PRATA DA CASA | CONHEĆA OS SEMIFINALISTAS: ELTON MESQUITA
- Casa Brasileira de Livros
- 29 de mai. de 2024
- 13 min de leitura
SOBRE O AUTOR
Elton Mesquita nasceu em Chapadinha, Maranhão. Tem 46 anos, é Católico, mora em São Paulo e é escritor, tradutor e roteirista.
O CONTO SEMIFINALISTA
O QUE A NOITE NĆO MATA
O rosto do homem era uma mƔscara.
Embora de momento a momento enxugasse a testa com o braço, fios de suor encontravam caminho até seus olhos, que ardiam e lacrimejavam. Franzia a testa e arreganhava a boca em uma carranca de dentes à mostra, fungando e arfando de calor, cansaço e fome.
Do céu sem nuvens o olho atento e inescapÔvel do Sol acompanhava a lenta jornada pela estrada. As coisas tremiam à distância no calor do meio-dia: pedras, pó, poucas plantas indistintas na paisagem fosca e sem sombras que, vista através das lÔgrimas, se estilhaçava na incerta miragem de uma visão fantasmagórica.
O homem estimou a hora do dia pela altura do astro e decidiu parar e descansar. Apoiando a axila no cajado (um galho de freixo retorcido cujo castão era um nó bruto de madeira), esticou os pés alternadamente, dando pequenos chutes para diante e massageando as panturrilhas. Então bebeu do odre que trazia à cintura, e após um momento de hesitação jogou Ôgua no rosto e nos cabelos.
Contava com Ć”gua para breve. A Ćŗltima semana fora um só longo dia repetido Ć exaustĆ£o, sem mudanƧas ou surpresas: o Sol o acompanhava por toda a manhĆ£ atĆ© perto do final da tarde, quando entĆ£o ventos fortes sopravam, levantando poeira, obrigando-o a proteger os olhos com as mĆ£os. ChumaƧos de nuvens escuras colidiam vagarosamente no cĆ©u borrado de cinza, difusos clarƵes lampejando nos pesados ventres negros. EntĆ£o a chuva. Gotas gordas estalando em moedas lĆquidas que escorriam pela pele, descendo pelas pernas, abrindo buracos na terra fofa e na poeira, deixando atrĆ”s de si o primeiro cheiro bom de petrĆcor.
O homem estudou o caminho. A maior parte do tempo seguia pelo ermo, encontrando algumas estradas que, pelo tamanho e estado de conservação, diziam o que precisava saber sobre as cidades próximas. A estrada em que agora estava compensava a estreiteza com um bem-conservado calƧamento de pedra, e ele viu a passagem freqüente de carruagens nas marcas de rodas largas e espaƧadas impressas na areia entre as pedras. E Ć margem, em uma estela decorada ele leu: āPARA O SĆTIMO PORTĆOā.
Aproveitando a pausa, levou a mão dentro da clâmide na altura do peito e apalpou o pequeno volume. Uma promessa de sorriso adejou em seus lÔbios mas não se cumpriu, e seu rosto assumiu uma expressão concentrada e tensa.
Ele se lembrou.
***
O vento levantava a areia e a arremessava às mancheias em sua direção. Ele cerrava os olhos, apertava a boca e seguia tateando à frente com o cajado sem ver o caminho, protegendo o rosto da poeira com o braço.
O calor e a fadiga mascaravam um pouco a dor nos pés. Um pequeno conforto, a ser pago quando viesse a noite e ele parasse para descansar o corpo, no trato firmado consigo mesmo de como sofrer ordenadamente: de dia, seguia em marcha puxada a passos largos, mas levava a mente vazia, dispersa na paisagem, absorta no esforço e no calor obsedante. à noite, repousava o corpo, mas a mente trabalhava madrugada adentro feito pedra de moinho, lentamente se erodindo contra o problema da existência.
