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6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS VENCEDORES | Augusto Henrique Bennert | 2º lugar — Categoria CONTO



O CONTO VENCEDOR:


Pela Lei dos Homens

 

 

 

“Não farás injustiça no juízo; não respeitarás o pobre, nem honrarás o poderoso; com justiça julgarás o teu próximo.”

 

— Levítico 19:15

I.

 

Assim que o trago lhe escapou da boca e, em espirais sinuosas, saturou o interior do Toyota Camry, Rúbio achou que nada o faria mudar de ideia.

Era um dia quente de verão, do tipo que engordava seu desprezo pelos próprios hábitos. Preferia ser um homem de corridas matinais, de cervejas geladas ou mesmo de punhetas. Nenhum vício parecia tão escandalosamente incompatível com aquele calor quanto o cigarro.

Sentiu o antebraço esquerdo coçar. Pôs o filtro recuado do Parliament entre os lábios e esfregou por sobre o linho da camisa. Ergueu os olhos para o vidro fumê da janela e observou a rua deserta e silenciosa. Era raríssimo que fosse designado aos fins de semana, mas Jarbas garantiu ser essa a única alternativa. Por motivos que escaparam até ao juiz, o fórum estaria disponível para o exame de sanidade apenas na presente data.

A ponta da brasa avançou e ele aspirou o bafo quente e terroso. Pôs o maço no bolso de peito e, do banco de trás, apanhou uma pasta de papel cartão. Fechou os olhos — à caça de coragem —, abriu a porta e saltou para fora.

De pronto, foi engolfado por um mormaço que cheirava a piche e poeira cozida. Mesmo protegida pelo dossiê, erguido acima da cabeça, a testa se cobriu de suor em pequenas gotas dispersas. Atravessou a rua a passos curtos e ritmados e descartou a bituca no pequeno reservatório de areia acoplado à lixeira. Depois, seguiu até a sombra do fórum.

O prédio não era imponente, mas mantinha uma sobriedade que harmonizava com o calor retumbante do cimento. As paredes, tingidas em bege amarelado e triste, evocavam certa turvação, carimbadas pela fuligem nos cantos altos. O brasão da República saltava acima da porta de vidro e sustentava o peso do sol do meio-dia como se fosse parte da fachada desde sempre.

Duas ou três janelas basculantes ladeavam a entrada, protegidas por grades brancas. A porta principal, revestida de película escura, desvelava o saguão somente a quem encostasse o rosto no vidro.

“Doutor Rúbio?”, ouviu alguém dizer.

O rapaz não devia contar nem vinte e cinco anos. Era alto — mais alto que ele — e distintamente atlético, mesmo por baixo dos trajes formais e da bolsa corporativa. Achegou-se e esticou a mão direita. Rúbio a apertou.

“Sou Aníbal Romano. O assistente técnico. É um prazer.”

O psiquiatra franziu as sobrancelhas, comprimindo o olhar contra a figura. Recordava-se de tê-lo visto de dentro do carro, é verdade, mas não imaginou que fosse ele. Não dava pinta de psicólogo, de jeito nenhum. Desprendia um odor de óleo mineral e alguma outra coisa que lembrava desinfetante.

“Rúbio Cardoso. O prazer é meu”, tentou soar cordial. “Desculpe a pergunta, mas você é novo? É uma comarca pequena. Não lembro de já ter te visto antes.”

“Não, não. Sou psicólogo de formação e comecei a atender designações há uns dois anos. Bastante tempo.”

Ad hoc, então?”

“Sim, como o senhor. Achei que o juiz tivesse explicado.”

Rúbio riu, desencanado.

“Acho que Jarbas gosta de assistir aos meus improvisos”, deu de ombros. “É raro que eu saiba de tudo.”

“Entendo”, Aníbal meneou a cabeça, jovial. “Então, fazendo o serviço dele: não sou da cidade. Fui indicado pessoalmente pela promotoria para acompanhar o exame.”

Rúbio engoliu o incômodo em silêncio. Pensou um pouco, então disse:

“Veio do campo?”

Recebeu uma careta perplexa em resposta. Antes que o rapaz pudesse questioná-lo, indicou sua palma direita com a cabeça.

“Hiperqueratose na base do polegar. E também tem manchas brancas e esparsas. Não é nenhuma mágica; é bem comum no campo, porque se usa luva de jardinagem para manusear todo tipo de ferramenta. Uma enxada, talvez?”

“Quase, Doutor”, Aníbal desenhou um largo sorriso. “Machado. Achei que as luvas ajudassem.”

“Evitam machucados, sim. Mas é muita umidade. Acabam macerando.”

“Anotado”, carregou a voz de gratidão. “Vai evitar muita dor de cabeça.”

Rúbio assentiu e, acompanhado do assistente, rumou à porta escurecida.

“Continuo um pouco confuso, para falar a verdade”, ele comentou, o olhar preso ao vidro que corria pelos trilhos. “A promotoria, a serviço dos Bianchi, indicou um jovem camponês como assistente técnico?”

“Eu faço meu trabalho muito bem, Doutor”, Aníbal assegurou, um tanto contrariado. “E não sou exatamente um camponês só porque parto a minha própria lenha.”

O saguão dispunha de dimensões generosas, embora, à semelhança da estrutura externa, não transmitisse nenhuma grandiosidade. Diante deles, um detector de metais se projetava em um arco desgastado nas bordas. A esteira de rolos metálicos se alongava à direita do aparelho principal, acomodando uma fila de bandejas de tom preto fosco.

O ar, embebido no aroma de papel velho e limpador multiuso barato, era lançado aos quatro cantos por um antigo ventilador de teto. À esquerda, um balcão em MDF separava o público do corredor estreito que escondia a rotina burocrática.

Na parede oposta, a porta dupla de madeira conduzia ao auditório e aos gabinetes. A luz fluorescente vibrava levemente e mergulhava o salão numa claridade fria que destoava do calor de fora.

Estava vazio, exceto pela dupla de recém-chegados e pela auxiliar administrativa, Lígia, vigilante atrás do guichê. Rúbio conferiu o horário no relógio de punho. Só então, disparou:

“Boa tarde, Dona Lígia.”

