6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS FINALISTAS | Denilson Cardoso de Araújo — Categoria POEMA
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O POEMA FINALISTA:
CRISES
Tudo que medra.
O aço do tempo, a ferrugem dos desabamentos,
a testa que tomba da cabeça d’água,
o joelho da queda que atesta o pé de vento.
Tudo que apenas empresta paúra, detona ruína,
obstáculo mágoa desovando os estragos.
Toda repentina penúria.
Tudo que arde e se faz ruptura.
Toda sina que despenca
em dias de chumbo sem fundo.
A sede seca da garganta
de nordestina noite de cacto e pedra.
Todo fortuito e petardo, toda queimada larga
e rua escura, cada acidente
emboscado na curva e a incerteza mais gruta.
O tropeço mais árduo, o infortúnio, o abismo,
o enfarto do miocárdio.
Tudo que vira no avesso.
Rasgo de sismo, inesperado ciclone,
atropelo e braço de cruz,
aquele percalço descalço,
ao qual nunca fiz jus...
O escasso. O espesso. O cansaço.
Dor, desavença, embaraço, drama, doença
e a mais prosaica falta de luz.
Tudo que tocaia em treva calada.
O telefone cortado, o curto-circuito que entreva,
o estorvo, o susto, o que trava, o asco de ser e o
dente que nos surpreende, quebrado.
Tudo que assim desampara.
A enxurrada que vara o teto rachado,
o abuso goteira, o muro que separa e o
bombardeio da lágrima.
O súbito do corte ferrugem no arame farpado.
O grito aprisionado no pescoço rasgado,
a cara ralando no pó, o coração esmagado
o coração esmagado
esmagado
e só.
Como Jó.
Solitário e desfilhado, com sua lepra miséria
e seu gado abolido,
seus amigos tortos e a mulher que duvida.
É nesta altura que grita pra cozinha,
assim, distraída,
a Crise, essa Filha antiga de Deus,
incompreendida velha de face louca
e olho grave, mas que é, ao mesmo tempo,
avó miúda e rouca, e de colo quente, suave:
–Esperança, minha filha, te avizinha
e traz cá aquelas tuas lâmpadas
de alumiar essa varanda…
Então, do insuportável,
recebo o fio de ouro do sol
cujos alívios, pela Graça Divina, mereço
e, finalmente, aniquilo a dor que,
como um rato se esgueirando
em meu peito, me rói.
E com o embornal dourado
de gênesis frescos e frascos começos,
amanheço.
Amanheço!
Crises.
Tantas tive, tanto amargo bebi...
Como um apóstolo que cai do cavalo em cegueira
e preso na treva naufraga, dura universidade aprendi.
Quando trava, é que flui,
quando dói, é que eu cresço.
A crise me arranca pedaço, me esfarela e
a mim desconstrói.
Não adianta.
É bíblico, esse enredo.
No mais fundo, culmino.
No mais fraco, renasço.
Quando se rasga a lagoa,
há o riacho.
Com a Graça de Deus
juntando outra vez os meus cacos, declaro:
-Ninho da fênix é a fé,
com seu aço!
***










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