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6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS FINALISTAS | William Forgerini Koopman — Categoria CONTO

A CRÔNICA FINALISTA:


Teria coragem?

 

 

Ele entra pela porta da frente e passa pela sala e vai até a cozinha. A esposa está de costas para ele, acendendo uma das bocas do fogão.

            – Tudo bem por aí? – ele diz.

            – Ai, que susto – ela diz, voltando-se. – Que deu em você de chegar assim?

            – Calma aí, não foi minha intenção assustar ninguém. E você não é de se assustar assim, o que é que tá pegando?

            – Você não viu no noticiário?

Ela deposita sobre a chama a panela de arroz. Ele desabotoa o colarinho e tira a fralda da camisa de dentro da calça.

            – O quê? – diz.

            – Teve um assalto hoje de manhã.

            – Onde?

            – Aqui no bairro, dois quarteirões pra cima.

            – Credo. Quem foi assaltado?

            – A Dona Célia, aquela senhorinha aposentada que trabalhou muitos anos na prefeitura, sabe?

            – Putz. Entraram na casa?

            – Foi. Tava ela e a diarista que trabalha lá. Os bandidos chegaram num Palio preto e ficaram rodando pela rua. Quando a Dona Célia deu as caras no portão, os vagabundos renderam ela, levaram ela pra dentro, amarraram ela e a diarista e reviraram a casa.

            – Levaram muita coisa?

            – Dinheiro e umas joias.

            Ele dirige-se à mesa e puxa uma cadeira e senta-se.

            – Nunca achei que ia ouvir falar de assalto aqui – diz, acendendo um cigarro. Abaixa-se e esfrega com o polegar uma pequena nódoa no tacão de um dos sapatos. – Que coisa, parece que não existe mais bairro seguro.

            – Acho que até por isso que os bandidos cresceram o olho. Aqui a polícia nem passa, pois nunca acontece nada.

            – E foram direto na casa de uma mulher idosa e sozinha. Deve ser gente que já conhece a rotina do bairro.

            – É possível.

            Calam-se. Ela abaixa o fogo do arroz e põe a tampa na panela. Ele observa-a. Ela pede um trago do cigarro. Segurando-o entre o indicador e o dedo médio, ele estica a mão e passa-lhe o cigarro e, levantando-se da mesa, diz:

            – Bem, vou tomar banho agora, enquanto você faz a janta. Depois você me conta o resto.

 

*

 

Sentado à mesa, com um pedaço de carne na boca, ele diz:

            – A Civil já começou a investigar?

            – Já. Já pegaram as imagens das câmeras e tudo. Tomara que consigam prender logo esses bandidos. Coitada, a Célia deve estar em choque até agora.

            Ele espeta no garfo mais um naco de carne, corta-o e leva-o à boca.

            – Tô até meio com medo agora – ela diz. – Antes de sair cedo, você dê uma espiada pela janela, dê uma boa olhada na rua. Imagine, você abre o portão e os bandidos embocam pra dentro? Deus me livre, quero nem pensar.

            – Eles não vão voltar aqui – ele diz. – E se este bairro não tinha atenção da polícia antes, agora vai ter.

            – Você acha?

            – É claro. Os ladrões não são bestas de voltar aqui, com a polícia de olho agora.

            – Mesmo assim ainda tenho medo.

            – Fique tranquila, não vai acontecer nada.

            Terminam de comer. Ele acende outro cigarro. Ela recolhe os pratos e as panelas e leva-os à pia. Ainda fumando, ele levanta-se e vai até a sala. Abre a porta e sai na varanda da frente. Mira o céu de chumbo a anunciar a borrasca noturna. Há alguns carros estacionados aqui e além. Ele corre a vista e tenta, um a um, identificar-lhes os donos. Sente certo alívio ao constatar que todos pertencem a conhecidos da vizinhança. Vê seu próprio carro parado em frente ao portão. Sempre teve o hábito de recolhê-lo só depois do cair da noite. Mas agora pensa que já é uma boa hora para guardá-lo.

            Sai pelo portão de pedestres. Com o controle, aciona o portão da garagem. Espera o portão correr pelo trilho, então entra no carro e manobra-o para dentro.

