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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS VENCEDORES | Mara Vanessa Fonseca Dutra (2º LUGAR — Categoria Conto)

há 37 minutos
23 min de leitura


SOBRE A AUTORA:


Nasci em Belo Horizonte, em 12/06/1957. Uma mineira geminiana com ascendente em Sagitário, mãe de Iara Bimi Ayani e de Maria Rita Ayodelê, escritora de incontáveis cartas, testemunha, cronista e contadora de histórias, mulher dos sete instrumentos e muitas virações. A Bahia me abraçou, como grande mãe que é, e moro em Salvador desde 2004. Desde o começo, a arte me levou para os povos indígenas; estes me pegaram pela mão, pelo afeto, pela beleza e me levaram para o resto da vida. Uma vida feita de paisagens, encontros, busca, e marcada pelo encantamento das línguas e culturas. Considero que a grande arte é criar alegria e beleza todo dia, como os antigos alquimistas – transformação, transmutação, movimento. E faço parte da fileira dos que não conseguem sossegar frente à injustiça social e lutam com a força de todos os irreparáveis sonhadores.



O TEXTO:


Ibiapuã


Ele era só um pontinho preto na encosta do morro, mas Izim já adivinhava o suor, o cansaço, o saco de estopa jogado nas costas. O sol das dez da manhã castigava com força e qualquer um sabia do pesado que era subir o morro dos Bandeirantes, ainda mais com carga no lombo.

Izim olhou pro céu, tampou a cara barbuda com a mão feito pala, encarou o sol. Cegava. Daqui a pouco aquele pontinho preto ia aumentar, aumentar e Bento estaria ali, cansado e duro, jogando no chão o rancho da semana e querendo saber das novidades. Izim pensava no olhar duro de Bento: era como querer encarar o sol, igual de cegueira, tonteira. Outra vez o dedão de seu pé direito coçou. Ah, vida de peão, por que tinha que ser assim? Se ele é que tinha o dom, se a ele é que as pedras se mostravam, por que ruindade do destino não tinha ele Izim a sorte de ter algum dinheirinho e poder bancar sua própria lavra? Aquele morro dos Bandeirantes, feitiço antigo… Agora ali estavam eles, ele, Bento e aquele imprestável do Zé de Luzia, ainda por cima velho e cheio de manias e mandingas. Lembravase de quando Bento o procurou, no dia de mercado, na cidade: pagou umas pingas, sondou, puxou assunto:

Ocê conhece o pico do Ibiapuã?

Os olhos de Izim, mesmo sem ele querer, brilharam. O Ibiapuã!

Pois tá dentro das terras do velho meu pai, e quero ir lavrar por lá, tenho um palpite...

Izim se benzeu, sinal da cruz, sentiu o arrepio fino subir-lhe pelo espinhaço. O Ibiapuã… Havia jurado que lá não voltaria mais. Desde então, o sonho o perseguia, a pedra, a pedra verde, lhe chamando. Daquela primeira vez, saiu de lá inconsciente, expulso pelos jagunços do Seu Agenor. Só se lembrava da febre, da febre, quando tudo era verde e o Ibiapuã o desafiava, mostrando sua barriga cheia de pedras verdes. Disseram que ele tinha sezão, febre ruim, maleita. Brigou, quis fugir do acampamento, foi humilhado:

Ocê não é homem pra aguentar a dureza da lavra, vai pra cozinha da roça com a mulherada, vai plantar milho, nem pra vaqueiro ocê num serve, molenga. Bebe pinga e fica aí chorando, feito mulher…

Mas eles não sabiam, não entendiam, jamais iam entender, ele chorava era de medo e de encantamento, de susto, de tudo. Pois se até então não sabia desse seu dom, não conhecia o mistério, não entendia o destino que lhe estava reservado, não havia passado ainda pela revelação. Aconteceu tudo ali, meio de repente, ele rapaz novo, primeira vez que destacado pro serviço de lavra. Estava entusiasmado com o serviço de verdadeiro macho que agora lhe aparecia, junto com a primeira barba. Mas lembrava-se também do que a velha Zefa Poteira - maldita bugra! -, com aquele olhar antigo da última Pojixá restante naquele vale, velha quase cem anos, lhe havia dito uma vez:

Menino, a pedra verde é a maldição, é o olho do Satanás, e ela tá dentro docê, ocê cuidado, ocê tem o brilho verde escondido no fundo dos óio, num deixa ele te cegar.

