6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS VENCEDORES | Marco Antônio da Costa | 1º lugar — Categoria CONTO
- Casa Brasileira de Livros

- 10 de abr.
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O CONTO VENCEDOR:
Navegar é Preciso, Viver Não é Preciso por Aurora (pseudônimo)
Dizem que o mar não tem cheiro; mentem.
Há um odor agudo de sal, alcatrão e cordame que me toma os pulmões e substitui o mundo. Desde que deixamos Lisboa, tudo é rumor de água e madeira; sob meus pés, o convés canta um hino de rangidos que nunca se repete, como se a nau aprendesse a falar a nossa língua aos poucos — e nos respondesse. Partimos com o mapa incompleto e um desejo inteiro. O capitão confia nas estrelas, o piloto nos cálculos, e nós confiamos no costume de obedecer. Eu, apenas escrevente e marinheiro quando falta braço, tento aprender o idioma do vento.
As noites, no início, foram de um azul que parecia escorrer das velas. Nas horas mortas, deitado entre as pipas de água, ouço a náutica respiração da nau — os mastros puxando o ar, as enxárcias suspirando — e penso no que dizia o romano antigo: navegar é preciso. Preciso, não de necessidade, mas de exatidão: ângulos, alturas lunares, rumos, léguas. O astrolábio cintila na mão do piloto como um brinquedo de santo; o quadrante risca o céu com números, como se a abóbada fosse aritmética. As constelações atravessam a nossa pele e só os olhos sabem.
Viver, porém, não cabe na conta. Viver é o osso que dói num dia e silencia noutro; é a saudade que morde, a superstição que cresce, a risada que desobedece. A bordo, a vida é um bicho que se esconde nos bolsos da rotina: lustrar o convés, engraxar polias, nhandear cabos, contar feijões, espantar ratos, aparar calos. Às vezes, penso que o mar nos devora com ternura: primeiro a paciência, depois o medo, por fim a lembrança do chão. Falamos pouco, porque a fala gasta água. E sonhamos muito, porque o sono é o único vinho abundante nesta arca.
Houve dias de vento justo em que a nau parecia cavalo de feira: obediente, vaidosa, certeira. Os marujos cantavam modinhas trôpegas, batendo o compasso com as colheres de estanho. O grumete mais novo, Lourenço, trazia notícias do porão como quem traz cartas de casa: “A pipa de carne ainda segura, senhor; o bacalhau cheira, mas é cheiro de saudade.” Ríamos. E havia tardes em que as aves se adiantavam à nossa história: atuns rasgando prata na superfície, fragatas desenhando equações indecifráveis, e uma luz que parecia prometer um continente inteiro guardado atrás do horizonte, como um segredo infantil.
Até que o tempo mudou de humor.
Foi de uma hora para outra, como as dores que começam sem aviso. O barômetro do olhar do capitão desceu; os joelhos dos mais antigos travaram; um silêncio abriu fenda entre o bramido normal das águas. De repente, a tarde ficou verde, as nuvens empilharam ferro, e o vento perdeu a elegância. O piloto, que até ali era um cortesão de astros, tornou-se pedreiro de ordens: “Pano de baixo! Almofadar vergas! Preparar bombas!” As mãos correram, e meu coração foi junto.
O primeiro golpe do vendaval não foi vento — foi mão. Uma mão velha e úmida que agarrou a nau pelo pescoço. As velas inflaram como pulmões em desespero; os mastros urinaram faíscas — fogo-de-santelmo, disse alguém, mas parecia bênção e ameaça ao mesmo tempo. O mar, que até ontem fora um cão de guarda, virou fera solta: subia paredes verticais, derrubava homens, mordia o convés. A proa mergulhava no escuro e emergia com a espuma nos olhos. A água entrou por todos os nomes do medo.
— Bombas! Bombas! — gritou o contramestre, e os braços se fizeram pás.
O piloto rugiu ordens que cortavam o vento:
— Caçar a bujarrona! Recolher pano de cima!
Marujos subiram pelas adriças como gatos assustados. A bujarrona, antes inflada como peito de gigante, esvaziou-se num soluço e desceu em queda rápida, rangendo nos cabos. O convés tremeu sob o peso da água que ainda escorria dela, e o mastro adernou, aliviado.
Cada balde arremessado devolvia à nau uma respiração miserável. O Lourenço escorregou; alcancei-lhe a gola no último instante, e senti a vida no peso do pano molhado. Os cabos cantavam um idioma de aço; as talhas gemiam seus Pai-Nossos; as velas uivavam como animais presos. E o céu — ah, o céu — era um teto que descia para esmagar os homens. Relâmpagos cortavam o ar em prumos; o trovão não respondia: mandava. Eu me descobri falando com a minha mãe como se ela estivesse amarrada ao mastro grande, e prometi mais joelhos do que tinha, se saíssemos.
