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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS FINALISTAS | Raquel Castro de Souza (Categoria Crônica)

há 2 dias
7 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


Raquel Castro de Souza é atriz, dramaturga e diretora de teatro. Professora do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Minas Gerais/Brasil e idealizadora do Coletivo Mulheres Encenadoras (Belo Horizonte/MG). É autora da dramaturgia “La chica que matou Almodóvar”, publicada pela convocatória Brasis, da editora Javali (Brasil). 


O TEXTO:


Transição de carreira ou craca de tartaruga


Por volta das 12h45 de hoje, perdi a cara de turista em Ouro Preto. Desde 2017, quando comecei a trabalhar na cidade, até o início desta tarde, eu preservava o ar de gente que passeia, meio perdida, olhando as coisas pela primeira vez. Mas pouco antes das 13h, passei a andar com ar cansado, franzindo a testa, incomodada com o sol e com as pedras escorregadias na descida do morro. Não precisei esperar nenhuma confirmação: alguém se aproximar pedindo informação como se eu fosse moradora ou os guias turísticos locais deixarem de me oferecer passeios de jardineira pelo centro histórico. Eu simplesmente soube que era o fim da minha fase flâneuse.

Às 13h30 estava na sala de aula, mas os alunos só começaram a chegar às 14h alegando que a fila do restaurante universitário estava enorme. Sempre está. Muitos nem apareceram e mandaram notícias de que estavam cansados por causa de uma excursão para o museu do Inhotim no dia anterior. Entre os que compareceram, apenas dois afirmaram ter lido o texto para a aula. Um deles teve uma crise de ansiedade e precisou sair da sala e o outro se enganou, tinha lido o texto de outra disciplina.

Às 17h encerrei a aula e decidi pegar o ônibus dos professores que sai do campus às 17h15 com destino a Belo Horizonte. Não gosto do ônibus dos professores, apesar da comodidade de não precisar me deslocar para a rodoviária e esperar o sempre atrasado ônibus da companhia Pássaro Verde.

Na primeira vez que peguei o ônibus dos professores senti um mal-estar. Todas as cortinas estavam fechadas. A escuridão não era total por causa de algumas luzes de celulares, tablets e computadores abertos em planilhas do excel ou e-mails institucionais cheios de “prezados”, “segue em anexo”, “grato pela atenção” e “cordialmente”. Os outros cochilavam. Esperei um tempo e reparei que mesmo os acordados não abriam as cortinas. Pensei que deveria haver um acordo sobre isso. Para preservar o sono dos cochiladores, ou

por algum outro motivo que eu desconhecia, parecia ser proibido olhar para fora e deixar a

luz entrar.

Mas eu enjoo. Tenho um arsenal de técnicas e estratégias para enfrentar minhas viagens semanais entre casa e trabalho, que ficam a cerca de 100 km de distância, e uma delas é olhar o horizonte ao longe pela janela. Além disso, naquela época eu ainda era apaixonada pela paisagem que, apesar de corroída pela mineração, ficava especialmente bonita no final da tarde. O sol mal se punha e a lua já aparecia. Ia brotando, brilhando e brincando de se esconder entre as curvas perigosíssimas da Serra da Santa na altura de Itabirito.

No escuro, sem sol nem lua, não demorou muito para eu começar a suar frio e a ficar claustrofóbica. Ainda no distrito de Cachoeira de Campo (não tenho certeza disso porque fiquei com vergonha de olhar pela fresta da cortina para conferir) veio a vontade de vomitar e tive que ficar bem quieta, respirando devagar para controlar a náusea. Quando não aguentei mais, tomei coragem e abri uma gretinha da minha cortina. A luz entrou cegando meus olhos e eu respirei fundo uma rajada de vento totalmente imaginária porque o vidro era completamente vedado. Praticamente não existem mais janelas nos ônibus de viagem hoje em dia.

Nesta tarde, no entanto, eu estava mais preparada. Depois de muito evitar voltar ao ônibus dos professores e de algumas viagens inevitáveis e bastante desagradáveis, embora sem enjoo pelo efeito da ondansetrona que eu detesto ter que tomar, decidi tomar outra coisa: uma atitude. O ônibus parou no ponto de sempre, em frente à Escola de Minas, entrei determinada, dei boa tarde ao motorista com a voz um pouco menos aguda do que de costume, sentei numa poltrona bem no meio do ônibus e sem hesitação abri as minhas cortinas como quem puxa depressa o band-aid de uma ferida. Não deixei de ficar um pouco

envergonhada porque o velcro que prendia as duas partes do tecido fez um barulhão. Mas o

constrangimento não impediu meu grito interno de liberdade e rebeldia: Estou viva! Por que vocês não vivem também? Olhem para fora, para as montanhas que ainda restam! Apreciem o pôr-do-sol! Vejam a lua de sorrisinho! Vocês vão perder? Seus obtusos!

Perderam. Pareciam meio mortos. Apesar do meu breve gesto vital, também pareço, afinal estou no mesmo barco (ônibus, eu sei) partindo do mesmo lugar e indo para o mesmo

destino.

Cheguei em Belo Horizonte às 20h35 depois de um engarrafamento terrível na saída de Nova Lima. Fui encontrar uns colegas da natação num bar. O acompanhante que um colega levou disse que costuma puxar assunto com as pessoas que não conhece com a pergunta: Qual seria o seu trabalho se todos os empregos pagassem o mesmo salário? Dez mil dólares por mês. Uma colega que começou a natação recentemente, uma moça linda, que é a cara da Rory Gilmore da série Gilmore Girls - o que me confunde porque ela deveria estar em Grey’s Anatomy, já que é médica - respondeu que se pudesse escolher qualquer trabalho, trabalharia no Hospital do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais.

