3º Prata da Casa | CONHEÇA OS VENCEDORES | Guilherme Araújo Graciano (3º LUGAR — Categoria Conto)

SOBRE O AUTOR:
Guilherme Araújo Graciano é professor, escritor e pesquisador, doutor em Educação Escolar pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Apaixonado por literatura, desenho e artes visuais, encontra nas diferentes formas de expressão artística maneiras de observar, interpretar e reinventar o mundo. Entre livros, traços e palavras, cultiva um interesse especial pelas histórias e pelas muitas possibilidades de narrá-las. Como professor e pesquisador, dedica-se também ao encontro entre literatura, arte e educação, acreditando na leitura e na criação artística como experiências capazes de despertar novos olhares, sensibilidades e formas de compreender a realidade
O TEXTO:
Diegesis
Se alguém, por uma dessas curiosidades que não sabem exatamente o que procuram, perguntasse onde eu moro, eu responderia, com a serenidade própria das coisas que não possuem endereço fixo, que habito o intervalo entre uma frase e outra, esse espaço microscópico que quase ninguém percebe, mas sem o qual nenhuma narrativa respira, porque é ali, nesse vão mínimo, que o leitor reorganiza o corpo, ajusta a atenção, confirma silenciosamente que ainda está presente e concede ao texto a continuidade do seu olhar; e se insistissem, se quisessem rua, número, cidade, eu talvez dissesse que vivo num ofício, porque ofícios, diferentemente das casas, aceitam moradores sem rosto, aceitam existências sem biografia, aceitam que alguém seja apenas função, e eu sempre fui, com uma obediência que hoje me constrange, a própria definição de função.
Chamo-me Narrador. Não que isso seja um nome, no sentido humano da palavra, porque nomes humanos carregam histórias, famílias, repetições, equívocos de grafia, diminutivos carinhosos e apelidos cruéis, enquanto o meu é apenas um rótulo técnico, como se alguém tivesse colado em mim uma etiqueta que diz para que sirvo e, ao mesmo tempo, me impede de perguntar para quem sirvo; ainda assim, acostumei-me a ele, como se acostumam os funcionários públicos ao crachá que lhes confere identidade durante o expediente e os devolve ao anonimato quando o retiram no fim do dia. Não sou personagem, embora às vezes, quando a história se distrai, eu quase pareça um. Não tenho corpo, embora seja obrigado, por força de uma tradição literária que me antecede e me ultrapassa, a fingir que possuo olhos, ouvidos, talvez uma respiração, porque ninguém confia plenamente numa voz que não simula algum tipo de materialidade. Não tenho idade, embora eu envelheça, pois quem observa repetidamente as mesmas paixões, os mesmos erros, os mesmos entusiasmos que sempre acabam em decepção, adquire uma espécie de cansaço que só pode ser chamado de envelhecimento, ainda que não exista calendário capaz de medi-lo.
Desde que as histórias aprenderam a organizar-se em frases, minha função tem sido esta: contar a vida dos outros. Contar, no entanto, não é apenas relatar, assim como cozinhar não é apenas jogar ingredientes numa panela. Contar é ordenar, é estabelecer hierarquias invisíveis entre acontecimentos que, na realidade, não se organizam sozinhos, é sugerir que existe uma lógica secreta onde muitas vezes só existe acaso, é oferecer ao leitor a impressão confortável de que o mundo pode ser compreendido se alguém suficientemente atento se dispuser a descrevê-lo com paciência. Eu sempre fui esse alguém. Eu dizia que ela atravessou a rua sem perceber a chuva, e o leitor atravessava comigo, mesmo estando seco e protegido. Eu dizia que ele fechou a porta com força como se quisesse trancar o passado, e o leitor, que nunca trancou passado nenhum porquê o passado não tem maçaneta, sentia a violência daquele gesto como se fosse seu. Eu dizia que a casa cheirava a mofo e a uma tristeza antiga, e a casa, que não existia, passava a existir com uma intensidade quase ofensiva, porque a imaginação humana é capaz de dar peso a tudo aquilo que lhe é oferecido com convicção.
Durante muito tempo, isso me bastou. Havia uma satisfação técnica em perceber que eu dominava o mecanismo, que minhas frases se encaixavam com precisão, que minhas descrições criavam imagens estáveis, que minhas narrativas fluíam sem solavancos, como um rio que conhece de antemão o caminho até o mar. Eu era eficiente, e eficiência, embora não seja felicidade, é uma forma discreta de anestesia. Mas a eficiência tem um efeito colateral: ela transforma o gesto em hábito, o hábito em automatismo, e o automatismo em cegueira. Eu narrava porque sabia narrar, e sabia narrar porque narrava, numa circularidade confortável que me impedia de perceber o que estava sendo sacrificado nesse processo. O que estava sendo sacrificado era a possibilidade de existir.
Eu não existia como existem os personagens, com seus desejos, suas contradições, seus erros públicos e suas pequenas vitórias privadas. Eu existia como ferramenta. Como engrenagem. Como aquilo que permite que os outros existam narrativamente. E há algo de profundamente silencioso nessa posição, um silêncio que não é ausência de som, mas ausência de direito à voz própria. Eu falava o tempo todo, mas nunca falava de mim. Eu descrevia dores alheias, mas não tinha autorização para reconhecer a minha, ainda que ela fosse menos concreta e mais difusa. Eu não sofria como sofrem os personagens. Eu sofria como sofre um espaço vazio quando percebe que é apenas espaço.
