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6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS VENCEDORES | Fernanda Staniscuaski | 1º lugar — Categoria CRÔNICA

A CRÔNICA VENCEDORA:


Entre a culpa dos nãos e a exaustão dos sins


O dia começa sempre antes de mim. Não é poético. É logístico. É a hora em que a casa desperta numa orquestra de pequenos pedidos. Tem leite, tem uniforme, tem folha para assinar, tem recado da escola que jura que foi enviado na semana passada. Tem notícia urgente no trabalho que insiste em ser mais urgente que a vida. Tem prazos que poderiam esperar, mas aprenderam a gritar. Tem janela aberta e chuva que entra sem delicadeza. Tem o meu nome repetido como um sino.

Respiro.

Chego em casa e a porta ainda carrega o peso de um dia inteiro. A chave gira como quem pede licença. A mochila escorrega do ombro e abre uma fenda por onde a noite entra apressada. Na cozinha, as panelas esperam notícias. No corredor, três pares de tênis apontam direções opostas. No sofá, um casaco diz que alguém saiu correndo. No meu corpo, todos esses sinais se transformam em listas invisíveis. E antes mesmo de respirar, a primeira pergunta chega. “Mãe, tu podes…” E eu sinto a frase se abrindo em encruzilhada. De um lado, o sim. Do outro, o não.

Eu sei que o mundo gosta do sim. O sim se anuncia. O sim é generoso. O sim se oferece. O sim conta boa história, vira foto. Só que o sim cansa. Se multiplica sem nos perguntar se ainda existe lugar. O sim tem fama de herói, mas também sabe sugar até a última faísca da nossa energia. O não, por sua vez, nunca passa despercebido. O não é mal interpretado, veste uma roupa de vilão. Ele bate à porta, pede justificativa, obriga discurso. E entre um e outro, eu atravesso a casa medindo o que pode permanecer de pé.

É fácil gostar do sim. No trabalho, o sim vira presença, vira projeto. Na vida pública, o sim vira discurso. Em casa, o sim vira colo. O sim constrói pontes, só que ninguém avisa que construir pontes todos os dias estica o corpo além do seu tamanho.

A culpa dos nãos tem a cor de céu carregado. Quando uma criança chega com os olhos cheios de expectativa e eu preciso dizer não porque estou terminando algo que não pode ser adiado, eu arrasto a culpa até a pia, até o fogão, até a mesa. A culpa fica em cima dos talheres e eu sirvo a janta como quem pede perdão. A culpa dos nãos sussurra que eu poderia ter inventado um minuto. Que eu poderia ter escolhido diferente. Que eu deveria ter deixado o mundo em espera. A culpa lembra que a infância tem pressa de acabar e tudo nela pede o sim agora. A culpa dos nãos é traiçoeira. Ela se alimenta do amor. Ela se apresenta como prova de que eu me importo. Ela me pede explicações que nunca terminam. E quanto mais explico, mais ela cresce.

A exaustão dos sins tem outro tom. Não é um sussurro. É um zumbido. Que fica atrás dos olhos quando eu digo sim a mais um evento porque é importante. Sim a mais um texto porque me pediram com carinho. Sim a mais um café que vira reunião. Sim que atravessa o fim de semana disfarçado de gentileza. Quando dou por mim, a exaustão me pega pelo braço e me leva até o espelho. O rosto denuncia. Não dá para fingir. A exaustão lembra que eu tenho um corpo. Lembra que o corpo não mente. Lembra que o corpo pede licença antes do colapso e, se eu não concedo, ele toma.

No trabalho, o sim me protege. Ele me mantém em circulação. Me dá a sensação de que eu não parei. Não parei de pensar, não parei de produzir. Só que esse movimento tem um custo. Quando eu entro em casa com sins demais, trago pedaços de conversas que não pertencem à sala. O riso fica apertado entre as notícias, as coisas se atropelam e eu não escuto direito a história do desenho que saiu torto, mas é lindo, porque a mente está tentando terminar um raciocínio que não terminou no horário de expediente. É nesse momento que a exaustão dos sins se senta entre nós e ocupa um lugar que não é dela.

A exaustão dos sins tem um parente próximo. A vaidade. Aquela que me cochicha que só eu faço assim, que só eu resolvo, que só eu dou conta. A vaidade me empurra para o sim como se o mundo dependesse exclusivamente de mim. A vaidade adora quando o sim vira aplauso. A vaidade me coloca num pedestal e depois me empurra para fora dele. E eu caio exausta. A vaidade não passa de um truque. Se eu olho de frente, ela diminui. Eu repito para mim mesma que ninguém é insubstituível. Eu repito que equipes existem por um motivo. Eu repito que projetos não morrem quando eu descanso. Eu repito até acreditar.

