6º Prémio Internacional Pena de Ouro | CONHEÇA OS VENCEDORES | Rafael "Hop" Oliveira | 3º lugar — Categoria CONTO
- Casa Brasileira de Livros

- há 4 dias
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O CONTO VENCEDOR:
HISTÓRIA EM CINZAS
1.
ANTES DE A GUIMBA terminar de rodopiar como uma ginasta num tablado, a sola do coturno de Marcelo a pisoteou com um som duro e a deixou, no piso de concreto do posto de gasolina, achatada como se fosse uma estampa. À frente, numa das bombas de diesel, uma placa escrita à mão informava: “Proibido Fumar”, mas ninguém disse nada, porque a verdade era que o frentista, um careca já próximo de se aposentar, preferia ter de lidar com um princípio de incêndio que ter de falar com aquele cara, Marcelo, o possível viciado que decidiu deliberadamente ignorar uma regra tão básica quanto a de não fumar num posto, e, por isso, certamente ignorara e ignoraria quaisquer outras regras sociais, incluindo, entre elas, as leis.
O sol já havia saído do topo do céu há algumas horas. Agora, lançava uma luz amarela cor de mijo sobre o concreto da pista da rodovia, espalhando-a sobre o recuo cheio de xique-xiques e também sobre as areias salpicadas de bromélias. O verde que sobrou das poucas folhas de alguns umbuzeiros e de algumas barrigudas espraiava-se até o longe, ficando cada vez mais marrom e lilás por se misturar ao amarelo da ureia solar. Poucos carros abasteciam naquele momento. Alguns até faziam menção de ligar a seta e entrar, mas, vendo o que viam, arremetiam e voltavam para a rodovia. Logo, sob o telhado de amianto em que se lia PETROBRAS, havia apenas outros dois carros além do Opala Coupé de Marcelo, cujo banco do motorista estava ocupado por Dáblio, o grandalhão de cabeça raspada. Os dois carros eram estes: um Puma GTB e um Ford Belina de família.
Ao lado da Belina, que estava abarrotado por uma porrada de malas de viagem e atochado de crianças, mamães e cachorros, o papai bundão o abastecia e não parava de olhar Marcelo.
Às vezes ventava.
— Que foi, otário?
Marcelo perguntou. Mas sabia que o que o velho não parava de olhar por detrás dos óculos de grau estilo aviador, e acima do bigode já quase grisalho, eram as tatuagens que ele, Marcelo, tinha riscadas nas mãos e nas maçãs do rosto. Eram o cabelo estilo James Dean e a jaqueta preta com a ponta das golas levantadas. Os demônios e a teia de aranha; as palavras “FUCK”, abaixo do olho esquerdo, e “YOU”, do direito. Junto de um curinga sem cor, cinco contornos pretos, não preenchidos, que formavam gotas de lágrimas próximo às letras FU e OU. Ou seja, o que Ricardo não parava de olhar era a própria alma de Marcelo, o tudo e o todo que ele era e que ele representava; seu futuro e seu fim.
— Perguntei — Marcelo repetiu —, o-que-foi, o-tá-rio. — Todas as sílabas articuladas como se se falasse com um surdo.
Já o papai bundão e otário, o gordo e broxa, não disse nada – aliás, ele não podia dizer nada. Além daquele bandido, ainda havia outros dois, um homem e uma mulher. Dentro do Opala, tendo revirado a bolsa de crochê de Amandalee (a terceira dos "comparsas"), onde primeiro encontrou a foto da filhinha dela usando um vestido florido, Dáblio achou um papel amassado, no qual estava contido um poema escrito à mão, sem rimas e sem título, cuja primeira estrofe era enorme e dizia assim: Poderiam os médiuns reescreverem a história deixada pelas cinzas dos inquisidores queimados, eles, pelas bruxas de Salém? Então diante desse cenário, ali, sob aquele sol poente, Ricardo fez somente aquilo que podia fazer: baixar os olhos para não criar confusão. Olhar a frente do para-choque do Opala, e só. Mas a mamãe histérica, não. A chata, a com a voz mais alta e mais irritante que os latidos do cachorro irritante que eles tinham, tentando conter a apreensão das crianças no banco de trás, arreganhou a ordem como unhas num quadro negro:
— Ricardo, vamos embora AGORA! Eles são marginais!
É, Ricardo, somos mesmo, e é melhor ir andando, e é melhor ir embora logo.
E Ricardo, como o bom pau-mandado que de fato era, e que todos que tinham olhos podiam mesmo ver que era, logo tratou de terminar de urinar gasolina para dentro da velha Belina e obedecer à mulher. O cidadão-de-bem Ricardo Marinho logo tratou de pagar o combustível ao frentista, fazendo-o meio que sob falso protesto, sob falsa macheza, e dizer que não, nada de troco! Então, deu uma última olhada para Marcelo e mandou a mulher e o cachorro calarem a boca – uma demonstração pública e probatória da existência de suas bolas, ainda que estivessem murchas e guardadas ali, numa cueca boxer. Um teatro, cuja função era a de dizer a Marcelo uma coisa: que ele, Ricardo, também era homem; e ele, Ricardo, podia ser violento também, se quisesse, e talvez até tivesse um .38 guardado no porta-luvas, quem sabe?, pronto para deixar uns furos na camisa de um marginal como Marcelo.
Pois é, quem sabe?
Já Marcelo, com as mãos nos bolsos, sentiu uma esponja de catarro se embolar no fundo da garganta. Escarrou-a, e o cuspe caiu estalado na cara do chão.
Sob o sol de fevereiro, em direção a oeste para onde ele se punha, partiu em férias a família de Ricardo Sem Bolas.