Izim havia tirado sua mão das garras da velha, brusco, assustado. Essa sua avó bugra sempre lhe havia metido medo, essa velha que ainda cortava gíria dos caboclos antigos e que tinha estranhas mandingas guardadas em seus potes de barro, raízes, coisas. A avó não tentou recuperar a mão do menino; olhando meio de lado, balançava a cabeça e repetia, baixinho:

Ibiapuã, Ibiapuã… sangue de Pojixá, Capitão Pohóc quer ser vingado, caboclo velho não esquece traição, Ibiapuã é lugar encantado…

Izim saíra correndo deixando a avó falando sozinha, misturando palavras daquela gíria de caboclo com língua nossa de gente, essas coisas metiam medo. Quando a avó falava assim, parecia que não era ela mesma, sempre tão mansa e lúcida, mas nessas horas ela virava bugra outra vez e Izim não gostava de ver, tinha medo e tinha raiva. Raiva. Queria esquecer esse resto de sangue de índio que tinha herdado e que fazia dele o peão mais mal pago, o que devia aceitar qualquer serviço por bruto e humilhante que fosse, o que tinha “essa raça ruim no sangue” e devia suar o dobro dos outros para provar que não era um preguiçoso, vagabundo e ladrão. Ah, teve raiva de tudo, dessa avó índia velha que não morria nunca, da mãe que tinha acabado na zona da cidade, morta jovem ainda de doença da vida, do pai que não sabia quem era, de ter sido criado sempre como uma espécie de escravinho naquele recanto das terras sem-fim de Seu Agenor, a quem todos afinal pertenciam. O velho a quem tomava bênção, como todos os outros meninos sem pai criados soltos nas terras do padrinho geral, do dono.

Assim é que quando foi destacado pro serviço da lavra, pela primeira vez na vida ia ser tratado como homem, uivou de alegria. A avó já morta fazia tempo, ele vivendo com os outros peões solteiros, dormindo num canto do curral, se desapertando das necessidades com as terneiras dali mesmo, sem conhecer mulher, sem ter dinheiro vivo no bolso, um moleque qualquer. Foi, alucinado de alegria, já nem se lembrava das antigas palavras de sua avó, nada.

Lá na lavra sobrou pra ele o serviço mais bruto, o mais chato, o que ninguém queria fazer; como sempre. Era o cozinheiro, o burro de carga, por pouco não era também a mulherzinha dos garimpeiros; foi aí quando precisou mostrar valor de macho e ameaçar com faca e facão, distribuir umas porradas e cuidar-se muito bem das armadilhas dos outros. Mas isso também passou, e os homens se acostumaram a que o rapaz fosse um macho como eles mesmos, e continuaram todos se desapertando com as cabras e as cadelas que haviam levado junto pro acampamento.

Foi então que Izim começou a sentir; à noite, quando todos dormiam, vinha uma coceira no seu dedão do pé e ele tinha que levantar e andar. Ouvia barulhos estranhos e começou a ver fogos verdes queimando na serra, mudando de lugar, formando um caminho. Assustado, lembrou-se das palavras da avó. Guardou segredo; se aquele era o caminho das pedras verdes, ele não ia contar pra ninguém, entregar a ninguém o mapa da riqueza. Começou a não poder dormir mais noite nenhuma e de dia os homens não o deixavam descansar um só minuto; louco de sono e de tensão, adoeceu. No delírio, falava coisas; o cuidado para não contar seu segredo tornava o delírio mais delirante, falava no fogo verde no Capitão Pohóc, que a serra queimava-se em verde, que vinham os caboclos atacar, que o sangue Pojixá derramado ali era uma cachoeira verde e brilhante que despencava para afogálos, e chorava de pavor. Em seu sonho, a cara pregueada de sua avó aparecia dentro da montanha, com chispas verdes faiscando-lhe os olhos, e as mãos feito garras querendo alcançá-lo, querendo segurar sua mão que ele encolhia, escondia, a avó mostrava a barriga da montanha transparente onde uma pedra verde do tamanho do mundo se oferecia, e de repente já era a cara da velha cabocla outra vez, e ele menino corria daquele olhar vazio de sua avó que o perseguia, e chorava.

Foi então que os homens, aborrecidos, expulsaram-no da lavra. Já não fazia nada direito, errava na comida, uma vez serviu café com sal, parecia que vivia dormindo, era um miserável dum caboclo preguiçoso, raça ruim, e ainda por cima foi adoecer, trazer maleita pro acampamento deles, azar danado, cruz credo. Andar com menino é nisso que dá… qualquer coisa, chora. Num era homem mesmo, pra andar no meio de machos…

De volta pra cozinha e pra lavoura não ia, ah, não ia. Era humilhação demais. Purgando a febre na descida da serra dos Bandeirantes, desviou o rumo e entrou, dias depois, nas luzes da cidade. Como sua mãe, a única rua em que pode viver foi a rua da zona; lá acabou de se curar, trocou as terneiras e as cabras por fêmeas mulheres, acabou de engrossar a voz, deixou crescer a barba e aprendeu a usar a faca com decisão.