O vago plano de procurar emprego nos estĆ”bulos de alguma cidade dissolvera-se junto com o dinheiro e a comida. Era herói, matara uma besta de lendas, mas tinha a consciĆŖncia suja de um crime inominĆ”vel e nem sequer cometido. Era prĆncipe, mas errava como um mendigo pelo mundo. Era jovem, mas seguia a custo pelas trilhas feito um velho, sobre pĆ©s estropiados que lhe dificultavam progressivamente o caminhar, como se com intenção maligna procurassem facilitar o destino profetizado pelo deus, venerado entre todos, que o arrancara displicentemente da estrada reta para jogĆ”-lo por caminhos tortuosos, condenando-o a uma existĆŖncia mais incerta que a dos cĆ£es. Longas horas madrugada adentro ele seguira o predeterminado percurso das estrelas, considerando a Ćŗltima ação libertadora de que dispunha e cuja mera possibilidade o fazia adiĆ”-la indefinidamente.
O homem caminhou por todo o dia até o final da tarde, quando a estrada começou a se elevar em direção à passagem pelas montanhas. JÔ não fazia calor. Nuvens cinzentas e baixas prenunciavam chuva para breve e um vento frio soprava pela estrada.
O cƩu rugiu. Um lento e derramado ribombar ecoou entre as nuvens como o ronco encrespado de um gato grande, e foi respondido pelos grunhidos famintos do seu estƓmago.
Uma pesada cortina dāĆ”gua se abateu sobre o mundo. O homem se deixou ficar parado, estĆŗpido de cansaƧo, com as costas um pouco arqueadas para trĆ”s e os ombros pensos, recebendo Ć”gua no rosto. Depois de algum tempo endireitou as costas, fincou o cajado no chĆ£o e continuou subindo pelo caminho cada vez mais Ćngreme, seguindo mais devagar e hesitante Ć medida que a forƧa da enxurrada aumentava.
NĆ£o havia abrigo Ć vista. Teria que seguir em frente, esperando que no topo da passagem as formaƧƵes rochosas pudessem protegĆŖ-lo da tempestade. Ele olhou para o vale mais abaixo. Um burrinho tolerava a chuva, impassĆvel, de cabeƧa baixa, mastigando tufos ralos do maqui. Algumas crianƧas nuas corriam e pulavam por entre as casas retangulares de adobe dos lavradores. Mais alĆ©m um poƧo, um canteiro de ervas suspenso num jirau. Olhando para o alto, ele viu a coroa negra das montanhas. O vento gemia escoiceando entre as rochas e o rumor vindo do alto ficava cada vez mais próximo Ć medida que o homem subia. A enxurrada agora corria em desimpedida torrente, ameaƧando fazĆŖ-lo deslizar e rolar na lama atĆ© lĆ” embaixo, e ele se viu forƧado a prosseguir rastejando de gatas, sentindo a firmeza do terreno Ć frente com a mĆ£o e o cajado. A Ć”gua e o barro respingando cegavam-no, seus ouvidos doĆam.
Ele decidiu ficar onde estava e esperar. Sentia-se cansado demais, e nĆ£o confiava nem em si nem no terreno de barro mole, de onde a pouco e pouco pedras se soltavam e rolavam pelo caminho atĆ© o fundo do vale. Sentado de costas para a chuva, voltado para o lugar de onde viera, com os braƧos apoiados nos joelhos e a cabeƧa baixa entre as pernas, ficou olhando sem ver enquanto o chĆ£o de barro se esvaĆa ladeira abaixo.
Uma faĆsca lampejou e sumiu sob a capa de Ć”gua turva. O homem se atirou sobre o objeto e sentiu a picada de alguma coisa que se enterrou profundamente na polpa macia da palma da mĆ£o direita. Ele urrou de dor, depois de raiva. E um longo rugido rolou pelo cĆ©u em resposta, ecoando pelas pedras e entre as nuvens. Ele trouxe a mĆ£o ferida para junto do corpo, e após contemplar serenamente as fitas sinuosas de sangue escorrendo, deu um suspiro e puxou o broche. Era uma jóia nova, de ouro ainda polido, mas bastante machucado. Mostrava um gigante recostado em algumas rochas sendo cegado por uma longa lanƧa sustida por dois homens. De bom gosto, boa feitura, como os que ele via em casa. Ele puxou um pedaƧo da clĆ¢mide, de onde cortou uma tira de tecido, e com ela enfaixou a mĆ£o.
