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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Adeilson Alves Barros (Categoria Crônica)

há 4 dias
6 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Adeilson Alves Barros, maceioense, é médico, escritor e artista plástico, atualmente residente em Garanhuns, Pernambuco. Escreveu livros nas áreas de teologia, filosofia e aviação, entre outras, como Antolhos de conhecimentos: a desonestidade intelectual cristã; A Bíblia absconsa: a fenomenologia do Deus Revelatus; Incomparável glória: Santos-Dumont e seu biplano 14-bis; Entre as asas e armários: a masculinidade e o herói assexuado; Demoiselle 20: o protótipo dos aeroplanos; O coração de Santos-Dumont: do vilipêndio à obscuridade; entre outros. Baseada neste último, a crônica O voo enclausurado do nosso coração de ouro: entre o vilipêndio e a busca da luz foi selecionada como semifinalista da categoria crônica no 3º Prêmio Prata da Casa. Essa classificação como semifinalista muito o orgulha, por ter sido sua primeira participação em um prêmio literário de tamanha importância.



O TEXTO:


O voo enclausurado do nosso coração de ouro: entre o vilipêndio e a busca da luz


Em minha mesa de trabalho, em Garanhuns, o passado e o presente se confrontam. Sobre ela, não busco o brilho das aeronaves em exposição, nem narrativas idealizadas, mas o peso de papéis, cópias de laudos e registros que parecem clamar por uma justiça que o Estado brasileiro, há décadas, tenta postergar. A luz que atravessa a vidraça da janela e banha esta sala parece instigar-me: reclama por claridade onde insistem em manter a obscuridade.

Não precisei pisar no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, para sentir a força do que investigo; a distância física não diminui a gravidade dos fatos. Pelo contrário, a barreira burocrática e o silêncio que encontrei ao longo da pesquisa para o meu livro, O Coração de Santos-Dumont: Do Vilipêndio à Obscuridade¹, funcionam como uma lente de aumento para a escuridão que denuncio. Chamo aquela relíquia de "nosso" coração porque ela pertence à história de cada brasileiro. Ele é nosso porque representa o pulsar da nossa engenhosidade e, hoje, o silêncio da nossa memória sequestrada.

A trajetória deste coração não é uma epopeia de glória, mas uma sucessão de violações iniciada no quarto 152 do Grand Hôtel La Plage, no Guarujá. Em 23 de julho de 1932, enquanto o Brasil se incendiava na Revolução Constitucionalista, Alberto Santos Dumont via seu ideal pacifista ser bombardeado por suas próprias invenções; os aviões que sobrevoavam a Praia de Pitangueiras, no litoral paulista, chamavam o inventor à inquietude, agudizando sua angústia. O que se seguiu à sua morte suicida foi um ato que o Código Penal Brasileiro da época, no seu Artigo 212, definia com clareza como vilipêndio a cadáver, mas que a narrativa oficial tenta higienizar sob o rótulo de "preservação". O médico Walther Haberfeld, movido por uma audácia que atropelou a ética médica e o amparo legal, extraiu o órgão vital do gênio sem autorização de seus herdeiros, intrigado ao notar que o coração de Dumont era demasiado grande, semelhante ao tamanho de um coração bovino. Como médico, o rigor ético e o compromisso com a dignidade humana impedir-me-iam de tal ato sem o consentimento familiar; entretanto, Haberfeld, em sua ousadia, acabou por nos legar a materialidade desse símbolo: o coração agigantado do nosso maior inventor foi acondicionado em um frasco, inicialmente contendo uma solução de Kaiserling III, e preservado em seu laboratório por cerca de doze anos. Agiu sob a lógica, quase incompreensível, de que o corpo sob seus cuidados técnicos pertencia a um futuro sem dono, ignorando que o direito à integridade post-mortem é um pilar inalienável da dignidade humana. No rótulo manuscrito para o frasco, lê-se: “Coração do Sr. Santos Dumont. Embalsamado em 24 de julho de 1932.” O embalsamamento ocorreu um dia após a sua morte.