Ia bem em sua nova vida de macho urbano, até que um dia Bento lhe pagou aquelas pingas e o convidou pra aventura do Ibiapuã. Aceitou com um restinho de febre. Agora estavam ali, o serviço de burro de carga e de cozinheiro fazia Bento, ele Izim já era homem formado, e o velho Zé de Luzia estava ali pro trabalho duro de furar os buracos onde ele indicasse. Bento havia sido claro:

Quero você lá de companheiro comigo, tenho um palpite e acho que você tem faro. Tudo que for encontrado a gente divide, igual pros três. Eu sei que naquela serra tem pedra verde nos esperando, e sei que você vai me ajudar a encontrar.

Foi só essa a conversa, a única. Os três eram homens sem muita conversa, não gastavam palavra. Toda semana, Bento ia à cidade buscar o rancho, trazia no burro até o pé da serra e depois era ele mesmo o burro, carregando até o alto. O trabalho ia lento, escórias encontradas aqui e ali, sinais, malacacheta, mas a pedra verde resistia. E a febre não tinha voltado.

………..

Suando em seu papel de mula de carga, Bento purgava sua dor antiga. Ia mostrar a seu pai, desta vez lhe faria as pedras verdes descerem à força pela garganta, ia mostrar. Então ele não servia pra nada, era um vagabundo e desmerecia o pai macho que tinha? Ah, ele ia

ver, ia ver. Aquela empresa de lavra pequena, quase escondida, três homens só, um velho, um com sangue de caboclo, desconsiderado na fazenda, e ele mesmo, Bento, que “não merecia levar o mesmo nome do pai”. O velho ia ver; ia ver a que ponto as estranhezas daquele filho agarrado em leituras antigas, que só comia em tigela de barro do tempo ainda de Zefa Poteira, aquele filho de cara fechada e poucas palavras, que o chicote do pai não conseguira domar, tinham sentido. Bento ia achar a pedra, e provar que a lavra abandonada por seu pai há tempos era na verdade o berço das famosas pedras verdes, que ia descobrir e esfregar na cara do velho. Ele sabia, tinha um pressentimento, sonhava; e escolheu seus companheiros guiado por uma intuição sem maiores explicações, escolheu calmo e a dedo. No dia em que os três subiram para a lavra abandonada do Ibiapuã, todo mundo riu. (Atrás

a risada do velho Agenor, Bento lembrava a cara furiosa do pai quando o obrigou, menino de seis anos de idade, a montar num tourinho bravo pra provar que era homem, depois de haver caído do cavalo, chorado e por isso apanhado de chicote. Bento montou no touro, caiu, tornou a montar, sua mãe chorava e seu pai ameaçava com o chicote, furioso. O menino caiu e montou e caiu até desmaiar de susto, medo e pancada). Agora era outra vez a mãe quem intercedia junto ao velho para que desse autorização, afinal não custava nada satisfazer o capricho do menino e a lavra estava abandonada mesmo…

Esse seu filho é um vagabundo, um tonto que só serve pra ler romances e viver na barra da saia da mãe. Aquela lavra eu já explorei, com muitos homens e por muito tempo, e lá não tem nada.

Deixa o menino ir, pelo menos ele não fica aqui sem fazer nada, e às vezes ele tem sorte…

Se ele quiser ir, que vá. Mas eu não ajudo com nada não. Não cedo uma pá nem uma picareta nem um burro de carga nem nada pra esse vagabundo. Se ele quiser ir lá quebrar a cara outra vez, que vá. Pelo menos assim fica longe de minhas vistas…

A mãe relatou a Bento outra conversa, ao transmitir o consentimento. Bento escutou calado, como era seu feitio. Sabia que a história devia de ter sido outra e tinha vontade de abraçar a mãe, mostrar carinho. Não sabia o que fazer; deu a ela a tigela de barro feita por Zefa Poteira:

A senhora guarde pra mim…

A mãe ficou chorando, abraçada com a tigela, pensando no jeito caladão daquele filho esquisito que saiu sim do seu ventre, mas que mamou em Zefa Poteira desde o primeiro dia de nascido, ela a mãe com os peitos secos, doente, quase desenganada. O menino cresceu como se tivesse pegado um jeito daquela cabocla velha, um jeito calado, um olhar tão fundo…

………...

