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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Ana Amélia Carneiro de Carvalho (Categoria Crônica)

há 4 dias
8 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


Ana Amélia Carneiro de Carvalho, transita entre Rio e Paris e se move entre a palavra, o corpo e a cena. Sua escrita faz parte do processo de absorção, exploração e digestão da vida. Seu corpo e o seu olhar formam seu laboratório criativo.

Horas de visita, semifinalista do concurso Prata da Casa, nasceu de anotações dos últimos momentos antes da morte de sua mãe. Construi-las em forma de crônica foi um exercício importante de transformação da emoção da memória em palavra escrita. A construção da palavra como crônica encontrou um lugar medicinal para seu luto.



O TEXTO:


Horas de visita


Hospital Unimed de Laranjeiras. Mamãe continua ali, com aquele tubo duro de plástico na boca. Os pés quentes e agora protegidos por uma espuma amarela que deixa um ligeiro espaço entre os dedos. Mamãe tem os pés grandes, largos, parecem duas patas.

O doutor José Lobato sai do CTI com um pequeno recipiente de plástico, como esses destinados a exame de fezes, e me entrega dizendo que é preciso deixar no laboratório antes do meio-dia. Dentro daquele potinho tem um pedaço da minha mãe. Esse pedacinho da minha mãe vai esclarecer qual bactéria atacou aquela mulher de um metro e oitenta e setenta e um anos de vida.

Encontro-me então andando pela Rua das Laranjeiras entre o hospital e algum laboratório da redondeza. Estou em plena quarta-feira de carnaval. Eu e aquele pedacinho da minha mãe dentro de um pote de exame de fezes, andando pelo Largo do Machado, lotado de foliões, bêbados, alegres, cantando. As fantasias que, em outros carnavais, me divertiriam demais, naquele dia me assustavam, me angustiavam, me davam um medo enorme, infantil. Um pânico. Estava numa cena que tratava o futuro com um filtro mergulhado nas cores tradicionais do meu país.

O tempo ia passando. A multidão se esbarrava em mim e eu protegia, com todo meu afeto e cuidado, aquele pedacinho de dentro da minha mãe coletado por um senhor simpático.

Finalmente chego ao prédio onde tem um laboratório. O elevador está enguiçado. Subo, suando, os cinco andares. Abro a porta de vidro. Sento-me. Aguardo. Finalmente uma moça me atende. Quando mostro o cartão do plano de saúde da minha mãe, a moça me diz:

“Acho que esse plano não cobre esse tipo de análise, não.”

Nó na garganta, mandíbula travada, dor na barriga, vontade de fazer cocô e de bater muito naquela funcionária.

“Mas você não está entendendo... minha mãe está no CTI, esse material não pode ficar tanto tempo nas minhas mãos. Isso vai perder a validade daqui a poucas horas e eu não posso pegar uma nova curetagem do pulmão da minha mãe.”

“Ah, meu amor, eu sei”, me diz a moça, “mas não posso fazer nada.”

“Meu amor” é o caralho. Penso, mas não me descontrolo. Mantenho a calma, saio dali. Ligo para minha irmã, que me dá o endereço de outro laboratório.

Lá vou eu com aquele potinho na mão.

Entro na sala de espera. Tomo um, dois, três copos de água. Atende-me uma moça muito simpática e franca.

“Vamos dar um jeito”, ela fala.

Saio de mãos vazias.

O horário de visitas acabou. Vou ao Largo do Machado.

Sempre amei o Largo do Machado. Um lugar de vida, de encontros, de gente e de gerações variadas. Sempre senti, andando por ali, a sensação de estar no coração de algum lugar e, ao mesmo tempo, num lugar estrangeiro. Montevidéu, talvez. Apesar de nunca ter estado em Montevidéu, na minha lembrança imaginativa, se parece com aquela praça. E a igreja, bem centrada, sempre escancarada. As velas ao lado, dentro, sempre acesas.

Eu tinha acabado de chegar ao Rio, vindo de Paris, para ver mamãe, que tinha entrado no CTI havia doze dias. Deixei minha mochila em casa e fui para o hospital, mas como ainda não era hora de visitas, fui para a Praça do Largo do Machado. Parei bem no centro dela. Olhei para o meio da grande porta de entrada da igreja. Peguei uma linha reta, subi os degraus e entrei.

