6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS FINALISTAS | André Salomão das Neves — Categoria CONTO
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- há 4 dias
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A CRÔNICA FINALISTA:
O arquimago em sua torre
O caos começa com um relógio Casio à prova d’água. O marco zero. Um acessório banal, desses comuns que 3 a 5 brasileiros tiveram, têm ou terão. Um item crucial no starter pack capixaba, além das sandálias havaianas, mochilas Company e pulseiras de miçangas. O plástico da pulseira do relógio estava macerado e mastigado. O brevíssimo tempo sobre os ladrilhos do calçadão de Conceição da Barra foi a medida certa para que pérolas de sal envernizassem sua superfície. O canto superior direito estava trincado, e essa ferida vítrea se ramificava ao longo do display de LCD como teia de aranha.
Ou caído, ou escapado, ou escorregado do pulso magro e suado de um estranho, sem produzir som de queda, nem ausência na pele, nem qualquer que fosse o sobressalto de quando damos falta de um item que, agora, pertence às raias da dúvida. O crepúsculo sobre o mar cor de cobalto era uma linha tênue que separava a tarde do fim de tarde enfim. O horizonte em queda recortava o Tempo em duas partes: uma para mim, outra para você. Os ventos salgados logo, logo teriam ocultado por toda a eternidade o relógio desafortunado se não fossem as mãozinhas pardas de Humberto — um garoto de 10 anos, 3 meses e 254 dias — que na hora H, encontrou no relógio perdido o brilho do Santo Graal, resgatando-o dos lençóis do esquecimento.
Os olhos de Humberto criança eram capazes de escanear os objetos mais depreciados e irrelevantes e transformá-los nos artefatos que os faraós colecionavam em vida para herdá-los no pós-morte, ou em versões reduzidas da Caixa de Pandora, prestes a explodir de tanto significado selado. Não importava se era um chinelo desmembrado desenterrado em Itaúnas, ou um álbum descartado de cartões telefônicos da Telemar, ou moedas, infinitas moedas, de 1 e de 5 centavos, encravadas nos paralelepípedos da pousada Varanda da Praia. Quando Humberto escavava essas relíquias, era assaltado por uma vibração esquisita e, sem embromação, sentia o impulso de dar abrigo aos ídolos desdenhados que habitavam suas peregrinações.
O quão triste é um boneco Max Steel sem uma criança para imbuí-lo de vida, tal qual um pequeno deus, e batizá-lo como se se tratasse de um ente senciente. O quão triste é a rua de um bairro suburbano em época de período eleitoral, depois de um dilúvio de flyers de deputados e vereadores ineptos que raramente se convertem em votos. O quão triste é um Corolla seminovo com ar-condicionado de fábrica e trava elétrica largado há duas semanas no estacionamento melancólico de um Supermercado Casagrande, em meio a bolas de feno e matilhas de caramelos.
De forma virulenta, a tendência Achados e Perdidos de Humberto Colodetti rapidamente ganhou contornos criminosos. O acaso se transformou em plano calculado, e o prazer proibido, num alvo cada vez mais inalcançável. O dique do Humberto adulto se rompeu, encharcando cada instância de sua vida com uma tendência cleptomaníaca e uma paranoia pulsante. Os limites da Constituição Federal não eram limites para o gozo furtado. Ele aprendeu a viver aquém da lei, embora não soubesse precisar a quem servia. Os seus desejos eclipsavam sua personalidade de modo escatológico, reduzindo-o a um pontinho irrelevante no seu oceano interior. Ele era o que era porque roubava? Ou ele roubava porque era o que era?
O resto de sua adolescência e o começo da vida adulta ficaram marcados por coleções de amenidades. Ele maquinava, traçava, afanava, levitava, roubava, furtava e dissimulava. Um Houdini do crime. O próprio Max Steel em suas missões de alta periculosidade. Os anos corriam a galope, e Humberto ganhava experiência em ser invisível e insensível. A obsessão de possuir o que não era seu irrompia do solo de sua racionalidade como um obelisco de titânio. Era como se objetos vibrassem com uma luz azul pálida, pulsando aura arcana, implorando para que Humberto, o arquimago, recuperasse-os e os levasse à sua torre. Esses artefatos de poder. Esses cálices de energia. Quando conseguia enfim tê-los, ele conseguia aplacar a ânsia beligerante do Smaug que habitava o covil que costumava chamar de “mente”. Ou, pelo menos, conseguia mantê-lo satisfeito até a próxima empreitada, que nunca falhava, sempre reprisava.
O incêndio mental começou quando Humberto se viu varando madrugadas para estudar minuciosamente, com uma lupa e marcadores de texto, a planta de um galpão de verduras, ou de uma boutique chique, ou a de uma concessionária Hyundai recentemente inaugurada. Ele lia e relia os catálogos de empresas especializadas em segurança. Quanto mais perigoso, maior era o gozo. Se você não for pego, a cleptomania é como ganhar, dia após dia, na Quina das Loterias Caixa.
Não era como se Humberto estivesse alienado de sua tara corrupta. Nem tudo são flores. Quando pensava sobre o aspecto psiquiátrico de suas obsessões e anomalias, compreendia que, sim, estava profundamente doente. O obelisco rasgava sua massa cinzenta e sangrava. A torre inclinava como a de Pisa. Em seu autodiagnóstico, ele se convenceu de que o mais saudável seria largar a fissura a conta-gotas. Uma autossugestão tão dominante quanto sua vontade de continuar entupindo seu bangalô de pertences alheios. As meias-verdades que nos contamos são responsáveis pela maior fração do nosso alheamento. E assim seguimos, convencidos de que a verdade se esconde em nossos umbigos.