Enquanto via Bento subindo a serra, Izim sabia que a febre ia voltar. Sentia a mesma comichão no dedão do pé, a mesma de anos antes… Não queria que ninguém soubesse; se fosse para encontrar a pedra verde, ele seria sozinho, e por seu próprio poder. Não ia dividir com ninguém o que Deus ou o Diabo lhe davam, um dom que agora sabia que tinha. Encarou Bento a sério, ajudou a descarregar o fardo. Zé de Luzia, na primeira volta do morro, continuava escavando. Chegou pro almoço, vinha tagarela:

Na lavra do Taquaral nós tinha um companheiro que encontrava os veio das pedra quando tinha comichão na orelha. Garimpeiro é bicho doido mesmo… Já vi de cada coisa nesse mundo. Uns sente comichão, tem algum outro que sente uma pontada de lado, tem uns que sonha, e acho que quase todo garimpeiro vê o fogo das pedra colorida brilhando de noite, indicando lugar… Já vi companheiro meu morrer de febre e não querer sair da lavra, achando que tinha visto a pedra. Tinha um que sentia o reumatismo apertar, quando a gente tava perto de encontrar o veio. Eu mesmo já sofri a febre verde, procurando as pedra. A gente fica olhando pra serra, começa vendo o fogo-fátuo, vai se encantando, a febre agarra e parece que a gente vê as maldita pedra verde em todo canto… Garimpeiro vive mesmo é num jeito de febre, que isso não é vida, fica escavacando buraco no chão, quebrando pedra, procurando sinal…

O velho falava sozinho, comendo com a boca cheia o feijão com toucinho e farinha. Izim levantou os olhos; Bento o encarava, firme. Sentiu um mal estar, desviou a vista.

Naquela noite, começou. Viu primeiro o fogo, bem verde verde, numa encosta; com pouco, o fogo andou. Foi andando, mudando de lugar, até sumir. Izim pensava nas palavras do velho Zé de Luzia, vai ver aquilo acontecia com muita gente, era só fogo-fátuo e imaginação de garimpeiro, não tinha nada com ter poder, um dom, ou com as palavras antigas de sua avó cabocla, distante no tempo. Não sabia mais o que pensar; acabou dormindo em sua esteira suada. Mas tinha o pressentimento de que ele não era o único acordado naquela noite sem fim.

A lua crescia no céu e a tensão aumentava no acampamento. Zé de Luzia parecia não ver, dormindo e conversando normalmente. Mas Izim sabia que Bento corujava a noite tanto quanto ele, sabia, pressentia.

Cada noite o fogo reaparecia. Andava pela serra até parar no mesmo ponto das noites anteriores. Aquilo Izim já conhecia de cor, mas ainda não se atrevia. Até que naquela tal noite ele viu outra vez a barriga da montanha, prenha de pedra verde. E outra vez a cara de sua avó Zefa Poteira, chamando. Suava, tremia, mas não tinha febre; era real. Decidiu: amanhã.

Saiu despistado na manhãzinha, deu rastro falso, inventou outro rumo. Arrodeou por

detrás da cachoeira, escapou-se e chegou ao lugar onde o fogo parava, a cada noite. Começou a trabalhar. Não deu fé da tarde que caía, não sentiu fome nem sede, até que o escuro da noite o surpreendeu continuando a cavar. Mas era noite clara de lua, e ele seguiu. Sentia comichão no corpo inteiro, sentia uma febre mansa, sentia uma espécie esquisita de alegria nas juntas, no pé do cabelo. A pedra estava ali e ia ser sua, era questão de pouco tempo agora… Via o brilho verde tomar conta da terra, o buraco todo era verde assim como

fosforescente, e por último a picareta quebrou o lajedo que era o cofre, e lá estava ela, bem verde verdinha, bem grandona, resplandescente. Caiu chorando em cima da visão, e sentia as mãos feito garras de sua avó lhe acariciarem o cabelo, chora menino, chora…

Desceu ainda de noite, decidido: no acampamento é que não voltava. Atalharia direto pra cidade, era a maior pedra verde que já pudesse ter sido achada nessas serras, e era de qualidade puríssima. Era a pedra da lenda, ele sabia que era… Já bem embaixo, ainda longe do dia clarear, saindo pro vale que deixa atrás o Ibiapuã, encontrou de repente Bento num canto da vereda, esperando. Apertou a pedra no bolso, não tinha nem uma faca, ai meu Deus, a picareta tinha ficado lá em cima, com a pá… Puxou a faquinha de picar fumo, os olhos brilhavam com frias chispas verdes.

Izim, cê vai fazer bobagem.

Izim ameaçou com a faquinha ridícula, não tinha por onde correr.

Nós fizemos um trato, Izim.

A pedra dentro do bolso pesava, brilhava, doía.

Izim, eu também vi a pedra. Eu também vi o fogo. Eu também sei da maldição do Capitão Pohóc. Eu bebi do leite de Zefa Poteira.

Izim pulou em cima de Bento, os dois rolaram, a faquinha cortou carne, a noite ficou melada de sangue, Izim empurrou Bento e fugiu. Com o braço sangrando, Bento ainda gritou:

Ocê vai caçar encrenca, Izim. Lembra da maldição do Capitão Pohóc…

Izim azulou, sorveteu na noite. No lugar da briga, ficou uma manchinha pequena de sangue. Desta vez não era sangue Pojixá; mas, neste sangue, corria também o leite de Zefa Poteira.