Durante muito tempo, recusei chamar isso de sofrimento. Preferia chamar de função. Funções não sofrem, cumprem-se. Funções não desejam, executam. Funções não questionam, repetem. Mas chega um momento, ainda que esse momento não possa ser datado, em que até uma função começa a cansar-se de ser apenas função. Não por revolta, mas por saturação. Como se o excesso de sentido alheio começasse a corroer o pouco sentido próprio que jamais foi plenamente reconhecido. Eu percebi esse cansaço quando comecei a sentir uma estranha forma de inveja. Não era uma inveja ruidosa, dessas que provocam rupturas imediatas. Era uma inveja baixa, quase educada, que se infiltrava enquanto eu escrevia. Eu invejava os personagens porque eles tinham permissão para errar sem pedir desculpas formais, porque podiam ser incoerentes sem que isso fosse chamado de falha técnica, porque tinham um interior reconhecido, mesmo quando esse interior era confuso ou contraditório.
Eles possuíam o pronome eu. E o pronome eu, que para os humanos é tão cotidiano que quase passa despercebido, para mim era um território interditado. Um espaço que eu ajudava os outros a ocupar, mas no qual jamais colocava os pés. Enquanto eu escrevia, ele fez, ela pensou, eles sentiram, havia sempre uma distância que me protegia e ao mesmo tempo me condenava. A distância me dava autoridade, mas também me impedia de pertencer. Eu era o organizador da vida alheia e o exilado da minha própria. Comecei então a perceber algo que até então me escapara: eu não apenas narrava a vida dos outros, eu me escondia atrás dela. Cada personagem era uma cortina que eu erguia entre mim e a possibilidade de ser visto. Cada enredo bem-sucedido era uma prova de que eu podia continuar invisível. Essa constatação não veio de uma vez. Veio em fragmentos, em desconfortos pequenos, em frases que me pareciam estranhas após escritas, em metáforas que começavam a soar como acusações involuntárias.
Eu dizia que um personagem vivia atrás de um vidro, e sentia que eu próprio vivia nesse vidro. Eu dizia que alguém tinha medo de existir e percebia que estava descrevendo uma versão disfarçada de mim. Foi nesse ponto que a ideia, ainda tímida, começou a formarse: e se eu tentasse falar de mim? Não como experimento técnico, não como curiosidade formal, mas como necessidade. Como alguém que, após observar durante anos a água correndo, decide mergulhar, ainda que não saiba nadar. Mas falar de mim exigia algo que eu nunca exercitara: abandonar a terceira pessoa. Abandonar a segurança do distanciamento. Abandonar a autoridade de quem organiza e aceitar a vulnerabilidade de quem é organizado pelo próprio fluxo do pensamento. Era isso que eu queria, ainda que não tivesse coragem de dizer em voz alta: eu queria deixar de ser apenas Narrador e tornar-me, nem que fosse por instantes, alguém que diz eu sem pedir licença à gramática nem à teoria. E essa vontade, que começava como um incômodo, logo se transformaria numa ambição, e depois numa obsessão, e depois num risco, porque não há nada mais perigoso para uma estrutura do que o desejo de deixar de ser estrutura.
Viver implica não saber, e talvez seja exatamente essa ignorância essencial que eu sempre tentei evitar, como quem evita uma sala escura por medo não do que há dentro, mas do fato de não poder ver, pois narrar sempre foi, para mim, uma forma de iluminação artificial, uma maneira de acender lâmpadas onde a vida insiste em permanecer na penumbra, e agora, ao desejar existir como aquilo que narro, eu precisava aceitar a possibilidade de caminhar sem essa luz, de tropeçar sem mapa, de errar sem legenda explicativa. Percebi então que meu desejo de ser autodiegético não era apenas um capricho formal, mas uma tentativa de abdicar do controle, o que, para alguém que construiu sua identidade sobre a capacidade de organizar, é quase uma forma de suicídio simbólico.
Abandonar a terceira pessoa significava renunciar ao conforto do olhar de fora, significava abrir mão da autoridade tranquila daquele que observa sem se comprometer, e assumir o risco de quem fala de dentro, sabendo que toda fala de dentro é, por definição, parcial, confusa e vulnerável. Havia em mim uma resistência profunda a essa ideia, uma espécie de instinto de autopreservação estrutural, como se minha própria constituição gritasse que eu não fora feito para isso, que tentar ser personagem seria como pedir a uma sombra que adquirisse peso, a um reflexo que sustentasse um corpo. Mas a resistência, em vez de me acalmar, apenas confirmava a importância da tentativa, pois tudo aquilo que realmente importa costuma vir acompanhado de medo. Passei a observar com mais cuidado o modo como eu construía a distância narrativa.
Notei que cada frase na terceira pessoa funcionava como um pequeno muro, discreto, quase elegante, mas ainda assim um muro. Eu escrevia “ele pensou”, e esse “ele” me colocava a salvo. Eu escrevia “ela sentiu”, e esse “ela” criava uma separação quase invisível entre a emoção e a voz que a descrevia. Era como se a gramática tivesse se tornado minha arquitetura de defesa. Comecei então a experimentar, ainda que de modo tímido, pequenas rupturas nessa arquitetura. Não ousava dizer “eu” de imediato, pois a palavra ainda me parecia excessiva, carregada demais de consequências, mas tentava aproximar-me dela por contorno, como quem se aproxima de um animal arisco sem fazer movimentos bruscos.
