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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS FINALISTAS | Ovídio Poli Junior (Categoria Microconto/Semifinalista Categoria Poema)

há 3 dias
2 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Ovídio Poli Junior é escritor e curador literário. Colaborou com resenhas no jornal lRascunho e participa de eventos literários como autor e mediador. Foi finalista do Prêmio Guimarães Rosa/RFI (Paris) e teve destaque em prêmios literários brasileiros. Publicou O caso do cavalo probo (novela satírica), Sobre homens & bestas (contos), A rebelião dos peixes (infantil), Na varanda: artigos e ensaios de crítica literária e Terra Brasilis (poemas-crônica). 


O TEXTO:


Engenho


A velha moenda esmaga o bagaço – e do braço que forjou do cobre o tacho apaga o traço. No alambique um negro-novo, um pretinho macambúzio, recém-chegado de Moçambique. No fogo ferve o melado. E a cachaça serve de paga à vida que se apaga.

OVÍDIO TAMBÉM FOI SEMIFINALISTA NA CATEGORIA POEMA. EIS O TEXTO:

O limo verde das estátuas


I - Brecheret

Da maquete à obra

três décadas:

entre a goiva da memória

e o fincar no chão.


Daqui a séculos

(quando todos estivermos calcinados)


lá estarão os cavalos com suas patas imóveis

a fitar o horizonte da metrópole engolida pelo pó.


No Monumento às Bandeiras

(epopeia talhada em granito) gravou-se a alma paulistana:


rasgando o tempo com a lâmina do trabalho,

peneirando o ouro com a concha das mãos.


(poesia escrita sobre a pedra bruta)


II - Borba Gato

Vai, bandeirante,

perdido entre os semáforos

em meio à praça


– não liga para os transeuntes

com seus passos apressados.


Vai, bandeirante,

segue adiante,

rasgando ventres e fronteiras

escreve em basalto e mármore o mapa do Brasil.


Vai, meu nego,

tu és o verdadeiro mentor desta terra

tu forjaste com teu trabuco


essa pátria de eunucos

e a cruel indiferença paulistana:


que dá bom-dia todos os dias

nos elevadores sociais


que rasga a Constituição

e foge pra Lisboa


quando aqui não adianta mais.


III - Tombamento

As estátuas

caem, tombam, desabam


como árvore em tempestade

como gente pelo tempo.


As estátuas rolam,

como pedra em corredeira,

o limo toma-lhes o corpo


a estrutura toda

corroída-oxidada.


Nem mesmo as de cobre ou bronze escapam

à ação dos fungos e líquens:

algumas não se sustentam

nem mesmo em sua própria época


algumas não sustentam

nem mesmo seu próprio peso

– até mesmo as equestres.


Mas certos homens ficam

na mente do povo

ao longo dos séculos

– outros, mesmo corpóreos,

memória inútil a reluzir na sombra,

nada fazem senão perecer.

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