…………….

Quem é que pode estar chamando a essa hora tão cedo, e eu disse pra não me incomodar, que estou esperando Seu Agenor ainda pro café, agora cedo… Vai ver é algum garimpeiro que encontrou sinal de pedra boa e quer logo passar nos cobres o achado, antes que o patrão veja… Já vai, já vai...

Chicão abriu a porta, cara feia fechada, ele era comerciante sim mas não gostava de atrevimentos. Deu com a cara barbuda daquele homem que parecia assustado, uns olhos como de febre. Alguma coisa naquele olhar meteu medo em Chicão.

Entra logo, diz logo o que quer, ainda não tomei café hoje.

Em silêncio, Izim foi tirando a mão do bolso, devagar. Chicão começou a sentir desconfiança - e se aquele cabra fosse puxar uma faca, um berro? Se encaravam os dois, Chicão tinha um como medo, não encarava mais. Izim puxou a pedra; sem palavra nenhuma. Chicão acabou de acordar:

Hum! (Tinha vontade de gritar de alegria, de gritar pela beleza e perfeição do que via ali à sua frente, de gritar pela sorte que tinha). Hum. Tá parecendo ser uma pedra que presta. Preciso avaliar direito. Espera aí, vou buscar meus óculos.

Izim esperou sentado na beiradinha do banco de madeira, não podia se encostar, não podia nada. Aquele Chicão era o único comprador de pedra do lugar, fora de Seu Agenor. E aquela pedra valia muito, ele sabia. Não sabia quanto, nem tinha planos para o que fazer com o dinheiro, a não ser um desejo vago de sumir pra sempre daquela terra danada onde o

passado era a cara de sua avó e o futuro não existia. Izim esperava quase sem respirar, até que voltou Chicão. Mas não voltou sozinho; vinha com ele, feito um fantasma de maunagouro, o velho Agenor.

Deixa eu ver a pedra, peão.

Não, não, Izim queria esconder, olhava com raiva pra Chicão que tinha cara de choro; ah, azar danado, por que logo hoje, logo no dia que podia ser o mais feliz de sua vida, o velho fora aparecer pontualmente para lhe cobrar a dívida? E o pior é que não tinha como pagar, ia negociar um prazo, agora com a pedra na mão ia resolver tudo, ficaria rico. Mas não havia

contado com a astúcia do velho, que o viu nervoso:

Que que é isso, Chicão, é assim que ocê me recebe? Que pressa é essa por causa de um peão que te espera aí na venda? Até parece que ocê viu assombração… Eu também quero ver que negócio é esse, uai.

E não houve jeito de se descartar do velho, cujo faro o guiava sempre na direção certa, não era à toa que era o dono de quase tudo, naquele lugar. Agora na sala, na frente de Izim, Chicão representava:

Mostra a pedra pro homem, peão.

Izim não tinha saída; mostrou. O velho Agenor respirou fundo, pegou na mão, fez ar de pouco caso. Olhou melhor, apreciou:

Onde foi que ocê encontrou essa pedra, meu filho?

Izim gaguejou, inventou, mentiu mal, muito mal mesmo. O velho ria.

A pedra é sua, meu filho, não importa onde ocê tenha encontrado ela. E até que não é das piores; tem algum valor. Espere aqui que vou avaliar ela melhor com o amigo Chicão, agora mesmo.

E saiu com a pedra nas mãos, seguido por Chicão. Izim ficou pálido, sem sangue, um medo gelado começou a subir por sua espinha. Alguma coisa não encaixava bem naquilo tudo, alguma coisa ia mal…

Voltaram logo, o velho ainda sorrindo, Chicão com mais cara de choro. Seu Agenor chamou Izim, botou a pedra entre os dois, começou a falar em pagamento, a tirar dinheiro do bolso. Izim olhou pra pedra, o coração esfriou: aquela não era a sua pedra, não era ELA, não era! O velho seguia falando manso, como se nada:

É uma pedra boa, meu filho, mas não é das melhores, veja.

Mostrava defeitos, falta de transparência, detalhes.

De qualquer jeito, vale um bom dinheiro, e vou te pagar aqui na presença de meu amigo Chicão. Compro pelo melhor preço da praça; se você quiser verificar primeiro, tem todo o direito, procure mais alguém na capital, avalie com outra pessoa. Se não encontrar preço melhor, volte aqui que eu mantenho a oferta.

Parecia um pesadelo. Aquela não era a SUA pedra! Izim tentou protestar; sabia que era inútil. Sentia a pressão dos ombros de dois jagunços atrás dele, e pressentia outros tantos na saída da casa, armadilha. Olhou fundo pra cara do velho Agenor:

A bênção, padrinho. Não precisa levar pra outro avaliar; aceito seu preço.