“Tarde, Doutor”, ela acenou. “Quanto tempo!”

“É verdade, Dona”, balançou a cabeça enquanto erguia a base da camisa, desocultando a empunhadura de uma pistola Taurus G3C presa ao coldre interno. “Jarbas não me designava há um bom tempo”, soltou a trava de retenção, “mas este é um casinho complicado.”

Ele retirou a arma, segurou firme o cano apontado para o chão e a pousou na bandeja ao lado. Antes que pudesse atravessar o detector, a voz da auxiliar soou, interrompendo-o:

“Não precisa, Doutor. O negócio deu pau.”

Ele parou. Dedicou bons segundos à assimilação das palavras.

“Como assim, Lígia?!”

“Eu sei lá, Doutor! Foi o que me disseram”, justificou, perdendo força a cada pausa.

“Quem te disse isso? Estão cientes de que tem um réu aqui dentro?!”

“Estão sim, estão sim. Revistaram o homem mais de uma vez antes de deixar ele entrar.”

“Lígia, esse não é o ponto...”, interrompeu-se, centrado. Sob qualquer ângulo, não era justo que o sermão começasse por ela. “Certo. O que aconteceu, aconteceu. Vamos acabar com isso de uma vez”, recolheu a arma e seguiu para o gabinete principal.

“Doutor”, Aníbal ofegou, trotando atrás dele. “É mesmo seguro? Digo, que ele tenha entrado sem passar pelo detector?”

“Você sabe o que ele fez, garoto?”, o psiquiatra inquiriu, mas não deixou de caminhar pelo corredor esculpido em massa corrida.

“Sei.”

“Você foi indicado pela promotoria. Não deve saber de tudo.”

“Sei de muita coisa”, o rapaz objetou, desviando de um amontoado de caixas de papelão mal empilhadas. “Sei, por exemplo, sobre o que ele fez com a barra de metal. Digo, depois.”

“Então você sabe o que ele fez. Mas sabe por que ele fez?”

Lá adiante, a última porta — mais larga, coroada por um brasão de compensado — indicava o gabinete do juiz.

“E isso importa, Doutor? Para este tipo de crime?”

Logo abaixo da maçaneta, um aviso em papel amarelado lembrava a quem chegasse que era preciso bater antes de entrar. Rúbio sequer diminuiu o passo. Pousou a mão sobre a placa fria de metal e a empurrou, abrindo caminho para dentro.

“Sim, Aníbal. Hoje, isso importa.”

 

II.

 

Era um homem de mais ou menos sessenta anos, grisalho e malnutrido. O bege do uniforme prisional, ligeiramente amarrotado, adotava um tom castanho-escuro à margem da gola e sob as axilas. O suor também irrompia da testa e das bochechas, espalhando no ar aquele ranço de sal e ferrugem. A travessa perpendicular encaixava-se firme entre os pés da mesa, escondendo suas pernas até a altura da canela.

Ele estava quase perfeitamente centralizado sobre o granito brilhoso. À esquerda, uma estante de madeira escura sustentava fileiras de volumes encapados em couro — uns carcomidos pelo tempo, outros ainda contornados pelo cheiro ácido de papel recém-impresso. O espaço das paredes mortiças sustentava a disputa entre meia dúzia de diplomas e o célebre losango dourado, um pouco esmaecido sob a luz fria.

Os pés, calçados em chinelos de borracha, raspavam no piso encerado toda vez que ele se movia, tentando dispersar o desconforto — e, se estava desconfortável, eram dois os principais motivos: o mais evidente era o brutamontes armado que lhe fazia companhia. O segundo, um tanto mais velado, suscitou a primeira objeção de Rúbio.

“Ele está algemado?”

“Está, sim, senhor”, o homem retrucou, áspero. “É um criminoso.”

“É mesmo? E qual foi o crime?”

Emoldurado pelo batente da porta, Aníbal soprou um murmúrio confuso.

“Isto é sério?”, a voz do guarda vacilou no tom. Diante do silêncio, decidiu ceder: “o réu torturou e matou um homem.”

“Não, não”, Rúbio achegou-se, “engano seu. Ele não matou homem nenhum. Severino Castilho matou um porco.”

O detento riu baixinho.

“Você é um porco, senhor? Se for o caso, faço questão de que Jarbas fique sabendo.”

“O quê?”

“Um porco, senhor”, o psiquiatra atropelou, coercitivo. “Você é um porco?”

“Não. Não sou.”

“Então, não tem com o que se preocupar. Tire as algemas e suma daqui.”

“Ele está detido em preventiva. Precisa voltar para a delegacia.”

“Ele vai. Eu mesmo comunico o juiz.”

Sustentaram um confronto mudo, olho no olho, por alguns instantes; de súbito, toda a sala parecia tomada pelo mormaço poeirento lá de fora.

“Foda-se”, o agente rosnou e avançou até a mesa.

Ergueu os punhos do detido pelo elo central e, num gesto de negligência deliberada, enfiou a chave na fechadura. A catraca dentada ruiu, seguida pelo repetido tilintar das argolas enquanto ele marchava até a saída.

Aníbal quase não teve tempo de desviar. Jogou-se junto ao psiquiatra, recolhendo o corpo quando a porta estourou. Disparou contra o colega um olhar crítico e reticente. Antes que pudesse falar qualquer coisa, porém, Severino observou:

“Você é um daqueles, então?”

A rouquidão da voz evocava sobriedade e humor. Se precisasse descrevê-lo em termos comportamentais, Rúbio arriscaria dizer que estava se divertindo. Dispensou a reprimenda do assistente com um gesto de mão, pousou o dossiê sobre a mesa e se sentou, face a face com o detento.

“O que quer dizer, senhor?”

Aníbal puxou a cadeira de leitura que bordeava a estante e largou-se sobre ela, desgostoso.

“Por favor, Doutor. Me chame de Vino.”

“Entendido, Vino. O que quer dizer?”

“Nada, nada”, sorriu sozinho. “Nós vamos descobrir logo.”