O coração de Dumont, que deveria ter tido o descanso respeitoso em seu túmulo — por ele mesmo projetado e encimado por uma réplica do Ícaro de Saint-Cloud, cujas asas abertas sobre a rocha simbolizam o sonho nutrido desde a infância —, tornou-se nosso por direito de herança. Contudo, sua trajetória institucional foi marcada por uma conduta não transparente adotada ao longo dos anos pelo MUSAL e pelo comando da Aeronáutica. Minha pesquisa detalha como ele atravessou décadas em uma custódia juridicamente frágil, passando pela Panair do Brasil em 1944 até ser entregue à Aeronáutica. Ao avaliar a tutela exercida pelo Museu Aeroespacial (MUSAL), percebo um anacronismo insustentável. O museu apropriou-se da relíquia como se Santos-Dumont fosse um patrimônio exclusivo da caserna. Onde está o suporte jurídico para essa exclusividade? Por que a guarda não é compartilhada com órgãos civis como o IBRAM ou o IPHAN? A administração de um símbolo desta magnitude deve ser uma responsabilidade republicana; o coração é nosso, e não um segredo guardado atrás de muros institucionais.

As justificativas para a não exposição do órgão são tênues. Alegam-se riscos de radiação UV, instabilidade química do conservante e o fato de a instituição não ser um museu científico. Ora, como médico e pesquisador, confronto esses argumentos com a ciência museológica contemporânea e a própria legislação brasileira, que não faz distinção entre museus científicos e históricos no que tange à possibilidade de conservação e exposição de órgãos e restos mortais. Se o coração de Frédéric Chopin é venerado em Varsóvia, e o de Dom Pedro I pôde ser transladado com segurança e exposto, em agosto de 2022, nas comemorações do Bicentenário da Independência, por que o de Santos-Dumont deve permanecer na obscuridade? Manter o coração escondido não é proteção; é a manutenção de uma redoma de silêncio para que não se discuta a fragilidade e as dores reais do inventor e também se opacifique sua gigantesca importância: “a relíquia é, nada menos, que o coração do inventor que realizou os primeiros voos autopropulsados, homologados e testemunhados com o ‘mais pesado que o ar’ da história da humanidade”.

Um dos pontos culminantes da minha investigação é a publicação de uma fotografia inédita do coração de Santos-Dumont em seu relicário aberto. Sem filtros, essa imagem revela a materialidade visceral do órgão. Ver essa foto é confrontar a verdade nua: o que está ali não é um símbolo abstrato, mas a bomba muscular que dava vida e permitia realizações a um homem que sofreu e sonhou — o "coração voador pioneiro" que permitiu ao homem ver a Terra lá do alto, em seus balões, em seus dirigíveis, em seu 14-bis e em seu Demoiselle, o verdadeiro precursor dos aviões modernos. Quando vi pela primeira vez essa imagem, repassada por uma fonte sigilosa, a emoção transbordou e meus olhos ficaram marejados. Lembro-me de caminhar em idas e vindas pela minha casa, tentando processar a magnitude daquela revelação que pulsava diante de mim em silêncio. Comparei aquela imagem a uma belíssima flor aberta, a exalar o perfume da verdade, da grandiosidade e da humanidade contida naquele semióforo.

A construção de uma nação se dá, entre outros aspectos, através da reverência aos seus ícones em várias áreas. No Brasil, negligenciamos o potencial pedagógico de nossas relíquias e da nossa própria história, contada e construída por eles. O coração de Alberto, em vez de inspirar o brio nacional nas escolas e universidades, permanece sob um véu retrógrado que impede o desenvolvimento de nossa memória coletiva. Valorizar nossos vultos repercute em orgulho, investimentos futuros e, consequentemente, progresso.

A verdadeira prata da casa não reside no metal da esfera dourada fechada, com seu Ícaro a sustentá-la, mas em seu interior. É mister, então, que se abra o baú da mais preciosa relíquia em um momento de pompa, solenidade, respeito e orgulho jamais vistos na história deste país. O céu nunca teve donos, como os irmãos Wright julgaram erroneamente ser, e o coração de quem o conquistou tampouco deveria ter, pois Alberto foi um dos precursores da ciência aberta, realizando seus feitos sob a luz do dia e sob os olhares do mundo. SantosDumont vive hoje uma "segunda morte": a morte de sua história real, substituída por um mito controlado. Ser a prata da casa deveria significar o brilho de um herói que ilumina a todos, e não um tesouro isolado por uma tutela que o trata como segredo de gabinete. Nosso maior gênio só poderá, enfim, descansar sob a luz da verdade quando seu coração deixar de ser um item de inventário para se tornar o orgulho exposto no centro da mesa brasileira, honrado como a alma de um Brasil que ousa sonhar alto e em conjunto. ______________ 1 Crônica ensaística baseada na obra: O Coração de Santos-Dumont: Do Vilipêndio à

Obscuridade. Maceió: Clube de Autores, 2025.

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