PRATA DA CASA | CONHEĆA OS SEMIFINALISTAS: MAURA VOLTARELLI ROQUE
- Casa Brasileira de Livros
- 20 de mai. de 2024
- 2 min de leitura

SOBRE A AUTORA
Maura Voltarelli Roque nasceu em SĆ£o JosĆ© do Rio Pardo, interior de SĆ£o Paulo, em 1989, e vive em Campinas desde 2007. Ć escritora, crĆtica literĆ”ria e pesquisadora. Possui mestrado e doutorado em Teoria e História LiterĆ”ria pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e pós-doutorado em Teoria LiterĆ”ria e Literatura Comparada pela Universidade de SĆ£o Paulo (USP). Realizou estĆ”gios de pesquisa em Paris, na FranƧa, pelo perĆodo de um ano. Seus estudos mais recentes tĆŖm se voltado para um diĆ”logo entre a palavra e a imagem a partir das figuraƧƵes da Ninfa na literatura brasileira. Ć autora dos livros de crĆtica literĆ”riaĀ O Sequestro da NinfaĀ (2024), sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade, eĀ Amar, depois de perder: uma poĆ©tica da NinfaĀ (2021), alĆ©m do livro de poemasĀ NymphĆ© e outros poemasĀ (2014) e de diversos artigos cientĆficos na Ć”rea de literatura brasileira, teoria e crĆtica literĆ”ria e artes visuais.
O POEMA SEMIFINALISTA
Estou morta (não vês que ardo?)
āA morte de uma mulher bela Ć©, sem sombra de dĆŗvida, o tema mais poĆ©tico do mundo.ā
Edgar Allan Poe, āA filosofia da composiçãoā
Meu horizonte era a grisalha de Paris,
Ćtaca era longe, Ćtaca era logo ali.
Parei de contar os decassĆlabos,
parei de contar os dias iguais.
Como me foi doce aquele estilhaƧo de tarde,
Ćntimo de lĆ”grimas que fluĆram
para dentro.
Pensei em como seria tragicamente romântico afogar-me
nas Ɣguas esverdeadas do canal de Saint-Martin,
tomaria para mim aquela ausĆŖncia
larga, soturna, antiga.
NĆ£o nasci do esperma de nenhum deus,
do sangue do cƩu ferido pelo tempo,
mas meu ventre Ʃ histƩrico qual vento
a varrer e arrastar e escorrer
todos os desejos.
O lenƧol branco, o abismo e o mar.
Do meu corpo submerso não restarão
flores na superfĆcie lĆquida.
Ele saberĆ” mergulhar fundo
cada vez mais fundo.
O amor, que move o sol e as estrelas,
talvez as montanhas,
não pode nos salvar.
Só dois remĆ©dios: esquecer, esperar.Ā
O cheiro o gosto o olho seco,
o tecido do tempo a esvoaƧar.
Nem perfume
ā insólito e demente ā
nem musgo pegajoso e imundo,
gemido de vĆscera inconformada,
arabescos a enlaƧar-se e desatar-se
nada mais que um abandono
e nĆ£o hĆ” palavraĀ
vil, amarga,Ā
de que eu goste mais.
Onde terĆ” vocĆŖ me deixado?
Onde suas fotografias vazias,
seus abraƧos distantes, seus remorsos?
Nem os fogos de artifĆcio
em um céu de verão
tĆŖm a bela desordem
de um amor que acorda.Ā
Vapores, os pĆ”lidos paraĆsos.Ā
Aos fantasmas dedico
tais volteios indecisos
e o arrepiar de sƩculos.
O olhar que despe se demora...
Ainda uma vez, perdi
o nevoeiro do teu rosto.
Todos os rostos são impenetrÔveis
e o segredo das suas noites ofuscadas
e o horror que não se alcança
e o vasto prazer, quieto, profundo
Ć© longo, deliciosamente longo.Ā