E sob o mesmo sol de fevereiro, os que iriam na direção de onde ele nascia, ali ficaram.
Os Marinho partiram. Sobraram então somente o frentista e o Puma GTB azul; sobraram Marcelo, Dáblio, Amandalee e os caras do Puma, que estavam todos dentro da loja de conveniência, comprando cervejas e salgadinhos.
Perto, ouviu-se a descarga do banheiro no qual Amandalee estava. Mas nada dela.
O frentista, esse nem mais ousava olhar para o Opala verde sobre o qual Marcelo tinha, recostados, os bolsos da bunda do jeans. O homenzinho limitava-se a olhar para dentro da loja, e rezar. Rezar para, se-fosse-um-assalto, que acontecesse logo, que levassem logo tudo e fossem embora; que os caras ainda lá dentro, os do Puma, ficassem confinados e sem possibilidade de reação. Que só aceitassem o fato e ponto, e era melhor assim. Porque eles eram quatro, e todos grandalhões, atletas com camisas de torcida organizada. Típicos não-Ricardos. Típicas imitações de heróis da TV inconsequentes, jovens, que veem filmes do Sylvester Stallone e acreditam que podem replicar as cenas da fantasia na vida real. Cabelos repartidos, sorrisos sorridentes. Muita vida ainda pelos anos do caminho.
— Vai demorar muito? — disse Dáblio, inclinando a cabeça para fora da janela. Suava e fumava. Suava e se perguntava como era possível Marcelo aguentar o calor com aquela droga de jaqueta. Com a mão para fora, pendurada pelo antebraço da grossura de um tronco pousado na janela, o grandalhão de cabeça raspada e brincos do tamanho de anéis olhava tudo ao redor através do para-brisas sujo. Suas costas musculosas pinicavam e colavam molhadas no estofado de couro rachado.
Mas antes que Marcelo pudesse lhe responder, a porta do banheiro unissex se abre, e, de lá, sai Amandalee. Óculos redondos e rosa. Tatuagem de mandala num dos braços magros. O cabelo liso e repartido ao meio, preso por uma tiara de couro trançado, escorria como cachoeira livre por sobre os ombros até a altura dos seios, os quais eram tapados apenas por dois triângulos de crochê. Do cós da calça pantalona, Amandalee retira uma faca retrátil e pressiona o botão para cuspir-lhe a lâmina. Ela se abaixa ao lado do Puma, depois se endireita, guarda a lâmina e, então, a própria faca.
— Não — disse Marcelo a Dáblio — Acabamos.
Ao perceber que não tinha mais fósforos, Marcelo guardou de novo no maço o cigarro com o filtro molhado de cuspe. Olhou para a loja de conveniências pensando em comprar mais, mas ouviu o sino da porta e as gargalhadas, a falação dos quatro amigos que saíam.
Danem-se os fósforos. No carro tinha acendedor.
E então disse: — Vamos embora.
Amandalee pôs na mala os galões comprados, cheios de gasolina. E aí as portas do Opala bateram, ao mesmo tempo em que as do Puma também. O motor do Puma ligou, ao mesmo tempo em que o do Opala também. O frentista observou aqueles dois e as cacofonias de seus sons. A inversão distorcida de ambas as realidades daqueles grupos.
E, nessa reverberação, um carro seguiu para o leste.
— Tem certeza? Depois que começarmos — disse Dáblio —, não vai dar mais para parar.
E Marcelo só disse: — Marcha — fazendo dois tapas estalarem metálicos na lataria do Opala; dois como se o fizesse na anca de um cavalo.
Estava decidido.
E aí o carro, o Opala deles, foi para o oeste.
2.
LEONARDO VEZ OU OUTRA olhava o próprio reflexo no retrovisor. Com as duas mãos segurando o volante revestido com capa de couro, e os olhos-de-gato sumindo rapidamente por debaixo do Puma, ele se inclinava para frente como quem tentaria ver a sujeira num dente, mas então o que olhava era a própria pele: os cabelos loiros ficando ralos, a linha acentuada do maxilar e as olheiras cada vez mais fundas. Vinha perdendo muito peso ultimamente, e todos notavam, mas nem ele nem ninguém sabia o porquê.
Alguns quilômetros depois, olhou-se de novo. Não havia problemas em desviar ocasionalmente a atenção da estrada. Não que ele já tivesse estado nela, mas agora só havia retas e retas, sem entroncamentos ou interseções. A última confluência em muitos quilômetros já havia passado há meia hora, vinda de outras rodovias menos conhecidas que desembocavam ali, retornos dos quais praticamente somente os locais se lembravam ou usavam para voltarem à estrada principal.
— Léo, você está um vampiro, cara — disse Nilton Jay. A voz estava pastosa, saída do nariz. Na mão, segurava uma latinha de Schincariol ainda fechada. Viajava no banco do carona com a janela aberta.
Ouvindo-o, Léo apenas sorri e o manda calar a boca.
A luz interna do Puma estava acesa para que todos os cinco pudessem se ver. No rádio, Barão Vermelho cantava um chiado Posando de Star. A brisa que entrava pelas janelas era fresca, mas nem um pouco suficiente para refrescar o espaço confinado no qual estavam os quatro brutamontes, dois deles ombro a ombro. Aliás, ela, a brisa, sequer afastava o cheiro de suor e sovaco, peido, cerveja e loção pós-barba que se embolava ali dentro.
Então, Nilton Jay, virando-se para trás, para onde estavam espremido Tadeu e o outro cara, cujo nome não importa porque, em princípio, sequer constará no registro de investigação preliminar da polícia quando encontrarem os pedaços espalhados de seu corpo; virando-se para esses dois desafortunados, Nilton Jay sorri e diz:
— Apostam que eu consigo beber em menos de 10 segundos?