Cada sim carrega uma promessa. Eu vou. Eu faço. Eu resolvo. E a promessa pesa. A promessa ocupa a cabeça na hora errada. A promessa insiste em entrar no banho, atravessar a mesa, ficar em pé ao lado da cama enquanto tento dormir. Mas a verdade é que eu não vivo só de promessas. Eu vivo de presenças. E presença, muitas vezes, nasce do não. O não que me salva é o que protege o tempo. O não que abre espaço para o que não cabe em mais nenhum lugar. O não que sustenta o chão da casa para que o sim não desabe. O não cuida do que eu não sei cuidar quando estou acelerada. O não devolve contorno. O não me devolve para dentro de mim. E só então o sim volta a ter corpo.

Há imagens que me servem como bússola. Uma panela que passa do ponto quando eu tento responder e-mail durante o molho. Uma agenda que se organiza sozinha quando eu fico cinco minutos com o celular virado para baixo. Uma conversa no telefone que troco por um passeio até a esquina com um deles. Uma reunião que remarca e nada desaba. Quando eu vejo, percebo que o mundo não se move porque eu digo sim para tudo. O mundo se move porque muitas mãos empurram.

Num mundo que adora métricas, o sim rende números. O não rende saúde. Pode soar como lugar comum. Não é. É constatação de quem já colecionou semanas com agenda impecável e humor nenhum. De quem já empilhou entregas e esqueceu de jantar com calma. De quem já recebeu elogios e, no mesmo dia, esqueceu de ouvir com atenção uma pergunta simples dos filhos. A vida não se mede pela quantidade de sins, mas pela inteireza que sobra depois deles.

Os meus filhos não sabem nada disso com nomes. Eles sabem do jeito certo. Pelo corpo. Eles sabem quando a mãe está longe por dentro. Eles percebem quando a resposta vem tardia. Eles sentem quando o riso está apressado. Eles não pedem teses. Eles pedem tempo. E aqui mora o centro de tudo. O tempo é a matéria que a culpa dos nãos e a exaustão dos sins disputam como se fosse um lençol curto. Puxa de lá, descobre aqui. Puxa daqui, descobre de lá. A minha tarefa é aprender a recolocar o lençol no lugar todos os dias sem rasgar o tecido.

Eu queria contar que existe uma fórmula. Uma equação que resolve a dança entre os nãos e os sins. Não existe. O que existe é uma espécie de ofício. Um jeito de aprender a escutar o que pede passagem. E nem sempre essa voz é polida. Às vezes é um cansaço que treme a mão. Às vezes é a vontade de chorar no corredor sem motivo claro. Às vezes é o riso dos filhos vindo do quarto e me chamando de volta para o chão. Às vezes é o silêncio que eu teimo em adiar.

Não há fórmula. Mas há um tipo de sim que eu ando treinando. O sim curto. O sim com borda. O sim que diz que eu vou, mas por uma hora. O sim que aceita o projeto, mas negocia prazo real. O sim que marca presença sem prometer o impossível. O sim com borda não agrada todo mundo. Ele não é espetacular. Mas ele é possível. Ele respeita o que eu posso dar sem me esvaziar. E quando eu o pratico com consistência, as pessoas percebem que aquilo que eu entrego chega inteiro. O sim com borda é o que cresce devagar e sustenta. E os nãos... Eu tento que eles venham com a delicadeza que merecem. Não é não para o trabalho. É não para o excesso. Não é não por falta de amor. É não para proteger o próprio amor de virar tarefa.

E, no fim, nem sempre há equilíbrio. Mas há coerência. Coerência com o que eu digo em público e pratico em casa. Coerência com a mãe e a profissional que eu consigo ser. Coerência com a minha própria escala de importância. Eu erro. Reajusto. Erro de novo. E sigo. Nesse movimento que parece impreciso, encontro um ritmo. Não é bonito todos os dias. Não é admirável. É humano. O que posso fazer é ser honesta com o que escolho. E limpar, aos poucos, a culpa que me visita quando fecho uma porta.

Amanhã cedo a casa vai despertar de novo. O corredor vai ecoar. O telefone vai vibrar. Os nomes vão se repetir. E eu vou começar outra vez esse ofício de decidir. Pode ser que eu tropece na mesma pedra que jurei ter visto ontem. Pode ser que eu acerte a sequência por sorte. Mas a culpa dos nãos diminui quando eu lembro do que esse não protegeu. A exaustão dos sins diminui quando eu começo a dar ao sim o tamanho que ele merece, não o tamanho que alimenta a vaidade. E eu sigo. Com a coragem de desagradar quando for preciso. Com a humildade de pedir desculpas quando eu atravessar a linha. E quando a noite cair, eu vou deitar sabendo que meus nãos respiraram verdade… e que meus sins não me roubaram de mim.

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