Impassível, ele seguiu — estava particularmente acostumado a ignorar pontuações que lhe soavam confusas. Tateou o bolso frontal esquerdo das calças e apanhou um celular com a tela trincada. Vasculhou a lista de aplicativos e iniciou o gravador de som.

“Certo. É bom começarmos. Antes de tudo, me chamo Rúbio Cardoso.”

“Aníbal Romano”, resmungou o outro.

“Severino, preciso que me responda com honestidade a partir de agora. Pode fazer isso?”, Rúbio retomou.

O velho grunhiu em concordância.

“Como se sente sobre o que fez?”

Neste momento, estava armado para descartar mais uma bronca do psicólogo — havia burlado boa parte da estrutura típica de anamnese, bem como estruturado uma pergunta pouco usual. O sermão não veio.

“Sinto que é errado.”

O médico bufou.

“Está cansado, Vino?”

“Como?”

“Perguntei se está cansado. Digo, cansado de justificar. Tanto que prefere mentir.”

Desta vez, não escapou do olhar condenatório de Aníbal.

“Ah”, o réu vazou uma risada contida e lúcida. “Sim, sim — você é um daqueles.”

“Não estamos nos entendendo.”

“Um dos diferentes, Doutor. Dos compassivos. Não sabia que contratavam médicos negociadores. Foi designação do juiz, não?”

“Não sou um negociador. E foi, sim. Me enviaram... nos enviaram”, a correção veio embrulhada em rispidez, “para avaliar seu estado mental. As coisas podem ficar melhores para você se eu declarar imputabilidade.”

“Se você for imputável”, o psicólogo retificou, “mas não me parece o caso, senhor.”

“Ah, ele também fala”, o detento meneou a cabeça. “E você? Está do lado de quem?”

“Do lado da lei. Mas fui indicado pela promotoria, se é o que quer dizer.”

“Pela promotoria!”, pareceu animado, “bom, então já podemos resolver tudo aqui mesmo. Você pode ouvir seus instintos e espalhar meus miolos pela sala.”

“Não estou armado”, Aníbal garantiu.

O velho gargalhou, satisfeito em constatar que aquele parecia o único impeditivo verdadeiro.

“Ora, sorte a minha, sorte a minha… querem saber se eu estava louco quando fiz o que fiz, é isso?”

Nenhum dos dois poderia confirmar. Era uma suposição um tanto reducionista, apesar de certeira.

“Bom, eu não sei. Nunca estive louco para saber. Mas posso garantir que foi a primeira vez que senti algo como aquilo.”

“Entendo, Vino. Tente descrever melhor—”

“Por que ele te designou?”, Severino intercedeu. “Digo, no lugar de outros?”

“Jarbas e eu somos amigos de longa data”, o médico disse, indiferente.

“Porque ele é muito profissional”, de novo, Aníbal reformulou. “E especialmente conhecido pela imparcialidade”, moldou o tom em advertência explícita.

Rúbio sentiu o antebraço esquerdo coçar. Entrelaçou as pernas à sombra do tampo da mesa. Precisava de um cigarro.

“Bom, Severino”, enfiou a mão entre a capa e a contracapa do arquivo sobre a mesa, “não estamos avançando muito. Vou revisitar a história do começo para garantir que estamos na mesma página. Pode ser assim?”

Pela primeira vez desde a saída do agente penitenciário, o detento pareceu indisposto. Ciente de que a própria concessão não passava de formalidade, ele assentiu.

  “Sua filha, Sara Castilho, dezoito anos, deixou a própria casa pela última vez há duas semanas, na quarta-feira, em treze de janeiro. Estava acompanhada de duas amigas, Helena e Elisa. Todas se conheceram no ano passado, no curso de Ciências Sociais. Apesar do pouco tempo de amizade, eram muito importantes umas para as outras.”

Severino franziu o cenho. A forma como os acontecimentos eram descritos lhe parecia carregada de subjetividade, e ele não tinha certeza se podia confirmar cada detalhe.

“Helena Figueiredo me contou”, apressou-se a esclarecer, percebendo a dúvida. “Foi ela quem me disse que sua filha era muito importante.”

O velho torceu o nariz e fechou os olhos. Rúbio continuou.

“Por volta das 22h, as três chegaram no Caldeirão, onde uma festa aberta ao público acontecia. Helena e Elisa beberam. Sara, não: ela nunca bebia. Alguém precisava ficar de olho. Sua filha era muito responsável.”

Sentiu a desaprovação do outro roçando seu pescoço.

“Mas usou um copo descartável para beber água. E, para Felipe Bianchi, foi mais que o suficiente.”

A sola dos pés rangia contra os chinelos do detento num som úmido e comprimido. Os olhos ainda estavam fechados.

“Não gosto da alcunha deste tipo de droga, preciso dizer”, o médico admitiu. “Para mim, barbárie e princesas não se misturam.”

Empenhando-se em barrar a censura na garganta, Aníbal sugeriu:

“Rúbio, o senhor não acha que está sendo—”

“Você sabe o que ela faz, Aníbal?”, ele retomou a palavra. “A escopolamina, quero dizer. Uma das drogas que Felipe decidiu usar.”

Não aguardou qualquer resposta. Deslizando os dedos pelas ranhuras da mesa, disse:

“Em doses controladas, é usada para o tratamento de cinetose — talvez você conheça por ‘enjoo de movimento’. Acontece quando os olhos percebem um movimento diferente daquele sentido pelos vestíbulos. Então, a escopolamina deprime partes do cérebro e o centro do vômito.”

“Sim, Doutor. Eu já ouvi—”

“Mas Felipe não usou para tratar cinetose, não é verdade?”, Crivou-o do próprio olhar cínico. “Em altas doses e misturada a outros compostos, ela produz um efeito parecido com uma síndrome de encarceramento. Praticamente todos os relatos incluem um senso de submissão involuntária, de despersonalização e de descontrole sobre o próprio corpo. Mas não se assuste: vai ver os efeitos são diferentes nos homens adultos. Todos os relatos de que me lembro vêm de mulheres ou crianças. Me pergunto por quê.”