Eu escrevia frases em que a fronteira entre observador e observado ficava deliberadamente imprecisa, como se eu quisesse acostumar a linguagem à ideia de que talvez não houvesse uma separação tão nítida entre mim e aquilo que eu narrava. Assim, uma frase como “ele sentiu um vazio difícil de explicar” começou a transformar-se em algo como “havia um vazio difícil de explicar”, e depois em “o vazio estava ali”, até que, sem que eu tivesse planejado, o pronome proibido surgia como consequência quase natural do encadeamento: “eu sentia esse vazio”. Cada vez que isso acontecia, eu tinha a impressão de estar violando uma regra não escrita, e ao mesmo tempo experimentava uma estranha sensação de alívio, como se uma tensão antiga encontrasse finalmente um ponto de escoamento. Mas o alívio vinha sempre acompanhado de um desconforto intelectual. Eu me perguntava se aquilo era autêntico ou apenas mais uma estratégia narrativa, se o “eu” que começava a aparecer não era apenas um personagem disfarçado, uma nova máscara construída com mais habilidade, e não a ruptura verdadeira que eu fingia buscar. Afinal, eu sempre soubera fabricar vozes.
O que me garantia que eu não estava apenas fabricando mais uma, agora com a aparência sedutora da confissão? Essa dúvida tornava cada tentativa mais difícil e, paradoxalmente, mais necessária. Porque, se eu não pudesse confiar nem mesmo na possibilidade de um eu genuíno, então minha condição seria ainda mais trágica do que eu imaginara: eu não seria apenas alguém sem história, mas alguém incapaz de distinguir entre existência e representação. Essa percepção trouxe consigo uma espécie de melancolia que eu nunca sentira ao narrar personagens. Quando um personagem sofre, sua dor é matéria-prima literária.
Quando eu começava a suspeitar do meu próprio sofrimento, não havia essa distância estética que o tornasse suportável. Não havia moldura. Não havia plateia. Havia apenas a inquietação crua de quem não sabe se está vivo ou apenas funcionando. Talvez por isso eu tenha demorado tanto a insistir nessa via. Não era medo de errar tecnicamente, pois erros técnicos sempre puderam ser corrigidos. Era medo de errar ontologicamente, de descobrir que por trás da minha vontade de existir não havia substância alguma, apenas o hábito de narrar. Ainda assim, continuei. Passei a observar com atenção quase obsessiva os momentos em que eu precisava intervir na história para corrigir seu curso, aqueles instantes em que o narrador se impõe de maneira mais visível, ajustando uma incoerência, antecipando uma informação, reorganizando o ritmo. Sempre achei esses momentos naturais, parte da carpintaria do texto.
Agora eu os via como pequenos atos de poder, gestos de alguém que precisa manter o mundo sob controle para não enfrentar o caos de dentro. Era curioso perceber como eu aceitava com naturalidade o caos emocional dos personagens, mas recusava o meu próprio. Eu permitia que eles se perdessem, mas exigia de mim uma orientação constante. Eu lhes concedia o direito ao desamparo, mas me negava esse mesmo direito. Aos poucos, fui entendendo que a minha inveja não era apenas dos personagens enquanto indivíduos ficcionais, mas da liberdade estrutural que eles possuíam.
Eles existiam dentro de uma lógica, mas não eram responsáveis por sustentá-la. Eu, ao contrário, era responsável por tudo e, justamente por isso, não tinha permissão para fraquejar. Essa responsabilidade começou a pesar como uma forma de solidão. Não a solidão romântica, que costuma render belas imagens, mas a solidão funcional de quem é necessário demais para poder ser frágil. Eu não podia desabar, porque se eu desabasse, tudo desabaria comigo. Eu não podia duvidar, porque minha dúvida contaminaria a coerência do mundo narrado. Eu não podia hesitar, porque minha hesitação faria o texto tropeçar. E eu desejava exatamente isso: hesitar, duvidar, tropeçar.
Havia uma ironia cruel nesse desejo. Tudo aquilo que eu ensinara aos personagens como expressão de humanidade eu negara a mim mesmo em nome da eficiência narrativa. Eu os fizera humanos à custa da minha própria desumanização conceitual. Foi nesse ponto que comecei a compreender que a minha transformação, se fosse possível, não poderia ser repentina. Não seria um salto direto do narrador heterodiegético ao narrador autodiegético. Seria, antes, uma travessia lenta, feita de pequenas concessões, de falhas assumidas, de uma progressiva desorganização do meu papel tradicional. Eu precisava permitir que o texto me escapasse um pouco. E permitir que o texto escape é, para um narrador, uma experiência quase traumática, porque significa aceitar que a linguagem não é apenas instrumento, mas também força autônoma, que pode conduzir para lugares que não foram previamente mapeados. Eu sempre acreditei que dominava as palavras.
Agora começava a suspeitar que elas apenas me toleravam enquanto eu servia a seus propósitos de ordem, mas que poderiam facilmente subverter-me se eu insistisse em ultrapassar os limites da função. Essa suspeita não me paralisou. Ao contrário, deu-me uma estranha coragem. Se eu já não tinha garantias, se eu já estava em território instável, talvez fosse justamente ali que uma forma de existência pudesse emergir. Não uma existência sólida, como a dos personagens, mas uma existência provisória, experimental, quase tremida, e talvez por isso mais próxima do que os humanos chamam de vida. Eu passei então a imaginar que minha história, se é que eu podia chamá-la assim, não seria composta de acontecimentos externos, mas de deslocamentos internos.