Leonardo ri enquanto vê uma placa de limite de velocidade indicando o máximo de 60 km/h. A placa vem e some na escuridão como um papel que escapa dos dedos num vento. Acima deles, o céu é um tapete de estrelas. Abaixo, os faróis do Puma GTB são duas ilhas de luz iluminando faixas intermitentes, que disparam em direção ao fundo do carro rajadas retas e brancas de uma metralhadora de tinta. Além disso, há olhos-de-gato indicando onde é o meio e onde é o acostamento da pista. Poucas vezes se veem carros vindo na direção oposta. E mais rara ainda é a aparição de carros no mesmo sentido, seja antes ou depois do Puma. E melhor que fosse assim mesmo, porque Léo começou a sentir o volante pesado.
— Preparados?
Nilton Jay sacode a latinha e fura sua lateral com uma chave Phillips para fazer com que a cerveja lá dentro comece a espirrar como se disparada por um compressor. Espuma e shhhhhhhhh molhavam o banco e as jaquetas.
— Porra — disse Léo, que fez um S na estrada – e aí viu que realmente o Puma estava com a direção pesada –, enquanto os outros, eles só diziam “vira, vira, vira!”.
Do lado direito, por trás da contenção de metal ladeando a pista, foi como se a imagem de uma nova placa tivesse apenas piscado, aparecido e puff, tão rápido a velocidade com a qual Léo havia passado por ela. Era um losango amarelo com uma seta preta, uma que parecia ter sido reta, mas que então havia murchado. Se Léo tivesse visto, teria a identificado: ela significava pista sinuosa à frente. Isso explicava a placa anterior, a de limite de velocidade. Mas Léo não a viu.
— Vocês viram o que estava na placa? — perguntou Léo, mas os outros dois ainda estavam vendo Nilton Jay terminar de virar a cerveja; e o próprio Nilton Jay estava com os olhos espremidos, sentindo a cerveja vazar pela lateral das bochechas e também pelo nariz.
E havia algo também escrito à mão, pichado, mas isso Léo também não conseguiu ler. Inutilmente, ele tentou olhar o retrovisor, mas a única coisa que viu além da própria pele embaçada e suada, das olheiras fundas e dos olhos arregalados, foram os parafusos que seguravam as costas do losango.
E os faróis.
Lá no fundo da pista, bem lá trás, surgindo agora no topo do aclive pelo qual passa a rodovia, os dois fortes faróis cujas luzes refletiram no retrovisor interno de Léo e lançaram uma faixa branca em horizontal sobre seus olhos, apareceram e pareciam crescer na velocidade de uma gota de água se espalhando por um papel.
Instintivamente, Léo desligou o rádio.
No ar noturno, sob a quietude, ouvia-se o ronco silencioso do GTB, o cricrilar de insetos, e vez ou outra algum coiote. E o que mais?
— Silêncio — Léo ordenou, com os olhos mirados para o retrovisor interno. — SILÊNCIO!
Nilton Jay estava uivando janela afora, comemorando seu novo recorde da cerveja. Os outros atrás, os que estavam nas pontas e próximos aos vidros, também o imitavam. Auuuu-auauauau-auuuuu!, gritavam. Mas assim que Léo mandou que se calassem, se calaram. Leonardo Bragança, o camisa 9, o principal do time, o líder deles. A estrela do futebol cuja função havia lhe rendido o apelido de Capitão Bragança. Para Nilton Jay e para os outros rapazes, não só aqueles dentro do Puma, mas os que compunham todo o time, incluindo o treinador, Léo era um espelho – era o cara a ser copiado: era o cabelo repartido, os olhos verdes, os dentes mais brilhantes do Texas, nos quais depositavam suas esperanças. Portanto, quando Leonardo falava silêncio, silêncio se fazia. Claro, há um bom tempo ele não tem rendido como um dia já rendeu: suas estatísticas haviam se empalidecido como ele próprio; caído, como seus próprios cabelos. Mas o Léo ainda era o Léo.
— O que foi? — disse Nilton Jay.
Olhando pelo retrovisor lateral para ver o que Léo via, mas não enxergando nada além de um montão de outros nadas e das poeiras iluminadas de vermelho pelas lanternas traseiras do Puma, ele disse:
— O que houve, fera?
— Aquele carro — disse Léo, a testa nadando em suor —, o cara está muito acima do limite.
Sim, mas e daí?
Nilton Jay virou-se para trás para ver o tal cara. Tadeu e os outros dois também. Giraram ao redor do próprio tronco, e as cabeças ao redor do eixo do pescoço. Porém, lá trás, os faróis que agora não eram mais apenas dois pontinhos luminosos, e sim duas boas moedas de um cruzeiro, se apagaram. Desligaram e sumiram.
Mas o murmúrio do motor, o barulho que Léo a todo custo tentava ouvir, continuava. E agora, no silêncio da noite e no silêncio do carro, sem nenhuma sombra de dúvidas, porque havia ouvido aquele mesmo som durante toda a infância enquanto o pai trabalhava nos motores e carburadores daquele tipo em sua oficina, ele disse:
— É um Opala.
3.
— TUDO BEM, SENHOR. Tudo bem. Pode repetir, mas devagar dessa vez?
Uma das mãos do policial Rebouças segurava o fone junto ao ouvido enquanto a outra apoiava a testa suada. Ele tinha a certeza de sentir um suor escorrer por detrás do joelho, molhando a calça cáqui, e descer por um fio frio dali para o calcanhar.
Do outro lado da linha, o homem obedeceu e repetiu devagar as coisas que havia dito.
— Então o senhor estava próximo ao município de... — uma voz estridente de mulher se sobrepôs à do homem que telefonava —, entendi, e aí... — mas novamente a voz da mulher se sobrepôs, e então a do marido.