Aos poucos a chuva enfraqueceu, enfim parou de todo. Após vasculhar a lama com o cajado e se convencer de que não havia mais nada de valor para ser achado ali, o homem prendeu o broche na clâmide e se levantou para recomeçar a caminhada. Uma fraca luz amarelada se filtrou de entre as nuvens, anunciando a chegada do anoitecer para dali a uma hora.
Ele seguiu em marcha puxada atƩ chegar ao cimo escuro da montanha, onde um caminho serpeava entre as longas rochas que, deslocadas em antigos tremores de terra, apontavam desencontradas para o cƩu. Ali decidiu parar, recobrar o fƓlego e encher o cantil nos nichos escavados nas rochas, gretas erodidas pelo tempo onde grossos veios de Ɣgua corriam e se depositavam.
Quando levava a mão enfaixada ao odre um homem apareceu do meio das pedras, pulando e patinando na lama a cada aterrissagem, mais escorregando que correndo estrada abaixo a toda velocidade. O estranho, um homem de barba negra rala, calvo, com um estÓmago redondo sobre pernas franzinas, passou veloz, sem dar tempo de perguntar nada; seguiu caindo, se ralando nas pedras miúdas, erguendo-se e continuando sem olhar pra trÔs. Sumiu numa curva e então veio o grito:
ā Volte! Volte daĆ!
O homem sacou a espada e com um movimento rÔpido enrolou a ponta da capa no braço esquerdo, que então levantou para diante à maneira de um escudo.
Salteadores. Ele nĆ£o os temia, era um soldado lĆŗcido e bem treinado e sabia que bandidos de estrada eram no mais das vezes gente desesperada, que agia por impulso e sem organização, brandindo armas precĆ”rias, mal manuseadas. Seria um bom exercĆcio para as juntas que ele jĆ” sentia enrijecer.
Ele prosseguiu lentamente, passando por entre os blocos de rocha entulhados, subindo e descendo por eles como se fossem degraus, entranhando-se cada vez mais pelo caminho recamado de sombras atƩ chegar a um ponto em que o terreno se tornava um declive.
O vento suplicava e zombava às suas costas. E ele ouviu outra coisa por trÔs do vento: um som engasgado e Ôspero, uma espécie de chiado; ataques ritmados de ar soprado por alguma passagem estreita e úmida. Perto. Então o fedor o atingiu, fazendo-o cobrir o nariz com o braço protegido. Cheiro forte de sangue velho, carniça e excremento.
O som e o cheiro ficavam mais intensos Ć medida que ele avanƧava. As rochas se afastaram, revelando um anfiteatro natural no ponto em que o caminho terminava num rebordo de pedras. Dali tinha-se uma visĆ£o desimpedida do proscĆŖnio logo abaixo. O homem se deitou de bruƧos na ponta de rocha mais avanƧada e olhou e viu entĆ£o a criatura de costas, tossindo como os gatos quando expulsam pĆŖlo da garganta. Uma versĆ£o de pesadelo dos leƵes, suja e mal-tratada, com o pĆŖlo escuro manchado de sangue antigo e recente, contorcendo-se e estirando-se para diante em arranques pausados, asas abrindo, fechando e se armando para trĆ”s e para o alto em desalinho a cada acesso, espalhando longas penas negras infestadas de piolhos pelo chĆ£o. A face vista de relance ao se voltar um pouco para trĆ”s era uma grotesca imitação do rosto humano, como se construĆda a partir de instruƧƵes mal compreendidas, movendo-se trĆŖmula sobre um colo murcho de onde pendiam seios secos e peludos, de aurĆ©olas negras e rachadas. O cabelo sujo e desgrenhado, empastado de sangue seco de sol e poeira, emoldurava uma expressĆ£o faminta e maligna, de Ć¢ngulos e proporƧƵes aberrantes. E pior que qualquer coisa, a voragem escura da boca muito grande, contorcida num ricto que arremedava um sorriso e revelava dentes em fileiras desconjuntadas.