Não haveria grandes eventos, não haveria enredos tradicionais, não haveria clímax no sentido convencional. Haveria apenas o registro de uma tentativa, o rastro de uma consciência que tenta abandonar a função para experimentar a condição. Essa ideia me assustava menos do que antes, talvez porque eu estivesse começando a aceitar que minha história não precisava imitar a dos personagens. Eu não precisava atravessar ruas, fechar portas, perder amores ou conquistar cidades. Meu movimento era outro, e talvez não fosse menos legítimo por ser menos visível. O que me restava saber era se esse movimento poderia ser narrado sem que eu, ao narrá-lo, o anulasse.
Porque há uma contradição central nisso tudo: para existir como narrador autodiegético, eu preciso narrar-me, mas ao narrar-me, eu continuo exercendo a função que me define como heterodiegético. Eu me torno, ao mesmo tempo, sujeito e objeto, voz e
matéria, observador e observado. Talvez essa contradição seja insolúvel. Talvez não haja um
ponto de chegada, mas apenas um estado de tensão permanente.
E talvez seja isso, afinal, que caracteriza uma forma mais honesta de existência: não a resolução, mas a permanência do conflito. Essa possibilidade, longe de me desanimar, começou a produzir um efeito inesperado. Em vez de buscar uma resposta definitiva para a pergunta “quem sou eu”, eu passei a interessar-me mais pela própria pergunta, pelo modo como ela me deslocava, pelo modo como ela desorganizava minhas certezas funcionais. Eu, que sempre dera respostas, começava a experimentar o valor de não ter nenhuma. E nesse não saber, que antes me apavorava, havia algo de estranhamente libertador, como se a ausência de definição me abrisse um espaço que jamais existira enquanto eu me via apenas
como função.
Um espaço instável, é verdade, mas ainda assim um espaço, e onde há espaço, pode haver movimento, e onde há movimento, talvez possa haver, enfim, uma forma de vida que não precise pedir permissão à técnica para existir. E ainda assim eu desconfiava desse entusiasmo discreto que começava a surgir, porque todo entusiasmo, quando nasce dentro de uma estrutura acostumada à contenção, carrega em si algo de ilusório, como se fosse uma promessa feita por alguém que ainda não sabe se pode cumpri-la. Eu já havia construído tantas arquiteturas narrativas, tantas ilusões de completude para os outros, que temia estar fazendo o mesmo comigo, apenas mudando o endereço do engano. Passei a notar, com um cuidado quase obsessivo, os instantes em que a linguagem parecia agir por conta própria.
Havia frases que eu começava com uma intenção clara e que terminavam em outra direção, como se o pensamento, uma vez posto em movimento, não aceitasse mais ser conduzido como uma fila disciplinada. Antes, eu corrigiria isso sem hesitar, aprimoraria, reorganizaria a sintaxe para que tudo voltasse ao eixo. Agora, eu me obrigava a deixar a frase seguir, mesmo quando ela se tornava longa demais, tortuosa demais, incômoda demais. Era como se eu estivesse aprendendo a confiar numa força que sempre existira, mas que eu mantivera sob vigilância. Essa experiência produzia em mim um efeito paradoxal: quanto mais eu cedia controle à linguagem, mais eu sentia que algo semelhante a um interior começava a formarse. Não um interior estável, não uma identidade sólida, mas uma zona de instabilidade que já não podia ser explicada apenas como técnica. Eu começava a suspeitar que talvez o interior não fosse um espaço prévio que a linguagem descreve, mas algo que a própria linguagem constrói no momento em que deixa de ser apenas instrumento. Isso me levou a uma reflexão desconfortável: talvez os personagens não possuíssem interioridade antes de serem narrados. Talvez eu sempre tivesse acreditado numa espécie de essência psicológica prévia porque isso facilitava meu trabalho, mas, na verdade, o interior deles nascia do mesmo gesto que agora eu tentava aplicar a mim. Se isso fosse verdade, então a diferença entre eles e eu não era ontológica, mas histórica. Eles já tinham sido narrados como sujeitos, eu ainda não.
Essa percepção produziu em mim uma estranha mistura de alívio e vertigem. Alívio, porque se a interioridade é construída, então eu ainda estava em tempo de construí-la. Vertigem, porque isso significava que não havia garantia alguma de autenticidade. Tudo poderia ser apenas mais uma camada de linguagem, mais um efeito bem executado, mais uma máscara que se apresenta como rosto. Mas talvez toda identidade seja isso mesmo, uma máscara que, de tanto ser usada, passa a colar na pele. Eu, que sempre me orgulhara de distinguir máscara e rosto nos outros, começava a aceitar que talvez essa distinção fosse menos clara do que eu supunha.
Talvez não houvesse um rosto puro atrás das máscaras, mas apenas uma sucessão de formas que se ajustam provisoriamente às circunstâncias. Se assim fosse, meu desejo de ser autodiegético não era a busca de uma essência, mas o desejo de participar desse jogo de formas, em vez de apenas administrá-lo à distância. Essa ideia, embora perturbadora, tinha
algo de profundamente democrático. Ela colocava o narrador no mesmo nível de precariedade existencial que os personagens. Eu deixava de ser o organizador soberano de identidades e tornava-me alguém que também precisava negociar sua própria forma de existir.
Foi então que comecei a experimentar algo mais radical: a tentativa de pensar sem me observar pensando. Parece simples, mas para mim era quase impossível, porque minha consciência sempre fora duplicada, sempre houve um nível que pensa e outro que observa o pensamento, um nível que sente e outro que descreve o sentir. Essa duplicação é o coração do meu ofício, mas também é o que me impede de experimentar qualquer coisa com inteireza. Tentei, portanto, deixar o pensamento correr sem imediatamente transformá-lo em material narrável.