No teto, o ventilador da delegacia girava tão rápido quanto o ponteiro dos minutos de um relógio. A luz do sol já não entrava mais pela janela, nem empurrava as sombras para as paredes como se elas fossem feitas de caramelo quente. Agora, só havia a luz artificial das lâmpadas.
— Então, ele tinha drogas?
Na linha, o homem emitiu uma única sílaba.
— E ele estava num posto? Cheirando a cocaína enfileirada em carreira acima do capô do... do... — Rebouças folheou o bloco de papel em cima da mesa para reler o tipo de automóvel —, em cima do Opala. É isso?
Uma única sílaba.
— E o senhor acredita que ele esteja vindo na nossa direção — na linha, a voz da mulher se intrometeu novamente. — Minha senhora, só posso ouvir um de cada vez. A senhora dizer que não viram eles na direção na qual vocês tomaram não significa automaticamente que eles estejam vindo na minha direção, entende?
Rebouças já sabia como a conversa iria prosseguir. O homem iria tentar tomar as rédeas do fio do telefone, mas a agitação da mulher o faria cair da cela. A mulher iria falar que é uma pagadora de impostos como tantas outras pessoas no Brasil, e que ele, Rebouças, como o homem da lei que era, tinha o seu salário pago por ela e pelo marido; que era obrigação dele, como policial, investigar o fato, nem que fosse preliminarmente, sob pena de estar cometendo prevaricação.
E antes que ela pudesse falar quaisquer dessas coisas, Rebouças fez menção de desligar o telefone. Seu dedo chegou a pousar sobre o gancho, mas aí ele achou ter ouvido alguma coisa.
— Como? Pode repetir?
E a pessoa repetiu exatamente o que ele achou ter ouvido.
— O número da placa é o qual?!
4.
QUANDO OS FARÓIS DO OPALA voltaram a se acender, já estavam colados à traseira do Puma de Léo Bragança. Por entre os buracos do volante, atrás do vidro do painel, o Capitão pôde ver que o velocímetro vibrava bem acima do número 60.
— Por que esse babaca não passa? — Nilton Jay havia colocado o braço em L atrás do encosto de cabeça do próprio banco, girado a própria cintura e agora olhava o janelão traseiro, que era só uma explosão dourada.
— Não sei.
Mas, foi só Léo falar isso, que se ouviu a diminuição do ronco do motor do Opala. Foi como se o próprio ar tivesse se afrouxado, e aí houve o distanciamento de um carro do outro.
— Puta cara louco — disse Tadeu, também olhando para trás. No lábio, um bigode espumoso da cerveja que trazia à mão. Seu dedo médio voou para fora da janela de Nilton Jay, mandando quem quer que fosse ir se foder.
Apesar de os arbustos azul-petróleo passarem como borrões de um lado e de outro da estrada, e as faixas intermitentes sumirem-aparecerem-sumirem-aparecerem abaixo do GTB, a silhueta negra das formações rochosas no horizonte, e as próprias estrelas, pareciam paradas. Paradas como se dissessem que não, não importa o quanto se corra, não se chega verdadeiramente a lugar algum na caatinga.
Atrás, o barulho do Opala voltou a aumentar, chegando a uma altura que eles não tinham ouvido antes. O ronco preencheu o vazio silencioso do lugar e, ao lado do GTB, passou pela contramão, fazendo com que o carro do Capitão Bragança balançasse e sibilasse um barulho de vácuo, como o de uma boca sugando o ar após um susto.
— Tinham quantas pessoas dentro? — um dos caras de trás perguntou, e Leonardo disse:
— Três.
Não que ele tivesse conseguido enxergar. Os vidros do Opala eram escuros e, ao contrário do carro deles, a luz interna não estava acesa. Não havia nada que lhe iluminasse o interior, então era impossível discernir quantas pessoas havia ali dentro. Mas ele, Léo, havia visto aqueles três esquisitões no posto, não havia? Os dois caras com jeito de bandido e a mulher hiponga no banheiro?
— São eles, aqueles filhos da puta — Léo disse, olhando para Nilton Jay.
E aí, antes que Nilton Jay pudesse dizer “cuidado!”, o Capitão pôde ver as pupilas do amigo se dilatarem e brilharem em vermelho, seguido do som da freada.
Para que você evite uma colisão, dizia o pai de Léo, você não deve apenas frear e deixar com que seu pé se afunde no pedal, rezando para que os freios funcionem suficientemente bem para que não haja a colisão. Para que você a evite, dizia o pai do Capitão, você deve frear e, chegando próximo ao obstáculo, largar o freio e virar o volante. Se não o fizer, a chance é maior de o carro patinar e colidir.
O pneu do Puma de Léo cantou o grito mais terrível que jamais havia cantado. No chão, faixas largas de borracha preta e queimada pintaram o asfalto, onde fumaça branca surgiu e se evaporou. O Capitão largou o pedal e jogou o volante várias vezes para a esquerda, avançando sobre a contramão e indo em direção à caatinga. Do lado direito, um vulto preto disparou – VUP! – e ficou para trás. Era o Opala Coupé. Latas voaram pelo assoalho, e ombros esmagaram ombros. Papéis e salgadinhos caíram do painel sobre o colo de Nilton Jay, mas nenhum deles, à exceção de Léo, viu quaisquer desses caos. Os olhos de quase todos estavam fechados. E, enquanto fechados, o carro fez uma curva e apontou os faróis para os arbustos, as areias e os mandacarus. Depois se ajustou e voltou a iluminar as faixas e olhos-de-gato de antes.
