3º Prata da Casa | CONHEÇA OS FINALISTAS | Ovídio Poli Junior (Categoria Microconto/Semifinalista Categoria Poema)

SOBRE O AUTOR:
Ovídio Poli Junior é escritor e curador literário. Colaborou com resenhas no jornal lRascunho e participa de eventos literários como autor e mediador. Foi finalista do Prêmio Guimarães Rosa/RFI (Paris) e teve destaque em prêmios literários brasileiros. Publicou O caso do cavalo probo (novela satírica), Sobre homens & bestas (contos), A rebelião dos peixes (infantil), Na varanda: artigos e ensaios de crítica literária e Terra Brasilis (poemas-crônica).
O TEXTO:
Engenho
A velha moenda esmaga o bagaço – e do braço que forjou do cobre o tacho apaga o traço. No alambique um negro-novo, um pretinho macambúzio, recém-chegado de Moçambique. No fogo ferve o melado. E a cachaça serve de paga à vida que se apaga.
OVÍDIO TAMBÉM FOI SEMIFINALISTA NA CATEGORIA POEMA.
EIS O TEXTO:
O limo verde das estátuas
I - Brecheret
Da maquete à obra
três décadas:
entre a goiva da memória
e o fincar no chão.
Daqui a séculos
(quando todos estivermos calcinados)
lá estarão os cavalos com suas patas imóveis
a fitar o horizonte da metrópole engolida pelo pó.
No Monumento às Bandeiras
(epopeia talhada em granito) gravou-se a alma paulistana:
rasgando o tempo com a lâmina do trabalho,
peneirando o ouro com a concha das mãos.
(poesia escrita sobre a pedra bruta)
II - Borba Gato
Vai, bandeirante,
perdido entre os semáforos
em meio à praça
– não liga para os transeuntes
com seus passos apressados.
Vai, bandeirante,
segue adiante,
rasgando ventres e fronteiras
escreve em basalto e mármore o mapa do Brasil.
Vai, meu nego,
tu és o verdadeiro mentor desta terra
tu forjaste com teu trabuco
essa pátria de eunucos
e a cruel indiferença paulistana:
que dá bom-dia todos os dias
nos elevadores sociais
que rasga a Constituição
e foge pra Lisboa
quando aqui não adianta mais.
III - Tombamento
As estátuas
caem, tombam, desabam
como árvore em tempestade
como gente pelo tempo.
As estátuas rolam,
como pedra em corredeira,
o limo toma-lhes o corpo
a estrutura toda
corroída-oxidada.
Nem mesmo as de cobre ou bronze escapam
à ação dos fungos e líquens:
algumas não se sustentam
nem mesmo em sua própria época
algumas não sustentam
nem mesmo seu próprio peso
– até mesmo as equestres.
Mas certos homens ficam
na mente do povo
ao longo dos séculos
– outros, mesmo corpóreos,
memória inútil a reluzir na sombra,
nada fazem senão perecer.





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