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PRATA DA CASA | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS: YUSSEF FRANCIS KALUME

Atualizado: 4 de jun.




SOBRE O AUTOR


Yussef Francis Kalume nasceu no Piauí, em 1979, mudando-se na adolescência para Brasília. De lá, recém-formado em Jornalismo, partiu para o Rio de Janeiro — onde reside desde então — a convite para trabalhar com Cinema. Em 2021, publicou o seu primeiro livro de contos, Ensaio sobre o fim, seguido dos romances Uma ficção científica pornô romântica (2022) —, e Anhangá (2023), todos pela Editora Urutau.



O CONTO SEMIFINALISTA


M.



– I – 


Com onze anos de idade, eu cheirava pó e brincava de boneca. Aos doze, engravidei, o bebê, nunca vi. Morreu espancado, ainda no ventre, por meu padrasto... seu pai.

— Tem o diabo no corpo! — ele dizia — Não vale nada!

— Eu te amo! — ele dizia — Volta aqui ou eu te mato!

— Linda como a mãe — QUE DEUS A TENHA!

— Vagabunda como a mãe — QUE O DIABO A CARREGUE! 

Nove anos... Esperei nove anos para criar coragem. Naquele dia, ele viu o diabo... Sim, ele o viu, nos meus olhos. Fiz questão de ficar de olho aberto. Era tão bonito, assim, morrendo. Era tão belo, encarnado a sangue...

Foi a primeira vez que sorri. Devo ter feito o mesmo no velório, por isso desconfiaram.

— Estou livre!!! gritei de um lado.

— Esteja presa! — gritaram do outro.

Cada um na sua própria jaula: meu padrasto num caixão, eu, na cadeia e meu filho, num vidrinho... E de que outra forma ele chegaria à universidade? Só assim mesmo, dentro de um vidro.

Meu padrasto ainda vaga por aí, arrastando correntes, sussurrando no meu ouvido... Eu mesma o pus no caixão, por que não consigo enterrá-lo?

Em cada olhar, cortejo — em mulheres e homens, policiais e bandidos... No suor nojento que pinga em minhas costas. Nas línguas, mãos, paus... Todo dia meu padrasto ressuscita do inferno e me come, sem permissão.


– II –


Ontem, conheci uma nova companheira de cela, a Su, e, ainda ontem, descobri algo que nunca havia passado pela minha cabeça: Sexo pode dar prazer, sabiam disso? Quem diria!? Tô com quase quarenta anos, presa há tanto tempo... Tem pelo menos trinta anos que sou fodida e somente ontem... — Su... Minha doce Su! Minha safada!

“Ai, Su! Isso! Isso! Aí, Su! Aí!!!”

— Que tal um cineminha? brinca.

— Prefiro uma praia!

— Ou uma cachoeira?

— Praia!

— E que tal um filho?

— O que houve com a praia?

— Aceita um teco? retorna à realidade.

— Estica aí!!!! aceito a realidade.

É bom ter a Su aqui por perto... outra mulher. Macho não vale porra nenhuma, nem os de fora, nem os da família. Policial então... O Pereira... Esse nasceu sem mãe. Era gente da pior espécie. Aliás, nem gente ele era. Maltratava demais as meninas... Mas era quem conseguia o pó, por isso ninguém apagava o desgraçado. Cobrava caro: cinquenta paus por uma merrequinha. Cinquenta paus enfiados com força por tudo que é buraco. O pó? Não! O pó era pelo nariz mesmo. O nariz sempre foi do vício, já o resto do corpo nunca foi meu, nem de ninguém! Minha buceta é uma cadela sem dono, mas meu coração pertence a ela, minha doce Su, minha putinha!!!

— O quê? Qual a minha graça? Prazer, me chamam de M! Emily, não! “Ê-MÊ”, assim, só a letra.

— “M” de quê?

— “M” de “M”!

— Maria Madalena, Meretriz, Mulher Maravilha?

 — Não! Só “M” mesmo!