— Que desgraçado! — Nilton Jay gritou. Os lábios trêmulos ao redor da boca quadrada.
Ainda tremendo, ele gritou para a janela: — O que você quer, seu filho da puta?!
O ronco do Opala ainda estava ali, presente, como um quinto passageiro vindo atrás.
— Lá vem ele!
Em pouco tempo, os carros se emparelharam de novo e se tocaram. O atrito das portas provocou faíscas e mais gritos.
BAM! BAM!
— Vai bater de novo!
Mas não.
Em vez disso, o vidro do carona do Opala se abaixa. Léo vê Marcelo. Ele tinha razão, era o marginal do posto. Até aí nenhuma surpresa. A questão era o porquê.
O vidro então volta a se levantar, e ambos os carros vão em mão e contramão, bochecha a bochecha.
De cima, parecia que estavam grudados como que por um ímã.
Mas não demorou muito para que o Opala voltasse a se afastar para cabecear o Puma, tentando o jogar para fora da pista. Bam!
BAM!
BAM!!
Na quarta pancada, com a lataria de ambos já arranhada e desgastada, Tadeu tocou o ombro de Léo e o apertou. Para o Capitão, ele disse:
— Por favor, cara, acelera.
O Opala veio para a quinta porrada. Mas aí o GTB acelerou. Do painel, o ponteiro branco vibrou acima dos 80. A pancada veio – BLAM! – e cegou uma das lanternas vermelhas; fez os pneus de trás rabearem e soltarem fumaça.
— Acelera!
Como um avião cruzando o céu, o ponteiro chegou logo aos 90, e então, aos 100. As coisas que passavam pelas laterais dos acostamentos, como postes ou pequenas propagandas, passavam fazendo um som de assopro quando pelas janelas voavam e desapareciam.
O ponteiro: 110 km/h.
Léo sentiu o volante do Puma tremer sob sua mão já trêmula.
O ponteiro: 120 km/h.
A visão de Léo parecia ter entrado num túnel visual. Um círculo de nitidez se projetava à frente como se fosse a saída desse túnel. Ao redor, as paredes dele eram um borrão desfocado.
O ponteiro: 130 km/h.
O Opala estava distante. Cada vez mais distante. Distante... E os amigos falaram:
— Mandou bem, cara!!
E os amigos disseram “boa”.
E eles disseram: “Bota ele pra mamar.” Aliás, isso foi o que disse um dos dois do banco de trás, antes de chegarem sem ver, à frente e enfim, às curvas sinuosas. Eles estavam num Puma GTB, a 130 km/h, confiando, sem saberem, num pneu que tinha um corte feito à faca, fino e reto, raso, mas suficientemente eficiente para fazer acontecer o que aconteceu. A batida.
E a última coisa que esse cara disse, sua última palavra na Terra, foi exatamente essa: mamar.
5.
RETORNANDO DO MAR DOS MORTOS, cuspido dele como um náufrago em direção à ilha da realidade e da dor, Leonardo Bragança ainda tinha o som e a última imagem que havia visto gravados na cabeça. O som era a de um estouro – a câmara do pneu, ele supôs. A direção travou, e o carro começou a rodar, a 45º, a 90º, a 180º, 720, 1440... em todos os eixos cartesianos, x e y. O que ele, Leonardo, viu foram as luzes dos faróis do Puma rasparem como se fossem holofotes pelos paredões de pedra do desfiladeiro por onde a estrada prosseguia. Depois, um solavanco terrível e, aí, a imagem marrom e azul-escura da paisagem ficar paralisada. Borrada. Pendendo para a esquerda como se houvesse sido pintada sobre uma tela e a tinta fresca dela tivesse escorrido para uma das bordas.
A testa de Léo tinha um corte cuja fenda era quase da grossura de um dedo adulto. Dela, escorria sangue grosso e escuro, quase como uma baba, e esse sangue se embolava na areia do chão sobre o qual, de lado, Léo estava deitado. Um pano jeans amordaçava-lhe a boca, e outro prendiam-lhe as mãos. Estava encharcado, molhado não sabia de quê. Nenhum cheiro lhe vinha ao olfato já que o nariz havia sido arrebentado em mil pedaços na explosão da pancada que deu contra o volante.
— Não! Não toca nele — disse o homem da jaqueta e do cabelo Quiff. Perto, a silhueta do careca grandalhão, maior até que a dos zagueiros do time universitário, parou as mãos no ar e as recuou.
Léo pôde vê-los embaçados, boiando em meio à confusão de cores e dores de sua vista. Estavam à frente da luz que saía do Opala verde. Seu mundo estava na diagonal, ainda caído e girando, e ali, naquele embaralhamento, Léo sentiu a ardência causada pela areia chutada em direção ao seu rosto. E, com ela, a ordem para ele se sentar. Grãos de cascalho fustigaram-lhe os lábios, e Léo pôde notar, mesmo com a mordaça, que parte de seus dentes estavam irregulares e arranhavam a língua.
— Oquichequer? — ele tentou dizer, mas sentiu a vista rodar e a cabeça latejar. Os ombros doíam como se estivesse virados na direção contrária à da articulação.
Próximo, longe do acostamento ou da curva da rodovia, mais para dentro do paredão de pedra virgem do desfiladeiro, o Puma GTB amassado era uma bola de papel alumínio. Embaixo das ferragens dele, Léo viu um antebraço com os dedos semiabertos, mortos. Mas o que lhe causou renovada vertigem foi o fato de que havia um espaço vazio entre o fim do cotovelo e o metal do carro.