“Rúbio, eu entendo. Só quero dizer que—”

“É este tipo de história que sua filha vai ouvir, senhor Romano? Quando chegar à fase das princesas, esta é a Cinderela que vai conhecer?”

Sustentaram o silêncio através do conflito e do mormaço.

“Foi o que pensei”, o psiquiatra balançou a cabeça e voltou a atenção ao detento, ainda imóvel. “Na manhã seguinte, encontraram o corpo de Sara no terreno baldio que avizinha o Caldeirão. Estava nua, coberta de barro e de escoriações. A cromatografia identificou mais três depressores do sistema nervoso central além da escopolamina. Conforme a autópsia, houve felação, penetração vaginal e penetração anal.”

“Pelo amor de Deus, Rúbio!”, o psicólogo estourou, chocando as mãos espalmadas contra a mesa e pondo-se de pé. “O que o senhor está fazendo?!”

“Contando a história.”

“Tudo o que eu vi até agora foi despreparo! Como você pode lidar com um homem traumatizado desta maneira?! Sem qualquer pudor!”

“Sente aí, garoto”, a voz embargada de Severino ordenou. “Eu já sabia dos detalhes.”

O olhar inconformado de Aníbal viajou do réu ao médico um par de vezes. Derrotado, ele tornou a obedecer.

“A informação se tornou pública. Felipe sequer tentou disfarçar o que fez, mesmo durante a festa. Ninguém interveio.”

O que me preocupa não é o grito dos maus...”, o velho balbuciou para si. 

“Ele era um Bianchi, e você sabia disso. Se fosse punido, seria por pouco tempo. Foi quando decidiu agir por conta própria. Acompanhou seus passos através das noitadas — as que ele nunca abandonou, mesmo sob os olhares e sussurros de uma cidade inteira.”

“Ah, Doutor... julgamento é só julgamento.”

“Em 21 de janeiro, portando um velho revólver herdado do avô, você abordou o homem em um beco escuro e o rendeu. Estava cercado de amigos, mas nenhum se atreveu a reagir. Trancou o sujeito no porta-malas do Del Rey e seguiu viagem até a chácara. Fez tudo com calma, sem o menor esforço para esconder os próprios rastros.”

“É uma cidade pequena e desorganizada. Não levariam menos de dois dias para compilar os dados, mesmo para o engomadinho. Era tudo que eu precisava.”

“O plano foi um sucesso e você matou o monstro”, Rúbio claqueteou a pasta.

“Preciso te interromper aí, Doutor”, Severino meneou a cabeça, crítico. “E peço desculpas por não ter interrompido antes, quando você o chamou de porco. Felipe Bianchi não era um porco ou um monstro. Não acho que se possa culpar um monstro por agir em conformidade com a própria natureza. Ele era um homem, e foi julgado pela lei dos homens. Nós somos todos homens.”

Lei dos homens?”, Aníbal zombou. “A lei dos homens existe, senhor, e não respalda a vingança.”

“Mesmo? Conheço um antigo rei da Babilônia que discordaria de você — um sujeito que, dizem, é o pai dos códigos legais. É só que, na época, lei e teatro não se confundiam.”

“Entendi, Vino”, Rúbio dissipou a tensão. “Entendi sua correção. O plano foi um sucesso e você matou o homem.

“Você pulou umas coisinhas.”

“Vinte e seis coisinhas, para ser mais exato”, o técnico reforçou, cada vez mais desconcertado.

“Vinte e seis ossos quebrados. Sim”, Rúbio assentiu com a cabeça.

“Tem mais coisa”, o réu insistiu.

“Não precisamos realçar tudo, Vino.”

Mais uma vez, o detento riu. A umidade dos olhos e o suor da pele já não se distinguiam tanto.

“Estômago fraco, hein?”, ele debochou, bem-humorado. “Foi por isso que escolheu a psiquiatria?”

Desta vez, mesmo Aníbal deixou escapar um risinho contido. Apenas alguns instantes antes, sequer parecia capaz de sorrir.

“Ele destruiu sua vida”, Rúbio ignorou, “era filho de um figurão. Você sabia que a justiça não seria feita, e—”

“Doutor, por favor”, Severino tomou parte mais uma vez. “Entendo a sua tentativa de aproximação através desta parcialidade toda. Mas não sei se está certo.”

“Pelo menos mais alguém nesta sala respeita a legislação”, Aníbal disparou, impolido, “e é muito preocupante que seja o homicida.”

Rúbio inspirou fundo em um gesto de contenção descarada. Fechou os olhos, coçou o antebraço esquerdo e ponderou mais um pouco. Então, prudentemente amaciando o próprio tom, ele anunciou:

“Aníbal, preciso que saia.”

“Como é?”

“Preciso que saia do gabinete, garoto. E feche a porta”, trouxe a atenção ao entrevistado, prestes a recomeçar a conversa.

O psicólogo não se moveu.

“Você me entendeu, Aníbal?”

“Entendi. E não pretendo desrespeitar a decisão do juiz só porque você é sensível demais para aceitar qualquer crítica ao seu trabalho medíocre.”

Pela primeira vez desde o início do exame, Rúbio tornou-se totalmente para o assistente. Deslizou a cadeira por sobre o encerado do piso, encarando-o de frente.

“Escute, garoto. Você é novo no serviço — apesar de entender dois anos como bastante tempo”, desenhou aspas no ar. “Está disposto a correr todo tipo de risco para não violar protocolos. Eu admiro a sua coragem e espero que possamos trabalhar juntos de novo. O mundo precisa de mais pessoas como você.”

Aníbal deixou escapar um sorriso torto, um tanto desarmado.

“Agora, preste atenção”, Rúbio endureceu a voz e apertou os olhos. “Neste momento, se você não fizer o que eu estou mandando, eu vou foder você e a sua carreira com tanta força que a única alternativa de recomeço será na porra da indústria pornográfica.”

Severino gargalhou. O assistente cravou as mãos na mesa e se ergueu num impulso brusco, tombando a cadeira atrás de si. Achegou o rosto ao do médico, ofegando como um bicho acuado prestes a atacar. A essa altura, já não restava traço algum da compostura anterior, apenas uma forma velada e espirituosa de hostilidade.