– III –


Seis mil, quinhentos e setenta, seis mil quinhentos e setenta e um, seis mil, quinhentos e setenta e dois... Ficou bonita a parede, assim, toda riscadinha... Mas vou parar de contar. Deixa o dia mais longo. Na falta do que fazer, realizo outros tipos de cálculos, tipo: Quantos cigarros fumei durante esse tempo?

— Cento e trinta e um mil, quatrocentos e quarenta.

Um cigarro tem cerca de nove centímetros, sendo seis deles fumáveis. O resto é filtro. Isso sem calcular a diferença de tamanho entre maço e box.

Se colocados em fila, sem o filtro, eu teria sete mil oitocentos e oitenta e seis metros e quarenta centímetros de cigarros fumados. Quase oito quilômetros.

Oito quilômetros é coisa pra caralho! Deve ser a distância daqui pro mar. Essa cela tem o quê? Cinco metros quadrados?

Nove milhões, quatrocentos e sessenta e três mil, seiscentos e oitenta minutos numa cela de cinco metros quadrados. Divido minha cama com a Su. Divido meu corpo com a Su. Meu cigarro... Cago na frente da Su! Isso há apenas uma semana e ela já diz que me ama. Quer casar comigo. Pra quê?! Meu Deus, Su!!! A única coisa que quero são oito quilômetros de distância de ti, desse lugar!!! Pelo menos oito quilômetros, numa praia, sem ter que olhar pra tua cara... Sem ter que falar com ninguém.

— Que tal um cineminha? 

— Prefiro a praia!

— Quer casar comigo?

— Socorro!!!

Acho que vou matar o Pereira. Preciso de uns dias na solitária, longe da Su.

— Puta que pariu, Su! Sai de perto de mim ou desisto do Pereira! Pereira??? Me vê uma de cinquenta!

Vampiro! Sanguessuga!!! Só tá vivo porque sou viciada. Vai chegar a tua hora, Pereira! Nem que eu tenha que virar crente e largar o vício. Um dia tu me paga!

— Su?! Acorda, Su! Conversa comigo! Preciso de alguém... Su?! Eu te amo, Su!

Mais dez voltas em torno da cela, três cigarros e cinco chutes na parede....

— Acorda, porra!!! Tô ligadona. Bora! Fala comigo! Pereira??? Volta Pereira! Eu te amo...

Não há nada acontecendo dentro de cinco metros quadrados, nem barulho de grilo.

— Acorda, Su! Trepa comigo! Pelo amor de Deus! Alguém me dá um tapa na cara!

Duzentos e trinta e quatro voltas na cela. Estou sem saco pra calcular o quanto é isso em quilômetros. Se for somar todas as voltas, vai dar pra ir e retornar à lua umas sete vezes.

Mas, por que eu retornaria? Ficaria por lá mesmo, sem a Su, sem o Pereira... Cadê o Pereira? Preciso dele agora — Retorno da Lua! — Pereira?!

— Filho da puta! Um dia eu te mato, Pereira! A tua sorte é o meu vício.


– IV –


Seis mil, quinhentos e setenta e três...— Bom dia! O café da manhã já está servido! Curtam um belo e ensolarado domingo na praia! Agora acorda de verdade que vai haver inspeção nas celas.

Dia de sol no pátio da penitenciária. Era pra ter mais espaço do que minha cela de cinco metros quadrados, porém, imagina todas juntas num lugar que, se você olhar pra cima, dá pra ver um pouquinho de azul, se olhar pra baixo, faz sombra na vizinha. Pelo menos, dá pra ver outras caras além da Su.

— Ai, Su, como tu é azeda!

Um dia vou conseguir fazer todas se deitarem de barriga pra cima, uma do lado da outra, só pra poder fumar um cigarro e olhar pro céu... e ver a fumaça subir... subir...

Me lembro muito da praia. Da brisa, da areia, da água de coco. Foi quando tive a ideia, olhando o vendedor abrir o coco. Imaginei meu padrasto no lugar do coco. Fui lá, então, e fiz. Só não tive coragem de beber o sangue. Era nojento... Mas achei bonito o vermelho.