À noite, ele e a esposa assistem na televisão a um filme chamado Animais Noturnos. Sem se levantar do sofá, ele abre uma fresta na cortina e dá uma espiada do lado de fora. A chuva que se anunciara no final da tarde já cessou. Ele vê luzes de giroflex de uma viatura da PM. O carro passa vagarosamente pela rua, até que some de vista.

            – Bem, você tava certo – a esposa diz, levantando a vista para a janela. – Primeira vez que eu vejo a polícia fazendo ronda por aqui.

            – Pois é.

            – Assim fico mais tranquila...

            Terminam de assistir ao filme. O final deixa-o um tanto perturbado.

            – Vai assistir mais alguma coisa? – a esposa pergunta. – Tô com um pouco de sono, acho que já vou deitar.

            – Pode ir – ele diz. – Vou ficar aqui mais um pouco, estou sem sono agora.

Ela levanta-se e sai para o quarto. Ele continua sentado no sofá, repassando os canais na televisão. Detém-se por alguns minutos num programa de leilões no Canal Rural. Corre novamente os canais, até que larga o controle de lado. Levanta-se, vai até a cozinha e toma um copo d’água. Volta à sala, desliga a televisão e dirige-se ao quarto. A esposa dorme a sono solto. Ele queda-se alguns segundos ao pé da cama, a fitar a esposa na penumbra do quarto. Então deita-se de costas para ela.

 

*

 

O despertador toca às seis da manhã. Ele desliga-o e pula da cama. Corre ao banheiro, alivia-se, escova os dentes, lava o rosto e penteia o cabelo ralo. Volta ao quarto e veste-se para o trabalho.

            Na cozinha, encontra a esposa a arrumar a mesa.

            – Acabei de passar o café – ela diz.

            Ele apanha uma xícara e serve-se do café quente. De pé, sorve-o devagar e larga a xícara ao lado da garrafa térmica. A esposa senta-se à mesa e põe-se a mastigar ruidosamente uma torrada. Ele aproxima-se dela e, inclinando-se, dá-lhe um beijo na testa.

            – Já vou – diz.

            – Já? – ela diz, ainda com a boca cheia. – Vai sair assim, sem comer nada?

            – É aniversário do Maurício, o pessoal do escritório combinou de levar uns salgados.

            – Hum, então tá. Vá devagar, se cuide.

            – Sempre.

            Ele sai para a garagem, entra no carro, dá a partida e aciona o portão de correr. Não vai olhar? diz em voz baixa, dando um risinho. O portão corre o trilho, e ele então sai para a rua deserta. Para em frente ao portão, aperta o botão do controle e espera o portão fechar. Põe o carro em movimento, dá uma guinada no volante e segue caminho para o trabalho.

 

*

 

No escritório, após cantar Parabéns para Maurício, os colegas põem-se em fila indiana e vão, um a um, cumprimentando o aniversariante e desejando-lhe felicidades. Aqueles que se desembaraçam da obrigação vão-se dirigindo à mesa de salgados.

            – Seu bairro lá tá foda, hem? – Maurício diz a ele, último da fila, após receber as felicitações.

            – Pois é. Minha mulher já tá toda paranoica, tá morrendo de medo.

            – Em casa tá assim também. Mas é bom mesmo ter cuidado. Meu filho saiu cedo prà escola e eu já fiquei de olho. Sorte que o motorista da van dele já foi da polícia e tem arma. E é conhecido também, ninguém é louco de pôr a cara com ele.

            – E você?

            – Eu o quê?

            – Pensa em arrumar uma arma também? Cê acha que adianta?

            – Até penso. Acho que mal não faz.

            – Sei não.

            – Quando o Bolsonaro for eleito, esse terror vai acabar.

            – Acho que governo nenhum vai ser capaz de dar jeito nisso. Pelo menos não por agora. Acho até que é capaz de as coisas ainda piorarem antes de melhorar. Se é que vão melhorar.

            – Estamos na merda, é fato. Mas não custa ter um pouco de esperança.

            – Bem que eu queria ter.

            Calam-se. Observam os colegas a transitar pelo escritório, então dirigem-se à mesa de salgados.