Mesmo com a face dormente e a pele esticada sobre o inchaço da cabeça, que agora parecia um balão, Léo pôde sentir as lágrimas mornas escorrerem em curva sobre as bochechas. Nilton Jay e Tadeu estavam caídos de lado, também amordaçados. Os olhos de Nilton Jay se mexiam por baixo das pálpebras de forma quase teatral. Às vezes se abriam e revelavam semicírculos brancos, convulsionantes, para então voltarem a se fechar. Mas Tadeu, os dele não. Léo pôde ver sua boca entrefechada e reta, lábios duros e secos. Enquanto abaixo do nariz de Nilton Jay a areia fina do deserto se espalhava, abaixo de Tadeu ela permanecia assim fixa, como ela era.
— Pôa, oquichequer da gente, ca’a?! Oquichequer! — Léo chorava e dizia: — Fa’a!
E o que Marcelo queria, Amandalee trouxe de dentro de sua bolsa de crochê. Uma fotografia; a fotografia de uma criança de sorriso largo e cabelos ruivos, vestida ela com um vestido florido e ajoelhada na grama da entrada de uma casa onde, na garagem, podia-se ver um Opala emplacado “CZ0399”.
Ao apontá-la para Léo como um policial apontaria sua própria identificação e distintivo, Marcelo viu-lhes os olhos vermelhos, cujas pupilas já estavam dilatas, ficarem ainda mais arregalados, e, no meio das íris, a escuridão de um espaço vazio.
6.
NILTON JAY JÁ HAVIA RETORNADO do mar dos mortos antes mesmo de Léo. Ele pôde ver os últimos momentos de Tadeu, que disse até morrer: me desculpe treinador, me desculpe. Ao redor, os três caras arrastaram os corpos dos que ainda estavam vivos e os amarraram. Não dos que estavam apenas conscientes, mas dos que estavam vivos. Nilton Jay, a despeito da dor e da náusea que sentiu, deixou com que todo o seu corpo ficasse mole e sem resistência, realmente frouxo, realmente morto, impedindo que seus pulsos ficassem juntos o suficiente para serem amarrados por Dáblio com a firmeza que deveriam ter sido.
Caído, ele pôde ouvir o choramingo de alguém, de algum daqueles três; de um dos homens, só não pôde ver qual. E então o barulho de água caindo, como se despejassem o conteúdo de um balde, aos poucos, aqui e ali. O cheiro do sangue se confundia com o cheiro da gasolina despejada, e ambos estavam fortes o suficiente para aumentar a sensação de enjoo e embriaguez.
— Acho que ele está acordando — disse a hippie, e Nilton Jay gelou. Então, ouviu-se o homem, o de jaqueta, mandar ela pegar a bolsa. Falavam de Leonardo.
E aí, de olhos fechados, pôde ser ouvido:
— Não, não toca nele!
E ouvido:
— Oquichequer?!
Nessa hora, quando os três prestavam a atenção no Capitão, Nilton Jay rolou devagar sobre o próprio corpo, conseguindo afastar os punhos de amarras frouxas só o suficiente para que os braços conseguissem se abrir em um arco largo, através do qual ele passou as pernas.
Levantou-se, e, da vista de todos, por entre as sombras, rezou e sumiu.
7.
COM OS OLHOS SEMICERRADOS, Léo disse:
— Não facho ide’a diquêm sejela, ca’a — ele mordia a mordaça jeans enquanto tentava se justificar, falar que nunca tinha visto aquela garota da foto, seja lá o que ela tinha a ver com aquela loucura toda.
Acima deles, o céu estava repleto das mesmas estrelas paradas, e sem lua. Algumas nuvens surgiam e corriam rápido, desaparecendo como espuma num mar escuro.
Marcelo sentou-se na areia, ao lado de Léo, logo após guardar, no bolso de trás do jeans que vestia, a foto da criança. A cara do Capitão estava desfigurada, como a de uma imagem na superfície fragmentada e assimétrica de um espelho quebrado. Para aquele reflexo torto de um garoto bem comportado, com um futuro promissor, o exemplo do Patriota, Marcelo apontou um dedo.
— Isso aqui tem dois significados — o dedo retornou, e apontou exatamente, no rosto do próprio Marcelo, onde ficavam as cinco tatuagens que não eram nada mais que cinco contornos de gotas de lágrimas, próximas aos olhos.
— O primeiro dos significados — Marcelo disse —, tem a ver com algo que você fez. O segundo, tem a ver com algo que eu vou fazer com você.
Então, a mão desceu até o interior da jaqueta e, de lá, puxou um papel dobrado, o qual Marcelo jogou no chão perto de onde Léo estava sentado.
— Se você for a um tatuador profissional, desses que você encontra nas cidades, se ele entender o que está fazendo, normalmente se recusará a desenhar. Sabia?
Eram várias folhas presas por um grampo diagonal já enferrujado.
— Uma dessas, você só consegue estando no lugar em que estive. E sabe o que dói? É que por estar lá, preso, eu não pude fazer nada.
Pesavam e eram muitas, como o vento que as soprou deixou entrever.
— Nada! — disse Marcelo — A não ser tatuá-las, esperando a esperança.
Mas o que importava mesmo era aquilo que estava logo à frente, na primeira página. Para aquilo, Marcelo apontou e disse: — Lê.
Os olhos marejados de Léo desceram até as folhas e, mesmo à sombra, viram o timbre do Hospital Municipal do Rio de Janeiro encimando muitos e muitos parágrafos de texto, repleto de siglas e números. No centro, em letras negritadas, e grande o suficiente para que o próprio Léo, mesmo todo arrebentado, conseguisse ler, estava escrito:
Sorologia ............................................................................ POSITIVO
— Eu poderia simplesmente não fazer nada, e você iria morrer do mesmo jeito. Sabia disso, Léo? As pessoas já notaram. Não é difícil chegar à conclusão. E se você foi o primeiro deles, provavelmente os outros três também adoeceram — ele disse.