Logo nos primeiros anos de fato roubando, furtando e prometendo aos céus que logo, logo pararia, na semana que vem ou na outra, chegou o dia em que Humberto exagerara na ousadia. Ele passou dos limites que ainda perseveravam. Nem de longe era o Houdini Mãos Leves que idealizara, a imagem esfumada e sonolenta que confeccionara para si. A câmera de uma Farmácia Indiana capturou a imagem monocromática de um rapaz de 38 anos depositando perfumes Natura nos infinitos bolsos de um sobretudo xadrez. Foi flagrado numa situação fragrante. Logo a situação começou a cheirar mal. O Fórum de Linhares exumou cada detalhe atrevido de seu passado. Foi detido e sentenciado a 2 anos de cadeia, mais 3 e meio de prisão domiciliar, o que não era de todo um problema. Por sorte, nunca descobriram o interior de seu bangalô. A torre estava guarnecida por ameias e bestas.
O impulso fóssil de roubar nunca foi totalmente subjugado. Ali, perto do coração, numa quina obscura, de arestas indiscerníveis, numa gruta onde estalactites gotejantes acompanhavam a hibernação de um urso pardo, mesmo após um período na cadeia, uma vozinha apreensiva, ao pé do ouvido de Humberto, não desistia de repetir o mesmo refrão: Ainda é pouco. Ainda é pouco. Pegue o precioso. Pegue tudo que for precioso. Você sabe que quer mais, seu bobinho.
Humberto estava largado na poltrona creme de seu bangalô na orla de Itaúnas. Pelos cômodos, flutuava, como o rastro luminoso da Tinker Bell, em volume baixo, o LP do Elvis. Sua mão esquerda guardava um copo chato com dois dedos de cachaça. Nem meio cheio, nem meio vazio. Para Humberto, peremptoriamente vazio. Os dedos da mão esquerda dançavam sobre os jeans. Os olhos cinzentos quebravam como a ressaca, observando o aleph perto do criado-mudo e ao lado das samambaias. O álcool já não era capaz de silenciar seus demônios, dizendo “Chega, ei, deixe o Elvis se apresentar em paz, seus filhos da puta”. Ele balançava suavemente a bebiba dormente que, na semiobscuridade marrom pastel do entardecer, ganhava tons ferruginosos, assemelhando-se a qualquer outra birita menos a que de fato pretendia beber. Os seus dedos dançaram até a polaroide sobre o colo. Humberto esvaziou o copo de cachaça num longo trago, ergueu a fotografia na altura dos olhos embaçados, piscou duas ou três vezes e suspirou profundamente.
Os seus lábios carnudos acompanhavam a canção do Rei.
Like a river flows.
Surely to the sea.
Ele deitou a cabeça e fechou os olhos.
Darling, so it goes.
Some things are meant to be.
Humberto estava aqui agora. Não saberia dizer se sua residência era um bangalô preenchido por entulho ou entulho revestido por um bangalô. O toca-discos insistia em suas ideias melancólicas, desejando inflar sua cabeça para que voasse para longe, bem longe. Mas Humberto estava aqui agora. Os arredores desapareciam em meio a pilhas e mais pilhas de revistas Veja e Mundo Estranho, colecionáveis risíveis do McDonald's de suas viagens à capital Vitória e caixas de papelão dos mais diversos tamanhos, entreabertas e com os dizeres “Cuidado. É frágil”. Trinta e três anos de crime que assombravam suas madrugadas. A idade de Cristo. E, embora Humberto, diante de estranhos e familiares (também estranhos), chamasse esses entulhos de “entulhos”, de fato eles possuíam uma aura sacra. A luz azul nunca foi embora.
Ele não era um mero acumulador, como essas pessoas compulsivas que eram documentadas no Home & Health e prontamente esquecidas quando zapeávamos os canais da TV Philco. Não, não. Ele, Humberto Colodetti Cipriani Vieira, nome de rei, era um arqueólogo da contemporaneidade. Sitiado por castelos de caixas e nuvens de sacolas plásticas, canetinhas Faber Castell, posters descascados, copos Stanley, livros nunca lidos, filmes nunca assistidos, preservativos nunca vestidos, Humberto se sentia como um arquimago isolado em sua torre. Pelas basculantes resplandecentes do banheiro e da cozinha, ele observava os domínios dos homens comuns. Às vezes, pensava em como seria ser um deles em vez de ser um deus. Pensava em como teria feito menos estrago se fosse um deles.
Bingo. Claro que ele buscou terapia holística porque queria solucionar essa equação emaranhada de corpo, mente, emoções e espírito. Viveu seu calvário psíquico por três longos anos no consultório da doutora Vivian, uma terapeuta de coque frouxo do centro histórico de Linhares. O casamento em crise. A presença-ausência dele e da filha. O bloco de gelo que se apertava no tapete de jacquard da sala de estar do bângalo. Tudo isso, tudo aquilo. Os seus impulsos cleptomaníacos não o demoveram dos erros mais comuns dos humanos: casar e ter filhos e viver a desgraça de casar e ter filhos. O curto-circuito do seu sistema límbico o levou àquele lenga-lenga de exumar traumas e feridas que deveriam permanecer eternamente sepultados.