            – E você – Maurício diz, pegando uma coxinha em uma das tigelas –, vai arrumar um herdeiro quando?

            – Eu precisaria primeiro arrumar alguma coisa que alguém pudesse herdar.

            – Ora, que nada. Antes eu pensava que nem você, mas percebi que não existe hora certa pra ter filho. O Lucas veio sem planejamento, quando eu ainda nem tinha terminado a casa. Mas nós seguimos em frente, criando ele até que muito bem, espero eu.

            Ele pega um encapotado e dá-lhe uma mordida.

            – Vocês tiveram sorte – diz. – O Lucas é um menino tranquilo e sem nenhum problema sério. Um primo meu casou há uns seis anos com uma mulher lá de Buri. Foi morar com ela pra lá. Nem bem tinham completado um ano de casados e já tiveram filho. O menino nasceu com tantos problemas que até hoje eles têm que correr com ele pra lá e pra cá. Coitado, meu primo não tem mais vida, dá pra ver no semblante dele que ele tá acabado...

            Adotando expressão algo obscura, Maurício para de mastigar e, com a boca aberta, encara o amigo, que, por sua vez, pensa que talvez não devesse ter dito aquilo.

            – Bem, e de qualquer forma, não acho que seja justo colocar alguém pra viver neste mundo depois do tanto que esculhambamos com ele – conclui, metendo na boca o último pedaço do encapotado.

            – Pode até ser – Maurício diz. – Mas o mundo também precisa continuar. Enfim... Vou voltar pro batente, depois a gente se fala. Té mais.

            – Até.

            Maurício volta à mesa. Ele sai para a área de fumantes. Tira um cigarro do maço mas demora a acendê-lo. Observa de longe os caminhões sendo manobrados no pátio. Um dos caminhões tem na cabine, além do motorista, uma mulher e um menino. O motorista dá marcha à ré e posiciona o veículo com a carroceria sob o desenlonador. Ele acende o cigarro e perde-os de vista. Fuma, descarta a bituca e volta para dentro do prédio. Os colegas já estão todos de volta às suas estações, com seus fones no ouvido e olhares absortos em seus ecrãs.

            O trabalho transcorre normalmente. Às cinco ele volta para casa.

*

 

Passa-se uma semana. Está perto a virada do mês, quando ele sairá de férias. Mas pensar nisso não lhe traz nenhum prazer especial.

            Saindo do trabalho, resolve passar na casa da mãe. Já faz uns meses que não a vê. Pensa que agora é um bom momento. Ela mora na Vila Guarani, ao final de uma rua sem saída. É professora aposentada. Tem sessenta e cinco anos, ainda goza de boa saúde. Ele encosta o carro em frente à casa dela. Dirige-se ao portão e toca a campainha. Ela surge na porta.

            – Olha só quem tá aqui – diz. – Pensei que tivesse esquecido que tinha mãe.

            – A senhora também podia muito bem arrumar um celular. Mais difícil falar com a senhora do que com o papa.

            – Ora, você sabe muito bem que eu não me dou com essas tecnologias.

            – Nem com essas nem com outras.

            – Pois é. E você vai ficar em pé aí fora? Entra, vem pra dentro.

            Ela destrava o portão e ele entra. Segue-a para a cozinha.

            – E como é que você tá? – ela pergunta, apontando-lhe uma cadeira.

            – Tudo em paz.

            – Sei. E as coisas em casa?

            – Tudo bem.

            – Pra você vir aqui assim, é claro que não tá tudo bem.

            – Tá tudo bem, sim. Vim só pra fazer uma visita à senhora.

            Ele pega uma xícara no escorredor. Senta-se à mesa e despeja na xícara um pouco do café da garrafa térmica.

            – Esse café é de cedo – ela diz –, já deve estar meio frio.

            – Não tem problema.

            Ele leva a xícara aos lábios e toma o café num único gole. Tira o maço de cigarros do bolso.

            – Você não tinha parado com essa porcaria? – a mãe diz.

            – Parei mas voltei. Pela trigésima vez.

            Ele deixa o maço de cigarros sobre a mesa.

            – Até nisso você é igual ao seu pai – a mãe diz.