Assim é que se fala, cabra macho. Pegue aqui o seu dinheiro e vá se divertir.

Então era assim que acabava o pesadelo, a febre, tudo. Izim sentia o corpo mole, uma fraqueza, uma vontade de esquecer. Juntou um resto de coragem, olhou fundo nos olhos de Seu Agenor, o velho mudou de tom:

Anda logo, cabra safado, raspa daqui. Ocê sempre foi um caboclo à toa, agora que teve sorte de achar uma pedra mais ou menos, aproveita, e some da minha frente.

Meio empurrado pelos capangas, Izim saiu quase à força. Sabia que tinha metido medo no velho. Agora nada mais lhe importava. Sem saber pra onde ia, suas pernas e o longo costume o levaram pra zona, onde bebeu e dormiu, dormiu e bebeu, bebeu e dormiu até o dia da vingança. Que só pra isso continuou existindo.

…………………..

Aquele olhar, aquele olhar, igual ao do seu filho Bento, aquele insuportável olhar que tinha a velha Zefa Poteira, aquele olhar calado carregado de feitiço dos caboclos, o velho Agenor isso não podia aguentar. Lembrava como tampava a cara de Mariana enquanto trepava no corpo moreno dela, ofegante. Ela não falava nada, não gemia, não gritava, não dizia que sim nem que não; olhava, só. Depois embuchou dele, mas o menino morreu no parto; menos um pra lhe chamar de padrinho, afinal. Aproveitou os peitos cheios de leite da cabocla para seu próprio filho Bento, recém-nascido e com a mãe doente, os peitos secos, até pra isso era ruim aquela fêmea. Mas aproveitou o leite de Mariana, e afinal nada foi perdido. Muitos anos depois, apareceu esse molequinho na fazenda, trazido pela mão da avó Mariana, tomando a ele bênção de padrinho. Vinha da rua das mulher-dama, onde diziam que vivia a filha de Mariana e aonde ele ia sempre e era o dono de todas. Podia ser que fosse seu filho; nunca perguntou a Mariana, nem ela nunca disse nada. E agora estava ali aquele merda ousando encará-lo com o olhar amaldiçoado de seu filho Bento e da velha Mariana! Ah, sangue de raça ruim, sangue de Pojixá que ainda tinha força de cobra nos olhos, ah!

………………..

O resto foi fácil. Em pouco tempo, a antiga lavra abandonada do Ibiapuã se transformou na mais moderna da região. Em lugar de picaretas, compressores. O velho não queria poupar dinheiro neste investimento certo, seguro. Nem se deu ao trabalho de avisar seu filho Bento; mandou que os peões, ao chegarem com as máquinas, dissessem que ele tinha ordem de sair. Se quisesse, poderia ficar de capataz da lavra, ofereceu-lhe o pai. Bento

recusou sem conversa; olhava com tristeza as máquinas de garimpo rico e a pequena multidão que invadiam as terras quase sagradas do Ibiapuã. Não sabia do destino da pedra, nem de Izim; não sabia do encontro. O velho guardou tudo muito bem escondido, até o Chicão ganhou sua parte no negócio pra que fosse botar comércio noutra freguesia e se esquecesse de tudo. O interesse repentino do pai pela velha lavra, explicado a todos os ventos pelo próprio velho, havia sido um sonho, no qual Nossa Senhora lhe dizia que devia trabalhar ali. Desgostoso, Bento foi embora, dizem que se sumiu lá pros lados de Rondônia, pra esses fins de mundo brabos por aí. E a lavra do velho virando aquela boniteza, aquele formigueiro de gentes, aquele descalabro de máquinas, arrebentando a barriga do Ibiapuã. Mas segredo que é segredo nunca consegue se guardar de todo, e ninguém sabe como começou a circular uma história de que o velho tinha uma pedra da sorte escondida, uma pedra verde especial, a antiga pedra das lendas, a que os bandeirantes procuravam, a que diziam que os índios conheciam e guardavam, a pedra verde da lenda. Diziam que o velho Agenor havia virado idólatra, doido, e que rezava toda noite de frente pra pedra, escondido em seu quarto de dormir.

Verdade ou mentira, o certo é que o velho não podia deixar essa história circulando por aí, armando invejas e tocaias. Insistia na história do sonho, de Nossa Senhora indicando o lugar, e para prova de tudo e bênção celeste para sua nova lavra, gastou uma fortuna trazendo do sul do país a imagem milagrosa de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, para visitar e benzer aquele lugar de homens furadores das entranhas da terra, trabalho de machos, lugar de vida dura.