O que minha mãe diria se estivesse viva? Nada! Minha mãe morreu muito antes de falecer. No dia em que pôs aquele canalha em casa. Devia ter me enterrado com ela... Minha mãezinha — que Deus a tenha!

Sede! Por que fui pensar no meu padrasto? Deu vontade de uma água de coco bem gelada. É a ressaca de ontem. Juro que até o sangue dele eu encararia agora.

— Guarda! Me traga uma cerveja estupidamente gelada! Bebida pra todo mundo, por minha conta! Mas tem uma condição: Que todas se deitem de barriga pra cima, uma do lado da outra, que eu quero fumar um cigarrinho e curtir o azul do céu. Também traz uma água de coco, por favor! No crânio do meu padrasto!

Não dá pra viajar muito não, que logo soa o apito. — Que foi? Quem se afogou? Esconde o baseado! É hora de voltar pra cela. 

— Olá, Su. Também te procurei. Também senti tua falta. Também te amo.


– V –


A primeira vez que menstruei, eu nem achei estranho. Já havia sangrado outras vezes... Só não entendi por que sangrou sem doer nada, sem ter sido tocada por meu padrasto. Antes, ele dizia: “Deixa eu dar um beijinho que para de doer”. Naquele dia, mandou eu me lavar.

Também não sabia o que era TPM até parar numa penitenciária feminina...

— O que é, Su? Também tá de TPM? Ótimo! Agora somos duas, dividindo os mesmos cinco metros quadrados. Hãn?! Ah tá! Também te odeio, Su!

TPM na prisão é foda! Hoje, quis brigar no pátio com uma bonitinha que fez sombra no meu pé. Toda arrumada, de minissaia, até perfume! Pra quê? Pra quem? Quis dar na cara dela! Quem mandou fazer sombra em mim? Quem ela acha que é? Mal chegou na área e já quer me mostrar o quê? Que o tempo passou? Que daqui a pouco ela sai e eu continuo mofando nessa merda? Como ousa cobrir o meu sol sagrado?! Quem mandou ter sombras tão cheias de curvas?

— Su me disse que sou linda! Ela gosta de mim! Ela é cega de paixão! Ela é tão... doce.

Matou a mãe com uma machadada... Não gosto nem de pensar. Disse que a mãe a entregava na mão de alguns doutores, inclusive juízes, em troca de cesta básica. Chegou a me confessar que até gostava. O problema é que a mãe, arrependida, quis tirá-la dessa vida.

Eu entendo a Su. Quando se passa a vida toda sendo abusada, a gente perde a noção das coisas.


– VI –


A menstruação não desce, a TPM não cessa e a ressaca não cura. Acho que vou vomitar...

Su? Acorda, Su! Eu te amo!

Nasce um coração em mim e ele bate que nem tambor, que nem cassetete da polícia contra o escudo, em dia de rebelião. Tô tão emotiva que choro só de ver a Su dormir... — Olha, parece um anjo...

— Acorda, Su!

Meu peito tá maior. Meus quadris estão maiores... — Cadê a vadia das sombras voluptuosas, hein?! A que cobriu o sol do meu pé? Quero ver quem é a mais gostosa agora.

Tô enfezada. Não cago há três dias, mas mijo a cada dois minutos.

“Recomenda-se uma dieta balanceada em fibras para evitar a prisão de ventre”.

O ventre é muito exigente. Imagina? Se eu tivesse essa marra toda eu comeria Strogonoff. Aqui, preso não tem vez. A gente come o que tem e quem reclama fica com fome. Aliás, não tenho sentido muita fome não e nem tenho cheirado. Não vejo o Pereira há, pelo menos, oito semanas. Oito semanas...

— Pereira, filho da puta, eu falei pra não gozar dentro!!!!!


– VII –


Essa noite, minha mãe me apareceu. Não sei se em sonho ou como assombração. Balançava a cabeça e repetia:

— Que desgosto, meu Deus! Que desgosto!

Chorei. Pedi pra ela cuidar de mim, mas ela apenas repetia: 

— Que desgosto! Que desgosto!

Cravei um machado em sua cabeça e ela sumiu.

Acorda, Su! Tem fantasma na área.