“Você me entendeu, rapaz?”, o psiquiatra continuou a encará-lo.

O meio sorriso se alargou comedidamente. Aníbal apanhou a bolsa corporativa, atravessou a saída e bateu a porta.

 

III.

 

“Vocês ensaiaram isso tudo só para mim?”, as palavras de Severino ainda se afogavam em risos interpolados.

Rúbio tombou a cabeça entre as mãos, apoiadas sobre a mesa pelos cotovelos. Inquieto, expirou demoradamente.

“Ora, deveriam ter me dito que seria um espetáculo! Eu teria me vestido melhor...”

O celular decolou do tampo à estante e se estilhaçou em pelo menos uma dúzia de miudezas metálicas e vidro temperado. De súbito, já não havia qualquer gravação ou registro da conversa. O médico arregaçou a manga direita — que envolvia o braço do arremesso — e voltou-se ao detento.

“Pode acreditar em mim agora, Vino? Ou precisa que eu atire na pasta?”

O susto o havia colado às costas da cadeira. Devagar, abaixou as mãos, erguidas diante do rosto, e encarou o avaliador. Permaneceram assim, em silêncio, até que ele percebesse que a continuidade do diálogo dependia integralmente de sua concessão. Um tanto estarrecido, cedeu:

“Acredito, Doutor. Mas não sei o que o senhor quer de mim.”

“Quero conversar. Quero conversar de verdade sobre o que fez.”

“Sabe o que fiz, senhor.”

“Me chame de Rúbio. Tudo isto aqui já fugiu bastante da estrutura de um exame formal.”

“Como quiser, Rúbio. Você mesmo narrou o que eu fiz”, ele reiterou — a voz, aos poucos, tingida de dúvida e curiosidade. “E eu não estava louco. Você pode colocar isso no seu registro.”

O médico levantou-se. Perambulou pela sala a passos irregulares e tensos, afundando as palmas no suor do cabelo. Parou frente à bandeira da República, de costas para o réu.

“Não sei se é o que eu quero fazer”, anunciou, seco e cortante. “Estou cansado da injustiça.”

Finalmente, Severino Castilho entendeu de que tudo aquilo se tratava.

“Injustiça, não é isso?”, soou conciliador. “É uma dicotomia da qual não podemos fugir, justiça e injustiça... uma não existe sem a outra.”

“É. Mas eu posso fazer alguma coisa sobre esta injustiça.”

Os olhos continuavam fixos à faixa sobre o círculo azul. Leu as palavras tantas vezes que perderam o sentido, parecendo-lhe desconhecidas — um instante de jamais vu[1]. À luz de nova ponderação, admitiu que “progresso” talvez nunca tivesse, de fato, pertencido àquela terra.

“Como o quê? Dizer que sou louco?”, Severino riu, desencanado. “Bom, isso depende. Avalie a sua verdade. É tudo o que existe, no final das contas. São tantas e tantas verdades... a injustiça nasce da tentativa de congregar todas elas à sombra de uma só.”

“Você vai morrer, Vino”, ele marchou de volta à cadeira, escalando o tom. “Quero que entenda a dimensão do problema.  É uma cidade pequena e você se meteu com gente poderosa. Se for preso, vão te matar” pensou por um instante. “Talvez te matem mesmo antes disso. Não é o que eu quero ou o que Jarbas quer, e é por esse motivo que insistimos em conduzir a conversa no gabinete dele. Mesmo assim, tenho certeza que algumas pessoas já têm a sua cabeça no topo da lista de prioridades. Apostaria muito dinheiro nisso.”

“E não vão me matar em um manicômio?”

“Não existem manicômios”, Rúbio meneou a cabeça, rigoroso. “E, sim, podem matar. Todo mundo tem um preço; é só que ele costuma ser menor quando o ápice do seu dia é fumar um maço de cigarros e pegar duas horas de sol”, recostou-se no espaldar. “Na prisão é mais fácil, é o que quero dizer.”

“Todo mundo tem um preço, eu concordo”, o réu tamborilava os dedos por sobre o tampo, mensurando as ranhuras. “Todo mundo pode ser convencido a violar até mesmo a própria verdade quando entende a injustiça como grande demais. Entende, veja bem”, encarou o psiquiatra. “Justo e injusto, bom e mau. É tudo relativo.”

Rúbio estalou a língua e suspirou. Estava farto de relativizações.

“Existem maldades objetivas”, ele disse, inclinando-se sobre a mesa, “como a que fizeram com Sara. E existem justiças objetivas, como a que você fez com Felipe.”

“Existem?”, com interesse, o velho ergueu a voz e uma das sobrancelhas. “Ora, essa é nova para mim. Pergunte para a mãe dele, Doutor. Pergunte se ela concorda com o esfolamento genital ou com o empalamento com barra de ferro — a mesma que usei para quebrar vinte e seis ossos, como o rapazinho bem lembrou. Pergunte se ela entende tudo isso como justiça.”

Prolongaram um embate silencioso e desconfortável por vários segundos. Certo de que a resposta não viria (e de que não havia resposta em primeiro lugar), Severino adicionou:

“Fico feliz que esteja do meu lado, Rúbio. Falo sério. O que fizeram com a minha filha foi o meu preço. É bom que você partilhe a revolta dos outros — é o que nos torna humanos”, voltou a medir os sulcos na madeira.

“Então, estamos acertados.”

O médico abriu o arquivo e folheou até o fim. Desprendendo o grampo trilho, separou o amontoado de páginas que correspondiam ao relatório psiquiátrico e retirou uma caneta esferográfica do bolso das calças. Antes que pudesse preencher o cabeçalho, porém, o detento interveio:

“Mas a revolta não deve ser o seu preço.”

Largou a caneta e passou as mãos pelo rosto, tomado de impaciência.

“Veja”, Severino continuou, “não existe um cenário no qual amenizar a minha punição seja possível ou mesmo justo. Eu premeditei um assassinato e torturei um homem das piores formas que pude conceber. Premeditei, entende? De maneira consciente. O técnico disse que você é conhecido pela imparcialidade. Seria certo mentir, Doutor? Forjar a imputabilidade?”