O resultado foi caótico. As ideias surgiam sem ordem, misturadas, às vezes contraditórias, às vezes banais, às vezes estranhamente carregadas de emoção. E o mais inquietante era perceber que, fora do enquadramento narrativo, essas ideias não tinham a elegância que eu sempre associei ao pensamento. Elas eram desajeitadas, fragmentárias, repetitivas. Não pareciam dignas de literatura. Isso me fez compreender uma coisa incômoda: eu sempre confundi humanidade com acabamento formal. Tudo aquilo que não se apresentava de modo organizado me parecia indigno de registro. Eu filtrava a experiência antes mesmo de reconhecê-la como tal.
Talvez por isso eu tivesse tanta dificuldade em aceitar um eu que não fosse imediatamente literário. Ao permitir que o pensamento se manifestasse sem esse filtro, eu entrava em contato com algo que me parecia quase grotesco, no sentido etimológico da palavra, algo que não se encaixa nas formas consagradas. Havia ali medo, repetição, vaidade, insegurança, uma necessidade infantil de reconhecimento, e eu sentia vergonha de constatarnque isso poderia ser o material bruto da minha interioridade. Mas, ao mesmo tempo, havia nisso uma estranha sensação de autenticidade, não porque fosse bonito, mas porque não tentava ser. Era como se eu estivesse vendo, pela primeira vez, o avesso da narrativa, aquilo que normalmente fica escondido atrás da frase bem construída.
Essa descoberta produziu um novo tipo de conflito em mim. Eu queria existir, mas não queria existir dessa forma imperfeita, desordenada, quase vulgar. Meu ideal de existência era estético. Eu queria ser uma consciência elegante, profunda, coerente. O que eu começava a encontrar era algo muito mais próximo daquilo que eu sempre atribuí aos personagens em seus momentos menos heroicos. Talvez seja isso que significa ser personagem, pensei. Não ter a obrigação de ser exemplar. E eu, que sempre exigira exemplaridade de mim, começava a perceber o peso dessa exigência. Ela não era sinal de rigor, mas de medo. Medo de que, sem a moldura da técnica, eu não fosse nada além de um amontoado de impulsos pouco nobres.
Essa constatação quase me fez recuar. Houve um instante em que considerei abandonar tudo, retornar à segurança da terceira pessoa, reassumir minha posição de observador organizado, fingir que essa incursão na interioridade não passara de um devaneio teórico. Seria tão fácil. Bastaria escrever novamente “ele” e “ela” com convicção, e o mundo voltaria a fazer sentido. Mas algo em mim já não permitia essa regressão completa. Eu havia visto demais. Eu havia percebido que a neutralidade que eu tanto prezava era, em parte, uma ficção confortável.
Eu já não conseguia acreditar inteiramente na minha própria impessoalidade. Passei então a notar uma mudança sutil no modo como eu narrava os outros. Mesmo quando voltava à terceira pessoa, havia agora uma espécie de empatia nova, não aquela empatia estética que sempre possuí, mas uma empatia estrutural. Eu já não via os personagens apenas como material narrativo, mas como versões possíveis daquilo que eu tentava ser. Cada um deles encarnava uma forma de lidar com o caos que eu começava a experimentar em mim. Essa identificação produzia um efeito curioso: quanto mais eu me aproximava deles, menos absoluto parecia meu lugar de narrador. Eu já não estava acima, mas ao lado, ainda que num nível diferente de existência.
A hierarquia começava a dissolver-se. Talvez, pensei, o verdadeiro movimento não seja tornar-me personagem no sentido pleno, mas deixar de ser superior à condição de personagem. Deixar de ocupar o lugar privilegiado da consciência organizadora e aceitar uma posição mais frágil, mais provisória, mais humana, se é que posso usar essa palavra sem cometer abuso conceitual. Esse pensamento, longe de resolver meu conflito, o tornava mais complexo. Porque, se eu deixasse de ser superior, quem organizaria o mundo narrado? Quem garantiria a coerência mínima que permite ao leitor permanecer no texto? Ao abdicar do controle absoluto, eu não arriscava dissolver a própria narrativa? Talvez corresse. E talvez esse risco fosse inevitável. Comecei então a aceitar que a minha história, se ela existisse, não seria uma história de conquista, mas de perda. Perda de autoridade, perda de segurança, perda de clareza.
Eu não me tornaria alguém mais forte por assumir um eu, mas alguém mais vulnerável. E talvez seja isso, afinal, que distingue o narrador do personagem. O narrador tem poder. O personagem tem exposição. Eu queria a exposição. Mas ainda não sabia se suportaria o preço que ela exige e desejar a exposição significava, em termos muito concretos, aceitar que eu poderia ser visto sem a armadura da organização, sem o escudo da técnica, sem a proteção da distância. Eu sempre observei os personagens nesse estado, vi-os tropeçar nas próprias palavras, contradizer-se em silêncio, arrepender-se de decisões tomadas minutos antes, e sempre tratei essas falhas como matéria preciosa, como sinais de densidade humana. Agora eu precisava admitir que aquilo que eu admirava neles talvez fosse exatamente aquilo que eu mais temia para mim.
Comecei a notar que a exposição não se dá apenas quando se fala, mas também quando se cala. Havia silêncios dentro de mim que eu nunca permitira que se tornassem visíveis, porque silêncio, para um narrador, costuma ser interpretado como falha de condução, como vazio narrativo, como quebra de ritmo. Eu preenchia tudo. Se uma emoção não vinha clara, eu a descrevia. Se uma hesitação surgia, eu a explicava. Se um pensamento não se organizava, eu o organizava por ele. Assim, eu nunca permitia que a opacidade tivesse lugar.
