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6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS FINALISTAS | Mariana de Mendonça Braga — Categoria CRÔNICA


A CRÔNICA FINALISTA:


Rozita

 

Estava lendo um livro sobre adeuses. Palavra feia essa, assim no plural: adeuses. Diria até desnecessária. Adeus está sempre no plural. Não à toa termina com s – que me perdoe a etimologia. O adeus ecoa através do tempo, materializa-se de pouquinho em pouquinho a perder de vista. Num telefone mudo, numa esquina que não se dobra mais, numa chave que já não há razão para se levar pendurada no chaveiro. No vazio de poeira deixado pelos contornos de um móvel deslocado do ponto de inércia onde estivera pousado anos a fio. Adeus não é coisa que se diga uma vez só. Mesmo quando se trata de um adeus definitivo. Mas, pois bem, ando com adeuses à flor da pele. E, sobre flores, dizem que não se deve deixar de falar.

 

Tinha nove anos. Ela, mais de setenta. Porém a impressão era de que sempre tivera mais de setenta. Talvez por isso o espanto. Estávamos sentadas no seu quarto, num sofá-bicama disposto assim perto da janela, onde vira e mexe meu irmão mais velho e eu dormíamos nos finais de semana de folga das diligentes broncas do papai. Conversávamos já não me lembro sobre o que exatamente, quando, sempre à espreita, um desses adeuses nos veio cumprimentar.

Havia já um ano que eu convivia diariamente com a ausência da minha mãe. Uma convivência ora harmoniosa, até mesmo distraída, ora de um incômodo incontornável. Com alguns controversos bons frutos colhidos do meio das aparas da perda. Sim, digo bons frutos, pois da perda da minha mãe acabei ganhando grande proximidade com o outro lado da minha árvore genealógica, uma afetuosa família paterna. E, dessa família, digamos que o galho central – ou aquele do topo? – era justamente ela, a minha avó Rozita. Um ano mais velha que o Cristo Redentor, um ano mais nova que o Mickey. Tão solar e antiga quanto convém ser o centro de um sistema.

A conversa tomou rumos de saudade. De galho em galho, topamos com a testa logo naquele já partido, desfolhado em tempo precoce, bem antes da vinda de previsíveis outonos. Um galo instantâneo tomou a forma de algumas lágrimas compartilhadas e, naquele momento, lembro-me que a confusão que senti chegou a interromper as minhas. Ué. Acho que nunca havia visto a minha avó chorar. Não consegui identificar então se aquele lamento derramado estaria direcionado à morte da minha mãe – a sua nora de quem, até onde eu sabia, ela não era exatamente uma entusiasta – ou se o choro se justificaria pela recordação já mais distante do seu próprio embarque na canoa furada da orfandade materna.

O fato é que até hoje não consegui me decidir. E agora, entre a dubiedade das primeiras opções, que se desdobraram em outras tantas com o passar dos anos e das revisitações a essa memória, não mais considero que haja uma larga diferença. Ou, pelo menos, que uma alternativa exclua a outra. Sequer acredito que ela mesma soubesse precisar que águas pacatas estariam sendo ali remexidas.

 

Apenas anos e anos depois a percebi chorando novamente. Na mesma casa, no mesmo quarto, dessa vez na sua própria cama, a qual compartilhara por décadas com o meu avô. Uma cama grande, colchão duro feito pedra, com a cabeceira de madeira entalhada e palha em treliça. Uma cama desconfortabilíssima onde, ainda assim, trapaceei diversas vezes na infância para dela expulsar o vovô e poder dormir embalada por risadas ao lado da vovó. Uma cama cuja possível austeridade se perdia por completo ao amarrarmos duas pontas de um lençol nas extremidades altas da cabeceira e a terceira num prego da parede de onde nós – irmão, irmã, avó e eu, quatro pequenos hereges – removíamos um crucifixo sem dó nem piedade para darmos sustentação à nossa cabaninha perfeitamente arquitetada, cenário ideal para nos entupirmos de brigadeiro de colher, à revelia do julgamento de Deus e dos nutricionistas. Ali embaixo, à parte do mundo, vovó entoava para os netos a cantiga que previa sem saber a passagem por um bosque repleto de amor e, no entanto, chamado Solidão.

Caí então na besteira de lhe contar que tinha uma namorada. Alguns sinais equivocados, certa ingenuidade esperançosa, e pronto. Em um instante, toda a cumplicidade de anos pareceu ter desaparecido. Crucifixo de volta à parede conforme lhe convinha, desta vez pregado em definitivo, com uma força ainda maior do que aquela empenhada para pregar os punhos do próprio Cristo.