O derradeiro capítulo das sessões com a doutora Vivian fora 5 anos atrás, quando os focos de incêndio familiar começaram a surgir em lugares ocultos do bangalô: nos armários embutidos da cozinha; na calha engasgada com folhas secas; na miríade de Barbies de Lara que dormiam nas estantes de madeira ilegal. O consultório de Vivian continha mobília multicolorida e assentos estofados tipo ninho suspenso, que tentavam adicionar um quê de intimidade amiga, mas acabavam infantilizando até mesmo os mais ásperos dos homens de Rio Bananal. O ar-condicionado estava sempre no 16, e as frases subliminares da jovem terapeuta lutavam para atravessar a borrasca e alcançar os ouvidos anestesiados de Humberto. Ele se ocupava com um cubo mágico. O falatório de Vivian era ruído branco.
Ela largou sobre o colo o bloco de notas de couro verde-bandeira como se se rendesse, apertou os olhos cansados e maquiados e depois se espreguiçou como um gato. O trabalho na mente de Humberto era um trabalho na terra. Vivian precisava plantar sementes de sugestão para que de Humberto brotassem duas ou três frases de evidência. O diagnóstico óbvio crescendo por dois meses, ali na lousa em branco entre acusador e acusado. Enquanto os dedos de Humberto se entretinham com os ladrilhos multicoloridos do puzzle em suas mãos, Vivian concentrou sua autoridade como um ki e disse:
“Humberto.”
As três sílabas caíram como estalactites afiadas no carpete bege-avermelhado do consultório glacial. Embora Humberto mantivesse os olhos no cubo mágico, o seu nome conjurado vibrou em seus tímpanos como um diapasão. As suas orelhas estavam espichadas como as de um elfo.
“Você não é ingênuo, e seu caso parece bastante óbvio, sabe”, Vivian disse com um semblante que misturava pesar e preguiça, “Essa necessidade, essa volúpia por tudo, provavelmente é fruto de um lapso irracional… talvez por um trauma, talvez como uma carapaça emocional”. Ela sentou na pontinha de seu ninho, os braços ao redor do corpo como uma coruja, e atravessou Humberto com o seu olhar azul-gelo, abrindo dois buracos na parede branca atrás do paciente. “Você quer ter tudo porque na verdade não tem nada, Beto”. Ele ergueu a cabeça pois pensou ter ouvido errado. Beto. O apelido fruto da mente simples de Marise que, nos lábios rosáceos de Vivian, soava ofensivo, a quebra do contrato entre terapeutas caros e pacientes prestes a se afogar. Não era função dela dizer verdades: essas sujeirinhas pretas sob as unhas que nos lembram de nossos hábitos imundos.
Ele resolveu o cubo, colocou três notas de cem sobre o sousplat de crochê da mesinha de centro e se despediu.
As sessões acabaram aí.
De fato, cada um dos objetos resgatados por Humberto resumiam um capítulo de maior ou menor importância de sua vida. Ser um acumulador era enxergar com clareza as infinitas possibilidades e ramificações que a vida oferecia. Sendo um homem no auge dos seus 60 anos, ele não podia abrir mão dessas pequenas potencialidades. Elas mantinham sua cabeça acima da lâmina do mar indiferente que é a Vida. Eram o caleidoscópio que compactava sua identidade nublada. O seu Graal.
O disco do Elvis chegou ao fim, e o silêncio que se seguiu era assustador. Diante de Humberto, estava o corredor estreito e de pé-direito baixo: a garganta que dava no banheiro de azulejos verdes. O maldito banheiro. Com olhos mortiços, ele estudava a porta entreaberta, a maçaneta de latão e a escuridão palpável de seu interior. O banheiro parecia ondular como uma miragem, seja por causa da embriaguez de Humberto, seja porque esse cômodo ocupava ene dimensões no espaço-tempo. Na segunda, o banheiro nem passava pela cabeça de Humberto. Na terça, quando abria a sua porta, sentia um bolo na garganta. Na quarta, ao acender a luz fosforescente, o banheiro se transformava n’O banheiro.
Nas tardes preguiçosas de domingo, quando o plano principal era virar o caneco até ser assolado pelas ondas entorpecentes da droga ou por uma cirrose fulminante, o banheiro virara o seu sarcófago. Tudo morria ali. Qualquer vontade, qualquer sombra. Vomitava e lembrava. Vomitava, lembrava e chorava. E queria morrer. Simples assim. Sem figuras de linguagem para complicar o que naturalmente era complicado. Isso, morrer e se ver livre desses choques naturais que assolam a carne. Dormir enfim.
Ele nunca compreendeu porque ele e Marise mobiliaram o banheiro com um boxe de vidro e uma banheira. Apesar de sempre ter sido um homem dado a excessos, achava que dispor de duas formas diferentes de se banhar era um capricho desmedido. Bom, nunca questionou Marise, porque nunca questionava Marise. Um pedaço generoso de suas opiniões morria na garganta, seja por medo, seja por vergonha.
A lâmpada acendeu com o clique do interruptor.
A memória subiu espiralando como os vapores de um pântano, estacionando uns metros acima da lâmina pútrida da água e se condensando até formar um fogo-fátuo. De início, esfumado e ininteligível, mas rapidamente ganhando consistência e nitidez. Humberto era uns 10 anos mais moço e estava com as costas contra o mármore da banheira. A luz piscava a intervalos preguiçosos. Sobre os azulejos tão reluzentes quanto esmeraldas, resplandeciam pocinhas ensaboadas que se acumularam quando a água da banheira transbordou. A Marise era a causa do dilúvio. O cabelo castanho-claro estava reunido numa piranha de plástico logo acima da nuca repleta de pintas. Suas omoplatas estavam contra o peito peludo de Humberto. Enquanto ela esfregava os joelhos avermelhados, ele, com as mãos submersas, procurava e acariciava, com movimentos circulares, o ventre de sua esposa.
