6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS FINALISTAS | Leo Sevaybricker — Categoria CRÔNICA
- Casa Brasileira de Livros

- 10 de abr.
- 3 min de leitura
A CRÔNICA FINALISTA:
Cansei
Essa é uma das combinações de seis letras mais usadas de um tempo pra cá. É como se todo mundo vivesse no limite da borda, tendo que escolher entre afogar ou transbordar.
Gente largando o emprego, o marido, a família, amigos como quem larga uma pedra imensa depois de rolá-la a vida inteira até o alto da montanha. Como o mito de Sísifo, o alívio é temporário, pois a pedra desce rolando e você tem que começar tudo de novo.
Mas começar de novo, por si só, já parece um alento para quem anda desesperado. Uma maneira de alimentar a ilusão de que há algo bom por trás dessa encrenca em que você se meteu.
Uma pesquisa feita após a pandemia - "Impacts of Covid-19 Study", do Ibope Inteligência, - indicou que uma das tendências desses tempos é o que chamam de "Reboot: um momento para reiniciar". Com o copo meio vazio e o vidrinho de Sertralina cheio, estamos encarando esses tempos sombrios como uma oportunidade pra repensar a vida. Descobrir novos interesses e recarregar as energias pra rolar a pedra morro acima.
Eugênio trabalhava no mercado financeiro. Viciado em pó, colecionava vinhos caros e trocava de Cherokee todo ano. Jogou tudo pro alto. Agora é instrutor de mindfulness, cheira rapé (que compra do seu vizinho pataxó, lá na Vila Madalena), toma Kombucha e, o Cherokee, trocou por uma bicicleta elétrica, que custa o preço do carro. A grana que acumulou especulando na bolsa sustenta a vida mansa e a consciência, que mantém em dia doando para o Gerando Falcões.
Beatriz, 4 filhos, vivia um casamento infeliz. Mandou os filhos pro intercâmbio na Nova Zelândia, que é pra não correr o risco de ter que visitá-los. Agora o casamento tá jóia. Às terças, fazem aula de tango. Quinta, zumba. E no sábado, vão religiosamente ao Clube de Swing, onde encontram o professor de tango, que faz bico como stripper e de vez em quando come o casal. Domingo, os filhos voltam do intercâmbio e o casamento vai pras cucuias.
A Raquel finalmente terminou com o namorado esquerdomacho. Afogada em mágoas, mergulha em Simone de Beauvoir, no Tinder, e emerge consciente e empoderada. Estimulada pelos amigos, expõe as canalhices do ex no Instagram, ganha solidariedade e muitos seguidores. Influencer, agora dá palestra, tem podcast e foi até no camarote vip da Lady Gaga. Resolvida e celebrada nos círculos progressistas, manda e desmanda. Mas quando vai pra cama, a mulher dominante gosta de ser dominada. Pede pra ser vendada e amarrada. Goza 4 vezes e não deve nada a ninguém. Veste a roupa, paga a conta e vai embora. Mas de noite, tem sempre o mesmo pesadelo: ela cheia de tesão, levando chicotada e recebendo ordens de um macho com a camisa do Galo. Então, a porta se abre e suas 72 mil seguidoras entram gritando em uníssono: 'Farsa!, farsa!'. Raquel, que sempre ouve Tati Bernardi, ainda tenta argumentar: 'é o inconsciente', 'não vale moralizar o sexo', 'meninas', cadê a sororidade?'. Mas elas só gritam, 'Farsa, farsa!'. Assim como na música do Roberto, todas estão surdas.
Júnior, 30 anos, foi relaxar em um hotel-fazenda com a família. Andava estressado com a mudança de curso: o 4º em dois anos. Se encantou tanto com um pônei, que resolveu virar um. Passou a andar de quatro, comeu os livros escolares e instalou um plug anal, desses que vêm com um rabinho peludo, que roubou da bolsa da tia Lúcia. Em 15 dias, desenvolveu uma tendinite, devidamente tratada pelo veterinário local. Seu avô ralhava com ele: ‘cresce, Júnior!’. Mas Júnior é um pônei e um pônei não cresce. Foi visto pastando grama orgânica no condomínio fechado onde mora com os pais. Dizem que agora vive em Londres. Como um quati.
Arlete trabalha na lanchonete. Sai às 5 da matina de Funilândia, região metropolitana de BH. Pega 3 conduções e um mototáxi pra chegar suada às 8 na lanchonete do Jarbas, no centrão nervoso. Lá, aguenta calada o calor, os perdigotos dos bêbados, o cheiro de fritura e as patoladas do patrão, por medo de perder o emprego. Kombucha é o que ela usa no banho pra tirar a craca de gordura ressecada dos cotovelos. E "reboot", um luxo impensável pra quem ganha um salário mínimo e ainda tem que sustentar o marido, que sofre de gota.
Diante da pedra que teima em rolar, mesmo quando a gente ousa mudar a rota e recomeçar, muitos se perguntam sobre o sentido da vida. Não a Arlete. Pra ela, o sentido sempre foi um só: morro acima, de segunda a segunda. A Arlete está pra lá de cansada. Quem dera pudesse se dar ao luxo de dizer 'cansei'.







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