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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS VENCEDORES | Cristina Viduani (1º LUGAR — Categoria Crônica)

há 2 horas
4 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


Jornalista de formação e observadora por vocação, Cristina escreve como quem olha o mundo por uma fresta. Transita na fronteira onde a realidade supera a ficção, construindo seus personagens com ironia, afeto e uma necessária pontada de desconforto. 


O TEXTO:


Etiqueta para jantar sozinho enquanto a civilização desmorona


Existe uma diferença fundamental, quase ontológica, entre estar sozinho e ser um solitário. O primeiro é um estado civil, o segundo é uma conquista estética. No prelúdio do fim dos tempos, onde a manada humana corre desesperada em busca de abrigo ou de um último sinal de Wi-Fi, sentar-se à mesa desacompanhado de qualquer coisa que não seja o próprio pensamento é o ato mais subversivo que se pode praticar.

Jantar sozinho é, em última análise, a prova final de que você suporta a única companhia que realmente importa e que, provavelmente, é a mais difícil de agradar: você.

A etiqueta para o banquete solitário começa muito antes do primeiro talher ser erguido. Começa na escolha do local. Esqueça as praças de alimentação, esses purgatórios de fórmica onde o ruído mastigatório da humanidade se funde ao choro de crianças que já

intuem o futuro sombrio que as espera.

O verdadeiro jantar do fim do mundo exige um certo isolamento solene. Uma mesa de canto, de preferência com uma toalha de tecido que já viu dias melhores, sob uma luz que não seja tão brilhante a ponto de expor todas as nossas rugas, nem tão escura que nos impeça de ler as entrelinhas do menu.

A primeira gafe que o amador comete ao jantar sozinho é o uso do escudo digital. O celular sobre a mesa é o atestado de óbito da elegância. Quem janta olhando para uma tela não está jantando, está apenas realizando uma manutenção biológica enquanto consome o lixo processado do feed alheio.

A etiqueta exige que você encare o vazio. Que você olhe para a cadeira vazia à sua frente não com a tristeza de quem foi abandonado, mas com o alívio de quem não precisa ouvir as opiniões irrelevantes de mais ninguém sobre a política externa ou o último reality show.

Peça o vinho. E peça a garrafa. Servir-se apenas de uma taça é um sinal de hesitação, e não há espaço para hesitações quando o horizonte está em chamas. Há algo de profundamente cerimonial no som da rolha sendo extraída no silêncio de uma mesa solitária. É um disparo de canhão em miniatura, uma saudação ao nada.

Observe a cor do líquido. Deixe que ele respire, como se ele também estivesse tentando processar as últimas notícias. O vinho, nesse contexto, não é uma bebida, é um interlocutor que nunca nos interrompe e que, após a segunda taça, passa a concordar com todas as nossas conclusões mais cínicas.

O prato deve ser escolhido com o rigor de um condenado. Nada de saladas insossas que sugerem um desejo fútil de longevidade. Se o mundo está por um fio, a última coisa que você deve fazer é contar calorias.

Para o prato principal peça algo que exija tempo, algo que tenha sido cozido lentamente, como a nossa própria decadência. Um confit de pato, talvez, ou um risoto que demande a atenção precisa do chef (e a sua).

A pressa é a inimiga da etiqueta. Comer rápido é para quem tem compromissos. Jantar devagar é para quem já entendeu que o tempo é uma ilusão que só nos serve para organizar os nossos arrependimentos.

No meio da refeição, ocorrerá o momento crítico: o silêncio se tornará pesado. É aqui que os fracos sucumbem e pegam o telefone para conferir se alguém, em algum lugar do mundo, ainda se lembra de que eles existem. Resista. Esse peso é só a consciência de si mesmo.

É nesse hiato entre o garfo e a boca que a civilização realmente se desmancha. Enquanto lá fora as massas gritam por ordem, progresso ou salvação, você está ocupado notando a textura da manteiga sobre o pão. Essa atenção ao detalhe inútil é o que nos separa dos bárbaros. Os bárbaros destroem templos, os civilizados reclamam da temperatura do molho béarnaise enquanto o templo cai.

É provável que os outros clientes olhem para você com aquela piedade mal disfarçada, imaginando qual tragédia pessoal o levou àquela mesa sem par. Sorria internamente. A tragédia é deles, que precisam de um espelho humano constante para confirmar a própria existência. Você, por outro lado, é um sistema fechado. Você é o anfitrião e o convidado de honra de um evento que não precisa de testemunhas para ser épico.

Quando o banquete chegar ao fim e restar apenas o rastro de gordura no prato e as manchas de vinho no cristal, peça o café. Forte, denso, curto e amargo, como a verdade. Não

peça a conta com ansiedade. Deixe que o garçom perceba que você não tem para onde ir, porque, honestamente, ninguém tem.

O mundo lá fora pode estar colapsando, as bolsas podem estar caindo e os profetas podem estar gritando nas esquinas, mas você cumpriu o protocolo. Você jantou. Você manteve a postura. Você não se fundiu ao pânico coletivo.

Ao levantar-se, faça-o com a calma de quem sabe que a saída é apenas o início de outra cena. Se, ao sair do restaurante, você encontrar o céu tingido de um azul escuro e radioativo e as pessoas correndo em direções opostas, não corra. Apenas ajuste o colarinho, sinta o frescor da noite, lembre-se que este foi o seu último ato de resistência, e caminhe em direção ao abismo com o passo de quem acaba de saborear um excelente jantar.

Afinal, se é para a história terminar hoje, que o historiador que encontrar os nossos restos possa dizer: “Não sabemos quem era, mas, pelos registros, tinha um gosto impecável para vinhos e uma paciência invejável para o caos”.

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