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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Ataíde Menezes (Categoria Crônica)

há 3 dias
3 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Ataíde Menezes é pernambucano radicado em Aracaju. Estreou em livro solo com Três Perus Metafísicos e Outras Crônicas (Urutau, 2025); antes disso, assinou como coautor Código Penal em Crônicas (Juspodivm), hoje em terceira edição. É o único cronista a vencer as duas edições do Prêmio Nacional Poiesis de Literatura, com “Os Fantasmas Tiram Férias” e “A Novíssima Biblioteca de Babel”. No Prêmio Prata da Casa (Casa Brasileira de Livros), que costuma reunir mais de mil concorrentes a cada certame, obteve o 3º lugar em 2024 e foi um dos cinco finalistas em 2025. Duas vezes semifinalista no Pena de Ouro, também da Casa Brasileira de Livros. No Off Flip, foi premiado em três das cinco edições de que participou, incluindo o 1º lugar em 2024, e tem textos vencedores em antologias do selo. Também ficou entre os vencedores do concurso Outono em Vários Tons, da Editora Typus. Nesta terceira edição do Prata da Casa, a crônica que dá título ao segundo livro (ainda em preparação) ficou entre as semifinalistas.  



O TEXTO:


A era desaxial


O senhor cronista, que gentilmente nos cedeu, a nós do Centro de Monitoramento do Léxico, este e os demais parágrafos, voltava a Aracaju no último domingo à tarde, e, ao passar pelo Abaís, leu o seguinte numa placa indicativa às margens da rodovia estadual: “ACESSO Á PRAIA”.

A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi escrever uma crônica sobre o desconhecimento das normas alusivas à crase, e estávamos presentes quando o anunciou, em tom indignado, a um grupo de pessoas no botequim que fica aqui ao lado da repartição; sim, estávamos lá, mas em horário de folga, que fique claro, pois temos responsabilidade, como bem sabem nossos chefes.

Ora, leitores fiéis que somos do senhor cronista, não ignorávamos que ele recentemente tratara do assunto. Explicamos-lhe o que de fato ocorrera. Agradecido, livre de uma eventual pecha de monotemático, pagou-nos uma rodada de cachaça e disponibilizou quantas laudas desejássemos para fins de esclarecimento ao público.

Passemos à placa. Respeitou-se a norma culta, ao contrário do que imaginou o artífice da palavra. Aliás, conhecemos o pintor do letreiro, homem suficientemente instruído para não cometer erros gramaticais infantis. A verdade, a prosaica verdade, é que uma rajada de vento girou a crase sessenta graus no sentido horário, deixando-a com o aspecto de um acento agudo. As letras não voaram, mas um ponto de exclamação, colocado ali a título de exortação ao desfrute das águas do Abaís, decolou e atingiu um dos travessões de um campo de futebol.

Não houve mortos nem feridos, só gente espantada. De outra parte, tomamos conhecimento de mais episódios de desarranjo climático aqui e alhures, com reflexos na comunicação falada e escrita. Citemos alguns.

Palavras ao vento.

Precipitações sem trégua. Águas pluviais arrastaram vários sinais de pontuação: sujeitos viraram vocativos, frases ganharam sentido oposto ao original. Reticências se esparramaram pelo chão feito granizo miúdo, tornando tudo escorregadio.

Expulsas de suas citações por redemoinhos, aspas encapsularam palavras alheias. (Esse itálico, a propósito, não foi obra nossa, mas sim de um repentino vento oeste enquanto escrevíamos.)

Deslizamentos prefixais represaram o fluxo da prosa. “Desculpar”, por exemplo, perdeu o des (itálico sem ação eólica), que, por sua vez, amalgamou-se com “entendimento”. Teve até filosofia por aluvião de substantivo composto: “Não se nasce porco-espinho, mulher; torna-se.”

Em decorrência de um sismo, construções sólidas vieram abaixo e soterraram polissemias e contextos, cujos corpos ainda são buscados.

Com a mudança do tempo, verbos abandonaram os modos. Concordâncias esgarçaram-se. Diálogos pegaram fogo, e a fuligem vocabular cerrou o horizonte.

Diante do exposto, leitores, recomendamos cautela ao expressar-se até que a massa de ar sufocante vá embora e o sol derrogue o chumbo das nuvens. Seguimos monitorando.

Quanto ao arremedo de acento agudo na placa do Abaís, não se moveu um milímetro apesar de todo o frenesi de birutas.

Tudo isso informamos ao senhor cronista, que acatou nosso relato quase sem reservas. Digo quase porque, depois do segundo aperitivo, ele resvalou para uma reflexão absurda (deve ser mal de quem escreve o gênero menor de literatura). Reproduzo-a: “Penso que o vento girou a placa cento e oitenta graus. Vamos imaginá-la na posição anterior. À primeira vista, a crase deslocada é o rabicho de um A invertido, mas este, na verdade, é a letra final de um alfabeto que remete ao nosso de ponta-cabeça e de trás para frente. Tratase de uma linguagem aparentemente indecifrável, sem sentido, essa do mundo de pernas para o alto. Mas basta uma rotação lateral do tronco, meus amigos, uma inversão axial da nossa cachola, ainda que por uns poucos momentos, para se enxergarem as coisas de um ângulo diferente, e tudo ficar compreensível.”

Logo em seguida, entretanto, o senhor cronista balançou a cabeça como quem diz “deixa pra lá”, e – provavelmente outro mal do ofício – empurrou a filosofia de botequim goela adentro com mais uma dose de cachaça.

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