E disse: — O karma é engraçado. Ele acelera para uns, não acelera para outros. Mas meu pé está no pedal do de vocês.
Então Marcelo olhou para onde Tadeu estava caído, e seus lábios ficaram tensos e retos. Notando isso, Dáblio virou-se, e assim também Amandalee.
— Cadê o outr...
Mas antes que Marcelo tivesse podido terminar, Nilton Jay correu das sombras em direção ao grandalhão branquelo e acertou-lhe uma ombrada no meio das costas, exatamente no meio da espinha, o lugar em que qualquer regra desportiva proibiria qualquer interação, justamente pelo risco de lesões sérias e paraplegia.
— Hugh!
Ao sentir a porrada, Dáblio trancou o maxilar como se fosse um punho fechado e sentiu a dor cortante ser primeiro projetada à frente do corpo e então subir até a base do pescoço. Involuntariamente, suas pernas cederam como se tivessem evaporado, e o zagueiro grandalhão de centenas de quilos desmoronou por cima de Marcelo, derrubando-o de vez no chão.
— Consegue?! — perguntou Nilton Jay a Léo, ajudando-o a passar ambas as mãos por baixo dos pés.
Léo gritou quando um dos ombros deslocados chacoalhou frouxo dentro do músculo, mas aguentou por tempo suficiente para conseguir pular as amarras da mão e ter o corpo livre para correr, ainda que parcialmente prejudicado.
Nilton Jay ajudou-o a se levantar. Marcelo tentava sair debaixo do corpo de Dáblio
— Corre! — Nilton Jay disse, e Léo correu.
E ele também iria correr. Mas veio a facada.
Léo se virou no eixo do quadril para ver o porquê do grito, antes de ouvir o baque surdo. Suas passadas jogavam terra para cima. Ele se virou apenas por tempo suficiente para ver os olhos de súplica arregalados de Nilton Jay. Atrás dele, Amandalee e uma faca ensanguentada. Os olhos arregalados e morrendo do amigo suplicavam, e a face lhe dizia a mesma coisa que tinha dito ao fim da festa do último dia do ensino médio. Ela dizia: o que a gente fez, cara?
8.
— EEEI! DÁ UMA OLHADA para cá, belezinha — a voz por trás da câmera é de Tadeu. Ele filma uma garota loira que está com um copo vermelho de plástico nas mãos. Quando a câmera se aproxima demais do rosto dela, ela mostra o dedo do meio e as enormes unhas pintadas de branco para a tela.
Há um corte, e então uma piscina nos fundos de uma bela casa com janelões de vidro do tamanho de paredes inteiras. Colegiais saltam de um trampolim em meio a um mar de outros garotos e garotas, de sungas e biquínis, refrescando-se na água.
Outro corte. Tadeu, Nilton Jay e mais alguns garotos estão bebendo cerveja diretamente de dois canos transparente de plástico que se conectam a barris de metal. Os canos saem do barril e levam cerveja amarela e espumosa diretamente para as bocas eles. Em seus peitos largos, está escrito a batom: ÚLTIMO DIA.
Outro corte. Alguém está por trás da câmera e dando zoom para capturar a bunda de uma das garotas de biquíni. Mas alguém esbarra em quem está filmando e a imagem treme como num terremoto. Ela desfoca. E quando retorna, a garota já não está mais parada onde estava. Contudo, na esquina da casa, num beco ainda dentro do terreno, mas longe dos olhares dos demais, espremidas entre a parede e a cerca, tem duas outras meninas. Elas estão se beijando. Uma delas é ruiva, e a outra, de cabelo preto e curto, com um visual um pouco diferente da sua versão atual, é Amandalee.
— Peraí, peraí, peraí — pede o rapaz que está filmando. — Caaaara! Vocês têm que ver isso.
Novo corte. E aí a imagem está mais ampliada. Ainda há zoom, mas as duas pessoas se beijando estão agora enormes na tela... e aumentando... e aumentando. Então, a pessoa filmando esbarra na churrasqueira e faz barulho de metal, chamando a atenção das duas moças. Elas se afastam, constrangidas, como se tivessem tomado choque e, então, passado a procurar algo no chão.
— Não, não! Podem continuar — diz o rapaz, com um sorriso na voz. E aí ouve-se uma outra voz feminina, fora da tela, dizer: — Deixa de ser babaca.
Um novo corte. E a cara que aparece é a de Léo. Toda a linha horizontal de seu nariz, de uma ponta a outra, está vermelha. Ele está sentado no sofá branco da sala, rodeado das pessoas da sua equipe. Homens e mulheres conversam, espalhados pelos outros cômodos, enquanto música alta dos anos 80 toca no fundo. Os olhos de Léo estão caídos e já possuem as olheiras que, nos anos seguintes, só iriam piorar. Ele ostenta um sorriso pateta na cara. E, para ele, a pessoa que está filmando diz assim:
— O que você acha disso, Capitão?
E o Capitão ri, enquanto leva um dos copos à boca. Ele olha ao redor, e no arredor os caras do time olham para ele com uma seriedade de quem espera a resposta de um guru no topo de uma montanha.
— O que você acha, Capitão? — o cara insiste.
E Léo diz: — Acho que alguém devia ensinar a elas uma lição.
Em seguida, o cara do vídeo grita e uiva; e os caras ao redor gritam e uivam, para o espanto de Leonardo, que se assusta e se encolhe com aquela reação.
Capitão Léo começa a ensaiar alguma coisa, mas o álcool que tomou fez do seu pensamento uma área pantanosa, por entre a qual a fala tentava se arrastar como se tivesse lodo até bem acima das galochas. Assim, antes que ele pudesse sequer começar a dizer o que queria, a pessoa filmando diz:
— Peraí, peraí, peraí.