Levanto, vasculho a cela inteira e nada! Estava tudo igual: as grades, o pôster do Roberto Carlos, a Su dormindo, os seis mil, quinhentos e setenta e blaus tracinhos riscados na parede... menos o machado. Onde consegui o machado? Por que não o usei pra fugir daqui? Procurei em cada milímetro dos cinco metros quadrados daquela cela e cheguei a uma conclusão: não havia machado. No fundo, no fundo, nem parecia direito a minha mãe. A história da Su era pesada demais... me impressionou. Por incrível que pareça, ainda me impressiono.

– VIII –


Há uma vida aqui dentro e não é minha. Há um coração pulsando que não é meu. Eu nunca tive nada — nada mesmo — talvez por isso eu queira ter o bebê. Me contenta saber que parte de mim vai sair desse lugar, que parte de mim vai poder ver a praia e beber água de coco.

Deve ter o quê? O tamanho de um amendoim? Não dá nem pra ver. Ninguém vai saber até a barriga caguetar.

Se for menina, vai se chamar Regina. Vai ser menina, tenho certeza. O mundo não carece de mais homens, não!

Regina... Era o nome da minha mãe — que Deus a tenha! Lembro pouco da minha mãe. Bem pouco mesmo. Lembro dela passando os dedos nos meus cabelos preu dormir. Acho que só lembro disso. Depois que ela morreu, essa função ficou pro meu padrasto e já não era tão bom. Não conseguia dormir.

Sinto muita falta dela, mesmo sem lembrar. Falta de praticamente tudo, até do rosto. Não consigo lembrar seu rosto... só dos cabelos, longos e cacheados. Quando penso nela, me vem um vestido vermelho — comprido e brilhante — e seus cabelos esvoaçados... Mas falta o rosto, então completo com a face de Nossa Senhora.

— Regina... Deve ser nome bíblico, não? Santa Regina? Acho que sim.

Do meu pai não sei nada. Não o conheci. Minha vó só falava dele como um monstro. Devia ser mesmo... Pra minha mãe aceitar, depois dele, aquele porco, meu pai devia ser o próprio belzebu! E sabe como é: filha do diabo...

Mas Regina, minha filha, não! Ela será diferente: doce e pura. Dormirá numa rede armada entre duas palmeiras, ao som do mar, amamentada com leite de coco.

— Salve, Regina! — gritarão as gaivotas, servindo-lhe sardinhas, camarões e biscoito Globo — Salve, Regina! Minha filha! Meu amendoim!


– IX –


Acenderam os holofotes. Tudo em mim brilha! Meu cabelo brilha, minha pele brilha, meus peitos... Teve até gente querendo me bater no pátio, nas tardes de sol. Eu brilhava mais que o sol.

Todas me olhavam. Desconfiadas, será? Daqui a pouco não vai dar pra esconder. O amendoim vai virar azeitona, a azeitona vai virar maçã, a maçã vai virar coco — que vai espernear, espernear... até virar bebê.

Queria eu espernear, espernear até a cadeia me parir, pelo menos por um dia. Iria te levar à praia, entrar no mar com o barrigão, que nem a Leila Diniz, livre...

Tenho saudade de pisar descalça na areia. Aqui não tem areia. Se tivesse, a gente cavava e fugia. É tudo cimento e ferro. Tudo cinza... como as pessoas.

A Su me disse que estou mais corada.

— Deve ser de vergonha. Tanta gente me olhando...

— Não! — retrucou ela — Você está diferente.

Dividir a cela com uma louca apaixonada é uma péssima ideia. Não há um só lugar para se ficar sozinha. Nenhum sofá na sala, nenhum banheirinho com porta. Nada! Somente cinco metros quadrados, com um beliche de um lado e o sanitário do outro. A Su participa de tudo na minha vida. Sabe quantas vezes vou ao banheiro, o tempo que levo no banho, o dia que menstruei pela última vez. Reconhece até o aroma característico dos meus peidos — se são meus ou não — durante os banhos de sol no pátio.

— Me deixa ter privacidade, Su, pelo menos, dentro de mim!!!