O lugar era uma ruĆna desolada. O chĆ£o, irregular e empedrado, era manchado de marrom, vermelho e negro. Fatias de colunas tombadas se espalhavam, erodidas, próximas Ć base das rochas altas. Do lado direito, no canto do palco semicircular, ainda era possĆvel ver indĆcios de uma pequena escadaria de degraus baixos, quase totalmente coberta por hera e musgo. Havia ossos por toda a parte, róseos, vermelhos, negros e brancos. A um canto, um crĆ¢nio ainda coberto por cabelo loiro cingido por uma tiara que parecia ter sido colocada ali com displicĆŖncia, como zombaria. O vento soprava tufos de cabelos de muitas cores, agora igualadas no tom baƧo da morte em meio a poƧas de sangue e jóias ensangüentadas cobertas por moscas. Broches de ouro e esmeralda, anĆ©is de rubi, braceletes de ametista, colares e brincos⦠Espalhadas sobre os montes de ossos, aparecendo por entre as pilhas de excrementos e os chumaƧos de cabelo. Uma pequena fortuna em ouro e pedras.
A criatura finalmente expeliu o que a incomodava ā uma massa de longos e Ćŗmidos cabelos humanos ensangüentados ā e se voltou agilmente na direção das pedras onde o homem se escondia. Ele quedou paralisado. NĆ£o ousava levantar a cabeƧa para ver, mas podia ouvir tudo: passos se aproximando e se afastando, e uma contĆnua e engrolada queixa, numa voz mais repelente por quase parecer humana, voz alquebrada de quem padece alguma falta ā sede, fome ou solidĆ£o.
O homem fechou os olhos e levou a mão ao cabo da espada e esperou, respirando suavemente. Como se encontrasse escondido, aos poucos foi conseguindo dominar o terror que amortecia os sentidos e as idéias, e então se pÓs a considerar um plano de ação. Só precisava recuar bem devagar, sair dali em silêncio e procurar outro caminho para descer, ou mesmo voltar por onde viera e dar a volta pelo pé da montanha, e viveria ainda. Mais, até: iria à cidade mais próxima arregimentar mercenÔrios e voltaria para matar a criatura.
A rocha em que ele estava rangeu alto, cambaleou para frente e desabou com um alto fragor, trazendo-o para o chĆ£o de uma só vez em meio a uma chuva de lama e pedregulhos. Seu quadril colidiu contra uma quina de rocha e o homem gritou ao ver a espada lhe escapar da mĆ£o, indo cair a meio caminho entre ele e a fera. Ele se arrojou de cara no chĆ£o e a lama o cegou. A Ćŗltima coisa que ele viu foram os olhos amarelentos da criatura focando-se nele, seu rosto reconfigurando-se numa expressĆ£o abjeta de surpresa feliz e faminta. O homem comeƧou a rastejar de quatro na direção onde calculara ter caĆdo a espada, machucando os cotovelos e joelhos nas pedras e ossos, se sujando de escória animal e sangue velho. Com um Ćŗltimo impulso desesperado se jogou para diante, e sua mĆ£o tocou o cabo da arma. A lufada das grandes asas batia cada vez mais perto, e no instante seguinte a sombra da criatura o encobriu, crescendo rapidamente ao se abater sobre ele com violĆŖncia. De olhos fechados o homem gritou e, de joelhos, golpeou o espaƧo Ć frente. A espada atingiu o flanco da criatura e reverberou cantando como se atingisse mĆ”rmore. Um rugido atroou nas trevas. Gotas de saliva salpicaram-lhe o rosto e um bafio morno e fĆ©tido o envolveu, queimando-lhe as narinas, revirando-lhe o estĆ“mago e provocando convulsƵes de enjoo. Ele sentiu a tontura do desmaio, sua boca se encheu de saliva.