O verão em Itaúnas chegava ao seu zênite, e as janelas e as telas das portas estavam escancaradas, implorando pela brisa suave da noite. Lara estava no sótão, provavelmente, brincando com suas aquarelas e de fones de ouvido. Ela gostava de ouvir suas bandas de punk rock e rock progressivo no talo, e assim era sugada para seu mundinho de cores frias, quadros de natureza-morta e revoluções íntimas. Era uma garota que mudava furiosamente a passos lentos. Cada passo, um cataclisma, uma ferroada quente nos lençois da realidade. Uma supernova em miniatura que preenchia de matéria sombras carbonizadas que percebemos com o canto do olho: líquens amarelo-esbranquiçados e vermelhos como labaredas, coqueiros desfraldados pelos ventos litorâneos, samambaias jurássicas e uma floresta de eucaliptos descascados. No verão de 5 anos atrás, o seu hobbie era a produção artesanal de sais aromáticos. Atualmente, era a pintura. Essas mudanças abruptas de hábitos eram circunvoluções de uma adolescente que tentava se compreender e se interpretar.
Marise miava a cada gesto de Humberto, e ele não escutava, dos corredores labirínticos do bangalô, um piu de sua filha. Deveria estar hiperconcentrada em suas efusões artísticas, desenvolvendo ideias como se cultivasse um cérebro numa jarra. Então estava tudo bem. Tudo sob controle…
Os dedos safados de Humberto começaram a escorregar pelo púbis de Marise. Lara nunca ouviria, não é mesmo? Os dedos roçaram os primeiros pelos pubianos. De certo modo, eles estavam seguros, e a porta do banheiro estava trancada à chave. Ele começou a dançar seus lábios sobre os pelos eriçados da nuca de sua esposa. E mesmo o barulho não é um problema. Humberto preencheu uma das mãos com o seio esquerdo de Marise. Não, não chega a ser um problema de fato. Quando ele apertou o seio, Marise limpou a garganta, e sua pele ficou momentaneamente arisca, retraindo-se ao toque de Humberto como se agora os seus corpos fossem os polos idênticos de ímãs antes tão acostumados à atratividade magnética.
O rosto de Humberto ainda estava afundando nos cabelos castanhos presos de Marise, que recendiam a sal, shampoo de ovo e nostalgia. O feitiço de sua voz o sequestrou de rompante.
“Sabe”, ela sussurrou enquanto colocava mechas soltas atrás das orelhas. O seu murmúrio era o movimento, na maior parte do tempo invisível, de placas tectônicas. “Nunca é o momento oportuno para dizer certas coisas. Trabalho, casa, dormir. Trabalho, casa, dormir. A rotina massacrante de sempre. O problema em ser adulto é que não sobra tempo para ser outra coisa, Beto. É difícil, e estamos carecas de saber”. Ela virou o torso nu e ficou olho no olho com Humberto. Suas sardas faziam com que, mesmo com 56 anos, ainda parecesse jovem, muito jovem. “No entanto, nesta noite, eu tomei coragem. nessa noite, eu preciso confessar o meu cansaço.”
Humberto, é claro, ficou sem palavras.
“Nós tentamos tratar você. Vivian tentou. Diego também, e agora as consultas psiquiátricas com o Honório. É uma luta. Mas você tem conhecimento de que sua cleptomania é o menor de nossos problemas. Não me importo mesmo que o bangalô fique entulhado de revistas, caixas amarrotadas e amostras de perfume. Acho até meio útil. Não dá para saber quando precisaremos de uma Makita. Sei que é um problema profundo, Beto”, ela apontou para o peito dele, “Sei que aí dentro tem uma corda invisível que te fisga e te puxa para essas situações constrangedoras. É complicado, mas dá pra levar.”
“Eu odeio e me odeio por te proporcionar esses constrangimentos”, disse Humberto com sua voz rouca. “...meu amor”, ele complementou.
“Aí está”, surpreendeu-se Marise, com jovialidade, espargindo espuma, água e sombras na cabeça de Humberto. Com uma expressão de pesar, ela disse: “O ato falho.”
“Não compreendo”, disse Humberto, franzindo o cenho.
“Meu amor. Você fala, mas não está falando de fato. O ‘meu amor’ vem depois. E não pense que estou maluca. Talvez essa seja a melhor indicação de sua ausência. Sim, Beto, ausência. Desde quando casamos, você sempre transparece alheamento. Às vezes, até parecia alienígena nos jantares que íamos. Nós estávamos conquistando as coisas, e você sempre parecia insatisfeito. ‘Mas com o quê?’, eu me perguntava. Casa, carro, um bangalô, o litoral de Itaúnas inteirinho para nós. Demorou um casamento inteiro, mas finalmente entendi.”
O coração de Humberto bateu como o obturador de uma câmera, registrando o rosto emoldurado por fios molhados e o sorriso lépido — mas triste na essência — de Marise. Ele não sabia, mas já estava chorando. A primeira lágrima que cai é sempre invisível.
“Aí vem bomba”, ele disse engasgado. Colocou as mãos diante do rosto como que para se proteger dos fragmentos de uma granada.
Marise não achou graça. O buraco era mais embaixo.
