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3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Carlos Olavo Lima (Categoria Crônica)

há 4 dias
7 min de leitura

SOBRE O AUTOR:


Carlos Olavo Lima é escritor, empresário, pesquisador comunitário, suboficial da Marinha na reserva e presidente da AMBRI — Associação de Moradores do Bairro da Ribeira, em Natal, Rio Grande do Norte. Sua escrita nasce da própria vida: das experiências que atravessou, do território onde escolheu permanecer, das memórias que carrega e da convicção de que certas histórias não podem continuar sendo silenciadas.

É autor do livro Não Nascemos para Ser Silêncio, obra construída a partir de uma trajetória marcada pelo enfrentamento ao racismo estrutural. Primeiro, essa realidade se apresentou dentro da instituição onde serviu. Mais tarde, já na reserva e vivendo de forma mais próxima o cotidiano no bairro da Ribeira e na cidade Natal - RN, Carlos passou a perceber que muitas das situações que havia experimentado individualmente faziam parte de algo maior, presente também nas relações sociais, na organização da cidade e na forma como sua história foi e é contada.

Nesse encontro entre experiência pessoal e território que sua  voz ecoa  através da escrita.  Olhando para a Ribeira e  a formação da cidade, passou a questionar  a exclusão e o apagamento da presença negra e a ausência, na narrativa oficial, de tantas pessoas que trabalharam, construíram e sustentaram a cidade, mas não aparecem como protagonistas de sua história.

Carlos também é autor da crônica “No braço do Potengi”, semifinalista na categoria Crônica da 3ª edição do Prêmio Prata da Casa, da Casa Brasileira de Livros. No texto, a memória da cidade e sua própria vivência se encontram para revelar uma Ribeira formada pelo trabalho, pela presença negra e por sucessivas camadas de silenciamento e apagamento. A crônica nasce, como ele próprio escreve, de um “acúmulo de território, de história e de vivência”, fazendo da literatura uma forma de preservar a memória, provocar reflexão e resistir ao esquecimento.

Mas sua atuação não termina na escrita. À frente da AMBRI, Carlos participa diretamente da mobilização dos moradores, defesa do patrimônio,   memória dos povos originários, memória ancestral africana no território,  meio ambiente e do direito à cidade. Foi também a partir dessa atuação que projetou e conduziu a investigação comunitária que resultou no Relatório de Constatação — Lançamento de Esgoto no Estuário do Rio Potengi com mais de 300 páginas, elaborado com base em inspeções de campo, textos,  registros documentais e evidências reunidas pela AMBRI.

Durante essa investigação, a comunidade recuperou parte da história do sistema de saneamento de Natal, concebido na década de 1930 pelo Escritório Saturnino de Brito e estruturado em três grandes coletores: CG-1, CG-2 e CG-3. O sistema havia sido planejado para conduzir o esgoto à depuração antes de seu lançamento no rio Potengi.

A investigação revelou, porém, uma realidade que atravessou décadas mais de 90 anos e ainda em 2026, o CG-1 não estava efetivamente conectado à estação de tratamento. O fluxo de esgoto alcançava a drenagem pluvial e seguia até o estuário do rio Potengi, onde era lançado sem tratamento.

As evidências foram levadas aos órgãos públicos, provocando fiscalização e denúncia institucional. Como consequência desse processo, teve início, após a denúncia, a obra de conexão do CG-1 ao sistema de tratamento da ETE do Baldo. Uma investigação nascida dentro da comunidade conseguiu, assim, trazer à luz um problema histórico e contribuir para uma mudança concreta na infraestrutura sanitária da cidade.

Esse percurso ajuda a explicar a unidade entre aquilo que Carlos Olavo escreve e aquilo que faz. Literatura, pesquisa e ação comunitária não aparecem, em sua trajetória, como caminhos separados. Todos partem da mesma inquietação: revelar aquilo que foi escondido, recuperar aquilo que foi apagado e dar espaço a quem durante muito tempo permaneceu sem voz na narrativa da cidade.

Para Carlos Olavo Lima,  escrever,  investigar,  participar e colaborar com a vida pública são formas diferentes de fazer a mesma coisa: recusar o silêncio.




O TEXTO:


No braço do Potengi


A Ribeira nasceu no braço do Potengi, um braço que hoje não existe mais.

Durante o período colonial e boa parte do regime escravista, o rio avançava por ali como passagem estreita, rota de trabalho e circulação cotidiana. Não era o Potengi largo, aberto e contínuo que hoje se observa à distância, mas um desdobramento menor, quase discreto, que se infiltrava no território e organizava a vida prática da cidade que ainda estava sendo formada.

Esse braço não apenas sustentava a cidade: ele a separava. A água funcionava como fronteira social. De um lado, a Ribeira e as Rocas, territórios do trabalho, do comércio, da circulação popular e da presença negra. Do outro, a Cidade Alta, planejada para abrigar o poder administrativo, religioso e político. A divisão era clara, física e intencional. Para sair da Ribeira ou das Rocas em direção à Cidade Alta, era preciso atravessar o braço do rio. O percurso não era apenas geográfico; era social.

Foi nesse contexto que a Ribeira começou a existir. Antes de ser bairro, foi mangue, foi função. Antes de ser endereço, foi serviço. Armazéns, trapiches, depósitos, pequenas embarcações atracadas com regularidade. A cidade crescia apoiada nesse trecho de água que não tinha prestígio simbólico, mas tinha utilidade constante. O chão trabalhava antes mesmo de ser reconhecido como cidade.

