3º Prata da Casa | CONHEÇA OS SEMIFINALISTAS | Carmine, Gerardo D’Amore (Categoria Conto)

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O TEXTO:
Mas eu respirava
Nasci de noite, no inverno de 1861, em Cachoeira, às margens do rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano.
Levei tantas pancadas antes mesmo de nascer.
A mamãe, coitada, caía, se machucava, comia veneno e porcaria, mas eu não morria. A barriga de mamãe era minha couraça.
Mamãe era casada. Mas não podia aparecer prenha. Eu era o pecado. Porque o marido dela estava na cadeia fazia anos.
A voz de mamãe eu nunca vou esquecer. Eu a ouvia gritar dentro da minha cabeça enquanto estava para nascer. Os pensamentos dela corriam misturados no meu sangue.
— Chama Madalena! — disse mamãe para o tio Angelo.
— Onde ela tá?
— No fim da viela, pras terras de seu Joaquim.
Tio Angelo jogou as folhas de tabaco que vendia sobre o balcão da loja e saiu correndo pela viela. Mamãe trancou o ferrolho da porta do sobrado e subiu as escadas, segurando o lampião com a mão trêmula. Cada degrau era uma vitória. Parou três vezes, mas não desistiu.
— Espera, Madalena vai chegar já já — disse, com uma mão na barriga.
Eu estava ali dentro fazia meses, e mesmo assim não tinha nenhuma intenção de morrer.
Mamãe chegou ao andar de cima com a força do desespero. Diante da cômoda veio uma pontada forte. Parou. Pousou o lampião sobre a cômoda e agarrou-se ao móvel, segurou o fôlego. Alguém bateu à porta da loja. Era a comadre Rita, sempre querendo se meter. Ela não respondeu, gemeu. A contração passou.
Abriu a gaveta e colocou no pescoço o escapulário de dom José Godinho: Nossa Senhora do Carmo.
O crucifixo na parede, sobre a cama, parecia olhar para ela.
— Essa criatura também é filho teu.
Sabia que sozinha não conseguiria. Levou a mão direita ao coração: o peito lhe bombardeava. Sentou-se aos pés da cama e apertou a Nossa Senhora do Carmo.
Perguntou-se se os santos realmente escutavam. O ouro do escapulário parecia pesar mais que a carne, mais que o sangue escorrendo entre as pernas. “Não me deixem sozinha”, pensou.
Mas a oração morreu nos lábios e virou outra coisa:
— O José Godinho não pode saber.
Depois beijou Nossa Senhora do Carmo e se deitou. Fechou os olhos. Viu a própria mãe contando sobre os partos antigos, o eco das palavras dela:
— Quando a noite é longa ninguém pode te ajudar.
Até a vovó Lídia tinha sofrido, mas nunca esteve sozinha.
A mamãe, ao contrário, estava ali comigo no corpo, com o escapulário no peito, os orixás do terreiro e mais ninguém.
— Madalena, quando você chega?
Eu sentia os pensamentos dela cada vez mais meus. E aquilo me dava medo.
Comadre Rita chamou da rua. Mamãe não respondeu. Passou a mão pela barriga, depois tocou o sexo. Sentiu que estava se abrindo. As contrações ficaram mais regulares. O terror ficou entalado na garganta de nós dois.
Ela lembrou do sangue de comadre Quitéria, a mulher do compadre Manoel. Morreu sem abraçar as gêmeas depois de dois dias de agonia. Foi mamãe quem lavou os panos sujos
de sangue.
Mamãe abriu os olhos, não queria morrer, não podia morrer. Por mim, resistia. Eu tremia e não saía.
Com esforço ela se moveu para o centro da cama e agarrou o cobertor.
— No cobertor não.
Puxou ele para o lado e deixou à mostra os lençóis de linho. A comadre Rita gritou de novo o nome dela. Não respondeu.
— Madalena, onde você tá?
Assim como o escorrer do tempo pela janela, cada vez mais escura, o medo não parava. Ia embora com as contrações, mas voltava depois da dor. Mamãe apertou os punhos no linho e fechou os olhos. Sentiu que eu me movia para baixo.
— Estamos bem — disse para mim, mas eu sentia o desespero na voz dela.
Respirar era difícil. Levantou os joelhos por instinto. Pegou um travesseiro, colocou sobre o outro e afundou a cabeça ali. As pernas dobradas tremiam. Sem perceber, as lágrimas escorreram por nós dois.
Então chegaram até mim os pensamentos sujos daquela noite com o armador dom José Godinho.
Três batidas na porta, como fazia o tio Angelo. E o mesmo assobio dele. Mas era Godinho que estava fora da casa, como um garanhão fora do estábulo, sentindo o cheiro da potranca.
A mão dele na boca dela. A mesa da cozinha. A respiração quente no pescoço. Mamãe não resistiu. Não o queria, mas o desejava.