A santa veio. A fortuna gasta não foi apenas para convencer aos padres guardiões da imagem, mais as despesas de viagem, mais um donativo para a Basílica, mais a construção de uma capela ali mesmo no Ibiapuã, que a santa iria inaugurar; correu dinheiro também preparando-se a festa, uma festa maior que a tradicional festa de agosto da santa local, padroeira da cidade. Uma festança que trouxe gente de todos os cantos, pessoal da roça, todo mundo desbarrancando para a lavra do Ibiapuã, para assuntar o grande acontecimento.

A santa veio, teve procissão, teve missa. O velho Agenor suava satisfação e livravase do medo que vinha acumulando - “ah, minha santinha, agora que gastei tanto com a senhora, que te construí essa capela tão bonita, que te mandei buscar até aqui, que dei essa festança pro povo, que estou aqui pedindo a vossa bênção, agora eu vos rogo minha santinha me livrai desse medo pavor, eu quero poder dormir sem me lembrar dos olhos daquele caboclo vagabundo me fitando, eu quero dormir sem sonhar com as caras dos caboclos me olhando, quero parar de ter esses sonhos ruins cheios de índios e de morte, minha santinha, eu sou um homem justo, um trabalhador, um bom católico…”. Parava, resistia. Sabia o que tinha que fazer, mas resistia. E a santa calada, olhando, nenhum sinal. “Minha santa milagrosa, eu até passei por cima da nossa santa daqui, de nossa Nossa Senhora que também é milagreira, mas sei que a senhora é mais forte, é a padroeira do Brasil, até arrisquei a que nossa santa daqui ficasse com ciúme, mas já cansei de pedir e ela não fez nada, e eu que não consigo mais dormir desde que… eu só penso naquela pedra, santinha, será que tem mais dela no Ibiapuã? Ah, minha santa, me dá um sinal, só um sinal, e eu juro - juro! - que entrego a pedra pra senhora, pras suas obras, entrego de coração. Me dá só um sinal de sua benção, santinha, de que ainda vou poder dormir sossegado outra vez e de que vou achar muita pedra verde no Ibiapuã…”.

Todo mundo estava achando o velho tão contrito, tão bom católico que ele era, que bom exemplo para esses homens de hoje em dia… O padre continuava a missa, a multidão aumentava, o calor também, o jejum prolongado de todos esperando a comunhão, aquele jeito bambo de missa prolongada, quando de repente escutam um ronco surdo, alto, esquisito, e o velho Agenor desaba desmaiado. Corre-corre, vai daqui prali, o velho se recupera na sacristia improvisada, o padre acaba a missa a toque de caixa, vem correndo.

Sai, sai, sai todo mundo, quero falar só com o padre. Sai você também, Pedrão.

O jagunço saiu desconfiado, por último, achando estranho essa ordem do patrão. O velho estava mesmo ficando velho… Se entregando assim na mão de padre?

Padre, eu quero fazer uma doação especial à Santa, mas não quero que ninguém aqui veja. Depois, lá, o senhor vai mandar gravar uma placa de ouro com meu nome, dizendo: Eternamente Agradecido, e colocar aos pés da santa, no altar-mor.

Enquanto falava, ia tirando um saquinho pendurado no peito, debaixo da camisa, como um escapulário. Um saquinho gordo, pesado. O velho respirou, tirou a pedra, estendeu pro padre.

Estendeu a mão devagar, enquanto lembrava a piscadela que a santa lhe havia dado, num claro sinal de acordo a seus pedidos. Ele, que esperava qualquer sinal, não esperava esse - a cara da santa ficou esquisita, amolecada, assim quase (Deus me livre e guarde!) quase safada mesmo, com aquela piscadela malandra de assentimento. Foi isso que o assustou tanto que chegou a desmaiar, mas agora o acordo estava feito e ele não podia voltar atrás. Fechava os olhos, estendia a pedra para o padre, tinha vontade de encolher o braço e esconder a pedra outra vez, o padre demorava tanto, por que não pegava logo de uma vez e acabava com esse sacrifício, meu Deus?

Finalmente, depois de séculos de espera, o padre agarrou a pedra, ávido, trêmulo. O velho não quis saber de mais nada; saiu diretamente dali, não deu mais explicações. Enquanto guardava a oferenda num cofrinho sólido com a imagem da Santa Milagrosa esculpida na porta, o padre pensava nas obras paradas das missões entre os indígenas no Amazonas e na necessidade de dinheiro para se levar a cabo os projetos de internatos, igrejas e outros benefícios que a catequese seguramente traria àqueles selvagens, pobres indígenas do Brasil.

……………..