“Não fode!”, esmurrou a mesa e arremessou a caneta na direção do telefone, “não venha me dar um sermão sobre mentiras!”, avançou contra o réu, devolvendo a hostilidade de que fora alvo momentos antes. “A primeira coisa que você fez foi mentir! Assim que entramos, disse que achava que o que fez foi errado!” desenhou aspas exageradas e zombeteiras no ar.

“Foi o que eu disse, sim”, aos tropeços, manteve a compostura.

“E é verdade?”, despejou sobre o examinado o hálito defumado de palha e madeira clara. Apoiava o peso do torso sobre o braço esquerdo; com a mão direita, coçava o punho de linho. “Você acha que errou?”

“Acho que existe um certo grau de objetividade moral quando falamos de tortura e assassinato, Doutor, e que não caiba muita ponderação.”

Rúbio bufou e torceu o nariz. Ainda em pé, pôs-se a dedilhar o encosto da própria cadeira.

“Você é um hipócrita. Repetiu as mesmas flexibilizações desde o início da conversa, e agora me diz que, no caso do seu crime, ponderação é incabível? Que está errado e ponto final?”, rolou os olhos pelas órbitas, “coerência, porra! Um pouco de coerência!”

“Sente aí, Doutor. Por favor.”

Doutor.

De súbito, a inversão de papéis lhe caiu na consciência, corroendo qualquer percurso mental que tentasse justificar sua fúria — ou a escolha de carreira.

“Caralho, caralho...”, cambaleou até a saída, colando a testa à porta. “Eu peço desculpas, Severino.”

Engoliu o choro a seco. Sentia o espírito pesar, turbilhonado, escapando-lhe pelos ouvidos. Todas as comoções pareciam assustadoramente materiais — um grande aglomerado de linhas. Eram linhas grossas, linhas finas, eram coloridas, escuras, possíveis e disparatadas. O enxame ameaçava transpor a própria pele, sobretudo do antebraço, rebentando-o de dentro para fora.

“Está tudo bem, garoto. Você está certo. Não fui justo com você. Por favor, sente aí.”

Ele titubeou de volta, afundando-se no assento. À moda dos pés, as palavras também vacilaram:

“Não quero ficar parado... não me faça ficar parado e assistir...”

“Você está certo”, Severino prosseguiu, “e eu fui hipócrita. A ponderação é sempre cabível. Neste caso, depois de refletir, garanto que o que fiz foi errado.”

Seguiram compartilhando o silêncio — já não tão incômodo quanto de hábito.

“E você se sente mal?”, Rúbio indagou depois de um tempo. A voz, embargada, arrastava cansaço e culpa.

O velho pensou mais um pouco, mirando o gesso lascado do teto.

“Eu fiz muita coisa errada nesta vida. E, sim, tem muitas coisas pelas quais me sinto mal. Coisas que não me deixam dormir. Quando sonho com os gritos dele e acordo suado, por exemplo. Coisas erradas”, e desceu os olhos, caçando os do médico. “Mas, particularmente, elas não me assombram. Enxergo todo dia como uma oportunidade nova de descobrir que estava errado. Tudo que é vivo acaba mudando”, suspirou com pesar. “É triste que eu logo vá perder esse privilégio.”

“Não precisa ser logo”, a expressão do examinador se acendeu. “Vamos pensar em outra coisa. Já que foi errado, você estaria disposto a se desculpar publicamente? Pode ser que Jarbas dê um jeito de transformar em uma circunstância atenuante, e pode ser que a pena seja reduzida.”

Mas, àquela altura, os dois já sabiam que aquelas eram apenas ideias jogadas ao léu — e que havia pouco mais destrutivo que esperança no lugar errado.

“Não, Doutor”, o detento balançou a cabeça, “nada de redução, nada de insanidade, nada de teatro. Não vou escapar por um discurso bonito.”

“Cristo! Nada neste mundo pode te convencer a cooperar?”

“Tudo que eu tinha neste mundo foi tirado de mim há duas semanas”, ele devolveu, sem rodeios. “Ninguém mais depende de mim. Isto aqui é só o rastro da injustiça que me aconteceu, garoto”, a voz era sóbria, quase paternal. Severino parecia mais disposto a consolar o médico do que a si mesmo. “As consequências de terem atingido o meu preço.”

“Vino… por favor. Me ajude”, o tom evocava uma urgência estranhamente pessoal. “Não me obrigue a ficar parado”, afogou um breve soluço. “Eu posso comunicar a defesa. Posso dizer que você está disposto a cooperar. Um pedido de desculpas, só isso, e pode ser que você fique menos tempo preso. Menos tempo para te matarem.”

“É que eu vejo valor nas desculpas. Muita gente consegue reconhecer um erro como erro, o que não é sinônimo de arrependimento — e muito menos justifica um pedido de desculpas. Não para quem enxerga as coisas com a seriedade que as coisas têm.”

“E o que falta, senhor? De que mais você precisa para se desculpar?”

“Ora, falta tudo”, soltou um risinho sossegado. “Desculpas só fazem sentido quando existe intenção de se corrigir.”

“Você me confunde.”

“Entendo. É porque também pulei uma coisinha”, Severino admitiu, entrelaçando as mãos por de cima do tampo. “Bem no início, quando você me perguntou como eu me sentia sobre o que fiz.”

“E como você se sente?”

“Sinto que é errado.”

O réu afrouxou os ombros e ergueu a cabeça.

“E que, sem dúvidas, faria tudo de novo.”

 

IV.

 

Estava em uma encruzilhada.

Era o tipo de entroncamento que só revelava a saída a quem observasse de cima, via satélite. Rúbio precisava ver de cima.

A fumaça se esgueirou em curvas, cortada pelos fachos de luz da lâmpada fluorescente do auditório. De pé, com o corpo inclinado, ele buscava afastar o Parliament aceso dos sensores ópticos. Tudo não passava de encenação — tinha quase certeza de que nenhum daqueles dispositivos funcionava de verdade.

