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6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS VENCEDORES | Julia Baranski | 2º lugar — Categoria CRÔNICA



A CRÔNICA VENCEDORA:


The golden hour

 

O carinho é um outro caminho do corpo

Maria Lúcia Alvim

 

            Após doze horas de trabalho de parto, as enfermeiras da maternidade finalmente baixaram o top que eu vestia e colocaram meu recém-nascido apoiado sobre o colo dos meus seios. Instintiva e naturalmente, Caetano abriu a boca minúscula e rosada e, feito um peixinho faminto, agarrou meus mamilos que já tinham começado a produzir colostro. A primeira coisa que fiz ao vê-lo aninhado no meu corpo, foi cheirar a sua cabeça. Depois, com o indicador da mão direita, de forma muito sutil e ainda temerosa, contornei o desenho das sobrancelhas clarinhas de Caetano, ao mesmo tempo em que lhe dizia baixinho: oi, filho, sou eu, sua mãe.

            Essa fração de segundo, esse instante único em que o mundo inteiro se move em câmera lenta, é indescritível, como se o nascimento de um novo ser humano —  tão escandalosamente frágil, ínfimo — interessasse à espécie inteira; do Alaska ao Japão, de Nairóbi à Calcuta, de Feira de Santana a Salvador, São Paulo, BH. Como se as sete constelações — andrômeda, pégaso, cruzeiro do sul, ursa maior e menor, cão menor e maior, fênix — e o sol e a lua e, ainda, todos os astros em que tropeçamos desastrados, as galáxias, as nebulosas, a poeira cósmica, sim, é como se tudo o que existe e respira suspendesse o curso das órbitas para se debruçar por um instante à beira da cama de um hospital onde uma mãe deu à luz a um filho.

Arrisco afirmar que até mesmo Deus suspende a eterna expansão do Universo durante este instante infindo. Deus suspira quando a mãe suspira, sentindo através das narinas de uma mulher — tão amaldiçoada, quanto santa — o cheiro fresco do vérnix que cobre o corpinho do recém-nascido. E Deus chora quando a mãe chora, passando a ponta dos dedos sobre o cabelo fino e macio que, à semelhança de fiapos de milho, cresce sobre o chão do cocuruto de mais uma criança que povoará a terra. E Deus sorri quando a mãe sorri, acarinhando os fios que despontam bem acima dos olhos do bebê em dois arcos penugentos e aveludados. Então, Deus pensa que fez um bom trabalho ao criar os homens e as mulheres e abençoa a nova vida que, em breve, ganhará um nome e o mundo.

            Ao final de nove meses, a mãe pode finalmente conhecer o seu bebê. Ela pode ver o seu rosto, que antes era apenas mistério e imaginação. Ela pode sentir o calor da sua respiração, que antes era somente um singelo bater de asas de borboleta às margens do estômago. Ela pode enxergar aquilo que, durante a gestação, era só uma ideia inacabada de amor. Ao final de nove meses, nesse momento irrepetível, lado a lado, pele a pele, rente ao corpo do filho, a mãe germina.

            Por isso, no intuito de tornar real e corporizar a imagem abstrata do filho, a mãe o acarinha, a mãe o cheira, a mãe o beija, a mãe o denga, chamega, faz cafuné. Por isso, no intuito de torná-lo real, filho, eu faço como todas as mães fazem e fizeram um dia; imito o que minha mãe fez comigo e o que a mãe da minha mãe fez com ela e o que a mãe da mãe da mãe de minha mãe também o fez, enquanto penso que não pode ser mera coincidência que  tantas palavras doces comecem com a mesma letra do seu nome — colo, casa, carinho, calor;  cuidado, carícia, chamego, Caetano. E porque tudo é novidade depois da sua chegada, filho, invento novos significados para as palavras, os sentimentos e as coisas. 

Cafuné: ato de coçar a cabeça dando estalidos com as unhas. Encontrar piolhos e adormecê-los. Afago no couro cabeludo do bebê que amamos. Palavra de seis letras, duas vogais e três consoantes. Escrita ao contrário: énufac, com anagrama funeca. Peteleco na orelha, carícia marota, mistura de teoria e prática sem tradução para o inglês. The boy fell asleep while his mother was running her fingers through his hair. Gesto de origem quimbunda: kafu’nu kifunate kajundu, Dendezeiro baixo e mirrado dentre os demais da plantação. Descansam na ponta dos meus dedos sonhos de caverna e de maré. Um carinho no peixe, outro no gato. Amanhecer de estrelas na lagoa do abaeté. Cultivo de afeto com aroma de madeira, suas roupas cheiram a mirra e aloés. Cafuné, cafuné, cafuné, às vezes doçura, às vezes rapé.

E seguirei inventando até desvendar todos os pedacinhos do seu corpo de 47 centímetros e 3,144 kg, que nasceu às 4h45min de um domingo, no dia 15 de setembro de 2024, em Salvador, em meados do mês de São Cosme e Damião. Bejé ó ró! La ô! Aos poucos, descubro que, nas linhas da sola dos seus pés, é possível traçar o contorno das nuvens, e que as batatas da sua perna cheiram a algodão doce; reconheço que não há nada no mundo mais importante do que lanugem das suas coxas, suaves e fofas como lã de alpaca. Dia após dia, percebo que a sua barriguinha tem cheiro de chuva e de terra molhada e que será ali, no subir e descer do seu ventre, depois de caído o coto — pretinho, pretinho —, que a felicidade criará raízes.

Desta maneira, caminhamos, cientes de que esse gesto entre mães e filhos se repetirá muitas e muitas e muitas vezes depois, até que se constitua o laço, o vínculo, ao mesmo tempo: ternura e prisão. Se repetirá o gesto até o dia em que será o filho quem vai acariciar a mãe, penteando-lhe os cabelos brancos e soprando nos seus olhos embaciados de velhice a memória daquele instante primevo. Sabendo que, um dia, será o recém-nascido quem soprará baixinho nos meus ouvidos: oi, mãe, sou eu, seu filho.

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