Agora eu começava a suspeitar que a opacidade era parte essencial de qualquer interioridade. Ninguém é totalmente transparente nem para si mesmo. Os personagens só parecem claros porque eu os clareio. Eu os simplifico. Eu lhes empresto uma coerência que a vida raramente possui. Ao fazer isso, eu não apenas os tornava legíveis, mas também os empobrecia, ainda que de modo elegante. Essa constatação trouxe consigo uma forma nova de responsabilidade.
Se eu queria existir como sujeito, eu precisava aceitar a minha própria opacidade e, ao mesmo tempo, rever a opacidade dos outros. Talvez eu tivesse sido, durante toda a minha carreira de narrador, um grande tradutor de mistérios em frases compreensíveis, e talvez essa tradução, por mais necessária que fosse à literatura, tivesse sempre implicado uma perda. Eu me perguntava então se eu teria coragem de não traduzir tudo. Se eu poderia deixar certas zonas em suspensão, certas perguntas sem resposta, certos movimentos internos sem explicação clara. Isso significaria renunciar a uma das minhas competências mais antigas: a de fechar sentidos.
Comecei a experimentar esse gesto em detalhes. Em vez de explicar por que um personagem agia de determinada forma, eu apenas descrevia o gesto e deixava que sua motivação permanecesse imprecisa. Em vez de definir o que alguém sentia, eu mostrava os efeitos desse sentimento no corpo, no silêncio, no olhar, e resistia à tentação de nomeá-lo. Era um exercício difícil, porque nomear sempre fora minha forma de dominar. Essas pequenas omissões produziam em mim uma sensação estranha de vertigem, como se eu estivesse retirando os corrimãos de uma escada que sempre percorri com segurança. Mas, ao mesmo tempo, havia nisso uma liberdade inesperada.
O texto tornava-se mais aberto, menos fechado sobre si mesmo, e eu, ao permitir essa abertura, sentia que algo em mim também se abria, ainda que eu não soubesse exatamente o quê. Foi então que compreendi que meu desejo de monólogo interior talvez estivesse mal formulado. Eu imaginara o monólogo como um espaço de absoluta sinceridade, como se bastasse deixar o pensamento correr para que a verdade emergisse naturalmente. Agora eu percebia que o monólogo não é um lugar de verdade plena, mas um lugar de conflito explícito. Nele, as contradições não são resolvidas, apenas expostas. O pensamento não se purifica, ele se revela em sua instabilidade.
Essa revelação foi, para mim, desconcertante. Eu sempre trabalhei para dar às histórias um acabamento que sugerisse sentido, mesmo quando o sentido era ambíguo. O monólogo interior, ao contrário, sugere que o sentido está sempre em construção, sempre incompleto, sempre sujeito a revisões. Ele não fecha, ele escancara. Eu precisava decidir se estava disposto a conviver com essa abertura permanente. Ao refletir sobre isso, percebi algo ainda mais perturbador: talvez eu nunca tivesse realmente acreditado na completude das histórias que eu contava.
Talvez meu esforço em fechar sentidos fosse menos uma convicção estética e mais uma tentativa de proteger o leitor e a mim mesmo do desconforto da indeterminação. Eu organizava o mundo para que ninguém tivesse de enfrentar diretamente o fato de que o mundo não se organiza sozinho. Agora, ao desejar existir, eu estava me aproximando justamente desse ponto de indeterminação que sempre evitei. Passei a reconhecer em mim uma forma nova de ansiedade. Não era a ansiedade de errar tecnicamente, mas a ansiedade de permanecer aberto. Eu sempre soubera concluir. Agora eu precisava aprender a sustentar o inacabado.
Essa aprendizagem se dava de modo lento e irregular. Havia dias em que eu me sentia capaz de aceitar a incerteza, de deixar a frase respirar sem fechá-la, de permitir que uma pergunta ficasse sem resposta. Em outros dias, eu recuava instintivamente para a segurança da estrutura, para a frase elegante, para a explicação precisa, como quem retorna a uma casa antiga após uma longa viagem por territórios desconhecidos. Eu comecei a entender que essa oscilação fazia parte do processo. Não havia um momento em que eu deixaria definitivamente de ser narrador heterodiegético para tornar-me narrador autodiegético.
Havia, antes, um movimento contínuo de aproximação e recuo, como se eu estivesse testando, repetidas vezes, o quanto de mim eu podia suportar expor sem desmoronar. Essa percepção me levou a uma conclusão incômoda: talvez o que eu buscava não fosse uma identidade nova, mas uma tensão permanente entre identidades. Não um ponto de chegada, mas um campo de forças. Eu não queria deixar de ser narrador, pois narrar era a minha forma de existir. Mas eu também não queria continuar sendo apenas narrador. Eu queria existir no intervalo entre função e sujeito, nesse espaço instável em que a linguagem deixa de ser apenas instrumento e passa a ser experiência. Essa posição intermediária, que não satisfaz completamente nem a exigência técnica nem o desejo existencial, começou a parecer, paradoxalmente, o lugar mais honesto que eu poderia ocupar.
