3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Bartolomeu Cremonezi (Categoria Crônica)

SOBRE O AUTOR:
Bacharel em Letras com habilitação em Estudos Literários pela UFMG, atua como jornalista e tradutor freelancer. Apaixonado pelo universo do livro em suas mais diversas formas, dedica-se à escrita e à apreciação da literatura. Atualmente, planeja a abertura de sua própria livraria-café em Miami, unindo sua paixão pelas letras ao empreendedorismo cultural.
O TEXTO:
A exuberância do subsolo
Confesso — e o confesso com a leve vertigem dos que já viram demasiados corredores repetirem-se — que o nome de Franz Kafka, repetido à exaustão em caféslivrarias, em cada sala universitária ensimesmada, começa a soar-me como um trinco enferrujado: abre portas sempre para os mesmos corredores estreitos, os mesmos pesadelos administrativos, os mesmos homens miúdos esmagados por engrenagens que jamais ousam nomear. É um ranger recorrente, um roçar de ferrugem contra ferrugem, um ritual de reverência que já não reverbera — apenas ressoa. A obsessão com sua figura — tão desproporcional ao seu engenho — é, para mim, um dos sintomas mais evidentes da miséria estética da modernidade. Uma modernidade que prefere o mofo ao mistério, o método ao milagre, o diagnóstico ao delírio.
Quando percebi isso com nitidez? Foi numa manhã, tépida e imóvel, dessas em que a metrópole ainda boceja sob a luz oblíqua, que essa percepção amadureceu. Despejei o café lentamente na xícara, deixando que o fio escuro se derramasse com gravidade e silêncio, espesso, contínuo, quase solene. O líquido cascateava em filigranas escuras, desfiando-se em eflúvios translúcidos de âmbar e névoa, formando no fundo da porcelana um redemoinho discreto — um pequeno vórtice doméstico onde o tempo parecia repousar. Subia dele um aroma terroso, com leve acento mineral, como se a própria raiz da terra se dissolvesse no ar, depositando uma memória antiga e subterrânea.
Apoiei a xícara sobre a mesa e observei, por um instante, o vapor elevar-se em espirais tênues — um avantesma doméstico dissolvendo-se na claridade dourada de janeiro — e só então tomei Bruno Schulz nas mãos. Belo Horizonte parecia suspensa naquela luz oblíqua, quase imóvel, como se a cidade respirasse em compasso lento. O calor pulsava nas paredes,
como um coração oculto nas alvenarias, e eu sabia que, quando o sol baixasse um pouco, caminharia pelas ruas em silêncio, deixando que o pensamento se dilatasse como sombra no asfalto. Há rituais assim: breves pactos com o tempo para que ele não nos evapore. Pequenas cerimônias sem testemunhas, onde o mundo exterior se retrai e o interior começa, imperceptivelmente, a expandir-se.
Mal avancei algumas páginas, e já me senti discretamente extasiado. Não foi um entusiasmo ruidoso, mas uma espécie de reconhecimento súbito: a linguagem ali pulsava com uma densidade imagética e uma vitalidade sensorial que me capturaram de imediato. Havia naquele tecido verbal uma exuberância orgânica — quase febril — que me ofereceu, sem alarde, um fascínio mais intenso do que qualquer obra de Kafka até então me proporcionara.
Não me acusem de heresia antes que terminem a leitura. Não nego a inteligência de Kafka, tampouco ignoro a relevância de sua linguagem rarefeita e da atmosfera que paira como neblina sobre suas páginas. No entanto, sua prosa, por mais que se pretenda abissal, opera num regime de contenção — ela asfixia, mas não transcende; angustia, mas não transforma. Trata-se de um universo árido, por vezes engenhoso, mas profundamente empobrecido em imaginação sensorial, em força metafórica, em delírio verbal. É uma arquitetura da falta: paredes nuas, corredores nus, consciências nuas. Tudo ali range, mas nada floresce.
O que me espanta é que, enquanto Franz Kafka se converteu em uma espécie de "santo padroeiro" da alienação burguesa, Bruno Schulz — seu gêmeo-siamês da misantropia, seu conterrâneo do infortúnio artístico — permaneça como um sussurro entre acadêmicos.
E, no entanto, tudo o que falta ao tcheco sobra ao polonês: Schulz escreve como quem sonha, e sonha como quem invoca os mitos originais da infância, do parentesco e do tempo. Sua prosa é um organismo vivo — respira, reverbera, retorce-se; pulsa, precipita-se, petrificase e renasce. Onde Kafka oferece um labirinto plúmbeo, Schulz ergue uma catedral gótica em ruínas, com vitrais vibrantes, véus aveludados e recoberta de musgo e memória. E nessa catedral não há fiéis sentados em fileiras dóceis: há pássaros empoleirados nos altares, há insetos zumbindo sob as abóbadas, e um pó argênteo que dança no ar como se cada partícula fosse uma sílaba à espera de sentido.