“Você é obcecado por tomar. Você nunca fica satisfeito. Não sei se em alguma vida anterior, você foi Alexandre, o Grande ou Ivan, o Terrível. Existe algo em seu DNA, Beto, que não consegue ficar em paz. É uma parte destrutiva. Você quer se agarrar a tudo, mas acaba se agarrando a nada”, Marise pousou os dedos nos lábios arroxeados do marido, “Não, não me interrompa. Não dessa vez”. Ela buscou ar para continuar. “Também não me olhe assim. Não sou a megera que você pensa que sou. Não sei se os antipsicóticos não fazem efeito ou se você é resistente demais à psicoterapia e à hipnose. Ou em geral à mudança. Esse casal, eu e você, já tentou de tudo, pulando de galho em galho como dois macaquinhos ansiosos, tentando consertar um defeito de fábrica, mesmo que fora da garantia. E, agora, estamos na casa dos 60. A pior do tabuleiro. Nem velhos demais, nem suficientemente jovens para cuidar de uma adolescente em crise. Por que tomamos decisões quando já é tarde? O fim da vida é logo ali. Mas é o começo da vida de Lara, e ela precisa de uma mãe, compreende? Não consigo ser babá de duas pessoas. E, agora, você está realmente me olhando torto, então acho mesmo que você deve estar pensando que sou uma tremenda filha da puta.”
“Não, filha da puta não. No máximo, canalha. E confusa”, disse Humberto.
“Ah, não importa. O que importa é o seguinte, meu amor…”
“O cinismo é mesmo necessário?”
“Me desculpe. É difícil pra mim.”
“É difícil pra mim também.”
“Certo.”
Marise voltou a ficar de costas para Humberto. Agora, a água da banheira estava glacial. Na superfície, um gelo fino se solidificava e nele os dois patinavam. Seus corpos já não se tocavam, e as paredes do banheiro se aproximavam. “Não pare, por favor”, implorou Beto. “Tire rapidamente como um band-aid.”
“Eu não consigo mais, Beto. Você vive em seu próprio mundinho colorido, colecionando objetos que encontra na rua como se fosse o mesmo menino de sempre que encontrou o relógio perdido nas dunas de Conceição da Barra e que colecionava conchinhas, pedrinhas e canudinhos. Sei que não é culpa sua, mas também não é culpa minha. Estou sozinha nesse casamento largado às traças. Só, profundamente só. Sou uma estrangeira na minha própria casa e com uma filha autista estrangeira nesse mundo. O problema central, Beto, é que, ao longo dos anos, você depositou pequenas doses de sua energia nessa coleção de objetos como se fossem amuletos, e agora você é somente uma casca do homem com o qual me casei. É como um fantasma vivo, e seus dedos espectrais tocam minha nuca e eu me sinto uma…”
“Uma o quê? Diga.”
“Uma das suas coisas.”
Humberto, apesar de cultivar paciência enquanto sua esposa lia a lista de acusações, interrompeu Marise porque sentiu que era seu dever moral demonstrar que estava contrariado, ou até mesmo ofendido, e replicou: “Olha aqui, eu também preciso falar umas coisas. Você não pode simplesmente ir decidindo assuntos que envolvem ambos, Marise…”
“Beto.”
“E eu não posso, nem devo, é claro, acatar tudo que você diz como se eu fosse a porra de um túmulo.”
“Humberto.”
“Não sei onde você quer chegar com essas baboseiras.”
“Amor!”
Ele ficou atônito com o grito pouco comum e interior.
“Isso foi decidido no momento em que você colocou um anel no meu dedo”, Marise começou a chorar silenciosamente. “E você sabe disso. Sabe bem disso. Você não vai melhorar, Beto. Não a tempo, querido.”
Humberto ficou uns 5 minutos em silêncio total. Ele sentia que seu coração estava sendo envolvido por dedos longos e gélidos que se assemelhavam aos dos fantasmas de Shakespeare. O espanto da situação espremia dele qualquer vontade de refutar Marise. O ânimo catatônico. A miopia diante de situações assim tão delicadas e feéricas. O que doía profundamente é que ele sabia que o que sua esposa dizia era a mais pura verdade.
“Posso soar repetitiva, mas a cleptomania não me afeta diretamente”, ela fungava e confidenciava com palavras cinzentas como as das noites sem lua, “mas afeta o homem que eu amava e afeta o amor bonito que havia entre nós. Não me importei quando você roubou minha atenção no campus da UFES, quando éramos dois cordeiros ao ar livre, explodindo de vontade de sair, beber, transar e querer como se fôssemos os últimos humanos sobre a Terra. Não me importei quando você roubou minha mão, ou quando roubou meu dinheiro suado. Também não liguei quando você sequestrou meu útero, sua propriedade, e pôs em mim, primeiro, um filho natimorto, e, depois, como se não bastasse, uma filha que está se transformando numa mulher esplêndida, mas que não consegue se adaptar a essa realidade caótica e ainda precisa de uma mãe. Não me importei quando você afanou as horas do meu dia para cuidar de um bangalô bagunçado, de um casamento bagunçado, de uma rotina bagunçada. Porque eu te amava. Porque ainda amo”, Marise uniu as palmas das mãos, como se orasse ou esperasse ser algemada por seus crimes insólitos. A água da banheira estava petrificada. O momento parecia eterno. “Agora, há algo que você roubou de mim que não sou capaz de perdoar. Ah, isso não. E isso não vou te dar o prazer de saber. Até porque já não importa. E, entenda, bastava ter pedido, Beto. Bastava ter pedido.”
“Por que não importa?”
“Porque acabou.”
“Você não vai me dar uma justificativa mais honesta, Marise?”
“Não.”
“E posso saber por que não?”
“Vai que você rouba isso de mim também, não é mesmo?”
Humberto deixou a cabeça cair sobre o ombro esquerdo e ficou encarando um ponto vago, perto do lavabo. Em seguida, ele sentiu ondinhas quebrando contra o seu peito quando Marise se ergueu e saiu da banheira. Ela entrou no boxe e arrastou a folha de vidro. “Os papéis estão na mesa de centro”, disse. Simples assim. Não hesitou ao abrir o registro da ducha. Veio, viu e venceu.
