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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Bruna de Araujo Rossetti (Categoria Crônica)

há 3 dias
3 min de leitura

SOBRE A AUTORA:


Sou Bruna de Araujo Rossetti, advogada especialista em Proteção de Dados, Família e Sucessões e Direito Notarial e Registral, e, desde a infância, leitora apaixonada.  


Ao longo dos anos, os clássicos conquistaram um lugar cada vez mais importante na minha relação com a literatura e com a vida, não apenas pelo valor de suas histórias, mas pela maneira como nos fazem pensar sobre o mundo e sobre nós mesmos. 


Interessa-me compreender o que há por trás de cada obra, as ideias que as atravessam e as perguntas que continuam a despertar. É desse interesse, sempre renovado, que nasce a minha dedicação à leitura e à escrita.



O TEXTO:


Dois olhos e uma tela


Não sei se o leitor já reparou que o século, esse cavalheiro apressado, ensinou-nos a grande arte de estar em toda parte, exceto onde estamos.

É um progresso notável! Veja que, antigamente, para ausentar-se, era preciso sair, hoje, basta inclinar o pescoço.

Faço tal reflexão porque, há dias, sentei-me num café com a única intenção de não pensar em nada, propósito nobre e raramente alcançado, e foi quando meus olhos, desocupados, portanto, perigosos, detiveram-se num casal à mesa vizinha.

Eram duas pessoas honestamente dispostas a conversar. A disposição via-se no modo como se sentaram, frente a frente, sem barreiras físicas, como manda o antigo protocolo dos afetos. Entre eles, duas xícaras e uma promessa.

— Preciso te contar uma coisa — disse ela.

Ora, leitor, não há frase mais grave! “Preciso te contar” é o prelúdio das confissões, das revelações que alteram destinos ou, ao menos, tardes.

Ele compôs no rosto a expressão adequada, mistura de interesse e ligeira apreensão. Estava pronto.

Foi quando o telefone dele, pousado sobre a mesa como um animal doméstico maleducado, acendeu-se. Não vibrou apenas, insinuou-se. E ele lançou-lhe um olhar breve, desses que pretendem dizer “agora não”, mas a modernidade não aceita negativas tão suaves.

O brilho persistiu.

— Só um segundo — pediu ele.

O segundo, leitor, é hoje a unidade oficial da eternidade.

Ela aguardou com paciência civilizada, não cruzou os braços nem suspirou. A educação, já disse alguém, é a forma social da renúncia.

Quando ele voltou, pediu desculpas com um sorriso contrito, o sorriso dos que sabem estar errados e, ainda assim, repetirão o erro.

— Como eu dizia… — retomou ela.

Mas a justiça tecnológica é imparcial. O telefone dela resolveu manifestar-se também, talvez ofendido por tamanha precedência concedida ao rival. Vibrou com autoridade, sabendo que seria atendido pela insistência.

— É rápido — murmurou ela, repetindo a fórmula mágica que absolve todas as ausências.

E assim se estabeleceu entre ambos uma alternância curiosa: falavam em capítulos curtos, interrompidos por consultas ao oráculo digital. A conversa parecia um romance publicado em folhetins, sempre à mercê do próximo anúncio.

Observei o fenômeno com interesse científico. Não se tratava de desamor. Havia carinho nos gestos, leveza no tom, nos sorrisos e até risadas ocasionais. O que faltava era continuidade, essa linha invisível que liga um pensamento ao outro como quem atravessa uma ponte sem cair no rio.

Em dado momento, a conexão do café falhou, e o mundo virtual retirou-se, como um ator ofendido. Foi, então, que vi algo comovente, os dois ficaram a sós. Não a sós como quem escolhe, mas como quem é surpreendido.

Ele olhou em volta, talvez na esperança de que o sinal estivesse escondido atrás do açucareiro. Ela mexeu na xícara, estudando o fundo como se ali estivesse a resposta para a condição humana.

O silêncio que se instalou não era cúmplice, era órfão.

— Caiu a internet — constatou ele, como quem anuncia uma tragédia doméstica.

— Que estranho — respondeu ela.

Estranho, sim. Ficar apenas um diante do outro, sem a plateia invisível do mundo, tornou-se experiência exótica.

Quando a conexão voltou, e voltou com a pontualidade dos deuses que gostam de ser implorados, houve nos dois um alívio quase imperceptível, mas real. As telas reacenderam-se e o assunto urgente que ela precisava contar dissolveu-se na abundância de assuntos alheios.

Pagaram a conta, levantaram-se e abraçaram-se com afeto sincero; não lhes nego sentimento. Caminharam lado a lado, cada qual com a cabeça levemente inclinada para o próprio retângulo luminoso.

Pareciam unidos por um laço invisível e separados por um hábito visível.

Fiquei pensando se o futuro escreverá tratados sobre esta nova forma de presença intercalada. Talvez digam que evoluímos, que agora somos capazes de amar alguém e, simultaneamente, o mundo inteiro.

Não discuto a façanha, apenas observo o custo.

Antigamente, quando duas pessoas conversavam, o universo reduzia-se ao tamanho da mesa. Hoje, o universo inteiro cabe na palma da mão e a mesa é que se torna pequena.

Não afirmo que a conversa tenha morrido, sou avesso a obituários precipitados, mas suspeito que ela esteja sendo praticada em regime de meio expediente, e temo que, um dia, alguém diga “preciso te contar uma coisa” e a coisa, cansada de esperar, desista.

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