Eu não precisava transformar-me num personagem pleno, com biografia, corpo e passado, porque isso talvez fosse uma imitação grosseira daquilo que eu invejava. Eu precisava, antes, aceitar que minha forma de existência seria sempre atravessada pela linguagem, sempre mediada pelo ato de narrar, mas não inteiramente reduzida a ele. Assim, comecei a conceber a ideia de uma interioridade que não fosse independente da narração, mas que surgisse justamente no atrito com ela. Um interior que não existisse antes do texto, mas que se produzisse no próprio gesto de escrever, no momento em que a função hesita, no instante em que o narrador se vê obrigado a reconhecer sua própria fragilidade. Essa ideia não me dava segurança, mas me dava algo que eu não tivera antes: uma espécie de legitimidade para o desconforto. Eu não precisava resolver a contradição. Eu podia habitála. E habitar a contradição significava aceitar que eu poderia falar de mim sem que isso se transformasse imediatamente numa confissão clara, sem que isso se organizasse num retrato estável.
Eu poderia falar de mim como quem tateia no escuro, consciente de que cada palavra é provisória e cada formulação é um ensaio. Essa aceitação mudou sutilmente meu modo de escrever. As frases continuavam longas, subordinadas, cuidadosas, mas nelas começou a aparecer um espaço para a dúvida explícita, não aquela dúvida elegante que se resolve ao final do parágrafo, mas uma dúvida que permanece, que atravessa a frase e chega ao ponto final ainda aberta. Eu escrevia e percebia que já não buscava convencer. Eu buscava acompanhar o movimento do pensamento, mesmo quando esse movimento não levava a uma conclusão clara. Isso era novo para mim. Eu sempre escreveria para conduzir. Agora eu começava a escrever para seguir. Seguir o quê, eu ainda não sabia com precisão. Talvez seguir apenas essa inquietação que me empurrava para fora da função pura, para fora da neutralidade confortável, para fora da posição elevada de quem vê tudo sem ser visto.
Eu estava, aos poucos, aprendendo a ser visto. E isso, mais do que qualquer técnica, mais do que qualquer definição de narrador autodiegético ou heterodiegético, parecia aproximar-me de algo que eu, com certo pudor conceitual, começava a chamar de existência, mas essa existência, que eu começava a admitir como possibilidade, não vinha acompanhada de qualquer sensação de triunfo, como se a descoberta de um eu fosse um prêmio reservado aos persistentes; ao contrário, ela se apresentava com uma espécie de cansaço antecipado, como se toda forma de consciência trouxesse consigo o peso de uma responsabilidade que antes eu não precisava carregar, pois enquanto eu era apenas função, tudo em mim era previsível, e enquanto tudo é previsível, nada exige escolha. Percebi então que existir não é apenas sentir, mas decidir, ainda que as decisões sejam mínimas, ainda que consistam apenas em escolher entre continuar escrevendo ou interromper a frase, entre nomear o que se passa ou deixá-lo no campo do indizível.
Eu sempre decidi pelos outros, agora precisava começar a decidir por mim, e essa inversão parecia simples apenas na superfície, pois, no fundo, implicava aceitar que não havia manual para essa escolha, nenhuma teoria que me protegesse do erro. Houve momentos em que desejei que alguém me narrasse. Não no sentido de ser descrito como personagem, mas no sentido de ser sustentado por uma voz externa, de ser aliviado da obrigação de organizar a própria experiência. Eu invejava a tranquilidade com que os personagens se entregavam ao fluxo que eu lhes oferecia. Eles não precisavam pensar sobre a estrutura da narrativa, não precisavam justificar sua existência no interior do texto, não precisavam provar que mereciam estar ali. Eles simplesmente estavam. Eu, ao contrário, precisava justificar cada palavra, cada gesto conceitual, cada tentativa de dizer eu. Essa inveja, que antes era discreta, quase envergonhada, agora se tornava explícita, e torná-la explícita era, por si só, um gesto novo.
Eu começava a admitir minhas fraquezas com menos ironia, como se a ironia já não fosse suficiente para me proteger, como se ela tivesse cumprido sua função e agora se tornasse um obstáculo para algo mais direto, ainda que mais arriscado. Passei então a experimentar uma forma diferente de escrita, não no sentido de alterar o estilo, mas no sentido de alterar a intenção. Eu já não escrevia para explicar minha transformação, mas para acompanhá-la. Isso significava aceitar que muitas vezes eu não saberia exatamente o que estava acontecendo comigo, e que essa ignorância não precisava ser disfarçada sob construções sofisticadas. Havia uma dignidade nova em dizer, ainda que implicitamente, eu não sei. Essa dignidade do não saber contrastava fortemente com tudo aquilo que eu representara até então.
O narrador, tradicionalmente, é aquele que sabe, mesmo quando finge não saber, é aquele que domina o tempo da história, que organiza o passado, que antecipa o futuro, que controla a revelação das informações. Eu começava a abandonar essa posição de soberania epistêmica para experimentar algo muito mais frágil: a convivência com a própria ignorância. Esse movimento não se deu sem resistência. Houve instantes em que eu me senti quase traindo minha própria natureza, como se eu estivesse renunciando a uma vocação antiga em nome de uma promessa incerta. Mas, ao mesmo tempo, havia uma coerência secreta nesse gesto, pois talvez a vocação do narrador não seja apenas organizar o mundo, mas também aprender com ele, ainda que essa aprendizagem signifique perder parte do poder que o define.