O capitão, empapado, caminhava pela tolda como quem conhece os degraus de um altar. A cada passo, a nau obedecia um pouco. O rosto dele não tremia — e isso era a nossa ilha. Na arrebentação aguda de um raio, vi-lhe a boca se abrir como se fosse um sino, e o que soou não foi reza, foi ordem que atravessou os ossos:
— Marujos! Navegar é preciso, viver não é preciso!
Não era bravata. Era a matemática da sobrevivência. A nau precisava de exatidão: menos pano, mais peso à proa, leme a um quarto de bombordo; precisava de escutar o que a quilha dizia às ondas e responder sem lirismo. A vida, do lado de cá da frase, só atrapalhava — chorava, lembrava, temia. Engoli minhas lembranças como quem engole água, e obedeci.
Um estai partiu com som de espada; uma vela trapeou-se em crucifixo; um marujo — o velho Gaspar, que tinha mãos de faroleiro — desapareceu num recorte, como se a água o tivesse desejado por décadas. Vimos seu gorro uma vez, duas, três; na quarta, virou passado. Ninguém buscou voz para lamentar: o lamento não boia. O contramestre grunhiu uma prece curta, e recomeçamos a ser homens de ferramenta.
A noite nasceu de parto seco. O vento nos empurrou para dentro do seu pulmão, e ali tudo era ruído sem forma. As bombas trabalharam como coração; os braços criaram calos dentro dos calos; o sal abriu pequenas bocas nas mãos; o sangue, quando veio, pareceu limpa água. Em certos momentos, senti que a nau não era de madeira: era de vontade. Amarramos uma vela de fortuna, reforçamos o brandal, redistribuímos as pipas, pusemos as agulhas a respeitar a loucura do aguaceiro. E, no ouvido, ainda ecoava o brado do capitão, repetido por cada pancada de onda: navegar é preciso — precisamos desta precisão — senão a vida termina aqui, no instante, sem sequer um adjetivo.
Não sei quanto tempo durou. Pode ter sido metade da criação ou o intervalo entre duas respirações. Um clarão mais alto do que o mundo abriu fenda na chuva; o vento, de súbito, perdeu dentes; o mar, cansado do próprio furor, sentou. A nau diminuiu o soluço e, como bicho que acha a toca, encostou no seu silêncio. Muitos caíram sentados; outros, ajoelhados; eu fiquei de pé por milagre ou estupidez. O capitão olhou para nós com um cansaço piedoso e disse apenas: “Contar.” Contamos os vivos com as mãos e os mortos com o coração. Gaspar. Houve um minuto em que ninguém quis ser humano. Depois, fomos.
O dia seguinte cheirou a madeira lavada. O sol abriu costura no céu e secou o convés como uma mão. Estendemos panos e culpas; remendamos o que tinha nome; distribuímos água limpa como prêmio; e os olhos, que na véspera só viam escuro, agora achavam beleza no cinza. Lourenço, o grumete, me trouxe uma cuia de caldo e uma notícia de criança: “Tem peixe voando, senhor.” Era verdade: os pequenos flechavam a borda como cartas lançadas por um deus paciente. Rimos de novo, mas devagar, como quem pisa chão novo.
Enterramos Gaspar no mar com toda a liturgia que cabe numa borda: pano branco, pedra, três palavras sobre a coragem, e o sal como epitáfio. O capitão, que não pregava, tirou o gorro e fez com o olhar a coisa mais parecida com uma igreja que já vi. Largamos o corpo como se devolvêssemos um livro ao qual tínhamos arrancado páginas. O mar fechou sem rumor. E seguimos.
Vieram então os dias pós-tempestade, em que cada pequeno sinal ganhava tamanho de profecia. Uma brisa com cheiro de folha — “terra tem cheiro?”, alguém perguntou, e ninguém soube responder. Galhos perdidos, feitos de uma madeira que não era nossa. Um tronco trabalhado por mãos humanas, polido como palavra antiga. As aves multiplicaram-se, de brancas, pretas, graúdas, vagabundas; dormiram sobre as vergas como se a nau fosse árvore. O piloto, que voltara a ter pulsos de bibliotecário, conferia a agulha com obsessão. À noite, eu via estrelas novas como moedas lançadas de outra mão e pensava se o céu também tem suas Brasilidades.
Com a calma, voltaram as histórias. O cozinheiro jura ter visto uma ilha inteira, do tamanho de uma igreja, feita apenas de tartarugas empilhadas; o moço do leme garante que, no auge do vendaval, uma voz de mulher se ergueu do porão, pedindo pão e fogo; Lourenço diz que sonhou com um campo onde o mar fazia curvas como trilhas de boi. Eu, que perdi a vontade de ironias, ouço tudo como quem recolhe búzios para uma casa futura. À noite, tiro do surrão a pena e escrevo para ninguém, para o escuro, para a língua que ainda não existe: “Se a terra vier, que venha com um nome que caiba na boca.”
