3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Camila Vital Menegaz Handschunch (Categoria Conto)

SOBRE A AUTORA:
Sou gaúcha de Porto Alegre e vivo em São Paulo. Formada em Jornalismo, construí minha trajetória profissional na área da comunicação corporativa, sempre tendo as palavras como principal ferramenta — acredito muito no poder que elas têm de conectar pessoas, preservar memórias e transformar realidades. Trabalho como ghostwriter, profissão perfeita para quem, como eu, acredita que há histórias por toda parte. Sou autora do livro infantil A Cidade da Joaninha, inspirado nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Atualmente, finalizo um romance sobre os onze dias em que a escritora Agatha Christie – uma das minhas autoras favoritas - esteve desaparecida em 1926, enquanto outro romance, inspirado por uma frase que ouvi em um programa de televisão, espera sua vez para ganhar vida no próximo ano. Minha maior inspiração na vida é o meu filho, Caio, mas, como boa contadora de histórias, estou sempre atenta: uma conversa, uma lembrança, uma pessoa ou um acontecimento qualquer podem ser o começo da próxima narrativa.
O TEXTO:
O que não cabe mais
Eu forcei as rodas da cadeira e elas se moveram com facilidade até a janela do quarto. O dia estava exatamente como eu gostava: temperatura amena, sol abundante, poucas nuvens no céu. Abri o vidro e respirei fundo; meses atrás, em um dia como hoje, eu estaria no pátio do condomínio, tomando chimarrão com os vizinhos e dando risada de piadas bobas. Mas os sábados de sol no jardim haviam se transformado em intermináveis tardes de fisioterapia na sala clean da minha casa.
Olhei com atenção para minha imagem refletida no vidro. Eu não podia me ver muito bem por conta do reflexo, mas sabia que tudo ainda parecia igual: meus cabelos castanhos claros, lisos e grossos como os da minha mãe, marcados por mechas douradas que corriam
junto ao meu rosto e terminavam na altura do ombro. Meus grandes e brilhantes olhos verdes, minhas bochechas salientes, as sobrancelhas escuras que contrastavam com minha pele clara. O sorriso era minha marca registrada, costumavam dizer meus amigos em um tempo que, agora, era apenas uma névoa na minha memória.
Eu praticamente não sorria mais, embora estivesse cansada de chorar. Os últimos meses tinham me levado ao fundo do poço. Nunca contei a ninguém, mas nos primeiros dias em casa, decidi acabar com aquilo em definitivo. Os comprimidos estavam à mão no banheiro e eu cheguei a escrever uma carta de despedida, mas desisti antes de guardar o papel no envelope. Não podia causar mais este sofrimento à Luana, que mal havia entrado na préadolescência e já precisava enfrentar uma barra de adulto por tudo que estava acontecendo comigo. E a decepção que eu causaria ao Rafa com o meu acovardamento? Meu marido era capaz de compreender qualquer coisa, mas não isso. Eu rasguei o papel em pedacinhos, joguei no vaso e puxei a descarga. No fundo, eu não tinha coragem de me matar. Eu sempre tive medo da morte, eu amava viver! E tinha vivido intensamente até então.
***
Eu sentia o maior orgulho do nosso apartamento. Tínhamos raspado nossas poupanças para comprá-lo e nos endividado até a alma para mobiliá-lo, mas, para mim, aqueles anos de vacas magras, em que tudo que ganhávamos era usado para pagar empréstimos e financiamento, tinham sido de profunda alegria. Cada móvel que chegava, cada bibelô, como meu marido chamava, e cada vaso que eu colocava em alguma prateleira me causavam um prazer imenso. Como era bom brincar de casinha! Tão bom que, em pouco tempo, não havia mais lugar para nada. Tínhamos tantos móveis, que mal sobrava espaço para a circulação. Mas nós não nos importávamos. Na verdade, naquele tempo, não
podíamos nos sentir mais felizes. E nós ainda nem sabíamos, mas logo estaríamos decorando um quartinho de bebê.
Minha bolsa rompeu em uma tarde quente e ensolarada de segunda-feira. Era maio de 2001 e fazia um daqueles veranicos comuns a essa época do ano em Porto Alegre. Eu sentia mais calor do que o normal e muita dificuldade para respirar por conta do barrigão. Não tinha muito ânimo para sair de casa e, mesmo que eu tivesse, o Rafa não permitiria: ele morria de medo que a bolsa estourasse enquanto eu caminhava e que a Luana nascesse na calçada mesmo, de cabeça no chão.
Eu passava a maior parte do tempo sentada no sofá, assistindo à televisão. Naquele dia, o jornal da tarde falava sobre racionamento de energia elétrica no Brasil. Lembro bem disso, porque fiquei pensando no que faríamos sem luz com uma recém-nascida em casa, e foi exatamente naquela hora que senti uma água escorrendo pelas minhas pernas, encharcando meu sofá branco. Gritei pelo Rafa, que veio cambaleando, com cara de sono (era seu primeiro dia de férias e ele tinha programado dormir a tarde toda, já prevendo as
noites em claro que estavam por vir).
- Estourou a bolsa!
- Vai nascer? – ele gritou, quase em desespero.
- Daqui a pouco! Mas agora corre e pega uma toalha que o sofá está todo molhado. Esse negócio vai manchar!
Dois dias depois, quando voltamos do hospital com a Luana, descobrimos que era impossível circular com o carrinho de bebê pela sala. Os espaços que tínhamos deixado para passagem eram estreitos demais e não tínhamos como levá-lo de um lado para o outro sem afastar alguma coisa do caminho. Toda vez que íamos com a Luana do quarto para a sala, um de nós guiava o carrinho e o outro empurrava os móveis para o lado. Rafa e eu ríamos muito disso. Era trabalhoso e, por vezes, até ficávamos irritados com toda a função, mas nunca pensamos em nos desfazer de nada.