Ela fechou os olhos, levantou a cabeça para o céu agarrada na mesa.
Eles se engancharam.
E ela sentiu aquilo como uma libertação.
Tudo voltou de uma vez só, junto com a dor dos meus chutes, voltou o nó amargo no estômago que nunca tinha ido embora. E eu, uma criatura querendo nascer.
Alguém abriu a porta da rua. O escuro da noite entrou na loja como uma língua de sapo.
— Inês?
— Madalena!
A mulher subiu as escadas correndo. O tio Angelo ficou lá embaixo, na loja.
— Angelo, acende o fogo! Preciso de água quente!
— Tô indo!
Madalena ajeitou a mamãe na cama de barriga para cima. Debaixo das costas pôs um pano quente. Aumentou a chama do lampião e o quarto todo ficou cor de âmbar.
Mamãe, nua na cama, com as pernas abertas, me abriu espaço e esperou.
Tudo ao redor da cama estava banhado de âmbar: a cômoda, o banco, a bacia e o braseiro. O crucifixo ficou encarando nós todos.
Aquele quarto me dava medo.
Tio Angelo estava embaixo, no quintal. Lotou o fogão a lenha com tacho, panelas e uma chaleira. Todos cheios de água.
Mamãe arfava. A Madalena estava diante dela.
— Empurra!… empurra, Inês!… força!… isso!… isso!…
As contrações vieram com todas as estrelas do universo. Mamãe não falava. Para mim, urrava.
— Ahhh!… Ai!… Nossa Senhora!… me ajuda!…
A voz dela trouxe também as comadres. Ana e Josefa, as queridas, se juntaram a Rita. O tio abriu a porta e, antes que pudesse falar, elas sentaram perto do fogão no quintal e começaram o terço. Rita, não. Ela ficou fuçando na loja. De baixo subia o fervor das águas e o murmúrio das rezas; de cima desciam os gemidos de mamãe; no meio das escadas, tio Angelo subia e descia com as mãos ocupadas e os olhos perdidos.
Outra contração partiu a gente em dois. Quis sair.
Mamãe lembrou do corpo de dom José Godinho, da barba áspera no peito dela, da mesa da cozinha.
Naquela noite ela tinha rido. Agora chorava.
Então a Madalena gritou para a porta:
— Angelo, vem cá!
Eu estiquei as pernas e empurrei a cabeça. Madalena a viu apontar, coberta de sangue.
— Respira… força… empurra… tá saindo!
Comadre Rita quis subir, mas comadre Ana se plantou na frente dela, e Josefa a fuzilou com o olhar. Tio Angelo correu escada acima e parou na porta do quarto. Não queria ver a irmã daquele jeito. Mas a Madalena não tinha tempo de esperar ninguém.
— Vem! Bota a mão na barriga e empurra quando eu mandar.
Angelo se aproximou, olhos no chão. Pôs as mãos na barriga da irmã.
Mamãe o sentiu tremer.
E naquele tremor voltou o dia em que o vovô Noé quis saber se era verdade que tio Angelo trabalhava para José Godinho. Tio Angelo negou sem olhar na cara de ninguém. A mamãe ficou espantada. Não disse nada. Mas debaixo da mesa deu um chute no irmão.
As contrações voltaram como ondas. Era eu tentando passar. Mas eu travo. Não passo. O cordão aperta minha garganta.
Madalena entendeu na hora. Enfiou os dedos como um gancho em volta do meu pescoço.
— Inês, empurra! Angelo, agora!
Tio Angelo afundou as mãos na barriga de mamãe.
Ela gritou com todo o ar que tinha. Eu engoli até a alma. Madalena me puxou.
Escorreguei para o mundo, estrangulado.
— É um menino!
Mamãe não falou. Chorou. Madalena cortou o cordão com uma tesourada só.
Eu… não respirava.
Ela me segurou com uma mão e me deu um tapa na bunda.
Eu me debatia, mexia braços e pernas, mas não respirava.
Ela me virou de cabeça para baixo, segurou pelos tornozelos e me deu outro tapa, mais forte.
Mamãe levantou a cabeça.
— O que ele tem? Morreu?
Então vomitei um líquido escuro, arrotei, meus pulmões queimaram e eu gritei desesperado.
O grito foi tão agudo que estourou o vidro do lampião.
O quarto ficou no escuro.
— Está vivo! Está vivo! E que voz que ele tem!
Mamãe não disse nada. Era um túmulo. Uma dor tinha terminado. Outra dor tinha começado.
Madalena me enrolou num pano aquecido.
Mamãe me olhou com os olhos vazios, o peito ainda ofegante, o terço escorregando da mão para o lençol.
— Como é que a gente vai chamar esse menino tão bonito? — disse a Madalena, ao me colocar no colo da mamãe.
— Não sei.
Mas eu respirava. Eu estava vivo.





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