Então, o vídeo dá um zoom terrível em direção ao chão. Depois, sobe desengonçado até um cômodo ao fundo, onde as duas meninas que se beijavam agora têm uma conversa pouco amistosa. A de cabelos lisos e pretos gesticula e aponta na direção do time de futebol reunido na sala. Parece gritar alguma coisa. Com isso, o cara filmando perde o foco como que se tentasse se esconder. Depois, a mesma garota, Amandalee, pega sua bolsa de crochê e a coloca no ombro, indo embora da festa a passos duros.
Há um corte.
Alguém está filmando a menina que ficou, a ruiva. Está bem próximo a ela, que tem um sorriso no rosto e os olhos verdes, enormes e úmidos. A menina está aérea como um balão flutuando no vento. E a essa pessoa, nesse estado, quem está filmando diz:
— Quer mais? — e ela pergunta o quê, e a pessoa, cuja voz era a de Léo, diz: — Bebida?
9.
DE BLUSA BRANCA, ainda sem qualquer tatuagem de lágrimas nos olhos, Marcelo anda. Para. Anda. Para. E vai se arrastando com a sandália de tira arrebentada pelo corredor cinza. Nas mãos, algemas. Um policial o conduz à sala de entrevistas, onde ele esperava ver alguém mais familiar na cadeira, como por exemplo sua irmã, que há anos não via: mas quem ele viu foi sua cunhada.
Quem ele viu, e não esperava ver, foi Amandalee.
Chorando.
Nenhuma notícia ruim deve ser dada por carta. Mas aqueles dois jamais se veriam pessoalmente (ou pelo menos Amandalee achava isso), e o que ela lhe explicou foi o que ele jamais soube: o que havia acontecido anos antes. Ao falar, segurava para ele, em meio à explicação sobre karmas e retribuição, uma foto; a foto de uma mulher ruiva e uma criança loira num vestido florido. A foto da irmã e da sobrinha de Marcelo.
E para ele, em meio às lágrimas, Amandalee disse:
— Ela aguentou — os dedos se afrouxavam involuntariamente da mão trêmula —, aguentou apenas o suficiente para que a Ana nascesse. E então...
E então, a foto caiu. Ela escorregou e bateu no metal da borda da mesa. Oscilou, oscilou... e caiu; como alguém que ponderasse e então pulasse de uma ponte.
10.
OS FUSCAS BRANCOS da polícia local iam a toda velocidade pela rodovia interestadual, em sentido contrário, seguindo em direção ao oeste. Seus giroscópios explodiam um milhão de cores iguais pela caatinga e pela flora que os circundavam. No horizonte ao longe, o negror do céu noturno dava lugar a um laranja sujo no qual, em meio à sua claridade, subia-lhe uma coluna preta, um triângulo invertido de fumaça.
Lá no meio da chapada, Marcelo fumou um cigarro, mesmo que não tivesse mais fósforos.
Sentado no chão molhado de gasolina espalhada, próximo ao metal retorcido e cortado que um dia fora um Puma GTB, ele olhou uma última vez a foto da sobrinha e viu, ali nela, uma imagem muito similar do que um dia havia sido sua irmã caçula.
No frio, o vento empurrou sobre Marcelo a cacofonia de sons distantes que eram as sirenes dos carros policiais, fazendo com que chegasse junto dela, também, a areia. E aí ele soube que havia dado o tempo, soado o gongo; que ele tinha que fazer o que veio fazer: tinha de preencher o espaço interno da última gota de lágrima.
Quando os Fuscas de Rebouças chegaram, muitos e muitos minutos depois, já era tarde. O Puma GTB já havia virado uma bola de fogo. Um acidente provocado por garotos bêbados, como constou no relatório. O crepitar das chamas ocupava toda a noite. O cheiro era adocicado, queimado, e também o era o de gasolina. Vez ou outra, ocorria um estampido mais alto, um pneu furando ou um vidro se estilhaçando. Batidas ocas talvez, mas mais nada. O fogo em pouco tempo consumiu tudo, e os policiais não puderam fazer qualquer coisa, a não ser ativar os bombeiros, que chegaram quando tinha menos ainda o que se fazer.
Ainda que o vento houvesse feito o trabalho de cobrir parcialmente o rastro dos pneus do Opala, e nada nem ninguém tivesse noticiado o que aconteceu (como o frentista, que assegurou terem o Puma e o Opala ido em direções opostas), ainda assim, nenhum policial conseguiu fazer vista grossa ao fato de que havia restos mortais e cinzas de um corpo na mala do carro queimado. O problema era: por que não checaram? Essa pergunta não cairia bem na ficha funcional de nenhum deles, de modo que sequer cogitaram fazê-la. Então, claro, a colisão talvez tenha sido tão violenta que tenha empurrado a pessoa por entre as ferragens, fundindo-a ao compartimento de trás, mas... Mas. Toda a conclusão era só uma dúvida. Caso encerrado. Arquivo. Dentro dele, o relatório de que também haviam encontrado um acendedor parcialmente carbonizado, que não pertencia de fábrica ao Puma GTB ou a qualquer de suas versões, além de pedaços cheios de bolhas de uma foto a qual eles supuseram ser a de uma mulher e a de menina loira brincando em frente a uma garagem, cujo carro nela guardado, a placa não foi possível ler.
Uma foto vinculada a outro caso, mais antigo. Inconclusivo; também arquivado e encerrado.
Outra história não contada.
Mais uma – para sempre e agora – finalizada, terminada sem registro; a não ser em nada mais que apenas isso: registrada em nada mais que apenas cinzas.










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