– X –


Ninguém mais liga pros meus seios, a pele corada e os cabelos brilhantes. A estrela do momento é a barriga — meu sol — e o mundo gira em torno dela. Está bem aparente, redonda, com o umbigo saltado e perninhas que dão chutes.

Não sei se lá fora é assim, mas aqui na prisão, toda mulher, por mais durona que seja, se sente um pouco mãe diante de uma grávida. Ou, pelo menos, algo parecido com avó. Passaram a me oferecer bolos e biscoitos, trazidos por seus familiares em dia de visita.

Quem esquartejou o marido me serviu chá para cólica. Quem matou a patroa cedeu-me um lugar ao sol. A que maltratava os filhos chorou e beijou os meus pés. Até as carcereiras sorriam e me davam bom dia. Me protegiam, me paparicavam... Receitavam remédios e mandingas passadas por gerações e gerações de ciganas e pais de santo. Receitas para todo tipo de dor, náusea, cansaço, gases e inchaço nos pés... Um verdadeiro manual prático da gestante, bem melhor que o Dr. De Lamare.

Mas nem tudo é perfeito. Mais cedo, encontrei o Pereira no corredor. Esticou uma carreira no chão, preu cheirar de quatro, grávida. Meu nariz é do vício, sempre foi, mas meu corpo pertence à Regina. O corpo todo: meus peitos, minha barriga, minhas costas que doem... É tudo dela... menos o nariz. O coração? No momento, o coração tá acelerado demais para sentir alguma coisa. Curvei-me como uma porca que fuça a terra, sobre as quatro patas — o corpo que pertence à Regina prostrado ao chão. O focinho pra farinha, o rabo pra linguiça... tá servida, ao Pereira, a feijoada. Me comeu, acariciando a barriga, enquanto eu cheirava o pó, grávida.

 — Se for menina, eu pego pra criar falou o desgraçado, babando nas minhas costas.

Meu padrasto me sorriu ao ouvido... Buuuú! Esperneei... Esperneei que nem você me ensinou, minha filha, pra ver se ele me largava. Esperneei, enquanto ele me sufocava contra o chão para silenciar o meu grito. Duas carcereiras me socorreram, com a ajuda de um agente. Antes, passariam direto, sem ver nada.

Pereira jamais vai saber que é o pai. Nunca irei contar. Gente que nasce sem mãe não tem o direito de ter cria. Não respeitaria nem o próprio sangue.


– XI –


Hoje, pela manhã, recebi a visita de uma assistente social. Regina ficará comigo os primeiros meses para amamentar. Depois, vai para um abrigo, sob a responsabilidade do Estado, até que eu cumpra a pena. Se tudo der certo, saio em cinco anos por bom comportamento. A Juíza determinará se terei, ou não, a guarda da criança.

Rezarei dois Pai Nossos, três Ave Marias e cantarei o Hino Nacional toda manhã, logo que me levantar, juro! Farei a Primeira Comunhão, a Crisma e o Programa de Socialização do Governo. E, acima de tudo, suportarei com paciência todo o amor descontrolado e dedicado a mim, vinte e quatro horas por dia, pela minha companheira de cela, Su. Amém! Declaro, também, para os devidos fins, que faz parte do meu novo comportamento, um linguajar mais formal. Amém de novo!

— Meretriz que te deu a luz, Su! Dá uma força aí! Ou melhor: Seja solidária com a causa, Su, por obséquio!


– XII –


As águas do mar batem no meu pé e recuam. Retornam acima dos joelhos e mais uma vez, molhando tudo: pernas, roupa, lençol... Como o mar veio parar aqui? Adiante, Regina sorri para mim, num barquinho.

— Su? Acorda, Su!

Um, dois, três, quatro

Um, dois, três, quatro

Su? Me ajuda!

Um, dois, três, quatro

Um, dois, três, quatro

— A bolsa estourou, Su. Acorda! 

Um, dois, três, quatro

Um, dois, três... — e vem o choro.

Posso até ouvir o som dos sinos soarem: Blem! Blem! Blem!

— Salve Regina, a inocente! A única, no meio de tanta gente ruim! 