Entrei na igreja e fiquei andando. Como que buscando um sinal. Uma direção. Vou dizer: como que buscando uma luz.

Sentei-me. Apoiei minha testa em minhas mãos e desabei. Chorei aos prantos sem fazer nenhum barulho. Via a poça se formando entre meus pés. Saí dali com a sensação de ter sido lavada calmamente por Iemanjá.

Mamãe ainda em coma, entubada. O som do respirador passando pelo tubo, pelo cano.

Estou ao pé da cama e massageio os pés de minha mãe. Seus pés são fortes e grandes.

Vejo uma bolha bem grande entre dois artelhos de mamãe, no pé direito. Não é possível mamãe ficar assim. Procuro um creme ou óleo dentro de minha bolsa. Peço para a enfermeira colocar algo ali, para proteger. Minha missão, a partir de aí, é não deixar que essa bolha piore.

O médico me explica, como se eu já não soubesse, que é por conta da fricção dos dois dedos. Pede-me licença. Chegam mais três ajudantes. É hora de mudar minha mãe de posição para não criar escaras nas costas. Pergunto se posso ajudar.

“Prefiro que não”, me responde o médico.

Saio do CTI e vou tomar um café dentro mesmo do hospital.

Quando eu volto ao leito de minha mãe, minha irmã está lá. Tinha acabado de lhe fazer um rabo de cavalo.

Mamãe estava linda. Mesmo ali naquele leito de CTI. Mesmo com aquela boca aberta, com o tubo dentro. Tão agressivo aquele tubo. Mas mamãe continuava linda. Às vezes me parecia que ela estava um pouco contrariada.

Vou para a cabeceira da cama, aproximo-me da cabeça de minha mãe. Não é fácil o acesso à parte de cima. Tem muitos fios, o respirador e uma grande máquina que controla todas as suas funções. O som da respiração, amplificado, não para nunca. Como o som de alguém que dorme um sono de sesta bem profunda, quase roncando.

Enfim, chego à cabeça de mamãe, tiro o seu rabo de cavalo e passo dez minutos fazendo cafuné na cabeça dela. Massageando o couro cabeludo, dou-me conta de que a tinta de cabelo começa a sair, deixando aparecer o cabelo branco. Assim que mamãe sair do hospital, faremos nossa tradicional “sessão de beleza”.

Dia Internacional da Mulher no ano de 2019: eu me despeço de mamãe.

Eu peço: “Mãezinha, coragem! Força, mãezinha, força! Hoje é nosso dia, mãe! Hoje é dia da mulher!”

Mamãe, saindo aos poucos do coma induzido, tenta com muito esforço abrir os olhos, mas não consegue. Eu saio do hospital, pego um táxi. O taxista me assegura que tudo vai ficar bem.

No dia seguinte: Laranjeiras, ainda carnaval, eu ainda na recepção do hospital esperando a hora de visita para o CTI. As pessoas entram de chinelos, bermudas, camiseta regata e latinhas de cerveja em sacolas plásticas, vindas provavelmente de algum camelô do Largo do Machado. Vou até a lanchonete no final do corredor, como um pão de queijo e tomo um Mate Leão com limão diet. Cada passo que dou penso na minha mãe e em como ela gosta dessas peripécias mundanas. Tudo vira aventura aos olhos da minha mãe.

Chega a hora de visita. Subo as escadas e encontro o médico, que passou horas tentando acelerar a possível transferência de mamãe para um hospital consideravelmente melhor, do outro lado da cidade, na Barra da Tijuca.

Minha mãe tem um plano de saúde básico. Básico do básico. Sua transferência para outro hospital implica que ela tenha um quadro estabilizado, uma ambulância especialmente equipada com respirador e uma vaga liberada no famoso “Hospital Unimed da Barra”. Lá temos certeza — eu, minha irmã e meu irmão — de que mamãe terá os melhores tratamentos e condições para ser curada e recuperada.

Finalmente conseguimos.

Estou na garagem do hospital. Não posso ter um segundo de descuido e deixar mamãe partir na ambulância sem eu estar com ela. Chega a ambulância entrando de ré na garagem. Alguns minutos depois chega uma maca com mamãe em cima, respirador ao lado e aquele tubo de plástico duro ligando minha mãe à vida, como um cordão umbilical ao avesso.

Pergunto se entro atrás ou na frente. Na frente, me dizem, ao lado do motorista. Antes de subir na ambulância, verifico que estão colocando mamãe direitinha ali, naquele quarto ambulante. Três pessoas estão com ela.