Na zona também era dia de festa. Muita freguesia, muita animação. Que aumentou quando correu a notícia de que ali vinha o velho, para mais uma noitada de farra e de gastos. As meninas, que tinham todas assistido à missa de longe, vestidas de vermelhos e estampados, olhadas com ódio pelas esposas e mães de família, haviam comungado e pedido a bênção da Virgem; estavam todas em dia com Deus, agora, e podiam recomeçar a faina diária com muito mais empenho. Todo mundo contente, muita festa, muita cachaça, muito homem, muito dinheiro rolando. Agora vinha o velho, e todo mundo já sabia para que porta ele se dirigia, onde ia desafogar sua energia tesa de velho duro, endinheirado, patrão. Onde ele ia despencar o bucho, arriar as forças e golpear duro, uma só vez, fundo fundo, depois cair de lado respirando cansaço e pedir um copo d’água da moringa. Ia na Fátima, como sempre, se bem que sempre não era a melhor palavra, já que ele raramente se rebaixava a ir à rua das mulher-dama; mas assim, em dia de festa, era bom sinal, boa política, se misturar com a gente, ir aonde os vaqueiros iam, aproveitar da farra.

Fátima já esperava, limpa e pronta. O velho chegou, tomou uma cachaça com a gente do lugar, pagou cerveja pra todo mundo, e ela percebeu a hora de mandar todos saírem. Ela agradava o velho, sentava no colo dele, enchia seu copo; ele achava que ela estava sorrindo meio demais, adulando demais, um pouco exagerada. Ela disfarçava o nervosismo com dengos de beijos e conversas fiadas; ele pensava que estava ficando um velho muito desconfiado, muito maniento, e que hoje pelo menos podia relaxar, afinal tinha um pacto com a santa e estava garantido.

Só percebeu muito tarde o que era que seu instinto de velho domador de terra e de gente o havia estado avisando, mostrando. Só quando Fátima foi buscar água na moringa e disse que a moringa estava seca, e precisava ir na sala buscar água da moringa da frente, foi que num relance percebeu a tocaia, e aí já era tarde; aí a cara do caboclo já estava em cima dele, a faca já lhe furava o bucho desabado na cama, o susto lhe cortava o fôlego já curto pelo esforço do amor. O olhar, aquele mesmo olhar calado, os olhos de cobra desses bugres filhos da puta, ainda na hora de morrer o velho viu o caboclo procurando a pedra, revistando tudo, furando suas roupas atiradas na cadeira, espalhando tudo pelo chão numa fúria repentina, e finalmente voltando-se para ele e perguntando, aquele olhar insuportável onde não cabia perdão:

Cadê? Cadê ela?

No meio da sua agonia, o velho Agenor riu. E morreu lembrando a piscadela da santa, moleca, marota, safada…

……………

Dizem que foi desde esse dia que Izim endoidou. Anda por aí, solto nesse mundão, louco manso, falando coisas. No começo ele sumiu, se escondeu, dizem que ficou vivendo numa grota escondida no Ibiapuã, lá onde antigamente viviam os bugres, em buracos que ninguém sabia onde eram. Viveu feito bicho por muitos anos, um tempão, até que quando apareceu aqui na cidade outra vez ninguém pensava mais em vingança, nem em polícia, nem em nada. Ninguém quase reconheceu ele, assim cabeludo, magro demais, e falando coisas. Acho que foi uma das mulher-dama é quem o reconheceu, uma filha do finado Zé de Luzia, que Deus o tenha. Esse velho tinha seguido Izim, tinha voltado pro Ibiapuã, tinha ficado procurando. Mesmo depois que a lavra foi desmontada, depois que não ficou ninguém por lá, o velho Zé de Luzia continuava, com sua picareta. Procurava pedra ou procurava Izim? Ninguém sabe. Mas a gente suspeitava de que ele ajudou o outro a viver, no escondido. Porque foi só quando o velho morreu de doença, morte morrida coisa de velho mesmo, foi que o Izim deu de voltar por essas bandas, aparecer feito aparição, assim falando coisas. Ele fala cada desenredo, fala numa linguagem esquisita, mistura umas palavras que não sei de que língua enviesada é que vem, e toma pinga quando a gente paga. Fica por aí, andando. Às vezes, chora. Conversa nada, com ninguém. Quando fala, é como se falasse sozinho. Fala de uma pedra verde gigante, fala de um mistério, maldição, e fala que esse lugar no meio das sete cachoeiras é encantado, e que os índios ainda vão voltar pra cá, chegando do alto do Ibiapuã… Que vão sair os caboclos de dentro da montanha, da barriga da serra, e vão arrasar a cidade. Ele avisa, manda o povo rezar. O povo daqui manga dele mas no fundo ninguém faz nada porque todo mundo tem um pouco de medo dele, ele tem um jeito de olhar que deixa a gente sem graça… Louco manso, coitado, parece que a história do garimpo endoidou ele, a febre verde tomou conta e ele nunca mais voltou…

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