PrĆncipes e princesas como ele. Brinquedos caros, enfeites e perfumes e agora poƧas de sangue alimentavam as moscas, excremento e tufos de cabelo sem nome e sem história se espalhavam pelo chĆ£o. Outro rugido e um forte impacto no torso o derrubou e prendeu ao solo, o braƧo armado subitamente imobilizado por um grande peso. Cabelos roƧaram-lhe o rosto e o peito e o homem soube que a coisa aproximava a cabeƧa. Um sopro pestilento chegou atĆ© ele e gotas de saliva pingaram e escorreram por seu rosto anunciando que a grande boca se abria. De olhos fechados ele esperou o dilaceramento, um braƧo cobrindo os olhos, o outro preso, retesando os mĆŗsculos na antecipação da violĆŖncia,resfolegando de pavor e de cansaƧo.
Mas o golpe fatal não veio então. E uma voz se fez ouvir nas trevas:
Existe um ser de vƔria voz.
Pés ele os tem quatro, dois, três.
Nada hƔ na terra, cƩu ou mar
Tão inconstante, estranho ou só.
Quanto mais pƩs, mais lento fica,
Mais e mais fraco, cego e mouco.
DECIFRA-ME OU TE DEVORO.
*
A chuva voltou a cair em aguaceiros intermitentes noite adentro. O homem encontrara um vĆ£o escavado em uma parede encimado por uma projeção de pedra e decidira passar a noite ali. Por muito tempo quedou pensativo, olhando sem realmente ver a pequena recompensa sinistra que tomara para si, sopesando o objeto conspurcado, que sacrifĆcio algum purificaria. Sua mente remoĆa e revirava cada faceta do acontecido com a obsessĆ£o dos culpados, encontrando muitas ocasiƵes para escĆ”rnio próprio e reprovação.
A vitória fora-lhe antes concedida com condescendĆŖncia que conquistada. Fora pusilĆ¢nime: nĆ£o o salvara a astĆŗcia de que tanto se orgulhava nem a forƧa fĆsica, e sim o desespero e a exaustĆ£o num momento de fraqueza que o deixara prostrado e sem ação, gritando apenas:
ā Sou eu! Me mata! Sou eu!
Mas o golpe fatal não viera então.
O peso em seu peito aumentou repentinamente quando a criatura tomou impulso, e o homem achou por um instante que suas costelas iriam se partir. Foi empurrado para trÔs com violência pelas pesadas patas traseiras e tudo ficou em silêncio. Quando conseguiu abrir os olhos, depois de lavÔ-los com Ôgua do cantil, o monstro não estava mais ali.
Mais de uma hora se passou até que ele se acalmasse de todo. O homem considerou por um momento seguir viagem, mas a perspectiva de descer a montanha no escuro o oprimia e ele decidiu procurar um lugar para passar a noite. Antes, no entanto, pusera em prÔtica a idéia que tivera jÔ na primeira vez em que vira o cenÔrio grotesco. Trabalhando diligentemente, com uma estranha euforia, em pouco tempo juntou algumas peças de ouro incrustadas com jóias, com a intenção de derretê-las na primeira oportunidade.
Ele dormiu um sono esgarƧado e inconstante, acordando a intervalos, sobressaltado por relĆ¢mpagos, levantando-se e partindo em busca de melhor abrigo ou tremendo de frio encolhido pelos cantos, coberto com o manto Ćŗmido e protegendo-se como podia do vento. Vagou no escuro por trilhas tortuosas entre as silhuetas distorcidas da vegetação raquĆtica, fantasmas espasmódicos que uivavam retalhando o vento entre os galhos. Pensamentos e lembranƧas sinistras o seguiram por toda a noite, que se estendeu em horas interminĆ”veis entrecortadas de vigĆlia e sono atribulado contra um imutĆ”vel fundo negro atĆ© que num surdo paroxismo de agonia em uma hora perdida da madrugada ele fraquejou pela segunda vez e em delĆrio acreditou que a noite jamais acabaria e que se encontrava preso para sempre em um limbo eterno de suplĆcios. Reconhecendo a hora inescapĆ”vel ele caiu de joelhos e, curvando-se para o chĆ£o, lanƧou o lamento contra o cĆ©u apagado:
ā Ototoi, popoi da! Apollon! Apollon!
