6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS VENCEDORES | Celso José Cirilo | 3º lugar — Categoria POEMA
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- há 4 dias
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O POEMA VENCEDOR:
A PEDRA E AS PLUMAS RUPESTRES DO SILÊNCIO
Antes que fosse o Homem,
era o indizível
e, angular, a Pedra que primeiro o pariu;
introversa, oclusivamente desvozeada:
Psiu... Não acorde a palavra!
Tão fundos e calmos
os olhos embebidos
de vazio primal.
Tão casta e absoluta
a mansidão em câmera lenta
do pensamento ainda não
encarnado no mundo.
Tão causal e vanguardista
o que flui
da Pedra ao Cosmo;
a latência sossegada
e imune aos riscos de onomatopeização,
do gérmen da palavra,
deitado na terra, mudo,
sob os auspícios de uma parábola,
à espera do tempo do propósito.
Sagrado o silêncio (lírica a palavra!).
Nítidos, o girassol e o meu pasmo.
Bendita a pedra que sustém
nos interstícios da sua carnadura arquetípica,
as plumas rupestres do silêncio nostrático.
No espelho, eu sou a pedra;
autobiográfica,
a mesma matéria,
sedenta de silêncios e sentidos
e a Pedra; ela, uma metáfora
exausta de sentidos e silêncios.
Escutar as suas diretrizes,
a sua resistência inaugural e indolente,
o rompante explosivo da primeira palavra
e depois, a diáspora letal do seu verbo
sobre o silêncio devastado-devastador.
Flagrar os olhos que imovem
entre tantas e tantas páginas de silêncios fossilizados
sem encontrar a materialidade necessária
para pautar a disrupção,
o que não se narra
e o eco da palavra na eclosão do mundo.
Viver é protocolar, nesta manhã tão quieta,
a retórica insonora de um finíssimo silêncio-pedra,
desbastar este mais um dia,
dar-lhe uma substância vocálica.
E depois deixá-la tremulando como fosse
uma borboleta vibrante e interminável
tropeçando entre memórias ancestrais
e mil silêncios visíveis a olho nu.










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