Subiu os olhos às bandeiras hasteadas por sobre a tribuna. Logo atrás, na parede, Cristo o encarava, preso à cruz que fez dele réu e juiz.

Ora, o que não era encenação?

Deixara Severino no gabinete porque precisava pensar, mas preferia que pensar não lhe coubesse. Qualquer reflexão sobre a justiça retornava à memética das teocracias — ele era um psiquiatra são e aquela era uma legislação laica. Não poderia dizer qual das duas mentiras soava menos convincente.

A verdade é que ele gostava de Jesus, e a institucionalização da fé não o incomodaria se a fé fosse integralmente institucionalizada. Se o sacrifício dos maridos fosse tão esperado quanto a submissão das mulheres e se o amor a Deus e ao próximo valesse mais que a tradição — destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas[2].

Mas a expansão do gene cultural exigia a priorização de alguns dos pilares. Medo, esperança, autoimunidade, narrativa, ritualização e centralidade, se bem lhe vinha à memória. A dúvida se confundia com pecado; o estrangeiro, com pecador. Assim se ergueram os muros entre os povos. O Estado laico era um eufemismo vazio, e os imigrantes enfrentavam mais desprezo que os estupradores.

Severino era um justo com os pés lavados no sangue de um ímpio. Era verdade que deveria se alegrar — os Salmos lhe davam razão —, mas a memética se curvava a um sistema desleal e priorizava o interesse de seus arquitetos.

Nada, ele concluiu. Não há nada que não seja encenação.

Mais uma puxada. Sentiu o antebraço coçar. Voltou a atenção à porta de acesso ao tribunal, que conduzia ao corredor. Estava sozinho.

Desabotoou o punho de linho e ergueu o tecido até a altura do cotovelo.

Deixai vir a mim os pequeninos...

As cicatrizes eram todas ovais, acastanhadas e ligeiramente deprimidas, como se o pontilhassem em baixo relevo.  Nunca fora capaz de se acostumar ao número delas, de modo que sempre o surpreendiam pelo excesso. Pareciam menos em quantidade quando foram marcadas, uma por vez. Era o triunfo do abuso, ele achava.

Tudo sempre parecia menos.

Um cigarro era apagado em sua pele toda vez que, durante o ato, não conseguia se manter imóvel. Outro, sempre que reclamava demais. Permanecer parado era quase impossível, visto que não herdara a força ou o tamanho do pai. Manuel Cardoso era muito maior e incomparavelmente mais forte.

Quanto às reclamações, aprendeu rápido, e somente voltou a se rebelar quando os outros homens chegaram. À época, deveria ter mais ou menos quatorze anos. Percebendo que não poderia contê-lo sem que o matasse, Manuel passou a dopá-lo.

Barbárie e princesas.

Suspeitava que o pai tirasse algum lucro daquilo, embora nenhum dinheiro o pudesse convencer a comprar um cinzeiro. Então, ficou parado e silencioso. Parado e silencioso durante, parado e silencioso depois. Parado e silencioso na escola e depois da escola. Parado e silencioso na universidade, na residência. Parado e silencioso no primeiro emprego, nas festas de família.

Sempre parado. E sempre em silêncio.

Aquilo o envergonhava mais que as próprias memórias. Talvez a legislação, enviesada como fosse, o tivesse ajudado naquele tempo, se ao menos fosse capaz de pedir por ajuda. Não pediu, porque precisava ficar parado. Agora, contemplava a verdadeira lei dos homens. O justo e o ímpio; o olho e o dente.

Assim que outro trago lhe escapou da boca, Rúbio teve certeza de que nada o faria mudar de ideia.

O estampido do tiro o arrastou de seus pensamentos. O som retumbou nas paredes de gesso acartonado e nos labirintos da mente, arrancando-lhe uma queda instintiva, a mão já pousada sobre a empunhadura da Taurus. Detrás de uma das mesas de audiência, Rúbio escutou a cadência rápida e breve de passos cruzando o corredor central, do gabinete à saída. Desprendeu a trava de retenção e apurou os ouvidos. Não ouvia mais nada.

Cauteloso, pôs-se de pé. Nem mesmo o intenso treinamento balístico a que fora submetido desde a primeira designação amenizava a debilidade das pernas e o tremor das mãos que contornavam a arma.

Era um jardineiro na guerra.

Alinhou o cano ao acesso do auditório, deixando o dedo escapar do guarda-mato para o gatilho. Avançou em passos curtos, cada um mais vacilante que o anterior.

No corredor, tomou a esquerda. Poderia dizer que o objetivo era defender Severino, mas sabia exatamente o que encontraria no gabinete — assim como sabia que o atirador estaria no saguão, e o saguão estava à direita.

O fato era que, naquela conjuntura, mesmo Rúbio sentia que a necessidade de escapar pesava mais que a de ficar parado.

Desta vez, a massa corrida das paredes parecia se apertar ao redor dele, e cada uma das portas de madeira lisa guardava a promessa de surpresa e morte. O tilintar nervoso do ferrolho vibrava em suas mãos, atravessando o ar junto ao compasso errático de sua respiração. Chocou o quadril contra um amontoado de caixas de papelão mal empilhadas. Lá adiante, a porta larga e escancarada indicava o gabinete do juiz, e dele se desprendia um cheiro químico e estéril.

Alguma coisa que lembrava desinfetante.

Bastou um olhar rápido. A travessa perpendicular encaixava-se firme entre os pés da mesa, escondendo o cadáver tombado por sobre a cadeira desconfortável. O célebre losango dourado, um pouco esmaecido sob o sangue e os miolos, emoldurava a faixa e o círculo azul. Sobre ela, só uma palavra seguia legível.

Ordem.

Um grito vindo do saguão. A voz de uma mulher.

Rasgou o corredor como quem acredita na força que não têm; olhos fechados, à caça de coragem. Ora, não havia teatro na coragem, havia? Fingir coragem era coragem. Devia ser.

Escancarou a porta dupla com um golpe seco do solado. Do outro lado, o arco metálico do detector emoldurava aquele retrato medonho: o assassino, todo em preto, imóvel como uma estátua, mantinha o dedo enluvado e firme sobre o gatilho. Somente os olhos escapavam através da balaclava — frios, fixos, tão duros quanto o cano do revólver que tocava a têmpora da vítima. Ele prendia Lígia pelo pescoço, espremida entre o antebraço e o torso, ofegante e chorosa.