NĆ£o soube precisar quanto tempo se passara, mas em determinado momento a chuva parou.
Ele se levantou, se enrolou com o manto e seguiu, calmo e decidido, tateando pelas trilhas, achando caminho por entre os recessos escalavrados de rocha escorregadia até chegar na borda escarpada da montanha onde grandes blocos de pedra se empilhavam, projetando-se nas alturas. Ele deu o último passo à frente e a ponta do pé direito passou o rebordo de pedra.
Era noite e seria noite para sempre. Ele considerou o abismo escuro com um sorriso desapegado. Uma Ćŗltima ordem, um Ćŗltimo esforƧo dos mĆŗsculos, o abandono sem peso no cĆ©u vazio e o fim. O homem ergueu a vista para o alto, suspirou e fechou os olhos, dobrou um pouco os joelhos e inclinou o torso para diante, esvaziando-se de pensamentos e medos na hora final, suspenso nas alturas, quedando-se um pouco ainda e remoendo agora a questĆ£o premente que se apresentara de sĆŗbito diante de sua mente, sobre se teria o tom do cĆ©u noturno se alterado enquanto ele permanecia de olhos fechados, ou se seria apenas o medo que o retardava mesmo agora depois de perdidas todas as esperanƧas, e notando o medo que retornara aos poucos feito um escravo escorraƧado ele entendeu finamente e entĆ£o abriu os olhos. Sua vista passou da escuridĆ£o completa sob as pĆ”lpebras para o primeiro tom de azul escuro que a pouco e pouco sobressaĆa do fundo da noite. Perto da linha do horizonte as estrelas mais fracas comeƧaram a se apagar.
A noite terminara.
Ele sentiu a mente desanuviar-se como se um deus benevolente soprasse para longe a nƩvoa que a sufocava. Seus ombros se relaxaram e ele suspirou profundamente.
A leste ele viu a linha clara do dia se desenhando e incendiando em dourado e rosa a base das primeiras nuvens, e à claridade que aumentava ele pÓde ver as terras em redor ganhando contorno e nitidez. De onde se encontrava tinha visão desimpedida das terras mais à frente, e reconheceu o ponto em que a estrada que vinha seguindo se bifurcava. Era a conhecida encruzilhada dos Três Caminhos. Perto dali, Tebas e uma recepção de herói o aguardavam.
Mais alĆ©m, descendo alguns quilĆ“metros para o fundo de um vale, ele viu um pequeno acampamento sendo desmontado lentamente enquanto alguns homens ā seis pontos negros na distĆ¢ncia ā se preparavam para retomar viagem. Parecia uma caravana importante: quatro cavaleiros de escolta e uma grande carruagem dourada que faiscava Ć luz do novo dia.
Ele se sentiu melhor, mais confiante. Se descesse agora e seguisse em passo puxado em direção ao grupo, os alcançaria mais ou menos na altura em que a estrada se bifurcava, e eles com certeza teriam comida, que ele poderia trocar por uma das joias em melhor estado dentre as que coletara.
Firmando-se na beira da escarpa ele fitou o abismo com tranquilidade uma última vez antes de partir, e se surpreendeu então ao ver a forma da criatura, estatelada pateticamente entre as pedras lavadas de Ôgua e sangue lÔ embaixo.
Ela quebrara o pescoƧo na queda e sua cabeƧa se voltara para trĆ”s num Ć¢ngulo grotesco. Seus olhos fitavam o homem com uma expressĆ£o que a ele pareceu indefinida Ć luz ainda incerta: ora sugeria alĆvio, ora terror, ora pena.