Subo na ambulância, que leva quinze minutos para conseguir pegar a Rua das Laranjeiras, que está muito animada. Olho para trás para ver minha mãe. Para averiguar que tudo vai bem. Percebo que sua mão esquerda está pendurada para fora da maca, balançando como morta com o movimento do carro. Uma moça bronzeada segura a mão de mamãe com carinho e a guarda com cuidado embaixo do lençol azul hospitalar. Agradeço sem falar nada e sigo olhando para frente.

Me lembro que minha mãe uma vez compartilhou comigo a dor que sentiu ao perder o seu pai. Ela me contou sobre um momento especial em que foi visitá-lo, quando ele já estava doente. Ao se despedirem, ela o viu pelo retrovisor do carro e, naquele instante, sentiu que seria a última vez que o veria vivo. E foi.

Dia 18 de fevereiro de 2019, mamãe passava dias na França entre minha casa e a casa de meu irmão, que também morava aqui. Ele nos chamou para almoçar na casa dele, já que mamãe estava voltando para o Brasil depois de passar um mês aqui com a gente, num dos invernos mais rigorosos que vivi desde que moro aqui.

Almoçamos na cozinha, gostoso, mas com aquele nó no estômago que eu sentia na véspera de me despedir de mamãe. Tivemos uma discussão. Na hora de fechar a mala, ela me chamou para ajudar.

Mamãe reclamou da falta de ar:

“Parece que vou morrer.”

E eu não suportei a ideia de minha mãe morrer. Fiquei irritada e disse, agressiva:

“Ai mãe, que saco, para de falar isso.”

Era insuportável para mim a ideia de perder minha mãe. Ela estava ali, viva, bem viva. E ela disse:

“Ai, filha, não fala assim, poxa.”

Pedi desculpa. Dei um abraço.

Depois descemos pelo elevador e andamos até o carro do meu irmão, que a levaria ao aeroporto. Ele colocou as malas no carro, entrou. Perguntou se eu não queria mesmo ir até o aeroporto com ele e eu disse que não, tinha coisas para fazer.

Mamãe e eu nos abraçamos apertado e ela disse:

“Daqui a pouco estou de volta para ficar com a minha neta!”

Sorrimos. Ela entrou no carro. Eu fechei a porta dizendo boa viagem, mas não ousei olhar pelo retrovisor.

Agora eu estou na cozinha da minha casa, com meu amor perto de mim e nossa filha dormindo no quarto ao lado da cozinha. Quase meia-noite. Dia 21 de março de 2019.

Estamos aguardando ansiosos a chamada da minha irmã, que está no hospital com mamãe. Meu irmão viajou para o Rio para estar lá com elas. Levou o violão para tocar para mamãe enquanto ela faz sua reeducação, ou enquanto dorme, simplesmente. Meu irmão levou o violão dele para estar perto de mamãe de corpo e alma inteiros.

Minha irmã finalmente liga. Eu atendo rápido. Toda palavra que busco aqui para

escrever e contar esse momento me parece insuficiente e falsa.

Como descrever o momento em que a vida retrocede e você precisa voltar para um lugar que não existe mais? Como descrever o momento em que o chão desaparece debaixo dos pés? Como descrever o momento em que eu morro de ser filha?

Sem mãe a partir de aí. Sem pai e sem mãe a partir de aí.

Preciso apertar os olhos ainda hoje para lembrar desse momento. A dor é perpétua. A insuficiência das palavras é real. Mas vou insistir, vou apertar mais os olhos e tentar escrever de olhos apertados para descrever esse contratempo. Essa suspensão do tempo e do chão.

Volto lá atrás.

Minha irmã finalmente liga. Eu atendo rápido. Ela está chorando e começa a falar, e antes que continue eu já entendo. Ao mesmo tempo ela me diz:

“Ah, meu irmão está chegando ali...”

Eu vejo (mesmo se estou do outro lado do Atlântico) meu irmão de camisa rosa, mala numa mão e violão na outra, passando pela porta para o saguão do hospital.

Ele se aproxima de nós, minha irmã e eu (que estou do outro lado do telefone). Estamos os três juntos nesse momento. Finalmente estamos os três juntos. Por acaso, mas estamos os três juntos.

Ouço pela voz do meu irmão:

Mamãe morreu.

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