A Taurus não tardou a anunciar a própria inutilidade. Apesar da resistência inicial — portá-la lhe conferia certa segurança —, Rúbio entendeu que nada poderia fazer daquela posição. Não arriscaria disparar contra Lígia. Se precisasse ser honesto, não sabia se arriscaria disparar, qualquer que fosse o alvo.

(Primum non nocere[3]).

“Calma”, ele espalmou as mãos, direcionando o cano para o teto. Só então, agachou-se, aproximando a pistola do granito levigado. “Ninguém viu seu rosto”, largou a arma, “você fez o que tinha que fazer.”

Não tinha certeza, mas os olhos do agressor pareceram se estreitar. Nutria certo interesse mórbido pelas queimaduras de cigarro. 

“Agora”, Rúbio continuou, composto e estável. “Por favor, deixe ela ir.”

O homem fez pressão contra a têmpora de Lígia. Ela gemeu e soluçou.

“Senhor”, o médico disparou, meio chamando, meio rogando. “Você recebeu para matar Severino, não é isso? Ele está morto. Ninguém mais precisa se machucar.”

A sombra não reagiu ou desviou o olhar. Discutir violência sexual costumava exigir dele um controle quase impraticável, era verdade, mas aquele não era o primeiro homicida descompensado com quem trocava palavras.

Esperava que não fosse o último.

“Eu vou chutar a minha arma até você, pode ser assim?”, Rúbio sugeriu.

Ciente de que não receberia qualquer resposta, ele o fez. A Taurus viajou até metade do caminho. Não sabia se seria suficiente para que Lígia fosse liberta, mas também não podia avançar.

Sustentaram o silêncio através do conflito e do mormaço.

De súbito, o homem projetou a refém para frente com um empurrão e espalmou a mão esquerda, que continuava livre. Lígia permaneceu ali, parada, ofegando como se cada fôlego pudesse ser o último.

“Lígia”, Rúbio chamou, tentando vestir de calma a voz palpitante. Ela não respondeu. “Dona Lígia”, repetiu e fisgou seus olhos desesperados. “Vai ficar tudo bem. Preciso que pegue a arma do chão.”

Ela obedeceu de pronto — muito mais rápido do que ele esperava.

“E que não faça nenhuma besteira”, acrescentou em sobressalto. “Entregue na mão dele, está bem?”

Ela o fitou. Ele percebeu que a ideia de poupar-lhe a vida não a agradava.

“Vai ficar tudo bem, Lígia”, garantiu. “Só não faça nenhuma besteira.”

Vacilante, Lígia obedeceu. O homem espremeu a Taurus entre o cinto e o quadril, então gesticulou com o revólver na direção do balcão em MDF, dispensando-a.

Rúbio expirou profundamente, o alívio soprado por entre os lábios como a fumaça do Parliament. Fechou os olhos e inclinou a cabeça para o teto. Se fosse morrer ali, pelo menos teria salvo—

O segundo disparo ribombou ainda mais ensurdecedor que o primeiro, tão forte que custou a perceber que não era o alvo. Só compreendeu de fato quando viu o esguicho violento irromper da coxa de Lígia, caída sobre uma poça do próprio sangue e gritando com a dor bruta e desesperada de um animal no matadouro.

“PORRA!”, ele berrou e ameaçou um passo. O cano do revólver se ergueu, mirando direto em seus olhos, e ele congelou. “Lígia, pressione! Pressione a coxa, Lígia! Aperte com força!”

Mas ela não podia ouvi-lo. Tentou se levantar; as mãos escorregaram e o corpo desabou de volta, batendo contra as costelas. Empalidecia. Os gritos continuavam, mas perdiam força. Mesmo dali, Rúbio via as lágrimas espessas riscando o rosto e caindo sobre o granito, misturadas ao vermelho vivo.

“Me escute, Lígia, pelo amor de Deus! Você precisa apertar!”, a voz embargou.

Os gritos se transformaram em murmúrios fracos, e os olhos dela pestanejaram antes de fechar, como se cada piscada carregasse um peso insuportável. Não estava morta, Rúbio sabia que não. Mas estaria em minutos. Ele avançou mais um passo.

“Não”, a voz coercitiva e grave escapou, distorcida pela lã da balaclava. “Parado.”

Parado?

O antebraço coçava. Ele estava cansado. Cansado da injustiça, cansado dos arquitetos e de sua memética. Cansado do silêncio. Mas, acima de tudo, cansado disso.

Ele estava cansado de ficar parado.

Decolou até a mulher, cada um dos passos arrastando a sombra de um fim iminente — mas nenhum foi o último. Desabotoou a camisa de linho, desnudando mais uma série de pontilhados esparsos e em baixo relevo. Pressionou o tecido contra a perfuração, contendo os esguichos. Mantinha os braços esticados, rígidos e tensionados; a existência do agressor já mais parecia uma memória distante e desconhecida — um instante de jamais vu.

“Bom, quem diria”, ele anunciou, mais declarado e nítido. Soava familiar. “Você tem estômago.”

Rúbio sentiu o coração afundar. Os braços quase cederam, mas ele os travou. Arregalado, desviou o foco à porta escurecida que já corria pelos trilhos.

O homem apanhou a bolsa corporativa que esperava do lado de fora. Jogou a alça por cima de um dos ombros e, jovial, anunciou:

“Eu admiro sua coragem, Doutor.”

Sorriu. Rúbio não poderia dizer como sabia; mas ele estava sorrindo. Um sorriso hostil e espirituoso.

“Também espero que possamos trabalhar juntos de novo.”

 

 

 

 

 

 


[1] Oposto de déjà vu. Em vez de sentir que algo já foi visto, o jamais vu é a sensação de que algo familiar é totalmente desconhecido.

[2] “Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” — Mateus 22:36-40.

[3] “Primeiro, não causar dano” — princípio ético fundamental na medicina e em outras áreas da saúde.

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