Na literatura de Bruno Schulz, as ruas de Drohobych não são físicas: são nervuras de um cérebro onírico. O pai não é apenas pai: é pássaro, é mosca, é lagostim, é matéria em metamorfose. A cidade curva-se, contrai-se, cresce como um organismo febril. Há uma melancolia macerada, um erotismo sussurrado, uma fantasia judaica que se infiltra nas paredes e nos pombais como incenso antigo. Lê-lo é desacelerar deliberadamente — saborear sílaba por sílaba como quem sorve o último gole de café já frio, e o amargor revela, paradoxalmente, seu aspecto melífluo e denso. É aceitar que as casas têm pulmões, que os armários murmuram, que as escadas rangem reminiscências. É consentir que a infância não é passado, mas subsolo — um subterrâneo cálido onde ainda fervilham as formas primeiras do mundo.
Li sua obra como quem abre um grimório secreto — cada página um feitiço, cada metáfora uma blasfêmia delicada contra a lógica e os paradigmas. Schulz não escreve: ele transfigura. A realidade em sua pena torna-se um fluido espesso, carregado de simbolismo e erotismo arcaico, como se o mundo físico fosse apenas o molde oco de uma cosmogonia esquecida. Seus personagens não são arquétipos de ansiedade burocrática, mas entidades híbridas — metade homem, metade memória — que vagam por paisagens em colapso, como sonhos prestes a acordar. E nesse colapso há esplendor: as coisas desmancham-se não por decadência, mas por excesso — excesso de sentido, excesso de imaginação, excesso de vida.
Há em sua sintaxe uma síncope secreta, uma música subterrânea feita de sussurros e sopros, de silvos e sombras. As palavras se encadeiam como um colar de pérolas, criando uma cadência que exige do leitor não pressa, mas presença. É literatura que espessa o tempo — que o condensa até que cada segundo pese como um século. Cada frase parece cavar, com paciência quase litúrgica, um túnel na superfície banal do real, até que, do outro lado, irrompa uma luz oblíqua, fosforescente, quase orgânica.
Afirmar que Bruno Schulz é maior do que Franz Kafka pode soar como uma opinião dissimulada, proferida apenas para gerar curiosidade ou provocar reação imediata. Ainda assim, sustento a afirmação. No que concerne à alquimia das imagens, ao gênio verbal, à visão verdadeiramente cosmológica da linguagem, Schulz é superior — e sua obscuridade editorial é um escândalo que denuncia a preguiça dos leitores e a covardia dos críticos especializados. Kafka, domesticado, tornou-se palatável; Schulz, indomável, permanece à margem — e por isso mesmo, ainda intacto. Intacto como uma raiz que cresce na escuridão, longe dos jardins oficiais, longe das vitrines acadêmicas, longe do aplauso protocolar.
Vivemos numa época que confunde angústia com profundidade, cinismo com lucidez, e trauma com transcendência. É natural, portanto, que Kafka, com sua lógica claustrofóbica, encante tanto os filhos da sociedade de desempenho. Mas é precisamente por isso que precisamos de Schulz — para nos lembrar que a literatura é mais do que diagnóstico; é também feitiço, fulgor, febre e fábula. Mais do que espelho, é incêndio; mais do que relatório, é revelação.
E se a história literária insiste em exumar o mesmo cadáver ilustre para mais uma missa de corpo presente, eu — por desobediência, e por fé — continuo acendendo velas ao fantasma vivo de Bruno Schulz, cuja obra é um relicário de assombros e uma das poucas provas de que a linguagem, quando verdadeiramente livre, ainda pode ferir os deuses. Ferir — e ao mesmo tempo fecundar — como uma lâmina que sangra luz.
Duas portas abrem-se hoje, para quem desejar cruzar esse limiar: Lojas de Canela e Outras Narrativas e Sanatório Sob o Signo da Clepsidra, ambas publicadas pela Editora 34 com a tradução magistral de Henryk Siewierski. No primeiro, reencontramos a infância transfigurada em mito, o pai que levita, as casas que respiram, os pombos que anunciam o delírio. No segundo, a tessitura se adensa: o tempo se curva, o espaço vacila, e a sanidade cede lugar a uma alegórica biografia. Ambos os volumes transbordam o lirismo telúrico, de pulsação visceral, que somente Schulz soube domar — e são, cada um à sua maneira, mapas
não de territórios fixos, mas de vertigens; não de fronteiras, mas de fendas; não de certezas, mas de câmaras secretas onde a linguagem ainda pulsa — primordial, eternamente indomada.





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