Ela trabalha no Hospital do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de

Minas Gerais.

- Poxa, você gosta mesmo do Hospital do Instituto de Previdência dos Servidores do

Estado de Minas Gerais - nosso colega comentou.

- E você? – o rapaz seguia o sentido horário na roda dos sentados à mesa e eu era a próxima.

Respondi que remover craca de tartaruga era meu trabalho dos sonhos.

Percebi o disparate, mas depois lembrei que sou meio disparatada desde pequena. Quando era criança, se me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu respondia com minha voz angelical (que preservo até hoje): Puta em Paris. Esse desejo de futuro persistiu na adolescência, junto à vontade de fazer biologia marinha, mas na vida adulta não

pensei mais nisso (pelo menos conscientemente).

Muitos anos depois, quando meus amigos do ensino médio ficaram sabendo que eu estava morando em Paris, pensaram que eu tinha finalmente realizado meu sonho e me escreveram dando os parabéns. Mas não. Eu fui fazer uma parte do meu doutorado chatíssimo na Sorbonne, com bolsa do governo brasileiro. Puta desilusão. O bom é que eu morava no 19º arrondissement, um bairro de imigrantes, perto do Boulevard Belleville, que ficava lotado de putas chinesas. Eu passava por ali todos os dias e ficava encantada. Aprendi com elas a usar meia-calça grossa de inverno com efeito de transparência. Compro até hoje

no site da Shein.

Sobre o sonho de remover craca de tartaruga, tudo começou quando pesquisei no google “como trabalhar embarcada”. Apesar de morar numa cidade sem mar, a cerca de 600 km do litoral, meus olhos com diagnóstico de blefarite e olho seco evaporador agravado pelo excesso de telas sempre buscaram o oceano. Eu queria chorar um mar inteiro e não conseguia. Pensava na possibilidade de mudar de carreira e não ver mais ninguém em terra firme, principalmente entre as montanhas de Minas Gerais. Isso foi no final da pandemia de

coronavírus e eu estava exausta. As pesquisas na internet por “profissões no mar para quem

não sabe nadar” associadas ao hábito compulsivo de comprar tranqueiras no site da Shein levaram o algoritmo a entender que eu gostaria de ver vídeos de pessoas removendo cracas

de tartarugas marinhas e de baleias em alto mar.

Na wikipédia descobri que cracas são crustáceos marinhos com exoesqueleto duro, conhecidos por se fixarem permanentemente em superfícies como rochas, cascos de navios, baleias e tartarugas marinhas, filtrando alimento da água. Vi um vídeo no youtube em que um cara dizia que retirar as cracas não ajuda as baleias, só prejudica as cracas. O que não importa muito porque a maioria dos vídeos de pessoas removendo cracas são feitos por inteligência artificial, o que, por sua vez, também não importa porque a maioria das pessoas nos comentários dos vídeos acredita na veracidade e na bondade daqueles que se dedicam à nobre tarefa de salvar tartarugas e baleias das cracas cretinas.

As cracas são hermafroditas e têm um pênis enorme. É, relativamente, o maior órgão reprodutor do reino animal.

Essa informação não me levou a lugar nenhum e com o passar do tempo minha decisão de mudar de carreira arrefeceu. Ainda recebo divulgação de vagas de pós-doc para observar baleias em Arraial do Cabo, mas eu não tenho os pré-requisitos necessários, especialmente a graduação em oceanologia ou biologia marinha.

Um amigo neurocientista, sabendo do meu interesse em animais aquáticos, me convidou para visitar o laboratório em que uma colega observa o comportamento de peixes. Perguntei se, tendo formação em teatro, eu poderia conduzir alguma pesquisa em psicodrama e ele prometeu que uma hora dessas vamos escrever um projeto juntos.

Na mesa do bar, por volta da meia-noite, o assunto tinha mudado de trabalho dos sonhos para o tema das relações não-monogâmicas na terapia. Não faço terapia e não tenho

relações, então me despedi dos colegas e pedi um uber.

Cheguei em casa às 00h25, fui direto para a cozinha, destampei o aquário e tirei de lá a Catarina. Segurando com uma mão a barriguinha, enquanto ela mexia aflita as patinhas e a cabecinha, comecei a tirar com a outra mão as craquinhas do casco, uma a uma, até deixar tudo bem limpinho. Devolvi a Catarina para o aquário e chamei a Clarice, que veio nadando

rápido, ansiosa por se livrar das cracas também. Repeti o ato cuidadoso de arrancar com as

unhas todas aquelas coisinhas grudadas. Coloquei Clarice na água e procurei a Cláudia. Estava escondida atrás do barquinho. Tirei ela de lá e coloquei na mesa da cozinha. Abri o armário, peguei uma pistola de cola quente e um potinho com pedras, contas, miçangas e pequenos objetos coloridos. Colei cuidadosamente todas aquelas coisas no casco gasto da Cláudia. Deixei secar por alguns minutos, admirei a composição de formas e cores neon e a levei de volta para o aquário.

Amanhã, por volta das 8h, antes de sair para o trabalho, vou salvar a Cláudia de suas cracas e ela vai ficar agradecida.

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