Seu choro ecoa pelos corredores, acordando as presidiárias. Blem, blem, blem! — batem com força suas tigelas contra as grades. Todas, sem exceção, celebram a tua chegada.

— Salve Regina, a que alcançou a liberdade!!! Salve Regina, a coisa mais fofa desse mundo!

Carrego-a comigo o tempo inteiro no braço. Não a largo por nada. Se eu ficar de pé sem ela, caio pra trás, por falta do peso na barriga. O corpo acostuma em nove meses. Imagina o coração...

A assistente social veio conversar comigo. Trouxe a psicóloga junto.

— São seis meses aqui, minha filha, pra mamar. Depois, você vai para um lugar melhor. Se minha avó estivesse viva, você iria morar com ela. Lá era tão bom! Não tinha praia, mas havia um açude. E galinha ciscando, e terra, e pé de feijão plantado no quintal... Me perdoa, viu? Me perdoa por ficar triste! Por querer manter-te presa aqui comigo, pra não me sentir tão só.

A que rodou com crack fez um macaquinho rosa, com o nome Regina bordado. A que incendiou a tia ofereceu-me o ombro e chorou comigo, até o fim do dia, quando voltamos para a cela. A Su me recebeu em silêncio. Massageou os meus pés, ajudou-me com as fraldas do bebê, madrugada adentro, sem dizer uma palavra. Tarde da noite, tomou Regina nos braços e pediu para que eu descansasse. Não queria. São apenas seis meses. Não dá tempo pra dormir, só pra sonhar. É muito pouco, para quem já passou tanto tempo presa, para quem ainda tem que esperar cinco anos.

Fui esquecida na prisão de propósito, pra deixar de existir... Meu padrasto era afilhado da Delegada. Sumiram com minha ficha, apagaram o meu nome. Só deixaram a letra M. Quem iria gritar por mim? Não há ninguém por mim lá fora e, aqui dentro, não tenho voz. Eu não existo! Mas todas ouviram o teu choro, Regina. Agora sabem que estou aqui, que sou mãe. Graças a você, filha, sairei em cinco anos, por bom comportamento. Acharam justo, já que ninguém, além de mim, sabe há quanto tempo estou presa, nem o por quê, nem quem sou. Cinco anos é nada, pra quem já esperou tanto... Mas é tempo demais para quem ficará tão pouco ao teu lado, filha. Seis meses... Seis meses é toda uma vida para quem acabou de surgir no mundo.

— Adeus, Regina. Saia antes que te venham recordações deste lugar. Retorne, apenas, para me visitar, para que não te esqueças de mim também...


– XIII –


Nunca havia recebido visitas... Sou a pessoa mais antiga nessa penitenciária, tanto do lado de cá da cela, como do lado de lá. Não há uma prisioneira ou carcereira, nem copeira ou agente mais cansada desse lugar do que eu.

As pessoas entram e saem, mudam de patente... morrem.

Prazer, me chamo M.

Trouxeram minha filha apenas os três primeiros meses. Depois, não a trouxeram mais. Na última vez, já não queria mamar, apenas chorava.

— Toma peitinho, filhinha, ainda tem leite. Toma.

Bebê não tem vivência suficiente para exercitar a memória. Regina acabou esquecendo quem sou. Aliás, todos esqueceram. Quando a levaram, voltei a ser uma presidiária comum, sem ninguém pra chorar por mim. No momento, o único choro que se ouve nos corredores é o meu.

Não chorava desde os onze anos de idade. Foi quando minha mãe... Meu padrasto conseguiu espremer as últimas gotas que restavam. Depois disso, meus olhos secaram.

Você trouxe de volta o brilho no meu olhar, Regina. Agora, esse brilho escorre por meu rosto, salgando-o que nem o mar. Mas ninguém me ouve.

Faço como me ensinou, mas é diferente: choro pela dor que sinto, você, não. Você chora pela vida. E há tanto leite no meu peito para silenciar o teu choro... Escoa por meus olhos, transformado em lágrimas.

