3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Marina Cyrino Leonel (Categoria Crônica)

SOBRE A AUTORA:
Marina Cyrino Leonel é escritora e autora de Clay, livro infantil publicado pela Editora Labrador. Formada em Medicina Veterinária, passou por diferentes caminhos profissionais até escolher a escrita como profissão. Desde então, vem construindo sua trajetória por meio de projetos autorais, entre eles sua newsletter no Substack, onde compartilha suas crônicas e processos criativos. Atualmente, vive no Arizona, nos Estados Unidos, onde se dedica ao estudo da escrita criativa com foco em ficção e trabalha em seu primeiro conto.
O TEXTO:
Fala sério, vó
– Eu vi. Tenho certeza. Vi a Maricotinha na TV com o Papa.
Faz alguns minutos que minha família está absorta em uma discussão acalorada. De um lado da mesa, meus pais e minha tia. Do outro, minha avó. Puxo uma cadeira:
– Quem é Maricotinha?
– É uma senhora que aparece na missa de vez em quando e senta lá na cara do padre.
Tem um cabelinho bem branquinho, curto – explica minha mãe, com um aceno displicente.
– Você não vai saber quem é.
– Eu tenho certeza que era ela! A Maricotinha do lado do Papa, eu vi.
– Mãe... – Meu pai sustenta a cabeça com o cotovelo apoiado na mesa, ao lado da xícara de café. – Essa veiarada tem tudo a mesma cara. Você se confundiu.
– Com certeza passou uma velhinha de cabelo branco na TV, miudinha, e você achou que era ela – completa minha tia, cortando uma fatia de pão francês.
– Não confundi! Vocês que estão duvidando de mim, achando que sou velha caduca.
Eu vi. Vi a Maricotinha com o Papa.
Nem preciso pensar em qual partido tomar. Quais são as chances de a câmera registrar a franzina Dona Maricotinha no meio do mar devocional da Praça de São Pedro?
Minha avó deve mesmo estar ficando confusa. Coitada. Tento entender o que ela viu na televisão:
– Como era esse programa? Mostrou aquela benção pública lá na Praça?
Minha tia larga o pão e cruza os braços.
– Marina. Você acha que a Dona Maricotinha tem dinheiro para ir até a Itália? – diz, revirando os olhos azuis para o teto. – Ela é humilde de tudo, judiação. Mal pode comprar uma passagem de ônibus para Carapicuíba.
– Não foi na benção! – Esganiça minha avó, se empertigando na cadeira de madeira.
– Foi um evento chique. Um evento particular! Ela estava dentro do Vaticano, numa sala cheia de cônegos e gente importante. Tirou foto ao lado do Papa e tudo.
Nos entreolhamos.
Caímos na risada.
Minha tia me passa a manteiga e meu pai confere o placar do jogo do Palmeiras no celular. Mas minha avó não está pronta para deixar o assunto morrer em paz.
– Vocês são uns tontos! Quanto vocês querem apostar? Aposta mil reais cada um, vai.
– Quer saber, vou pesquisar no Google. – Meu pai coloca os óculos de leitura e digita com o dedo indicador. – Ma-ri-co-ti-nha e o Pa-pa
Minha vez de revirar os olhos. É cada uma. Prefiro me concentrar no pão francês com queijo prato.
– Achei.
– Achou o quê?
– “Maricotinha encontra o Papa no Vaticano”.
– QUÊ?! – Minha mãe se inclina na cadeira para espiar a tela. Seus olhos se arregalam tanto que engasgo com o lanche.
– Não é possível. Deixa eu ver! – digo, e me debruço sobre a mesa para pegar o celular do meu pai.
A reportagem é estampada pela foto de uma senhorinha toda sorrisos, vestindo a protocolar roupa preta e posando ao lado dele.
O Papa.
“Maricela Sousa de Jesus, mais conhecida como Maricotinha, esteve em uma conferência particular com o Papa no último final de semana. Essa já é a décima visita da vice-presidente da Rádio Som da Paz ao Vaticano, onde se reúne com a Vossa Santidade...”
– Ela é vice-presidente da Rádio! – Tenho que gritar em meio as gargalhadas que tomaram conta da mesa do café.
– Eu falei para vocês! Devia ter apostado um dinheirão, agora estava rica.
É, vó. Falou mesmo.
Toda vez que vou à missa procuro a Dona Maricotinha. Mas ela nunca mais apareceu.





Comentários