Nos dias seguintes à rubrica na papelada, o bangalô foi subtraído de uma parcela ínfima de seus pertences. Contudo, os espaços vazios deixados para trás eram bocas feias, desdentadas. De madrugada, sussurravam palavras peçonhentas que tiravam não só o sono de Humberto, mas qualquer resquício de paz de espírito.
Mas, no final das contas, Marise estava mais ou menos certa. Nas semanas seguintes, Humberto conseguiu se convencer, por meio de uma autossugestão violenta, de que pouco ou nada havia mudado em sua residência. As saudades da ex-esposa, escondeu numa esquina recôndita de sua memória, como o que fazemos a um par de meias que ganhamos de Natal e que empurramos para o fundo de uma gaveta empoeirada, do lado das pastilhas de naftalina. Ele começou a sentir falta da esposa do mesmo modo como sentia falta de sua infância na casa dos avós em São Mateus. Eram memórias que se distanciavam à velocidade da luz, perdendo-se no multiverso fantasmático da rememoração e da reconstrução. O casamento deles era como o gato de Schrödinger: se casaram, mas nunca foram casados, se amaram, mas sem serem amados. Quem saberia dizer o que restava do matrimônio original? Eles ainda eram as mesmas pessoas que tomaram a decisão de se unir décadas atrás, com 30, 40 anos e já tão velhos para tal empreitada? Não, óbvio que não eram.
O que restou para Humberto do casamento foi uma polaroide de Lara aos 5 anos. Ela estava dependurada num balanço e sorria como um esquilinho. No bolso da jardineira jeans suja de lama e gravetos, Marise havia bordado o Pluto. Para Humberto, Lara era como uma filha proibida. Uma que nunca se permitiu conhecer por inteiro. E, claro, ela foi embora com a mãe. Ele não sabia especificamente o que sua filha pensava sobre o pai que vivia alienado da realidade, perdido em sua imundície, sequestrado pela futilidade de inutilidades, mas apostaria o rim esquerdo em que, apesar de também ser uma obcecada confessa, acompanhava a relatora, Marise. Devia pensar que Humberto era um pai ausente porque de fato ele era.
E, enfim, solitário, divorciado e apartado de tudo, ele conseguia dimensionar o quanto sentia falta da filhota e da esposa, mas principalmente de Lara. Recentemente, passava as noites em claro imaginando todas as possibilidades que abriu mão de viver com ela. Marise e ele tinham uma história. Um enredo fechado. Viveram o que viveram. Por outro lado, ele e Lara? A pequena Lara? Como fora estúpido. Como tomara as piores decisões, consciente ou inconscientemente. Humberto nem mesmo tentou correr atrás da própria prole, seja por profunda vergonha, seja por inabilidade parental, seja por ser um humano disfuncional.
Nessa brincadeira, passaram-se anos, e nada melhorou. Absolutamente nada. Ele era um ladrãozinho incorrigível. Um vampiro que sugava tudo e todos e que, atualmente, gozava de tempo de sobra para nunca conseguir gozar com as putas de beira de estrada que levava ao bangalô. Não conseguia porque a dor nunca dava trégua. O que restava era a autopiedade, a cachaça e o LP do Elvis, rodando num loop infinito sob a agulha do tempo.
O mais engraçado, em sua vida, é que o feitiço se voltou contra o feiticeiro. Ele fez tanto esforço para ter tudo, e realmente conseguiu tudo, para, no capítulo final, no último ato desse teatrinho, ver-se distanciado do seu bem mais precioso, que, durante sua história criminosa, foi incapaz de perceber. No momento derradeiro de sua vida, a sua pérola foi roubada. Restavam as lembranças fugidias e azuladas e uma concha vazia e leitosa no leito do oceano Atlântico.
Humberto desligou o interruptor do banheiro, fechando as cortinas e permanecendo nos bastidores. No batente da porta, hesitou por dois ou três segundos. A corrente de ar gélida da madrugada sibilava através das basculantes. Ele entrou no cômodo penumbroso com passos vacilantes e as selou de uma vez por todas. Também fechou o espelho-armário que a brisa teimava em abrir. Nas raras noites em que conseguia pegar no sono, as portas do espelho batiam e Humberto acordava com o estrépito vítreo como se finalmente houvesse chegado seu fim. Porém, para o seu azar, nunca chegava.
Ele seguiu pelo corredor estreito, apagando as lâmpadas e fechando o trinco das janelas dos outros cômodos entupidos de porcarias. Pegou o copo vazio de cachaça, levou-o à pia e o lavou com detergente. Na geladeira, não havia comida estragada. Retornou aos cômodos, um de cada vez, removendo as sacolas cheias das lixeiras. “Que coisa”, ele pensou. Fez a cama e a barba e aspirou o carpete da sala, limpando atenciosamente debaixo da mesa de centro, o algoz de seu divórcio com Marise.
O relógio digital sobre o rack marcava 3:45 da matina. No dia anterior, ele consultara em seu smartphone que o dia atual seria de ressaca: o ingrediente perfeito para suas pretensões. O seu coração vacilava, é claro. A região mais antiga do nosso cérebro, onde ficam os estímulos de fuga ou luta, combaterá qualquer intenção homicida ou suicida. O corpo humano quer prevalecer apesar de a mente querer derreter. Entretanto, mais frequentemente do que o saudável, a mente subjuga a matéria, e nossos impulsos esquizoides nos levam a cometer atrocidades, obscenidades e injúrias. É sabido que isso não é exclusivo de Humberto. A mente é um troço poderoso. Mind over matter, baby, já diria Isaac Newton, ou Mahatma Gandhi, ou Fernando Henrique Cardoso. A verdade é que já não era tão relevante assim.