Dizem que uma vítima de estupro não deve gritar “Socorro!”, pois assustaria a ajuda. Ao invés disso, deve-se gritar: “Ladrão! Ladrão!”, que logo aparecerá uma multidão louca por um linchamento.

De uma forma ou de outra, esse tipo de pensamento é responsável por meu padrasto estar morto e eu aqui, presa. Deveria ser o contrário. O certo seria o contrário. Queria ver aquele filho da puta aguentar a cadeia, ainda mais com o histórico que tinha. Faria questão de visitá-lo, de gritar para todos os presos ouvirem o que ele fazia comigo, quando criança, enquanto ainda chorava a morte de minha mãe. Iria implorar para que eu fizesse o que fiz. Morrer foi pouco. Queria eu estar no lugar dele.

Passei a infância inteira berrando por socorro. Jamais alguém apareceu. Nunca houve quem gritasse por mim. Naquele dia, todos gritaram contra.

Foi ela! Foi ela!

As pessoas adoram linchamento. Quem são elas pra julgar se o que fiz é mais monstruoso que seus desejos de justiça? Quem sentiu a minha dor? Fui presa por cortar a cabeça do meu padrasto com um facão. Por pouco, escapei de ser esquartejada por uma multidão enfurecida, justiceira e sem motivo. Gritei por socorro, mas eles preferiram ouvir os que gritavam “Ladrão!”. Não deram a mínima importância ao que passei. Sangue derramado chama mais atenção do que sêmen na garganta de uma criança. Agora, estou eu gritando mais uma vez por socorro, num lugar onde gritar “ladrão!” não faz o menor sentido.

Depois que minha filha se foi, todas ficaram surdas. Mesmo presa, não sabia o significado de solidão... até agora.


– XIV –


Cento e cinquenta e sete milhões, seiscentos e oitenta mil segundos sem minha filha. É assim que tenho contado o tempo por aqui, já que os dias de cárcere não me dizem mais nada.

Há cinco anos, Regina livrou-se do meu ventre. Eu continuo presa. Uma ova que estaria livre por bom comportamento! Nem que eu virasse freira sairia desse lugar. Me largaram aqui para ser esquecida. Pra criar raiz e morrer. Só assim mesmo pra sair: morta.

Regina engatinhou, ficou em pé, aprendeu a andar... a falar mamãe pra uma outra mãe, a falar papai pra um canalha qualquer, com certeza, melhor que o Pereira.

— É chegada a tua hora, Pereira!

Encontrou a minha filha, semana passada. Quem a adotou é conhecida dele, mulher de um colega.

— A menina é bonitinha — disse ele. — E cheirosa.

Juro que, se tivessem me dado a oportunidade de sair hoje daqui, por bom comportamento, não teria feito diferente. Porém nada mudaria na minha vida, nem prolongaria a minha pena. O que eu tinha a perder? Um punhal cravado em sua garganta, rasgando até o queixo. Do seu bolso, apanhei um papelote com uns vinte gramas de pó e voltei para a cela.

Eram tantas carreiras esticadas, que se confundiam aos risquinhos na parede, da contagem dos dias. Mil oitocentos e vinte e seis dias sem Regina. Oito mil, setecentos e quarenta e oito dias presa nessa cela.

O coração passa de sessenta para cem batimentos por minuto. De cem a cento e setenta. Oitenta mililitros de sangue por pulsação; onze litros por minuto. É mais sangue do que tenho no próprio corpo.

Pra que tanta pressa? Ficará que nem eu, circulando, circulando... Andando quilômetros sem sair dos mesmos cinco metros quadrados. 

Duzentos batimentos por minuto... Doze gramas de pó no sangue. O resto, eu deixei pra lá. Sairei deste inferno.

Dois Pai Nossos, três Ave Marias! Cento e setenta e três voltas em torno da cela... Finalmente, estou livre! Saí hoje da prisão, às onze horas da manhã. Consegui minha alforria pintando o nariz de branco e, depois, de vermelho, a noite toda, até sangrar. Cheirei o suficiente para me deixar uns dois ou três dias ligadona, mas, antes do amanhecer, adormeci. Esse foi o meu habeas corpus...


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