

— Como assim? O Henrique me prometeu não ia fazer isso!

— Mas o quadro mudou repentinamente e tivemos que fazer o procedimento.

— Vocês vão desentubar ela agora! Eu vou fazer uma denúncia ao Partido.

— Companheiro Jorge, a ordem para entubação veio do Coletivo Supremo.

 

***

Não houve velório. Jorge sabia que esse era um privilégio reservado apenas ao alto escalão do Partido; apesar disso, até o último instante alimentou a esperança de que o Secretário-Geral lhe enviasse uma mensagem com a permissão para ao menos ver pela última vez o corpo da esposa. A caixa de mensagens especiais, no entanto, permaneceu muda. Tudo que lhe permitiram fazer foi contemplar o leito de Ana no quarto 609, já vazio e preparado para receber um novo paciente. Mas sobre o travesseiro havia um objeto: o terço. Quando a enfermeira deixou-o sozinho por alguns momentos, Jorge enfiou o terço no bolso do casaco. Nesse exato momento, alguém se aproximou dele.

Era a ex-professora tucana. Tinha os olhos vermelhos; os lábios, finíssimos, tremiam como as mãos de um parkinsoniano.

— Jo-jor-ge, eu sinto muito, muito! Ela era tão boa, tão meiga, tão feliz.

— Eu sei disso, eu sei.

— Preciso te dizer uma coisa, Jorge. Eu vou ser presa hoje. Um ex-aluno veio me avisar. Mas acredite em mim: não fui eu que denunciei a Ana!

Jorge permaneceu silencioso. Sem perceber, ele tinha as mãos da vizinha entre as suas. Há quanto tempo não tocava nas mãos de alguém que não fosse Ana? Olhou para as mãos da mulher: eram cálidas, úmidas, enrugadas, repletas de manchas roxas. Foram aquelas mãos de velha, trêmulas e suadas, que o convenceram de que a vizinha falava a verdade.

— E agora eles vão atrás de você, Jorge.

Jorge largou as mãos da vizinha e contemplou-a com o ar interrogativo. Como assim? Eu, Jorginho do Partido, o homem que opera, com vinte anos de militância, o amigo do Secretário-Geral, era suspeito diante dos próprios companheiros?

Sem dizer uma palavra, a vizinha pôs um papel dobrado nas mãos de Jorge e saiu do quarto. Jorge colocou o papel no bolso em que já estava o terço. Sentou-se na poltrona, onde dormira tantas noites, e ficou ali, parado, silencioso, por um tempo incalculável, até perceber que o Dr. Henrique o encarava com um ar de insolência desde a porta do quarto:

— Hora de ir embora, Jorginho.

 

***

Eram seis da manhã quando Jorge abriu a porta de casa, trôpego. Uma dor de cabeça como só havia sentido no dia da morte da mãe lhe fustigava o crânio. Deitou-se no sofá da sala, sem tirar os sapatos. Era um dia do mês antigamente chamado julho; fazia muito frio, mas Jorge não se animava a buscar uma coberta no armário. Para esquentar as mãos, colocou-as nos bolsos do casaco, onde estavam o terço e o pedaço de papel dobrado. Quando ia retirar o terço, a caixa de criptomensagens iluminou-se. Era o Secretário-Geral. Jorge conectou o celular ao vídeo da sala. Continuou deitado.

— Então, Jorge, você achou mesmo que podia enganar o Coletivo Supremo? Achou que podia continuar casado com uma traidora do Partido, uma miliciana, uma negacionista, uma cristofascista? Achou que podia continuar ocultando os vínculos da Ana com a sua vizinha fasciotucana? Jorge, Jorge. Você não sabe de nada. Você é um idiota completo, mas a sua idiotice não desculpa a sua traição. Agora tá aí, bêbado, sujo, patético, deitado no sofá, acreditando que assim vai despertar a nossa compaixão. Você está acabado, Jorge. Acabado. Mas de uma coisa eu me posso me gabar: você nunca me enganou, nunca. Eu sempre soube que você era uma farsa.

A criptomensagem terminou. Um ponto branco permaneceu no meio da tela durante um tempo, como nas antigas televisões em preto e branco, segundo contavam os velhos. O Secretário-Geral era velho, era desse tempo.

Quando acordou, muitas horas depois, Jorge viu que o terço e o papel desdobrado jaziam no tapete da sala. No papel estava escrito a lápis, em letra de forma:

Meia-noite no Bar da Luz.

 

***

Não havia tempo.

No fundo do armário, Jorge descobriu uma velha mochila, dos tempos de movimento estudantil, e enfiou dentro dela algumas roupas e uma escova de dentes. Colocou a máscara tripla do Partido, jogou o celular na lixeira incineradora e guardou o terço de Ana outra vez no bolso do casaco. Ao passar pelo Posto de Checagem, mostrou um cartão exclusivo do Partido, com nome falso, que havia usado em algumas missões confidenciais; felizmente, ninguém se lembrou de desabilitar aquele cartão, do contrário Jorge seria preso ali mesmo.

“Incompetentes”, pensou, ao atravessar a avenida antigamente chamada Angélica rumo à estação antigamente chamada Luz.

À meia-noite, Jorge pediu uma cerveja e dois copos no balcão. O atendente era um ex-noiado da Craco, um dos poucos que conseguiram se salvar depois da conversão. O homem sorriu com os dentes amarelos para Jorge; será que o havia reconhecido? Em silêncio, o atendente derramou a cerveja em um dos copos e, discretamente, indicou um homem sentado a uma mesa de metal na entrada do boteco.

Levando a cerveja e os dois copos, Jorge foi até a mesa do homem. Era um sujeito alto, grisalho, de barba feita, com o rosto marcado pelas rugas e um ar de professor antigo. Jorge ofereceu-lhe cerveja, mas o homem tapou a boca do copo e sorriu:

— Obrigado, não estou bebendo hoje.

Sem a mínima mudança de tom, continuou:

— Aqui está sua passagem. Vejo que usou o seu cartão especial do Partido. Muito bem, você é do ramo. Defronte à rodoviária, numa das quinas da praça vizinha, você verá um rapaz com a máscara do Partido, igual à sua, ao lado de uma lambreta roxa. Memorize isso.

O homem fez Jorge repetir três vezes as instruções. Quando se deu por satisfeito com a memorização, disse:

— Esse rapaz o levará até o Mosteiro, que fica a 32 quilômetros. Lá você deve procurar o Padre Jonas.

 

***

Contemplai o homem no confessionário. Por trás das grelhas, é possível ver que o sacerdote lhe faz um gesto de absolvição. O homem, que por um longo tempo permaneceu de joelhos, levanta-se com alguma dificuldade. Arranca a máscara do Partido e tira do bolso do casaco um terço de contas de madeira. De repente, percebe que esqueceu completamente as orações da infância. Como rezará a penitência? Terá de continuar aqui por algum tempo, talvez um longo tempo. Enquanto isso, vai repetindo, com o terço nas mãos:

— Meu Criador, meu Salvador, meu Consolador... Meu Criador, meu Salvador, meu Consolador... Meu Criador, meu Salvador, meu Consolador...




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