O bangalô estava recheado por pilhas colossais de objetos furtados, roubados e afanados. O mostruário de uma vida de crime. Pobre Beto. Se resolvesse levar tudo ao oceano, provavelmente levaria algo em torno de um ou dois séculos. Logo de cara, precisava se desfazer de parcela considerável de suas relíquias. Ele sentia pontadas esquisitas atrás das orelhas e soluçava um pouco. Sua testa e as laterais do rosto suavam em bicas. Puta merda. Seria melhor assim. Seria melhor assim… O que fez foi dar tchau aos seus pertences mais mundanos. O crème de la crème entregaria, junto de si, ao mar de Itaúnas. Sobre a cabeça de Humberto, desabou uma montanha de dor psíquica. Tal qual um homem doente, ele sentiu que um tumor era expurgado a navalhadas de seu abdome. O cessar de um vício é um acontecimento que se assemelha a ter uma perna mutilada sem anestésicos. Ou a ser castrado com um bisturi oxidado e incandescente. Ou pior do que isso. Ele apertou as laterais da cabeça. Os objetos passavam em sua mente como num filme acelerado.
Revistas gibis balas bonecos eletrodomésticos chinelos tênis Rebook botas de acampamento Caterpillar lanternas descartáveis bolas de futebol bolas de rugby bolas de basquete furadas pneus miniaturas de carros iluminuras conservadas pés de coelho serpentes sepultadas em jarros de formol bicicletas Caloi um triciclo multicolorido um quadriciclo azul e rosa fitas cassete um cacete de plástico um plug anal verde-oliva dezenas de playboys temperos alecrim manjericão um pote de pistaches um pote de amêndoas bolorentas computadores Positivo notebooks Iphones smartphones Motorola celulares Nokia um boné do Fluminense pranchas de surfe um mostruário de iscas o bestiário de Borges o Conde de Monte-Cristo uma coleção de livros lidos uma outra coleção de livros ainda não lidos enfeites de Natal enfeites de Páscoa quilômetros de pisca-pisca mobília dos pais mortos documentos de cem anos atrás uma poltrona cor de creme um copo vazio de cachaça uma mesa de centro infernal um contrato de divórcio um casamento arruinado uma mente doente uma compulsão virulenta Marise ai Marise me desculpa me desculpa o seu marido foi um homem fraco ex-marido a polaroide de Lara suas pinturas tão brilhantes Lara Lara Lara…
Sua filha perdida.
O plano de Humberto era chorar o que tinha para chorar e reunir o que tinha para reunir. Subiu ao sótão, onde sua filhinha pintava aqueles quadros abstratos, repletos de significados do universo, e pegou uma porção de caixas de papelão, sacos plásticos e fita isolante. Ele juntou somente o que era mais importante: os seus livros e discos favoritos, um cachecol que fora presente de Marise quando viajaram à Vancouver, o horizonte de destilados e vinhos, a fotografia e algumas pinturas de Lara e, sem dúvida, seu documento de identificação — não era seu objetivo tumultuar a vida dos bombeiros e da polícia de Conceição da Barra e região.
Não queria aparecer nos jornais do Espírito Santo; sua vida simples dispensava letras garrafais. Poderia ser simplesmente mais um dado nas subidas e descidas de um gráfico obscuro do IBGE. Sem fazer carnaval fora de época. Timidamente sussurrado entre paredes, ou narrado ao redor de uma fogueira, num camping no Pico dos Bandeirantes, sob a aurora boreal, como se fosse o folclore de um tempo imemorial. Ninguém precisava lembrar. Ninguém precisava esquecer. Nesse momento de sua vida, Beto só queria morrer.
To sleep. No more.
Em paz.
Humberto empilhou as caixas e as sacolas no carrinho de mão que estava largado no meio das roseiras do quintal (meu Deus, é claro que ele tinha um). O perfeccionismo suicida fez com que ele conferisse se a porta da frente estava fechada corretamente uma dezena de vezes. A torre do arquimago, repleta de códices arcanos e papiros mitológicos, estava finalmente selada. Nem um conventículo de bruxas seria capaz de conjurar um pentagrama capaz de sugar sua maldição. Nem uma missa negra, nas quais as pessoas mijavam em ídolos e rezavam enquanto plantavam bananeira. Nem mesmo os mestres da biblioteca de Alexandria possuíram o código que quebraria o enigma de um palimpsesto tão quimérico. Há certas coisas na vida que não podem ser resolvidas num passe de mágica. O luto, o pesar e a melancolia são feitiços irreversíveis que alteram profundamente a configuração da mente. A morte é a magia que muda uma vida, para o bem, ou para o mal.
A morte é a única magia possível.
Entre o bangalô e a extensa faixa de areia da praia, havia um labirinto de eucaliptos magricelos. O cheiro pungente de resina materializava imagens, na mente de Humberto, dos perfumes florais de Marise e das nas naturezas-mortas de Lara.
Quando saiu da floresta, os raios desmaiados do amanhecer quase cegaram Humberto, que, por um nanossegundo, ficou desesperado. Era o momento do grand finale, assim, ele precisava dos olhos para ter sucesso em seu exorcismo dessa realidade. O lado ancestral do seu cérebro nutriu, por uns instantes, espasmos de esperança de que Beto interromperia seu plano. Contudo, ele estava energizado pelo pesar e ansioso por um capítulo final repleto de significado, como as obras de Lara. Ou era novamente sua razão sendo atacada pela necessidade de controle? Ou a cleptomania abrindo as asinhas e querendo roubar sua própria vida? Ele torcia para que a morte interrompesse sua mente adoecida. Já não era capaz de sustentar essa enormidade de caos mental.