Os primeiros passinhos da Luana tiveram como apoio o conjunto de estofados da nossa varanda. Lembro como se fosse hoje do momento em que ela se segurou na cadeira, ergueu o corpinho e ficou de pé, parada, como se estivesse pensando sobre o que fazer.
Então, de repente, as mãozinhas soltaram o móvel e ela saiu caminhando, meio cambaleante, até onde eu estava sentada. Foram três passos rápidos, mas decididos. Quando chegou até mim, encostou o queixo nos meus joelhos e soltou aquele riso ainda meio banguela. Peguei minha filha no colo e saí dançando com ela pela varanda para celebrar aquela conquista. Sem ir muito longe, claro, porque espaço por ali era pouco.
Foi naquela sala abarrotada que a Luana aprendeu a caminhar. Os poucos lugares livres não foram problema para ela, que explorava cada cantinho disponível como se estivesse em um grande castelo. Por aquela época, eu já tinha me desligado do escritório onde trabalhava para me dedicar à minha filha e pude acompanhar cada queda e cada avanço daquela fase. Nunca precisei tirar nada do lugar. Ela olhava com admiração para todas aquelas coisas coloridas, mas, nas poucas vezes em que se aventurou a tocá-las, ouviu minha voz suave, porém firme, avisando que não era para mexer ali.
Nossa filha cresceu, nossa sala ganhou um ou outro item novo, alguns móveis foram trocados, mas aquele lugar continuou sendo nosso porto seguro, o nosso espaço, com a nossa cara. Até o dia em que eu saí de casa para fazer um procedimento estético e voltei em uma cadeira de rodas.
Não sei dizer muito bem quando foi que aconteceu. Rafa, minha mãe, Bete... Eles foram bastante habilidosos em fazer tudo parecer muito natural e eu demorei a perceber o que se passava. Talvez o Rafa tenha tomado essa decisão pouco depois de eu ter alta do hospital, quando decidi sair da cama para jantar na sala. A cadeira não passou pelo espaço mínimo de circulação que havia entre o móvel da TV e a mesa. Rafa teve de me levar no colo até lá, depois me carregou até o sofá e, então, de volta para o quarto.
E assim foi nos dias que se seguiram – carregada no colo de um lado para o outro. Eu me negava a pensar no quanto aquilo afetava minha independência - eu achava que logo voltaria a andar e que aquela não passava de uma situação provisória. Mas o Rafa precisava voltar ao trabalho, depois de ter pedido uma licença para ficar um tempo comigo, e como eu faria sem ele? Então, um dia, Bete guardou metade dos meus itens de decoração. ‘Mais fácil para limpar’, ela disse. Logo em seguida, a mesinha de centro da sala de tevê desapareceu. O conjunto de estofados da varanda, aquele mesmo que ajudara a Luana a dar seus primeiros passos, foi reduzido a apenas uma cadeira, e o balcão da churrasqueira, trocado por outro menor. O aparador que ficava atrás do sofá foi levado para o corredor, e dali não sei para onde. A fileira de prateleiras, cheia de vasos e bibelôs, que ficava na parede ao lado da porta da cozinha, também foi retirada. Em pouco menos de duas semanas, tínhamos uma sala clean, como o Rafa passou a dizer, com um excesso de animação que não me convencia.
Finalmente, a minha cadeira passava por tudo e eu não dependia de mais ninguém para circular pela casa, mas a minha vontade de estar naquele lugar se foi junto com os móveis descartados. Perder a minha sala foi como perder o meu passado e, no fim das contas, isso não era só uma metáfora – era a concretização do fato de que a pessoa que eu costumava ser também não cabia mais ali.
***
A campainha tocou na sala e me tirou do transe em frente à janela. O reflexo continuava lá, me olhando. Definitivamente, eu não era mais a mesma mulher de 37 anos que, seis meses antes, deitara, confiante, em uma mesa de cirurgia para um procedimento que prometia ser simples. Eu esperava acordar poucas horas depois e ir para casa no final do dia. Com alguns cuidados, em uma semana eu estaria de volta ao trabalho e à rotina alucinanteda área comercial. Despertei uma hora depois, na sala de recuperação, sem sentir as pernas. “É normal”, disseram as enfermeiras. Mas as horas passaram e nada mudou. Eu não mexia as pernas e não conseguia fazer xixi. O médico estranhou. O anestesista foi chamado. Especialistas foram consultados às pressas. Exames foram feitos. E a minha vida mudou ali mesmo, ainda na cama do hospital, com a notícia de que um erro na aplicação da anestesia havia causado uma lesão na minha medula, que estava impedindo minha bexiga e minhas pernas de funcionarem normalmente.
- O Daniel está aqui! – gritou o Rafa, me alertando sobre a chegada do fisioterapeuta.
Eu não tinha nenhuma vontade de percorrer o corredor até aquela sala que eu não reconhecia mais, mas, mesmo assim, levantei minha perna direita com as mãos, a coloquei dobrada sobre meu joelho esquerdo e comecei a tirar os sapatos. Não era uma tarefa difícil, mas eu ainda precisava me esforçar para concluir. Por fim, girei a cadeira e um arrepio familiar atravessou minha espinha. Isso acontecia toda vez que minhas mãos tocavam o metal frio daquelas rodas.
Minha jornada até a sala não encontrou nenhum obstáculo. A cadeira circulou fácil até lá, como se aquele sempre tivesse sido o seu lugar. Ela cabia perfeitamente na minha casa.
Quem não cabia mais era eu.





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