 

Nunca fora religiosa. Irritava-se com o fanatismo e com a falta de praticidade por vezes ocasionados pela fé. Quando recebera a notícia da morte da minha mãe, e em anexo a incumbência de informá-la ao meu pai – ex-marido não oficial e portanto promovido a oficialíssimo viúvo –, teve que pular carniça por sobre os ombros do vovô para ir cumprir a sua missão, pois este se havia ajoelhado diante do seu altar de santinhos e se posto a rezar pela alma da ex-nora.

Vovó, pelo contrário, costumava fazer troça daquilo que imaginava como um tedioso paraíso habitado por anjinhos de fraldas sempre limpas brincando de acertar maçãs com arco e flechas. Dizia que na sua lápide mandaria escrever: “Fui o que és, serás o que sou”, uma cômica e ameaçadora lembrança para eventuais visitas. Como, porém, resolveu nos deixar em um belo dia de sol em meados de um fevereiro carioca, a família tomou a licença poética de fazer um churrasquinho. Mais tarde, levamos as suas cinzas para a serra e as espalhamos por sobre a roseira do quintal ao som de embargadas juras de amor eterno: “Eu sei que vou te amar / Por toda a minha vida eu vou te amar / A cada despedida eu vou te amar / Desesperadamente”. Vovó, no entanto, assim como nós, também não estava muito a fim de se despedir, e as suas cinzas se mantiveram por semanas grudadas nas pétalas das rosas, fizesse chuva ou fizesse sol, como numa última gaiatice, agora sim para o desespero de toda a família, que havia confiado no vento para prontamente carregar consigo aquela bonita homenagem.

 

Após a minha confissão, em vez de pai-nossos e ave-marias, a penitência foi passarmos uma semana sem nos falarmos. Ao que eu teria preferido subir mil vezes a escadaria da Penha de joelhos. Mas, a bem da verdade, acho que vovó também. O santo intercessor foi o meu irmão, que fez o meio de campo até que eu fosse à sua casa para, mal ou bem, nos entendermos, completando a santíssima trindade das vezes que a vi chorar.

 

Vovó costumava dizer que, depois dos 80 anos, não se faz aniversário, mas sim adversário. Certa vez lhe perguntei como era ter a idade que ela tinha – a essa altura, pra lá de uns 85. Respondeu-me que tanto fazia. Que, tirando o corpo, que insiste em virar inimigo, nem sentimos o tempo passando. De repente, olhamos no espelho e nos perguntamos: “Quem é essa velha feia?”. Uma versão um pouco menos lírica de “Em que espelho ficou perdida a minha face?”.

Da minha parte, ainda na casa dos 30, já acho mesmo que o tempo vai passando de fininho: rasteiro, malandro, sem fazer muito alarde nem do que vai levando, nem do que vem trazendo consigo. Mas talvez um jeito algo palpável de se perceber a passagem do tempo seja à proporção da saudade. Talvez pela contagem dos telefonemas não dados, dia após dia, sem que haja um sequer em que não me ocorra o ímpeto de discar aquele número que não mais existe.

 

Quase uma década depois das farpas fincadas na minha pele, ainda hoje, pela madeira de lei do armário rompido, chegada então a temida debilidade brutal do corpo e da mente a se esvair, vovó segurava a mão da acompanhante dizendo em uma dicção já quase indecifrável: “Essa aqui é a minha esposa, sabia? É ela quem cuida de mim”. Para mim, irônica evidência de nada além da minha própria ausência como companhia diária, da minha repulsa incapacitante em testemunhar de perto a sua deterioração. Ora implorava pela água que não podia beber, sob o risco de se engasgar, ora cerrava os dentes, fazendo-se granito, fóssil ainda quente, túmulo de si mesma, recusando-se a ingerir qualquer que fosse o maná celestial que lhe prolongasse o sofrimento em terra.

Ainda no mesmo quarto, ainda na mesma cama, desta vez com lágrimas apenas minhas a encharcar o seu colo, tentava baixinho guiá-la de volta pelo velho caminho das pedras a um vestígio qualquer de consciência: “Se essa rua, se essa rua fosse minha…”. A rua, no entanto, não era minha. E, ainda que fosse, não haveria no mundo pedrinhas de brilhante que bastassem para você passar.

 

Serão quantas, afinal, as ligações não feitas até os meus 85?

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