Ele não seria demovido de sua vontade de encerrar sua própria vida, proporcionando fim à dor. Dando um encerramento digno, enfim, para uma história que foi longa demais e esgarçou o modo como percebemos a passagem do tempo. Humberto era velho, mas se sentia velho em demasia. Ele colecionou vivências, experiências e evidências em demasia. O que ele sentia era um cansaço da vida em si. Era um homem esgotado, encardido e eternamente enlutado. Um homem vítima do Tempo e filho das Circunstâncias. A medicina psiquiátrica não teve êxito ao abraçar suas neuroses, solucionando suas doenças psíquicas. Humberto se sentia mental e fisicamente arruinado. Era um cachorro atropelado agonizando sob o Sol escaldante da BR-101. Enquanto ele acompanhava o Sol se erguer no Oriente encurvado, ele torcia profundamente para que a hemorragia cessasse, que o sangue dourado parasse de gotejar do fígado empalado de Prometeu. Colecionou demais. Roubou demais. Transou demais. Sofreu demais. Viveu e sentiu até que não vivesse e não sentisse mais nada. E tudo bem. Humberto estava aceitando a derrota. Ele estava cansado de arguir, persistir, lutar e gritar com o modo como as coisas funcionam nesse planetinha e em todo o Universo, provavelmente. Era uma aposta. A vida é uma aposta e vertigem. A vida também é náusea. É um trem lotado de passageiros do passado, presente e futuro prestes a descarrilar. Humberto não queria pagar para ver. Queria sentir, pela última vez, a adrenalina que obtia de situações nas quais furtava e roubava. O estar vivo. Estar vivo enquanto morria. É aqui que mora o xis da questão. As vontades, os desejos e as obsessões que são extensões do que chamamos de Vida. E o suicídio também. É uma jogada cantada: tirar a própria vida. O chororô que vem na sequência. Um corpo morto boiando. Ninguém saberia. Ninguém nunca descobriria o que Humberto sentia ao possuir o que não era seu. E assim terminaria a vida de um homem. E assim continuaria a vida de Marise e de Lara.
Com água na altura dos tornozelos, Humberto derramou, caixa após caixa, na água alcatroada e borbulhante, os pertences mais importantes que colecionou ao longo de seus 60 e poucos anos. Inicialmente, como era dia de ressaca, dada a violência das ondas geladas, os objetos insistentemente eram regurgitados na areia farelenta e avermelhada. Os siris surgiam de buracos inundados e cutucavam com suas pinças de madrepérola os artefatos de Humberto. Ele passou um bom tempo devolvendo ao oceano o que ele insistia em vomitar, como se não aceitasse ser cúmplice do crime adstringente de Beto. Depois de uma hora e vinte minutos, ele conseguiu se livrar de cada um de seus pertences. Em poucos minutos, alguns afundaram e sumiram enquanto outros boiavam aqui e ali. Enfim, era hora de fechar as cortinas do teatro. Foi bom enquanto foi bom. Ele se despiu, fez uma concha com as mãos, jogou uma cortina de água espumosa nas faces e começou a caminhar sob as águas. Os passos eram lentos; estava curtindo cada milissegundo da vida que escolheu deixar para trás, dando tchauzinho pelo retrovisor do carro que acelerava madrugada adentro. Rapidamente, a água batia na altura do esterno: o lugar onde seu coração sobrevivia e no qual Marise descansou a cabeça antes de lançar seu ultimato — do qual era agente, mas não arquiteta — em outra era, em outra vida. Agora, somente o pescoço e o rosto de Humberto estavam acima da lâmina perturbada do oceano. Ele impulsionava o corpo a intervalos regulares para não ser engolido pelas ondas. De novo, o estímulo do corpo vivo. Mera bobagem. Ele caminhava, sumia nas ondas e caminhava um pouco mais. O sol estava gordo, lindo, divino. O céu rosa-pálido, meio amarelado, cortado por estrias cor de fuligem e brilhante e suspenso por cordas invisíveis como um fogo-fátuo. Finalmente, os pés de Humberto foram engolidos por um buraco. O seu corpo submergiu e, logo, ele sentiu as primeiras injeções de água salgada em seus pulmões envelhecidos. Estava cercado por cortinas revolutas, cor de piche, borbulhantes. Ele pisou num ouriço, assim, quando soltou um grito surdo, os pulmões foram imediatamente preenchidos pelo mar gelado. A superfície parecia a quilômetros de distância, e o Sol se fractalizava em luz branca. Os nervos de Humberto começaram a suavizar, e os músculos das coxas e das panturrilhas pararam de lutar. Em meio aos seus pertences que boiavam, tão valiosos, tão mesquinhos, tão pueris, o seu corpo começou a despencar em direção ao leito do Mundo, à sua residência final. Os fragmentos de sua mente viciada e entorpecida se rearranjaram e se colaram, ganhando, depois de décadas acumulando neuroses como um ralo de banheiro acumula fios de cabelo, uma unidade coerente. E agora estava claro, muito claro. Ele se rendia ao mundo etéreo. Finalmente estava conseguindo abrir mão da matéria. E assim Humberto pôde adormecer sobre as almofadas e lençois cálidos da Morte. O seu jazigo merecido.
E bastava ter perdido, Beto.
Fim








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