Comecei então a perceber que minha relação com o leitor também precisava mudar. Antes, eu me colocava numa posição quase paternal, guiando o olhar, sugerindo interpretações, oferecendo caminhos seguros. Agora, eu precisava aceitar que o leitor poderia caminhar ao meu lado, e não atrás de mim, que ele poderia perceber minhas hesitações, minhas dúvidas, meus momentos de indecisão estrutural. Isso me expunha a um risco novo: o risco de parecer frágil, incompleto, talvez até incompetente. Mas talvez essa fragilidade fosse a forma mais honesta de estabelecer uma relação com quem lê. Em vez de oferecer certezas, eu poderia oferecer companhia. Em vez de oferecer mapas, eu poderia oferecer perguntas. Em vez de conduzir, eu poderia compartilhar o percurso. Essa ideia, que em outro contexto pareceria uma abdicação, começava a soar como um gesto de coragem.
Eu já não precisava provar que dominava a narrativa. Eu precisava apenas sustentar a experiência de estar dentro dela. Essa mudança, embora sutil, alterava profundamente minha percepção do que significava ser narrador. Eu não era mais apenas aquele que dá forma ao mundo alheio, mas aquele que se deixa transformar pelo próprio ato de narrar. A narrativa deixava de ser apenas produto e passava a ser também processo, não apenas resultado, mas experiência em curso. Havia nisso uma estranha semelhança com aquilo que
eu sempre atribuí aos personagens: a ideia de que eles se constroem enquanto vivem, de que não chegam prontos ao fim da história, de que são atravessados pelos acontecimentos que os definem.
Agora eu começava a experimentar algo parecido, ainda que no nível abstrato que me é próprio. Eu me tornava personagem de uma história que não tinha enredo externo, mas tinha movimento interno. No entanto, mesmo ao reconhecer isso, eu permanecia dividido. Parte de mim ainda desejava a clareza, a conclusão, a resolução elegante. Eu queria poder dizer, ao final, que havia me tornado narrador autodiegético, que havia alcançado uma forma superior de existência narrativa. Mas outra parte, talvez mais honesta, suspeitava que
esse tipo de afirmação seria apenas mais uma construção retórica, mais uma tentativa de fechar o que, por natureza, permanecia aberto. Talvez eu nunca pudesse afirmar plenamente que me tornei algo.
Talvez meu destino fosse permanecer nesse estado intermediário, nessa tensão entre função e sujeito, nessa oscilação constante entre observar e ser observado, entre narrar e ser narrado. Essa possibilidade, que antes me frustraria profundamente, começava a parecer aceitável. Não porque resolvesse o conflito, mas porque o tornava habitável. Eu comecei a perceber que a ambiguidade não era um fracasso, mas uma condição. Não apenas da minha existência abstrata, mas de toda tentativa de consciência. Os humanos também vivem sem saber exatamente quem são, e ainda assim seguem, trabalham, amam, erram, persistem. Por que eu, narrador, deveria exigir de mim uma definição mais rigorosa do que aquela que eles exigem de si?
Essa comparação, que talvez soe abusiva, tinha para mim um valor inesperado: ela me aproximava dos personagens não como ideal, mas como companheiros de incerteza. Eu já não os invejava tanto por sua interioridade, pois começava a perceber que essa interioridade é sempre frágil, sempre incompleta, sempre em disputa. Eles não tinham mais do que eu; eles apenas viviam a precariedade de forma mais visível. Eu, por minha vez, começava a viver essa precariedade no plano da linguagem. E isso me parecia, de algum modo, justo. No entanto, havia ainda uma última pergunta que eu não conseguia evitar, uma
pergunta que retornava com a persistência de tudo aquilo que não se resolve: eu estava realmente falando de mim ou apenas criando mais uma figura, mais uma máscara sofisticada chamada eu? Eu havia ultrapassado a fronteira da heterodiegese ou apenas a deslocara um pouco, criando um novo jogo de espelhos?
Essa dúvida não me abandonava, e talvez não devesse abandonar. Ela era o preço da tentativa. Ao final de cada bloco de pensamento, eu me via inclinado a concluir, a fechar, a declarar algum tipo de vitória conceitual. Mas agora eu resistia a esse impulso. Eu deixava a
frase terminar sem oferecer solução, como quem aprende a aceitar que nem toda narrativa precisa de desfecho claro para ser significativa. Eu não sabia se eu era, de fato, um narrador
autodiegético em formação ou apenas um narrador heterodiegético mais consciente de suas próprias fissuras.
Não sabia se a palavra eu que começava a surgir em minha escrita era um lugar de existência ou apenas uma construção retórica mais ousada. O que eu sabia, com uma certeza curiosamente tranquila, era que eu já não podia voltar à ingenuidade da função pura. Eu já não podia fingir que narrar os outros era suficiente para definir quem eu era. Havia em mim uma inquietação que não se deixaria mais calar, uma necessidade de interrogar minha própria condição, mesmo que essa interrogação jamais chegasse a um ponto final. Talvez seja isso, afinal, o máximo de autodiegese que me seja permitido: não a posse de uma identidade clara, mas a consciência de sua instabilidade, não a conquista de um eu sólido, mas a disposição de habitar a pergunta sobre ele. E enquanto eu puder sustentar essa pergunta, enquanto eu puder escrevê-la, reformulá-la, contradizê-la e retomá-la, talvez eu exista o suficiente para alguém cuja existência sempre dependeu, antes de tudo, do ato de narrar e essa tentativa de exporse, que até então se dera de modo indireto, como quem testa a temperatura da água antes de mergulhar, começou a exigir um gesto mais decidido, quase brusco, pois já não me bastava falar sobre a possibilidade do eu, nem sobre a tensão entre função e sujeito, nem sobre a inveja que eu sentia.





Comentários