3º Prata da Casa | CONHEÇA OS VENCEDORES | Geraldo Dias da Cruz (3º LUGAR — Categoria Poema)
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O TEXTO:
Oração da manhã
Acordo com o peso exato do mundo
equilibrado no parapeito da janela.
A manhã não promete: apenas chega,
com seu pão de luz e o café das horas.
Deus – se és palavra –
entra devagar neste quarto comum,
onde a cama ainda guarda o formato do cansaço
e a alma, amassada, pede ferro e silêncio.
Não te peço milagres.
Já me basta o milagre mínimo
de respirar sem culpa,
de aceitar o dia como quem aceita um espelho.
Ensina-me a convivência com o instante:
a paciência do semáforo,
a humildade do ônibus cheio,
a matemática secreta do salário curto.
Que eu não odeie antes do meio-dia,
que eu não julgue antes do almoço,
que eu não desista antes da noite
- Eis minha fé provisória.
Dá-me olhos para o invisível cotidiano:
o cachorro que atravessa a rua como um filosofo,
a mulher que sorri sem saber por quê,
o menino que inventa o futuro com um graveto.
Se houver dor, que seja legível.
Se houver alegria, que não se esconda.
Se houver amor, que não peça desculpas
por existir fora dos planos.
Abençoa este corpo cansado de promessas,
esta mente que pensa demais,
este coração que ainda tropeça
na mesma pedra chamada esperança.
E quando o dia falhar –
porque os dias falham –
fica comigo no resto,
no pouco, no quase humano.
Amém não como ponto final,
mas como virgula discreta:
contínuo andando,
com a manhã dentro de mim.





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