            – Mais fácil imitar as coisas ruins do que as boas, não é o que a senhora sempre dizia?

            – E você aprendeu muito bem a lição.

            – Filho de professora, não tinha como não aprender.

            Calam-se. Após a pausa, ele diz:

            – Mãe, o que a senhora acha de eu arrumar uma arma?

            – Ora, pra quê?

            – Pra defesa.

            Ela ri.

            – Certo – diz. – Um ladrão invade sua casa. Você está com sua arma ao alcance. Você pega a arma e aponta pra ele. Ele tá ali, na sua frente. E então, teria coragem?

            – De atirar nele?

            – De matar ele.

            – Não haveria necessidade de matar, haveria?

            – Suponha que ele esteja armado também.

            – Acho que eu mataria, se fosse necessário.

            – Não mataria, não. Eu sou sua mãe, conheço sua natureza.

            – E o que eu devia fazer?

            Ela pega na mesa a mesma xícara usada por ele e serve-se do café.

            – Você lembra do José Queiroz, um antigo amigo do seu pai? – diz, levando a xícara aos lábios. – Acho que você não vai lembrar, cê era muito novo quando ele morreu.

            – Lembro vagamente.

            – Enfim, o Zé trabalhou por alguns anos na cooperativa com seu pai e costumava frequentar bastante a nossa casa. Uma vez contou prà gente a história dele. O Zé, antes de vir pra cá, tinha sido um homem muito bem de vida, fazendeiro grande. Um dia, uns vagabundos tentaram invadir a fazenda dele. Eram três irmãos, depois soube. Uma família inteira de bandidos. Era um final de tarde, ele tava voltando a cavalo pra casa. Viu os três apontando de longe e não pensou duas vezes: abriu fogo. Os vagabundos saíram correndo, mas um deles levou um tiro na nuca e caiu morto. Os outros dois fugiram. O próprio Zé chamou a polícia, os homens vieram, e ele teve que se explicar. Aconteceu que a partir dali a vida dele virou de ponta-cabeça. Ele vivia recebendo ameaças da família do bandido morto, não teve mais um dia de paz. E pra piorar ainda teve que responder a um processo que se arrastou por anos e fez ele gastar mais de milhão. Perdeu a fazenda, a mulher largou dele. Depois veio pra cá, começou a trabalhar na cooperativa com seu pai. Trabalhou uns anos, e então morreu.

            – Matado?

            – Não. Ele era cardíaco, já tinha tido infarto antes. Bem, essa porcaria toda que ele viveu com certeza não ajudou muito na saúde dele.

            – E a senhora me contou isso por quê, exatamente?

            – Bom, acho que o exemplo foi bem claro. Agora você decide o que vai fazer com ele.

            – Decisão difícil.

            – Se você quer mesmo saber, a verdade é que não adianta querer ter controle de tudo, e não adianta se acabar sofrendo por aquilo que não está ao nosso alcance dar jeito. Se você quiser dar jeito, é capaz de criar um mal ainda maior. Prà maioria, não provocar um desastre é mais uma questão de sorte do que de virtude. Agradeça a sorte que tem e tire essas besteiras da cabeça.

            – É, acho que a senhora tem razão.

            – Mas também não sou a dona da verdade. A vida é sua, e você já é maior. Faça o que bem entender.

            Ele levanta-se.          

            – Já vai? – ela diz.

            – Já. Eu não avisei que vinha aqui, não posso me demorar muito. Mas venho outra hora, com mais tempo.

            – Venha mesmo, traga sua mulher. Diz pra ela que mandei um abraço.

            – Pode deixar.

            Ele dá um abraço na mãe e sai.

 

*

 

Deitado na cama, ele ergue a mão e pega o celular na cabeceira. Vê as horas: meia-noite e vinte. A esposa dorme um sono pesado. Ele permanece num estado involuntário de vigília. Resolve sair para tomar um pouco de ar.

            Na varanda da frente, fecha os olhos e respira fundo. Tudo o que ouve agora é a própria respiração. Repisa a conversa com a mãe. Um carro passa, ele permanece de olhos fechados. Depois de um tempo, vê-se aferrado na pergunta:

            – Teria coragem?

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