Nada disso existiu sem gente. O braço do rio não operava sozinho. Foram braços humanos, sobretudo braços negros, trazidos à força da África, que sustentaram a construção da cidade. Quando os portugueses consolidaram o domínio do território, expulsaram os holandeses e ergueram o forte que marcaria definitivamente a posse da Coroa, não foram eles que carregaram pedra, madeira ou cal. A cidade foi construída por mãos escravizadas. O poder apenas assinou a posse do que já estava de pé.

Antes de ser Rio Grande do Norte, o território era conhecido como Rio Grande.

Antes disso, integrava a lógica administrativa de Pernambuco. Os nomes mudavam conforme os interesses da metrópole, mas a estrutura permanecia. A cidade se organizava sobre o esforço contínuo de quem não tinha nome nos registros, nem voz nas decisões, nem

memória preservada nos livros oficiais. A Ribeira e as Rocas faziam parte desse sistema: lugares de trabalho intenso, circulação constante e vigilância permanente.

A cidade se estruturava a partir de pontos estratégicos. Na foz do rio, o Forte dos Reis Magos garantia a proteção militar do território. Mais ao alto, onde hoje se assenta Mãe Luiza, um farol orientava a navegação. Do mar aberto, era aquela luz que anunciava o continente. Era ali que os navegantes se guiavam, ontem e hoje. O forte defendia. O farol orientava. Ambos serviam a quem vinha de fora.

Já o braço do Potengi organizava quem ficava. Era ele que sustentava o cotidiano, o trabalho e a circulação interna da cidade. Enquanto a elite olhava para o mar, para o horizonte e para as rotas internacionais, a cidade se resolvia no braço do rio, entre a Ribeira e as Rocas, no vaivém silencioso do trabalho diário.

O Brasil se construiu assim. Por braços. Braços de rio e braços humanos. O que parecia periférico sustentava o essencial. O que ficava à margem fazia o centro funcionar. A Ribeira não foi exceção. Foi regra. Foi método.

Com o crescimento da cidade, o braço do Potengi passou a ser visto como obstáculo.

Dificultava o tráfego, impunha limites visíveis à circulação e tornava incômoda uma divisão social que sempre existiu, mas que começava a atrapalhar o fluxo econômico. A solução encontrada não foi repensar a cidade, mas alterar o território.

O braço do rio foi sendo contido, depois coberto e, por fim, aterrado.

Onde havia água, passou a haver chão firme. Onde havia fronteira, abriu-se passagem. O aterramento facilitou o trânsito entre Ribeira, Rocas e Cidade Alta. A circulação aumentou, o comércio se expandiu, as distâncias diminuíram. Mas essa aproximação teve um efeito imediato e previsível: a elite, percebendo a perda da separação simbólica, decidiu se afastar novamente.

Foi assim que surgiu Petrópolis. Não como consequência natural do crescimento urbano, mas como deslocamento estratégico. A elite moveu-se para o interior, afastando-se da beira do rio e da beira do mar. Buscou altitude, distância e controle. Enquanto isso, os territórios populares permaneceram. A Ribeira, as Rocas e, mais adiante, Mãe Luiza se consolidaram como espaços de permanência, trabalho e resistência cotidiana.

Durante um período de trabalho em uma instituição naval instalada justamente na entrada do antigo braço do Potengi, o território passou a se revelar de outra forma. Estar diariamente naquele ponto — onde hoje há terra firme — tornava visível o que os mapas atuais escondem. Ali, por muito tempo, estiveram fundeadas embarcações que garantiam o

domínio do território. A função era vigiar, ordenar e controlar a circulação.

Mas não era apenas o espaço que se impunha. Inserido naquele ambiente institucional, a presença negra parecia sempre deslocada. O racismo não se apresentava de forma aberta, mas se manifestava nos silêncios, nas expectativas contidas e nas resistências invisíveis. Era o mesmo racismo estrutural que apagou os braços negros da história e que segue operando, de modo discreto, nos lugares de poder.

Foi nesse ponto que a sobreposição se tornou clara. O braço do Potengi havia sido aterrado. As mãos negras que construíram a cidade haviam sido retiradas da narrativa. E, no presente, o desconforto com certas presenças em determinados espaços continuava obedecendo à mesma lógica: silenciar, deslocar, apagar.

Essa percepção levou aos mapas antigos. Um deles, do início do século XVI, ainda desenha com clareza o braço do rio avançando para dentro da cidade. A cartografia confirmava o que o cotidiano já indicava. Onde hoje se pisa, antes corria água. Onde hoje se ocupa espaço, antes se tentou apagar presenças.

Hoje, quem caminha pela Ribeira talvez não perceba, mas pisa sobre camadas de água e de gente.

Mãe Luiza surge nesse mesmo eixo de orientação. O farol, instalado em ponto alto, continuou guiando a navegação ao longo do tempo. A luz que orientava quem vinha do mar também passou a marcar um território de quem ficava. O farol permaneceu aceso. O braço

do rio, já aterrado, tornou-se invisível.

O apagamento muda de nome conforme a época. Já foi progresso, depois modernização. Hoje atende pelo nome de revitalização. O abandono prepara o terreno para que outros ocupem o que foi esvaziado. A Ribeira corre o risco de ser reconstruída mais uma vez sem memória, como se nunca tivesse sido chão de trabalho, de escravidão e de vida.

Foi desse acúmulo de território, de história e de vivência que nasceu uma escrita que se recusa ao silêncio. Porque o silêncio sempre foi parte do projeto. O rio foi silenciado. Os braços foram silenciados. As presenças foram silenciadas.

A Ribeira permanece como evidência incômoda de que nenhuma cidade nasce neutra e de que nenhuma divisão urbana é inocente. O rio foi aterrado. Os braços foram apagados.

Mas tudo aquilo que se tentou esconder continua sustentando a cidade. E sustentar, no Brasil, quase sempre foi a função daquilo que se tentou calar.

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