Em alguns amanheceres, a luz punha um ouro pálido sobre as ondas, como se alguém houvesse polvilhado farinha de milho no horizonte. Noutros, uma neblina alga recortava o mundo em ilhas de segredo. A nau avançava em silêncio de teatro, a quilha serrando o invisível, e eu sentia que todos nós, até os mais ferros, tínhamos ficado mais moles por dentro: a tormenta ensinara a concha a ter ouvido. O capitão, raro de palavras, deixava às vezes cair uma frase que ficava saltitando pelo convés como peixe: “Precisão não é certeza.” Eu anotava como quem rouba.
Então aconteceu.
Foi Lourenço quem gritou; tinha que ser. O menino tinha os olhos mais próximos do futuro. Estava na amurada de estibordo, limpando um gancho, quando a voz lhe saiu em formato de sino, rasgando o ar com uma alegria que não se ensaia:
— Terra à vista!
No primeiro segundo ninguém acreditou: a frase é um milagre que o ouvido teme gastar. No segundo seguinte, todos corremos, tropeçando uns nos outros, como se o horizonte fosse uma mesa posta. E lá estava: uma linha de verde escuro erguendo-se da água, primeiro como fumaça, depois como ombro, por fim como corpo inteiro — uma terra que parecia recém-lavada do dilúvio das nossas esperas.
O capitão não sorriu, porque há alegrias que dispensam rosto. Mandou reduzir pano, ajustar o rumo, preparar a âncora — cada verbo batia na madeira como martelo batendo na cruz e libertando, não pregando. Os marujos, antes de correr, deixaram um segundo para o silêncio, e nesse segundo ouvi de novo a frase que nos salvou na tempestade, mas agora redimida de ferro e chuva. Não sei de quem veio — talvez da própria nau, que aprendera a falar — mas soou atrás dos olhos:
“Navegar é preciso.”E o coração respondeu: “Viver, não.”
Aproamos devagar. As aves faziam pontes entre nós e o desconhecido, e um cheiro de folha amassada, mel e barro subiu como um hino novo. Os homens, que sabiam os salmos da fome, aprenderam outro canto: o do espanto. Vi mãos calejadas tremendo como as de um recém-nascido; vi joelhos que nunca tocaram chão descobrirem a utilidade dos joelhos; vi olhos que perderam o hábito da beleza ficarem cheios como pipas. Eu, que na véspera me prometera menos lembranças, desejei agora uma memória infinita. Quis escrever cada folha daquela costa com a pena inteira do corpo.
Ao fundearmos a uma distância respeitosa, as águas tornaram-se claras como intenção, e os peixes viraram lâminas de sol por baixo. A terra parecia respirar: elevações suaves, um verde que não conhecíamos, um silêncio cheio de vozes futuras. Alguém murmurou que os anjos haviam vindo morar ali. Eu, que não creio fácil nos anjos, concordei em silêncio.
No porão do pensamento, Gaspar nos olhava. Pensei nele como quem pensa um pai, e agradeci pelo pedaço de caminho que ele nos deu com as mãos. O capitão mandou preparar o batel; descemos em duas fileiras de espera. O piloto, ao meu lado, apertou o astrolábio como quem segura um talismã, e eu entendi enfim: os instrumentos nos trouxeram até a beira, mas é a vida — essa imprecisa que não cabe em pauta — que vai pisar o primeiro passo.
Antes de descer, roubei um instante para escrever duas linhas no meu caderno molhado. A tinta correu, porque as coisas importantes são assim, escorrem. Escrevi: “Viver não é preciso — mas é urgente.” E fechei.
Quando o batel tocou a água, o mundo estava todo em suspenso. A terra, paciente, parecia esperar a nossa primeira palavra para começar a existir de verdade. E nós, costas queimadas, mãos feridas, olhos lavados, éramos crianças de novo diante de uma casa nova. O velho brado do capitão, agora manso, correu pelos nossos ombros como um manto:
— Homens… devagar.
Remamos.
O silêncio entre a última onda e a primeira pegada será a minha última memória. Se um dia a morte vier de novo em forma de vendaval, quero responder-lhe com a frase que nos sustentou sobre o abismo e nos trouxe até este braço de chão: Marujos! Navegar é preciso, viver não é preciso. Porque só assim — obedientes à exatidão quando o caos grita, entregues à imprecisão quando a terra chama — a travessia se cumpre inteira.
E, se me perguntarem que nome tem este lugar, direi que é o nome que a água escreveu em nós:um nome que ainda não sei, mas que nos saberá.







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